Curitiba, 26 de março de 2019

O CAPELÃO DO DIABO

Junho 2005

DAWKINS, Richard. O capelão do diabo: ensaios escolhidos (Org. MENON, Latha). Traduzido por Rejane Rubino, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


Em outubro de 2001 foi indicada para leitura, nesta seção, a obra "O Relojoeiro Cego: A Teoria da Evolução contra o Desígnio Divino", de Richard Dawkins, ocasião em que uma lista de obras desse biólogo britânico nascido em Nairóbi e educado em Oxford foi igualmente indicada. Mais uma vez se indica para leitura uma obra desse prestigiado cientista, que acaba de ser vertida para o português, cujo conteúdo é uma “coletânea de ensaios escritos ao longo de 25 anos de carreira e reúne textos provocantes sobre assuntos extremamente atuais, como as heranças do darwinismo, ética na ciência, semelhanças e diferenças entre macacos e humanos, alimentos transgênicos, medicinas alternativas, pós-modernismo, religião, educação, determinismo genético e clonagem. 

Mas o livro também traz ensaios mais pessoais, como tributos a cientistas e o relato de uma peregrinação à África, continente natal do autor, em busca de heróis e ancestrais. Dawkins ainda resenha livros de Stephen Jay Gould (outro gigante da biologia evolucionista), e debate as idéias deste que era considerado seu maior adversário. Escrevendo com paixão e clareza, Richard Dawkins, um dos mais influentes divulgadores de ciência em atividade, não hesita em se posicionar perante temas polêmicos, sempre em busca da verdade científica. Como ele mesmo diz: ‘Embora eu reconheça a presença ocasional de lampejos de irritação (inteiramente justificáveis) na minha escrita, gosto de pensar que a maior parte dos textos é bem-humorada, talvez até mesmo divertida. A ciência é para mim uma fonte contínua de alegria, e espero que estas páginas transmitam isso’.”

Olavo de Carvalho, um impostor que se intitula filósofo, fez, a propósito da obra de Dawkins que agora é finalmente publicada no Brasil, algumas críticas levianas e destituídas de qualquer profundidade – como era de se esperar em se tratando de Olavo de Carvalho – mas que foram prontamente respondidas pelo engenheiro José Colucci Jr., conforme texto abaixo, que vale uma passada de olhos, pois nele, além da resposta a Olavo de Carvalho, pode-se ter uma idéia do pensamento de Dawkins, bem como de alguns conteúdos presentes na obra que se indica para leitura deste mês de junho de 2005:

O Fantasma de Darwin

José Colucci Jr. (*)

Criacionismo é a noção de que os seres vivos foram criados tal qual são pelo criador onipotente. Se o leitor pensa que essa é uma esquisitice americana que jamais chegará aos trópicos, é melhor pensar de novo. Graças aos esforços de religiosos fundamentalistas, o criacionismo começa a organizar-se no Brasil.

Uma vez que os criacionistas não fazem ciência, e não contam com o suporte de evidências, pesquisas e teorias minimamente plausíveis, sua obsessão é criticar a evolução e os evolucionistas, ou o que percebem como falhas nestes. Para essa tarefa contam com a ajuda ocasional de um ou outro ignorante em ciência que os defende na imprensa com fervor, digamos, religioso. Lendo O Globo descobri que, no Brasil, o filósofo Olavo de Carvalho se presta a esse papel.

Em duas colunas recentes (O Globo, 26/6/04 e 10/7/4), Olavo de Carvalho mistura lugares comuns criacionistas com a sua conhecida obsessão anticomunista. Olavo de Carvalho não mereceria atenção não fosse a atração que exerce sobre os que confundem retórica com erudição e falta de civilidade com coragem intelectual.

O construtor de bonecos de palha

No jornal O Globo de 26/6/04, Olavo de Carvalho implica com a afirmação de Richard Dawkins para a Veja (edição 1.859, de 23/6/04) de que "o mundo teria mais paz se todas as religiões fossem abolidas". Dawkins não disse isso. A frase que aparece na entrevista é "se pudéssemos abolir a religião ou convencer as pessoas de que suas religiões são ilusões, provavelmente não teríamos mais atentados suicidas".

O cabeçalho da entrevista diz que, para Dawkins, "os homens viveriam melhor sem crenças religiosas", mas a frase é do editor, não de Dawkins. Tomar liberdade com as palavras alheias, neste caso, é o menor pecado de Olavo de Carvalho. É possível que Dawkins até concordasse com a afirmação que Olavo de Carvalho lhe atribui. Constrangedora mesmo é a argumentação que o filósofo usa para refutar a suposta tese de Dawkins.

Olavo de Carvalho, de maneira típica, começa por desqualificar o oponente. Confessa que não sabe julgar o trabalho científico de Dawkins, mas não se exime de acusações levianas. Diz que a maior realização científica de Dawkins parece "ter sido inventar figuras computadorizadas e tomá-las como criaturas vivas". Essa não foi a maior realização científica de Dawkins – um cientista com currículo brilhante em sua especialidade, a etologia –, mas ainda assim uma contribuição pioneira no campo dos chamados algoritmos genéticos. Nada mau para quem se declarou, como o fez Dawkins, um amador na área de programação de computadores.

Dawkins criou os biomorfos – algoritmos que interagem com o ambiente e entre si, e dão origem a figuras que se parecem com seres vivos – para mostrar que a complexidade pode se originar da simplicidade. Os biomorfos ilustram um princípio do darwinismo: a evolução resulta da sobrevivência não-aleatória de variações aleatórias em estruturas replicadoras. O famoso evolucionista Ernst Mayr, que completou 100 anos neste mês de julho, resumiu a evolução como um processo de duas etapas: (1) variações produzidas; (2) variações selecionadas.

Para ajudá-lo na missão de desqualificar Dawkins, Olavo de Carvalho traz à cena Richard Milton, que ele admira por "ter reduzido a nada" as idéias do autor de O relojoeiro cego. Milton é jornalista e mantém um website chamado Alternative Science. Aceitar a autoridade de Milton em assuntos científicos é confessar de público ser ainda mais ignorante do que este em evolução, ou melhor, ainda mais ignorante do que as fontes de Milton – autores notoriamente comprometidos com o criacionismo bíblico. O livro de Milton citado por Olavo – Shattering the myths of Darwinism – está repleto de erros conceituais e já foi devidamente criticado pelo próprio Dawkins. Vamos ao que Olavo de Carvalho considera a análise demolidora de Milton.

Milton argumenta que as figuras computadorizadas de Dawkins, os biomorfos, não "evoluem" por si mesmos, mas possuem por trás de si um criador – o próprio Dawkins. Assim, os biomorfos seriam mais próximos da "criação especial" – um eufemismo para "Deus criou o mundo conforme diz a bíblia" – do que da evolução. Nessa análise Milton revela a sua incompreensão básica do experimento e da tecnologia de simulação digital.

Nos algoritmos usados por Dawkins para gerar os biomorfos, apresentados em O relojoeiro cego, o operador supre o parâmetro chamado função de aptidão (fitness function). A ação do operador representaria não o criador, mas as pressões ambientais. As variações continuam sendo aleatórias, como não querem ver os criacionistas. Dawkins manipulou a função de aptidão para favorecer figuras semelhantes a criaturas vivas e tornar a demonstração mais dramática. Isso não tira o mérito da análise, pois outros critérios poderiam ser adotados, alguns sem intervenção humana direta. Na natureza, o ambiente produz as condições que favorecem a sobrevivência de um bico mais longo, um pescoço mais comprido, um cérebro maior. Desde a simulação de Dawkins, algoritmos genéticos mais aperfeiçoados foram desenvolvidos e aplicados com sucesso a problemas que não se parecem em nada com criaturas vivas.

Milton usa a estratégia conhecida como "boneco de palha": constrói um simulacro ridículo das idéias do adversário – o boneco de palha – e o destrói para cantar vitória. O fato de Olavo de Carvalho impressionar-se com isso diz muito a respeito de sua capacidade de entender conceitos científicos. O resto do artigo, infelizmente, é ainda pior.

Filhos bastardos

Olavo de Carvalho diz que evolucionismo foi o pai do comunismo e do nazismo. Essa é uma estranha definição de paternidade. Aplicada com a liberalidade com que faz Olavo, ela geraria um sem número de filhos bastardos. Poderíamos dizer, usando argumentação igualmente falaciosa, que o cristianismo inspirou o nazismo. Os soldados da SS traziam na fivela do cinto a inscrição "Gott mit uns" (Deus está conosco). No Mein Kampf, Hitler diz ser cristão. Em 1933, ao assinar o tratado com o Vaticano, afirmou que "a instrução moral sem uma fundação religiosa é construída no ar". Em 1934, quando combatia bolcheviques ateístas, Hitler reafirmou a sua condição de católico.

A influência dominante no nazismo é o chamado darwinismo social – uma ideologia racista que Olavo de Carvalho confunde com o darwinismo propriamente dito. O que foi chamado de darwinismo social por volta dos anos 1930 já existia antes de Darwin, nas idéias de Herbert Spencer. Em Social Statics, de 1850, Spencer afirma que as condições sociais modernas favorecem a multiplicação dos menos aptos. Como muitos outros, Spencer, em sintonia com o cientificismo de seu tempo, não deixou escapar a oportunidade de tomar emprestada a respeitabilidade científica da evolução para a sua ética. Foi Spencer, e não Darwin, quem cunhou a expressão "sobrevivência dos mais aptos". Spencer propalava a liberdade individual e a não-intervenção do Estado na sociedade, para não aumentar artificialmente a chance de sobrevivência dos inaptos. O médico Francis Galton, primo de Charles Darwin, deu um passo além, propondo a esterilização dos menos aptos (eugenia negativa) e o estímulo à reprodução dos mais aptos (eugenia positiva).

O emaranhado histórico-político-social em que o darwinismo social foi envolvido a partir do fim do século 19 não é coisa para se descrever em dois parágrafos. Por ora, basta dizer que as idéias de Spencer e Darwin passaram pela América antes de chegar aos nazistas. A eugenia, concebida por Galton como uma especulação intelectual a partir da extrapolação indevida das idéias de Darwin, foi levada à prática nos EUA. Eugenistas americanos, notadamente os membros da Human Betterment Foundation e da American Eugenics Society, preocupavam-se com o crescente influxo ao país de raças tidas por eles como inferiores. Exerceram pressão para favorecer a imigração de tipos nórdicos – louros e louras de olhos azuis. Alguns estados americanos adotaram programas de esterilização compulsória dos menos aptos. Por isso mereceram o elogio de Hitler, que tomou o programa americano de eugenia como exemplo a ser seguido. Nas mãos dos carrascos nazistas a proposta de Galton chegou à expressão derradeira.

Darwinismo e comunismo

A relação entre darwinismo e comunismo é mais nebulosa. O ataque furioso do clero e do estabelecimento científico após a publicação de A origem das espécies fizeram de Charles Darwin um herói instantâneo da esquerda. No entanto, é falso o relato que diz que Karl Marx quis dedicar-lhe o Das Kapital, citado por muitos autores (Richard Dawkins, A devil’s chaplain, 2003).

Apesar da simpatia que lhe dedicavam, Marx e Engels foram críticos da teoria da evolução de Darwin. Para Engels, o darwinismo era apenas "uma primeira expressão, imperfeita e provisória, de um fato recém-descoberto". Mal sabia Engels o quanto estava errado. A evolução é uma das idéias mais duradouras da história da ciência. Disse Ernst Mayr que discussões recentes sobre a evolução – genes egoístas, seleção de grupo, equilíbrio pontual, descobertas da biologia molecular – não mudaram os conceitos básicos de Darwin.

Marx e Engels tinham a pretensão de fundar o socialismo científico, cujas proposições seriam testáveis, como as do darwinismo. Disse Engels: "Assim como Darwin descobriu as leis da evolução na natureza orgânica, Marx descobriu as leis da evolução na história humana". Não é possível estabelecer conexão mais substanciada entre darwinismo e marxismo do que essa, e a única conclusão a que se chega através dela é que Marx e Engels admiravam Darwin. Só.

A afirmação de Olavo de Carvalho de que o evolucionismo foi o pai do comunismo é um lugar-comum dos fundamentalistas cristãos americanos, e não se sustenta. Uma teoria científica só é valida para condições bem especificadas. Não é possível transplantá-la para condições diversas somente pelo fascínio intelectual que exerce. E poucas descobertas científicas fascinaram tanto os homens quanto a evolução. Nota: evolução não é, estritamente, a mesma coisa que darwinismo. Uso os termos de maneira intercambiável para simplificar.

O problema comum dos que tentaram aplicar o darwinismo a outras esferas – como Spencer, Galton, Marx, Engels e Mao – é a noção distorcida do significado de progresso no contexto evolutivo. A evolução natural postula a sobrevivência diferencial dos organismos mais bem adaptados ao ambiente; as teorias sociais inspiradas por ela assumem que esses organismos são também ontologicamente superiores. Assim, no modelo historicista de Marx, a sociedade humana evoluirá da sociedade feudal à socialista, passando pelo capitalismo. O novo homem comunista surgirá – uma criatura de infinita bondade, sempre pronta a trabalhar por seus camaradas. Como se vê, o poder preditivo do darwinismo revelou-se um tanto superior ao do marxismo.

De qualquer forma, a afirmação de que o darwinismo é o pai do comunismo é – estou procurando um termo educado – ridícula. Dizer, como diz Olavo de Carvalho, que a leitura de A origem das espécies inspirou a vocação revolucionária de Hitler e Stalin é como dizer que a leitura da bíblia despertou a vocação racista do Ku Klux Klan.

Darwin sabia quem seriam os seus inimigos – a Igreja, o status-quo da Inglaterra vitoriana, os criacionistas, seus próprios parentes – mas jamais poderia adivinhar quem seriam os seus amigos, principalmente os que ganhou após a morte. E estes foram muitos, alguns bastante inconvenientes.

O darwinismo foi apropriado para explicar uma gama imensa de posições políticas e doutrinas sociais, de esquerda e direita. Defensores do individualismo, socialismo, militarismo, pacifismo, economia de mercado, intervenção do estado na economia, religião e agnosticismo extraíram de Darwin, nem sempre de forma pertinente, a justificativa de que precisavam para a sua ideologia.

Darwinismo e religião

Era difícil ser ateísta antes de Darwin, ainda que Hume o tivesse sido. O argumento teleológico de Paley, de que a perfeição do universo natural pressupõe a existência de um criador, é elegante e difícil de refutar sem as evidências da evolução. A teoria da evolução de Darwin-Wallace, no entanto, não deixou saída para os religiosos. A menos que se aceite uma forma não-darwiniana de teologia da criação, o homem evoluiu de acordo com os mecanismos descritos por Darwin.

Isso não quer dizer que darwinismo seja sinônimo de ateísmo. Religiões majoritárias, como as correntes liberais do protestantismo, o catolicismo, e o judaísmo não-ortodoxo não o julgam incompatível com a fé. Alguns evolucionistas famosos foram religiosos. Dobzhansky se ajoelhava e rezava à Deus todas as noites. No entanto, essa postura exige uma interpretação mais alegórica da bíblia do que a usual entre os cristãos, ou uma extraordinária capacidade de conviver com a contradição. O fantasma de Darwin ainda assombra muita gente.

Não sei onde Olavo de Carvalho achou as estatísticas para os "milhares" de cientistas e professores anti-evolucionistas demitidos pela "inquisição darwiniana", mas as desconheço. Aparentemente, também a desconhecem as dezenas de fontes criacionistas que pesquisei na internet. Isso é estranho, pois os criacionistas não são dados a sofrer em silêncio. A verdade é que a maioria dos criacionistas não chega a graduar-se em ciências naturais. Um geólogo que pense que o universo foi criado em sete dias ou uma bióloga que acredite que Deus fez o homem do barro não têm muito a acrescentar ao único livro de sua bibliografia.

Em notável contorcionismo verbal, Olavo de Carvalho tenta demonstrar que o darwinismo contribuiu para o extermínio das vítimas do nazismo e do comunismo. Diz ainda que o ideal anti-religioso de Dawkins foi posto em prática por ambos, causando a morte de padres, rabinos, pastores e devotos. Fica difícil conter a indignação. Fugirei de analogias fáceis e deixarei o próprio Dawkins defender-se:

"Como cientista acadêmico, sou um darwinista apaixonado, e acredito que a seleção natural é, se não a única força por detrás da evolução, certamente a única força capaz de produzir a ilusão de propósito que emociona os que contemplam a natureza. Mas ao mesmo tempo em que defendo o darwinismo como cientista, sou ardentemente antidarwinista quando se trata de política ou da condução dos negócios humanos." (Richard Dawkins, A devil’s chaplain, 2003 – tradução minha)

Isto é, Dawkins é exatamente o contrário do que Olavo de Carvalho quer que ele seja, e entende a diferença entre a ciência do darwinismo e a pseudociência do darwinismo social. Diz Dawkins que, dentre todas as criaturas, o homem, e só o homem, pode liberar-se da ditadura dos genes egoístas. Ser ateísta ou anti-religioso não significa ser imoral. Como disse Arthur Clarke, é possível que a maior tragédia da história humana tenha sido o seqüestro da moralidade pela religião.

O colunista conclui dizendo que "a cara-de-pau desse sr. Dawkins chega a ser admirável". Errado. Cara-de-pau tem o Sr. Carvalho, um filósofo que cita pseudocientistas, critica o que não leu e não entende o que leu.

A fuinha mutante

A essa altura o leitor já está cansado. Eu também. Mas não o Olavo de Carvalho, que insistiu na crítica a Dawkins, ao que parece a sua mais recente obsessão. No Globo de 10/7/04, Olavo de Carvalho confessa que mentiu aos leitores. Diz que podia, sim, julgar a obra científica de Richard Dawkins. O que vem a seguir desmente essa afirmação.

Olavo de Carvalho argumenta que uma das simulações descrita em O relojoeiro cego é exemplo do que ele chama de "paralaxe cognitiva", que consiste no erro de assumir que são de fato separados elementos que foram distanciados apenas por facilidade de método. Cometeria esse erro o cientista que, por exemplo, planejasse um experimento sem perceber que o resultado final já estava embutido em sua preparação, e não poderia ser outro senão aquele. Será que Dawkins faz isso mesmo? Vejamos.

Como bom inglês, Dawkins usa uma frase do Hamlet – "Methinks it is like a weasel" (me parece uma fuinha) – para mostrar o poder da seleção cumulativa. O conceito-chave aqui é seleção cumulativa. Se a seleção natural operasse ao acaso, e cada mutação partisse do zero, como um novo lance de dados, a evolução seria impossível na escala de tempo do universo. Mas a seleção opera cumulativamente, e cada nova mutação se dá sobre material selecionado a partir da mutação anterior.

Na simulação, Dawkins parte de uma seqüência de 28 letras e espaços escolhidos aleatoriamente dentre os caracteres do alfabeto ocidental. A seguir o computador é programado para introduzir pequenas mutações aleatórias e selecionar a frase "mutante" que mais se aproxime, ainda que minimamente, da frase original de Shakespeare. Os critérios de semelhança programados por Dawkins baseiam-se na distância relativa entre as letras e o tamanho das palavras. O processo é repetido indefinidamente até que as "mutações" reproduzam a frase original.

A simulação, como dissemos, não pretende demonstrar como a evolução funciona, e sim o poder da seleção cumulativa. Deixemos o próprio Dawkins explicar:

"... apesar de útil para explicar a diferença entre seleção de passo único e a seleção cumulativa, o modelo é ilusório sob vários aspectos. Um deles é que, a cada nova "linhagem" seletiva, a "prole" de frases mutantes foi julgada por sua semelhança com um alvo ideal e distante: a frase "Methinks it is like a weasel". A vida não é assim. A evolução não tem objetivos de longo prazo. Não há alvo distante ou perfeição final que sirvam como critério para a seleção, a despeito do apego que a vaidade humana tem pela noção absurda de que a nossa espécie é o alvo final da evolução. Na vida real, o critério para a seleção é sempre de curto prazo: a sobrevivência pura e simples ou, mais comumente, a reprodução." (Richard Dawkins, The blind watchmaker, 1986 – tradução minha).

Reincidente, Olavo de Carvalho traz à cena Werner Gitt. Ah!, a companhia com que temos de privar quando nos afastamos do caminho da racionalidade. O homem que tanto impressionou Olavo de Carvalho é o autor de Deus usou a evolução?, Se os animais falassem, No princípio era a informação e outros livros criacionistas. Gitt não entendeu Dawkins, mas o pior é que Olavo de Carvalho sequer entendeu Gitt, pois diz em sua coluna que "as letras e espaços da frase escolhida por Dawkins são precisamente os sinais necessários para escrevê-la". Não são. São todos os caracteres do alfabeto mais o espaço. Nem Gitt cometeu esse erro. Os caracteres do alfabeto poderiam ser comparados (com muita licença poética) aos genes que codificam a informação no genoma. Ou talvez às bases. Toda a informação é armazenada no genoma com apenas quatro "letras" químicas. A seleção natural sempre opera a partir de informação preexistente.

Gitt diz que o propósito da simulação de Dawkins é "mostrar que informação verdadeira pode ser gerada por processos naturais de mutação e seleção, sem a ajuda da inteligência". Quem leu o original de Dawkins, ou mesmo o trecho acima, sabe que esse nunca foi o propósito da demonstração. Novamente a falácia do boneco de palha. Como chamaríamos então a falácia de Olavo de Carvalho?

Na ânsia de criticar Dawkins, Olavo de Carvalho não o leu com atenção, se é que o leu. E termina a crítica com uma boutade. Diz que Dawkins "é a entropia em forma humana" e por isso tem tantos admiradores, pois "eles se multiplicam entropicamente". Nada contra o uso da ironia, mas, como disse Nabokov, quando esfaimada pela ignorância a ironia se engasga com o próprio rabo.

Dawkins

De todas as teorias científicas, a que atrai o maior número de oponentes é a evolução; de todos os evolucionistas, o que mais atrai a ira dos criacionistas é Richard Dawkins. Mas Dawkins é uma figura difícil de demonizar; goza de prestígio tanto entre cientistas quanto entre o público leigo, é culto e inteligente, é dono de uma prosa concisa e elegante. Dawkins é odiado pelos pseudocientistas pela clareza com que combate os seus argumentos irracionais; pelos fundamentalistas pela defesa eficiente da evolução contra a interpretação literal do Gênese; por muitos religiosos por seu ateísmo assumido sem desculpas.

Olavo de Carvalho diz estar reservando para Dawkins um capítulo inteiro de seu estudo sobre a paralaxe cognitiva. Olavo de Carvalho deveria aprender ciência e poupar-se do vexame. Não que Dawkins esteja acima da crítica. A ciência que ajudou a fundar, a memética, embora interessante e promissora, ainda está longe de ter a sólida fundação empírica da evolução natural. Dawkins rejeita a seleção de grupo, que Mayr aceita, embora ambos admitam que o indivíduo seja o alvo principal da seleção. Algumas opiniões de Dawkins sobre assuntos sociais são, no mínimo, polêmicas. Criticar Dawkins, porém, requer mais do que um Olavo.

(*) Engenheiro, vive em Boston (EUA); e-mail (j.colucci@rcn.com)

Abaixo a íntegra da entrevista dada por Dawkins ao josnalista Jerônimo Teixeira da Revista Veja, publicada na edição nº 1.907, ano 38, nº 22, de 01 de junho de 2005:

Entrevista: Richard Dawkins

O devoto de Darwin

O zoólogo britânico diz que a teoria da evolução contém uma verdade universal e que há beleza no modo como a ciência explica a vida

No início do ano, o zoólogo britânico Richard Dawkins, de 64 anos, visitou o arquipélago equatoriano de Galápagos, no Oceano Pacífico. Estava seguindo os passos da excursão científica realizada em 1835 por seu herói intelectual – o naturalista inglês Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, obra que se tornou a base da biologia moderna ao lançar, em 1859, a idéia de que a vida evoluía por meio da seleção natural. Autor de verdadeiros clássicos da divulgação científica como O Gene Egoísta e O Relojoeiro Cego, Dawkins é – ao lado do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que morreu de câncer em 2002 – um dos maiores propagandistas do darwinismo. Seu novo livro, O Capelão do Diabo, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é uma coletânea de ensaios que dá uma boa amostra de sua paixão pela ciência – e de sua oposição à religião, tema de uma das seções mais incendiárias do livro. Por telefone, de seu escritório na Universidade de Oxford, onde leciona, o zoólogo concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja –Passados quase 150 anos desde a publicação de A Origem das Espécies, qual a força do pensamento de Charles Darwin?

Dawkins – A conquista de Darwin é universal e atemporal. Os processos evolutivos descritos por ele devem acontecer em qualquer lugar do universo onde porventura exista vida. Em um dos ensaios de O Capelão do Diabo, afirmo que um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx – a quem ele já foi comparado –, cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial, "terreno". Quando releio Darwin, sempre me surpreendo com quão moderno ele soa. Considerando que suas concepções de genética estavam erradas, é impressionante como ele conseguiu acertar em todo o resto. Com um princípio básico, a seleção natural, o darwinismo é capaz de explicar uma enorme variedade de fenômenos complexos. É uma teoria muito elegante.

Veja –Pode-se dizer que o darwinismo é hoje uma teoria bem compreendida e assimilada?

Dawkins – Infelizmente, não. As pessoas pensam que o darwinismo é uma teoria do acaso, quando é na verdade a teoria que nos permite escapar ao acaso na biologia. Darwin não diz que organismos tão formidavelmente complexos quanto aqueles que vemos sobre a Terra surgiram de maneira fortuita. A seleção natural não opera cegamente: de geração em geração, ela preserva os genes que trazem vantagens e elimina aqueles que trazem desvantagens aos organismos. É assim, dessa forma gradual, que a evolução acontece. Muitos argumentam que a beleza e a complexidade da vida só podem significar que por trás dela há um projeto deliberado, um "desenho inteligente" feito por Deus. Não é assim: a alternativa para o acaso não é um "projeto", mas a seleção natural.

Veja –Hoje há um embate entre evolucionistas como o senhor e os criacionistas. Por que o senhor considera inaceitável a idéia de que a vida foi criada por Deus?

Dawkins – Postular a existência de um Deus que criou a vida é o tipo de idéia que só complica as coisas. É um raciocínio contraprodutivo, pois traz a necessidade adicional de explicar a existência desse ser. A partir de elementos muito simples, a seleção natural mostra como e por que a natureza abriga a imensa complexidade, a imensa variedade dos seres vivos existentes. Esse é o poder desse conceito. Com ou sem um ser divino no início de tudo, a seleção natural ainda teria a mesma capacidade de explicar o funcionamento da natureza.

Veja –Por que o senhor chama a religião de "vírus da mente"?

Dawkins – Isso está relacionado à idéia de meme, que lancei em 1976 no meu livro O Gene Egoísta. Cunhei o termo – que já foi incorporado pelo dicionário Oxford – em analogia com gene. Assim como os genes são unidades auto-replicadoras que passam de uma geração a outra, também os memes seriam capazes de replicar a si mesmos e passar de uma mente para a outra. Esse conceito é útil se explica por que uma idéia em particular se disseminou. Um meme pode ser uma idéia científica, uma melodia, um poema, e nesse caso ele se dissemina por seus méritos. A religião seria um memeplexo, isto é, um conjunto de memes que costumam florescer na presença uns dos outros, tal como acontece com certos complexos de genes. Mas, ao contrário dos bons memes, a religião não se dissemina porque é útil. Ela salta de uma mente para outra como uma infecção, ou como um vírus de computador, que só se propaga porque traz embutida uma instrução codificada: "Espalhe-me".

Veja –O senhor já observou que a ciência pode ser "religiosa, no sentido não sobrenatural da palavra". Poderia explicar essa expressão?

Dawkins – Eu não estava falando da religião que acredita em um Deus que ouve nossas preces. Einstein considerava-se religioso, embora não acreditasse em nenhum plano sobrenatural. Ele só usava a palavra "religião" para definir seu sentimento de espanto e mistério diante do universo. Eu empreguei a palavra no mesmo sentido em um ensaio, mas isso talvez não seja recomendável. Há muita gente ansiosa por deturpar formulações como essa. Muitos gostariam de trazer pessoas como Einstein para o bloco dos crentes, ao qual ele certamente não pertencia.

Veja –Um cientista não pode ser religioso?

Dawkins – Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Tenho dificuldade em simpatizar com isso. Se eu mantivesse crenças contraditórias, tentaria refletir sobre o tema até me decidir por um lado ou outro.

Veja –O senhor afirma que evolucionistas não deveriam participar de debates públicos com partidários do criacionismo. Por quê?

Dawkins – Essa é uma proposta minha e do paleontologista americano Stephen Jay Gould. Pretendíamos escrever um texto conjunto sobre o tema, mas Gould morreu antes de revisar o esboço que apresentei a ele. Os criacionistas buscam esse debate para conquistar um verniz de respeitabilidade intelectual. Eles não têm esperança de "vencer" a discussão: querem apenas ser reconhecidos no mesmo palanque ocupado por um cientista de verdade. Por isso devemos evitar esses encontros.

Veja –Essa recusa não passaria a idéia de que os darwinistas são arrogantes ou temem o debate?

Dawkins – Talvez sim. É muito difícil lidar com esse problema. Gould e eu podemos estar errados, mas essa é a posição que tomamos, e, no momento, eu ainda a sustento. Talvez, para evitar o perigo de conferir status demais ao criacionismo, o ideal seria que apenas estudantes de pós-graduação ou mesmo de graduação participassem desse tipo de debate. Eles estariam tão capacitados quanto eu para refutar os criacionistas, cuja argumentação não é tão refinada assim.

Veja –A espécie humana não teria uma necessidade natural de religião?

Dawkins – Não creio que seja uma necessidade universal. Se a demanda é por reverência e espanto diante da vida e do universo, a ciência pode satisfazê-la. Se a demanda é por conforto diante da morte, então talvez a ciência não possa satisfazê-la. Seja como for, reconhecer que existam necessidades pessoais ou coletivas atendidas pela religião não equivale a dizer, de maneira nenhuma, que exista verdade nas concepções religiosas.

Veja –O senhor acredita que algum dia a humanidade possa viver sem religião?

Dawkins – Não por um longo tempo. E eu jamais proporia qualquer forma de proibição à atividade religiosa. A resposta está na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais difícil será para a religião sobreviver.

Veja –Há beleza na ciência?

Dawkins – A verdade é bela em si mesma. E existe uma elegância própria do conhecimento. Einstein comovia-se com a beleza das equações. Além disso, os fenômenos que biólogos ou astrônomos estudam – árvores, pássaros, estrelas – são belos em si mesmos. Lidar com eles é lidar com o belo.

Veja –Quando se discute bioética, a questão da clonagem humana é sempre levantada. Seria mesmo o problema mais importante hoje?

Dawkins – Não, não é um problema tão importante. As pessoas se opõem a essa idéia por razões variadas. Todas as tecnologias reprodutivas envolvem a morte de embriões, e há um preconceito religioso contra isso. Há quem reaja com nojo diante da idéia de clonagem humana. Imaginam, digamos, centenas de Saddam Hussein marchando no mesmo passo, o que de fato é uma perspectiva aterrorizante. Mas ela está calcada em idéias falsas como, por exemplo, a de que um clone não teria personalidade individual. Geneticamente, gêmeos idênticos são clones um do outro – e têm, como bem sabemos, personalidades independentes. Há muita mistificação sobre esse tema.

Veja –O senhor acredita que esse tipo de clonagem vá ocorrer?

Dawkins – Não com a tecnologia que temos hoje, que produziu a ovelha Dolly, um único clone, ao custo de muitos embriões perdidos. De qualquer forma, a criação de um clone humano nunca foi proposta seriamente. Propõe-se, isso sim, a clonagem de células-tronco, para propósitos médicos. As únicas objeções a isso, repito, têm motivação religiosa, e são estúpidas.

Veja –Devem-se impor limites ao conhecimento científico?

Dawkins – Questões sobre o que é certo ou errado não comportam verdades absolutas. São matéria de julgamento e ponderação. A ciência não pode decidir sobre esses problemas – pode apenas demonstrar incoerências nas posições que tomamos. A decisão, por exemplo, de proibir ou não o desenvolvimento de armas biológicas não é um problema científico. É algo que tem de ser discutido pela sociedade em geral – políticos, juristas, cidadãos.

Veja –O senhor já demonstrou entusiasmo pela idéia de que um dia talvez seja possível reconstituir geneticamente o elo perdido entre o ser humano e os outros primatas. Como seria isso?

Dawkins – O geneticista sul-africano Sydney Brenner propôs que um dia talvez possamos, a partir do genoma do homem e do chimpanzé, fazer uma projeção retrospectiva até nossos antepassados. Uma espécie de "média" entre os dois genomas seria próxima do ancestral comum de homens e chimpanzés, que viveu em torno de 6 milhões de anos atrás. Com esse código genético em mãos, talvez a tecnologia embriológica do futuro seja capaz de criar esse ser vivo, um espécime do nosso antepassado comum, o elo perdido. Teríamos vivo, respirando na nossa frente, um ser que é intermediário entre o homem e outra espécie animal. Um experimento desse tipo seria um duro golpe contra a arrogância humana. Isso poderia mudar o antropocentrismo da nossa ética e da nossa moral. Hoje, todos os intermediários estão extintos, o que fomenta a idéia falsa de que ocupamos um espaço à parte na natureza. A biologia atual não vê o homem como o pináculo da evolução. O darwinismo não faz valorações desse tipo. Quando um darwinista fala em um animal "melhor" quer dizer apenas melhor em reproduzir-se, em passar adiante sua carga de genes.

Veja –O senhor tem escrito muitos artigos criticando o presidente americano George W. Bush. Faz isso como cientista ou como cidadão?

Dawkins – Existem cientistas cujo interesse em política é tão dominante que acaba colorindo suas pesquisas, inclusive as mais técnicas. Creio que esse tipo de mistura não é aconselhável. Digamos que me pronuncio como um cidadão com um nível elevado de conhecimento científico. Bush não tem nenhum interesse em ciência, a não ser na medida em que ela possa ser usada para fins militares, e é uma ameaça ao meio ambiente, pela recusa em assinar o Protocolo de Kioto. O mundo seria um lugar melhor sem ele.

Veja –O senhor recentemente esteve em Galápagos, onde Darwin fez muitas observações que embasaram sua teoria. Ainda é um local privilegiado para observar a evolução?

Dawkins – Sim. As ilhas são muito novas, têm só 3 ou 4 milhões de anos, e nesse tempo limitado houve nelas uma diversificação de espécies fabulosa. É impressionante como os animais lá são pouco ariscos. Talvez porque tenha havido muito pouca predação, você pode caminhar até muito próximo deles. E eles não fogem. É como estar em um imenso zoológico a céu aberto, sem jaulas. Muito pouco mudou desde a época em que o jovem Darwin esteve lá, em 1835, perguntando-se exatamente sobre o "mistério dos mistérios" que era o surgimento de novas espécies. Embora o triunfo de Darwin pudesse ter sido gestado em qualquer lugar do universo, ele foi fruto de uma viagem de cinco anos ao redor do planeta, na qual Galápagos foi uma das escalas mais importantes.

Por fim, numa demonstração de que pode e deve haver lucidez na atividade de filosofar, vai abaixo a íntegra da entrevista que o filósofo francês Michel Onfray deu ao jornalista André Fontenelle da Revista Veja, publicada na edição nº 1.906, ano 38, nº 21, de 25 de maio de 2005, sendo que sua obra mais recente, “Tratado de Ateologia”, ainda não traduzida para o português, encontra-se atualmente no topo da lista dos livros mais vendidos em seu país de origem:

Entrevista: Michel Onfray

"DEUS ESTÁ NU"

O filósofo francês mais lido da atualidade diz que as três grandes religiões monoteístas vendem ilusões e devem ser desmascaradas como o rei da fábula de Andersen

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos". Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de "projeto hedonista ético", em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja –Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?

Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

Veja –A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?

Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.

Veja –Seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?

Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.

Veja –A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?

Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças.

Veja –O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?

Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.

Veja –Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?

Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).

Veja –O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?

Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

Veja –Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?

Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha.

Veja –Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.

Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

Veja –Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?

Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

Veja –Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?

Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro "papa catódico", o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.

Veja –O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?

Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

Veja –Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?

Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

Veja –Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?

Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa.

Veja –O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?

Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.

Veja –Quando e como o senhor se tornou ateu?

Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.

Veja –Do que se trata, exatamente, a "universidade popular" que o senhor criou?

Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.

Veja –Que tipo de público freqüenta seus cursos?

Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.

Veja –A idéia está dando certo?

Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.