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Viva o Partido Pirata!!!

9 de janeiro de 2010 1:39 pm

Partido Pirata contra as patentes do capitalismo

Por Gabriela Moncau
Criado em 2006 na Suécia e com atuação em mais de 30 países, inclusive no Brasil, a organização partidária defende a liberação dos direitos autorais e adoção de software livre na Internet.
A sociedade da informação enfrenta uma forte contradição, que é naturalizada por muitos. Por um lado, com a expansão das redes, há possibilidades que nunca existiram, como, por exemplo, o compartilhamento de cultura, conhecimento e bens imateriais. Há no mundo aproximadamente 1 bilhão de pessoas com acesso regular a computadores pessoais. Ou seja, conectadas em uma rede mundial por máquinas de replicação em alta velocidade que reproduzem fielmente, sem custo, qualquer arquivo. Por outro, há o enrijecimento das ações e legislações a favor da propriedade intelectual. Uma esquizofrenia que provoca um dos maiores embates relacionados à informação, além de representar um desafio para os que defendem a democratização da cultura, do conhecimento e dos meios de comunicação.Com o interesse de manter a exclusividade de exploração comercial sobre os produtos, a indústria cultural elabora leis que visam conter a cópia e o compartilhamento de conteúdos. Sérgio Amadeu, sociólogo e professor da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, estudioso da questão da exclusão digital e do software livre, explica que as práticas de colaboração são intrínsecas à sociedade e surgiram muito antes da internet. “As pessoas não acham que estão fazendo nada errado. Esse costume sempre existiu. Antigamente, por exemplo, você pegava um vinil, colocava num aparelho de som 3 em 1, escolhia 3 ou 4 músicas, tocava o vinil, montava uma fita, levava pra uma festinha, dava pro seu amigo que copiava”, assinala.Com o advento das redes, os controladores da indústria cultural desenvolveram diferentes estratégias de repressão. A primeira delas foi criar casos exemplares: identificavam uma pessoa que havia desenvolvido algum programa de compartilhamento ou que copiava muitos conteúdos e abriam grandes processos contra ela. Cobravam multas, ameaçavam de prisão e davam grande publicidade ao caso. As pessoas, no entanto, deram-se conta que a chance de ser identificado era irrisória. Colocaram em prática, então, processos contra um grande número de pessoas. No entanto, a popularização e o barateamento da banda larga fizeram com que a estratégia tivesse alcance limitado.

Terceira onda repressiva

Vivemos agora a tentativa de implementação da terceira onda repressiva no âmbito digital, conhecida como “resposta gradual”, ou “three strikes”, que apesar de ainda não ter sido posta em prática, está tramitando em diversos parlamentos. Trata-se de transferir a responsabilidade do judiciário para os provedores de acesso à internet. Cria-se uma regulação do provedor na qual ele é obrigado a notificar a pessoa que está baixando conteúdo ilegal uma, duas vezes. Na terceira, corta-se definitivamente o acesso à internet. Estudiosos do tema e defensores da democratização do conhecimento recorrem à Constituição e afirmam que tal penalização é ilegal, já que impedir o acesso à internet significa restringir a liberdade de expressão, o acesso à informação, cultura e serviços governamentais.
De acordo com Pablo Ortellado, integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPopai) e um dos criadores do Centro de Mídia Independente (CMI), as empresas que dominam o monopólio da cultura têm consciência que é impossível impedir a cópia do conteúdo dos produtos. “Eles sabem que será preciso reorganizar completamente a indústria pra adaptarem-se ao novo cenário tecnológico”. Segundo o professor, tal cenário já está desenhado. “No campo da música, por exemplo, seria a venda de música a preço muito baixo para competir com música barata; regulação de música por meio digital, com streaming, publicidade; ou então desmercantilizar a música digital e lucrar nas performances e shows. Obviamente, vão tentar compensar essas perdas explorando os artistas nos shows, por exemplo, ou a privacidade dos consumidores” afirma. Para Ortellado, a razão pela qual as indústrias ainda não transformaram seu modelo de negócio é que isso representaria um complexo reposicionamento do mercado. A posição dominante das quatro multinacionais da indústria cultural hoje – Sony, Warner, EMI e Universal – seria ameaçada por novos atores.

Defesa das licenças livres
Direitos autorais dão às pessoas a exclusividade de exploração comercial, o que permite controlar quem tem acesso ao produto por meio da barreira de preço. Só que se a pessoa tem o direito de fazer essa exclusão, ela pode também fazer a autorização. O software livre surgiu a partir dessa idéia de inverter a lógica da exclusão dos direitos autorais por meio das licenças livres. Nos anos 1980, o programador americano Richard Stallman fez essa inversão e criou o conceito de software livre, impedindo que fosse usado segundo a lógica tradicional competitiva. Nos anos 1990, várias iniciativas pegaram esse espírito do software livre e traduziram pra outros âmbitos de expressão da cultura.
Simultaneamente, com o advento da tecnologia de reprodução e a possibilidade de cópias digitais em massa e sem custo, houve a ascensão de práticas espalhadas na sociedade de cópia e colaboração. Uma delas são as redes “pear-to-pear” (P2P) ou par-a-par, uma arquitetura de rede caracterizada pela descentralização do sistema, onde cada computador realiza, no compartilhamento de arquivos, tanto a função de servidor quanto a de cliente. Ou seja, os arquivos são enviados de computador para computador diretamente.

Lei dos direitos autorais

Entre os movimentos que surgiram com a ascensão do software livre e das práticas de compartilhamento, organizou-se um partido político internacional, tendo como principais bandeiras a reforma da lei dos direitos autorais, a extinção do sistema de patentes e a defesa dos direitos civis. O Partido Pirata surgiu na Suécia em 2006, como uma reação às alternativas de impor controle sobre a Internet, por razões de segurança e defesa da propriedade intelectual.
Gabriela Moncau é estudante de jornalismo.

Para ler a reportagem completa e outras matérias confira a edição de janeiro da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

Visite o sítio do Partido Pirata do Brasil.

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Querem nos transformar em uma nova Cuba

1:04 pm
Che Guevara

Che Guevara

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Che Dilma Boquete

O que pretende o Programa Nacional de Direitos Humanos?

Mudar regras de reintegração de posse em invasões agrárias

Desenvolver mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União

Inclusão do item direitos humanos” nos relatórios ambientais

Mudar a Constituição para outorga e renovação de concessão de rádio e televisão

Instituir critérios editoriais para criar um ranking de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de direitos humanos, assim como dos que cometem violações

Regulamenta profissão de prostituta, com direitos trabalhistas

Apoia união civil entre pessoas do mesmo sexo, o direito de adoção por casais homoafetivos e inclui nos sistemas de informação do serviço público todas as configurações familiares constituídas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais

Proíbe homenagens em locais públicos a pessoas que tenham praticado crimes de lesa-humanidade e muda a denominação de ruas e avenidas

Regulamentar a taxação do imposto sobre grandes fortunas previsto na Constituição

Mensurar o impacto da biotecnologia nos alimentos, da nanotecnologia, dos poluentes e dos metais pesados em relação aos direitos humanos

Incorporação dos sindicatos de trabalhadores e centrais sindicais nos processos de licenciamento ambiental de empresas

Prevalência dos direitos humanos no programa orçamentário e autorização de gastos públicos

Instituir código de conduta em direitos humanos como critério para a contratação e financiamento de empresas do poder público

Estende aos quilombolas direitos iguais aos dos indígenas no tocante à posse de territórios

Destinação de edifícios vazios ou subutilizados da União à população de baixa renda

Nas ações de saúde pública, apoio diferenciado a idosos, indígenas, negros e quilombolas, moradores de rua, lésbicas, gays, travestis, transexuais, crianças e adolescentes, mulheres, pescadores artesanais e população de baixa renda

Apoia a implementação de espaços essenciais para higiene pessoal e centros de referência para moradores de rua

Muda a Constituição para considerar as polícias militares não mais como forças auxiliares do Exército

Tornar obrigatória a filmagem dos interrogatórios durante as investigações policiais

Apoiar processos judiciais privados para responsabilização de agentes da repressão do período da ditadura militar

Igreja e até ministro de Lula reagem ao Programa de Direitos Humanos

Texto que avança em múltiplas áreas, incluindo controle da comunicação, também é criticado por associações de mídia

Vannildo Mendes

O detalhamento das 75 páginas do Programa Nacional de Direitos Humanos - amplo a ponto de abarcar propostas que vão do controle social dos meios de comunicação ao marco regulatório dos planos de saúde, passando por taxação das grandes fortunas, mudança na desocupação de áreas invadidas e inclusão de sindicatos nos licenciamentos ambientais - desencadeou uma onda de protestos. Desta vez, não foram só os militares que reagiram ao decreto baixado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 21 de dezembro, mas também representantes da sociedade civil, do empresariado, da Igreja Católica e até de dentro do governo.

Stephanes critica programa de direitos humanos do governo
Entidades jornalísticas criticam Programa de Direitos Humanos

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou que o programa “aumentará a insegurança jurídica no campo”, além de “fortalecer organizações radicais”, como o Movimento dos Sem-Terra (MST). Ele endossou as críticas da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), contrária ao item do decreto que prevê a audiência de uma câmara de conciliação antes da reintegração de posse de uma propriedade invadida.

“O projeto mostra um certo preconceito com a agricultura comercial”, protestou o ministro, em entrevista coletiva sobre o resultado da balança comercial do agronegócio de 2009. Stephanes garantiu que o seu ministério foi ignorado em todas as discussões, não só sobre desocupação de terras, mas também sobre trabalho no campo e agricultura comercial.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, rebateu o colega. “Até onde estou informado, todos os ministérios participaram. O plano busca criar um ambiente de paz no meio rural”, disse. Para Cassel, os que reclamam do decreto, “são os que trabalham para um processo de criminalização dos movimentos sociais”.

MÍDIA

Entre as dezenas de itens, o decreto sugere o controle social das atividades econômicas, de instituições públicas e privadas e da mídia. Cita até mudanças na Constituição para rever o sistema de outorga e renovação de concessões de rádio e TV. Propõe, ainda, fixar critérios de acompanhamento editorial dos veículos de comunicação e ranking das publicações comprometidas com os direitos humanos ou que cometem violações.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) reagiram em nota conjunta (abaixo). “Não é democrática e sim flagrantemente inconstitucional a ideia de instâncias e mecanismos de controle da informação. A liberdade de expressão é um direito de todos os cidadãos e não deve ser tutelada por comissões governamentais”, diz. “As associações representativas dos meios de comunicação esperam que as restrições à liberdade de expressão contidas no decreto sejam extintas, em benefício da democracia e de toda a sociedade.”

Até a Igreja Católica, com a qual o governo petista mantém vínculos estreitos nos movimentos pastorais de base, protestou. Nesse caso, contra outro item polêmico do Programa de Direitos Humanos: a proibição de símbolos religiosos em locais públicos. “Daqui a pouco vamos ter de demolir a estátua do Cristo Redentor”, declarou o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Dimas Lara Resende. Para ele, há intolerância religiosa em programa que deveria promover a livre manifestação.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, enviou o decreto para análise da Comissão Nacional de Direitos Humanos da entidade. “Aprovar uma política voltada para os direitos humanos é extremamente importante. Contudo, é preciso conhecer essa política, é preciso sair da análise genérica para a análise específica”, disse Britto, por nota. “Mas, desde logo ressaltamos como importante o ponto referente à abertura dos arquivos da ditadura, por reconhecer o direito à memória e à verdade.”

O item mais polêmico é justamente o que cria a Comissão da Verdade, para vasculhar os porões da ditadura e punir agentes de Estado por torturas. Pouco antes da virada do ano, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes militares ameaçaram se demitir e Lula prometeu rediscutir os pontos de atrito. Ontem, por nota, os presidentes dos clubes da Aeronáutica, Militar e Naval condenaram a ideia da comissão, advertindo que a democracia corre riscos e sequelas “podem vir à tona” com o “revanchismo”.

PROSTITUTAS

O decreto traz sete eixos orientadores, com mais de 200 objetivos estratégicos. Propõe da legalização da profissão de prostitutas à inclusão do item “direitos humanos” nos relatórios ambientais, sem esquecer de ações contra “concentração de gases do efeito-estufa”. Não é tudo: apoia o financiamento público de campanhas, pretende mudar o estatuto do índio e valorizar as quebradeiras de coco.

Os presidentes dos dois maiores partidos da oposição, o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) e o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ameaçaram convocar a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata presidencial do PT, presente ao lançamento do decreto, para dar explicações.

“O governo não parece empenhado na unidade democrática e, muito menos, no verdadeiro respeito aos direitos humanos”, criticou Guerra. Para o senador, Lula “é um prisioneiro de preconceitos ideológicos revogados pelo passado”.

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), apresentou ontem um projeto de decreto legislativo que, se aprovado, sustará o decreto. Para ele, trata-se de “um amontoado de promessas de caráter eleitoral”.

RESPOSTA OFICIAL

A Secretaria Especial de Direitos Humanos, responsável pela condução do projeto, limitou-se a divulgar uma nota. O plano, diz, “é resultado de amplo e longo debate com a participação da sociedade” e “atende às demandas de vários segmentos, inclusive o setor do agronegócio”.

Por todos os lados, a censura

12:59 pm

basythakabagana

Censura a filme provoca polêmica

Cena com uso de maconha leva o romântico Simplesmente Complicado a ser proibido para menores de 17 anos nos EUA

Brooks Barnes

A comédia romântica Simplesmente Complicado estreou há duas semanas nos EUA (no Brasil, será em 26 de fevereiro), mas recebeu classificação “R” (de Restrito, ou seja, proibido para menores de 17 anos), entrando na mesma categoria de filmes como O Massacre da Motosserra e Instinto Selvagem, segundo entendeu a Motion Picture Association of América (MPAA), Associação que representa os principais estúdios de cinema dos EUA. Mas não é um filme de violência e as cenas na cama não diferem dos padrões atuais. Sua proibição para menores de 17 anos (que, segundo especialistas, limita o potencial de bilheteria do filme) deve-se a uma cena em que Steve Martin e Meryl Streep fumam maconha.

É ridículo. A classificação do filme, restringindo a idade do público, levantou poeira em Hollywood e os blogs de cinema acusam a MPAA de estar desconectada da realidade. O lobby da maconha também se irritou. “É uma decisão absurda, baseada em conceitos culturais obsoletos”, disse Allen St. Pierre, diretor executivo da Organização Nacional para reforma das leis sobre a maconha. A Universal Pictures e Steve Martin solicitaram, sem sucesso, que o filme fosse classificado como PG-13 (proibido para menores de 13 anos). Os grupos conservadores, contudo, viram-se na curiosa posição de aplaudir o sistema de classificação, em vez de condená-lo. Dan Isett, diretor de políticas públicas do Parents Television Council (Conselho de pais que avalia os programas de TV e monitora os filmes a serem lançados), disse que Simplesmente Complicado é um raro exemplo de classificação corretamente feita pela Associação.

Outros filmes já provocaram grande alvoroço por causa de cenas de pessoas fumando maconha, particularmente na comédia Como Eliminar o Seu Chefe de 1980, que mostrava Dolly Parton, Jane Fonda e Lily Tomlin drogadas, atacando a geladeira. O filme foi classificado como PG (Parental Guidance, ou seja, que parte do conteúdo do filme pode não ser adequada para mais jovens). “Essa medida é hilária e inconsistente, tendo em vista quão longe o movimento pela maconha para fins medicinais já chegou”, disse Martin Kaplan, diretor do Centro Norman Lear de estudos sobre entretenimento e sociedade, na Universidade da Califórnia.

Todo esse tumulto ocorre em meio a discussões informais com o objetivo de ajustar a fórmula de classificação de filmes, especialmente quanto à “R” (proibição para menores de 17 anos). A MPAA estuda a possibilidade de dividir essa classificação em seis novas categorias. Nancy Meyers, diretora do filme, os produtores e a Universal não quiseram comentar o caso. Mas as forças financeiras estão trabalhando contra as mudanças. Se a diferença entre uma classificação PG-13 (proibido para menores de 13 anos) e uma com o rótulo “R” (proibido para menores de 17) pode significar dezenas de milhões de dólares na bilheteria, a última coisa que os estúdios de cinema desejam é repartir um bolo menor. “No geral, quanto mais favorável às crianças é a classificação, mesmo no caso de filmes que não são dirigidos aos adolescentes, mais entradas você vende”, disse S. Abraham Ravid, professor de administração na Rutgers University, autor de estudos sobre cinema e economia.

Para alguns veteranos da indústria, existe alguma coisa mais importante por trás de tudo isso, e afirmam que a MPAA se comporta melhor agora que tem um líder incapaz como Dan Glickman (que deixa o cargo em setembro) e com as eleições para o Congresso se aproximando. No início do mês, a Comissão Federal de Comércio criticou asperamente o setor cinematográfico por causa de filmes de propaganda inadequados com classificações PG-13 e “R” para crianças. Mas não foi especificamente o uso de drogas que provocou problemas para o filme Simplesmente Complicado, sobre uma mulher divorciada que tem um caso com o ex-marido. Na verdade, a direção do Conselho ficou preocupada com algo que o filme não mostra, ou seja, uma consequência negativa para aquele comportamento.

Segundo pessoas próximas das deliberações, o Conselho entendeu que a cena era fragorosamente engraçada e poderia transmitir às crianças a mensagem de que fumar maconha é divertido. Mas é claro que se pode alegar o contrário, ou seja, que uma maneira de fazer os jovens acharem que a maconha não é uma coisa boa é mostrar o grisalho Martin, 64 anos, fumando a erva. Não é de agora que Hollywood enfatiza as consequências de um ato quando enfoca temas considerados tabus, e isso remonta à era do Código Hays, disse Robert Sklar, professor emérito de estudos de cinema na Universidade de Nova York e autor de Movie - Made América. “Se alguém comete uma transgressão, se é infiel ou alcoólatra, tem de pagar por isso”, disse. A MPAA com frequência é acusada por grupos conservadores de estar afrouxando suas normas com o passar dos anos e de ceder às exigências dos estúdios, que resistem à classificação “R”. Mas o caso de Simplesmente Complicado mostrou o contrário.

Segundo Joan Graves, nos últimos 20 anos o Conselho tem se mostrado mais rigoroso com cenas de uso de drogas nos filmes. “Nas décadas de 60 e 70, o consumo de drogas era considerado divertido e recreativo, mas os pais ficaram mais cautelosos e os padrões mudaram no sentido contrário.” Em outras palavras, o filme Como Eliminar o Seu Chefe foi produzido num período cultural diferente. Mas é difícil dizer que fumar maconha se tornou algo rotineiro. Hoje, segundo estimativas das autoridades locais, existem cerca de mil clínicas só na área de Los Angeles; para ter um ponto de referência, na região existem menos de 300 lojas Starbucks.

Leitura para o final de semana

8 de janeiro de 2010 11:45 am

tabula

PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Tradução de Laura Teixeira Motta, São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Um novo olhar sobre a teoria da ‘tábula rasa’

Steven Pinker, psicólogo evolucionista e professor de Harvard, defende no livro ‘Tábula Rasa’ que os genes afetam a personalidade humana, questão negada por acadêmicos Outro livro sobre natureza e criação! Ainda existe gente que acredita que a mente é uma tábula rasa? As frases iniciais do novo livro do psicólogo evolucionista Steven Pinker, Tábula Rasa (Companhia das Letras, R$ 57), (…) parecem a forma menos adequada de se começar um catatau de mais de 600 páginas. Mas não é. Pinker é um unificador que já havia juntado várias grandes idéias em seus livros anteriores - O Instinto da Linguagem e Como a Mente Funciona. Em entrevista por telefone ao Estado, Pinker, que leciona na Universidade de Harvard, une aquilo que chama de mitos sobre a natureza humana e coloca-os na parede, do bom selvagem - ” é um mito” - à existência da alma - “uma atividade de processamento de informações no cérebro”.

Estado - Em seu livro Tábula Rasa, o senhor afirma que os genes afetam a forma como as pessoas pensam e sentem. Essa não é uma idéia bem estabelecida hoje? Por que escrever mais um livro sobre o tema?

Steven Pinker - O livro é muito mais sobre explorar as implicações morais, políticas e sociais dessa descoberta. Muitas pessoas ficam irritadas com essa idéia e até para alguns cientistas esse não é um conceito do qual eles se lembram com freqüência. Muitas pesquisas em psicologia, por exemplo, ignoram o fato de que os genes afetam a personalidade. Um exemplo são pesquisas que relacionam a forma como os pais tratam uma criança e o que elas se tornam depois. Nelas, uma criança que foi espancada por seus pais irá criar um adulto mais violento. Eles assumem que a relação de “correlação” é uma relação “causal” e concluem automaticamente que foi o comportamento dos pais que moldou a criança. Eles não chegam nem a testar a possibilidade de que pode haver genes que predispõem as pessoas para a violência. Como pais dão para seus filhos genes e um ambiente, essa “correlação” pode estar simplesmente dizendo que pessoas violentas espancam seus filhos e estes filhos, que herdam os genes violentos, são também violentos.

Estado - Mas por que é tão difícil para as pessoas aceitar o fato de que a natureza humana é, ao menos parcialmente, biológica?

Pinker - Há pelo menos quatro razões. Primeiro, há a teoria da diferença, que é a tábula rasa. Ela diz que todos devemos ser iguais, pois zero igual a zero, igual a zero. Se algumas pessoas tiveram algo diferente escrito ou mais coisas escritas na tábula do que outras, elas seriam diferentes. A teoria é que isso justificaria a discriminação e opressão, que isso poderia ser usado para justificar a discriminação de mulheres ou grupos étnicos com base na idéia de que elas são psicologicamente diferentes por causa de seus genes.

Estado - Mas essas diferenças genéticas existem…

Pinker - Muitos estudiosos acham que as diferenças entre mulheres são socialmente construídas ou que as diferenças entre as pessoas são simplesmente produto da forma como eles são tratados pelo mundo. As diferenças entre os sexos certamente não vêm somente da socialização ou cultura, mas esses fatos ainda são negados por muitos acadêmicos. Há muitos que ainda acreditam que todas as diferenças entre os sexos vêm da forma como se educa meninos e meninas. A segunda teoria é de que todos os traços indesejáveis nos seres humanos são inatos, como egoísmo, sexismo ou agressividade; são imutáveis e que qualquer tentativa de mudá-lo é uma perda de tempo. A terceira teoria é a do determinismo, na qual todo o comportamento deve ser atribuído aos genes, então ninguém seria responsável por seus atos. E não poderíamos punir as pessoas por seus comportamentos, pois eles vêm dos genes. A quarta é a teoria do niilismo, a teoria de que tudo que temos de mais sagrado - amor, beleza, moral - é somente pedaços de genes tentando se transmitir para a próxima geração.

Estado - Então não somos intrinsecamente bons?

Pinker - O bom selvagem é um mito. Todos os estudos quantitativos existentes mostram que o homicídio existia antes das sociedades organizadas por leis e que a taxa de violência nessas sociedades mais antigas é bem maior do que as das sociedades industriais modernas. Apesar da idéia muito divulgada de que os caçadores-coletores viviam em paz e harmonia e que a violência é uma criação das instituições modernas. E, também, há estudos que mostram que pessoas, especialmente homens, têm fantasias homicidas. Algumas vezes eles pensam em matar pessoas de que não gostam.

Estado - A violência faz parte da natureza humana?

Pinker - Os pensamentos violentos, sim, mas o que vamos fazer com eles depende do ambiente em que estamos.

Estado - E os relatos de Margaret Mead sobre tribos que não conheciam a violência?

Pinker - As descrições dela sobre os nativos da Nova Guiné, amantes da paz e dos sexualmente displicentes samoanos, basearam-se em pesquisas superficiais e se revelaram quase perversamente erradas. Como documentou posteriormente o antropólogo Derek Freeman, os samoanos podem espancar ou matar as filhas se elas não forem virgens na noite de núpcias.

Estado - E a idéia de que temos algo dentro de nós, que comanda o nosso cérebro, as nossas ações?

Pinker - Todas as emoções e pensamentos podem ser relacionados a uma atividade fisiológica do cérebro e não há nenhuma razão para acreditar que seja necessário uma substância extra, chamada alma, para gerar os comportamentos que temos.

Estado - E o que é alma, então?

Pinker - Acho que é a atividade de processamento de informações no cérebro.

Estado - E quando morremos é o fim?

Pinker - Sim. No século 19, muitos cientistas sérios tentaram se comunicar com os mortos. Tenho de dizer que as experiências foram um fracasso.

Estado - Por que, na opinião do senhor, ainda se acredita no bom selvagem e na alma?

Pinker - Houve boas razões históricas para as pessoas tirarem a ênfase da genética na evolução. Uma delas foi o mau uso delas pelos eugenistas, que há cem anos diziam que a reprodução humana deveria ser controlada para melhorar a adaptação da nossa espécie ao ambiente em que vivemos. Ela foi invocada também para dizer que as mulheres eram biologicamente não adaptadas para pensar e tomar decisões. E mais terrivelmente foram usadas pelos nazistas para justificar o genocídio de judeus e ciganos. Acho que houve uma enorme revolta contra qualquer tentativa de conectar biologia a comportamentos humanos.

Estado - E qual o papel do acaso na nossa vida?

Pinker - Muita da variação de inteligência e personalidade existente entre nós não pode ser atribuída nem a genes nem ao ambiente. Se você olhar gêmeos idênticos que foram criados na mesma família, mesmo local, mesma cultura, mesma casa, você verá que eles são muitos mais parecidos do que outros pares de pessoas, mas eles estão longe de ser idênticos. As similaridades entre suas personalidades e inteligências talvez seja de 50% em média. Isso mostra que as diferenças não podem vir dos genes, pois eles têm genes iguais, e também não pode vir diretamente do ambiente, pois tiveram os mesmos pais, vizinhos, casa. Essas diferenças vêm simplesmente de um processo randômico, do acaso, e têm uma grande influência naquilo que somos. Acasos como um bebê que cai de cabeça no chão, um vírus que ele pega, um pensamento que deixe uma impressão permanente. Esses fatores podem ter uma influência tão grande quanto os genes no que somos, uma influência muito maior do que os pais exercem numa pessoa.

Estado - Boa parte do que somos é, então, produto do acaso?

Pinker - Ao menos boa parte daquilo que nos faz diferentes uns dos outros em uma mesma cultura é o acaso.

Estado - O senhor também afirma no livro que o pós-modernismo é baseado na tábula rasa e que ele destrói toda a graça das artes.

Pinker - O pós-modernismo certamente nega que exista algo como a natureza humana. Para eles, toda nossa experiência, amor romântico, ciúmes, diferença entre os sexos são construções sociais que poderiam ser diferentes se a história tivesse se desenvolvido de outra forma. No caso da arte, o pós-modernismo nega que temos a capacidade de ter prazer com ela. Eles vêem a arte como um produto de forças econômicas e políticas. Ao negar a possibilidade de as pessoas terem uma habilidade inata em ter prazer com a beleza, a melodia, histórias e outras leva à criação de uma arte à qual falta sensibilidade.

Entrevista ao Estado de S. Paulo por ALESSANDRO GRECO

Livros
OS GENES FALAM MAIS ALTO
As ciências sociais têm de aprender com o darwinismo e a genética. É o que propõe o cientista Steven Pinker

Jerônimo Teixeira
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O zoólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, costuma dizer que o darwinismo é uma teoria boa demais para ficar restrita apenas à biologia. A idéia foi levada a sério pelo psicólogo evolucionista Steven Pinker, da prestigiosa Universidade Harvard. Seu livro Tábula Rasa (tradução de Laura Teixeira Motta; Companhia das Letras; 670 páginas; 57 reais) é um extenso apanhado das contribuições da biologia darwinista a campos como a antropologia, a sociologia, a ciência política e até a crítica de arte. Na verdade, “contribuição” é uma palavra modesta demais para as ambições do autor. No horizonte talvez não tão longínquo vislumbrado por Pinker, as ciências humanas deverão todas se converter ao darwinismo.

Com um senso formidável para a provocação e uma juba digna de um ídolo pop dos anos 80, Pinker é uma estrela ascendente da divulgação científica. Sua fama deve-se principalmente a Como a Mente Funciona, livro que explica o funcionamento do cérebro humano de uma perspectiva darwinista. O objetivo declarado de Tábula Rasa é nada mais nada menos do que propor uma nova idéia de natureza humana.

A palavra “natureza” deve ser entendida literalmente. Diz respeito à nossa biologia, às determinações inescapáveis que a seleção natural depositou em nosso código genético. Impressas em nosso DNA estariam não apenas as instruções para fazer cinco dedos em cada mão e um nariz no meio dos olhos. Todos nascemos com uma programação básica que nos habilita à condição humana, da capacidade de aprender uma língua ao senso de justiça em trocas comerciais. O apêndice de Tábula Rasa traz uma lista de “universais humanos” compilada pelo antropólogo Donald Brown. Seriam características comuns a todas as culturas do planeta – uma lista de cinco páginas com itens que vão do óbvio ao curioso: medo de cobras, poesia, sorriso, linguagem.

O estudo dessas características comuns do comportamento humano faz parte do programa da psicologia evolucionista, ramo científico relativamente novo, que ganhou força no final do século XX. De certo modo, a psicologia sempre esteve no cardápio darwinista. Afinal, a idéia de que a seleção natural conduz a evolução dos seres vivos, tal como formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin no clássico A Origem das Espécies, de 1859, tem um atributo fundamental a toda grande teoria científica: o poder de generalização. Quando geneticistas e biólogos evolucionistas tecem considerações remotamente políticas, porém, há quem ouça velhos esqueletos sacudir no armário. Os críticos lembram do “darwinismo social” de teóricos do século XIX como Herbert Spencer, que consideravam a pobreza um sintoma de inferioridade evolutiva. E, por conta da pseudociência de nazistas e apaniguados, a suspeita de racismo está sempre nas redondezas da pesquisa genética. Pinker desqualifica esses receios como mera paranóia. A nova psicologia evolucionista não deve nada a Spencer ou a Hitler.

Ostensivamente polêmico, Tábula Rasa mete a mão em vários vespeiros (veja quadro na pág. ao lado) e ataca inclusive egrégios darwinistas como o paleontólogo Stephen Jay Gould. Mas o principal alvo é o relativismo cultural que ainda grassa em muitos departamentos de ciências sociais. Antropólogos culturalistas, sociólogos pós-modernos e críticos literários feministas – todos professariam a idéia de que o ser humano é uma tábula rasa, uma folha em branco na qual a família, a sociedade ou a cultura irá imprimir suas marcas. Pinker demonstra muito cabalmente, e com ironia arrasadora, que os fatos não corroboram idéias como a de que as características sexuais masculinas ou femininas, para ficar num exemplo extremo, são meras “construções culturais”. Nem todos os argumentos de Tábula Rasa são tão bem arquitetados. No seu ímpeto de introduzir Darwin nas ciências humanas, o livro às vezes força a mão. Especialmente frágil é o capítulo sobre as artes. Depois de sucessivos ataques ao marxismo, Pinker quase evoca, na sua crítica à arte contemporânea, a estúpida pecha de “degeneração burguesa” com que a esclerosada crítica marxista rotulou os modernistas. Mas é empolgante seu esforço em provar que a compreensão dos nossos imperativos biológicos não limita nossa liberdade – pelo contrário, pode aprofundá-la. De certo modo, o cientista canadense retoma o velho humanismo da Renascença – mas um “humanismo realista e fundamentado na biologia”. No lugar da divina proporção explorada por Leonardo da Vinci e seus contemporâneos, está a dupla hélice do DNA.

VESPEIRO ACADÊMICO
Quatro áreas nas quais as descobertas da biologia evolucionista têm gerado polêmica:

POLÍTICA – A teoria da evolução afirma que as adaptações complexas pelas quais passou a espécie humana visavam ao bem do indivíduo, não ao da sociedade. A idéia de que o homem é um ser bom por natureza e de que a violência é uma perversão das sociedades modernas tampouco tem sustentação na antropologia evolucionista, que encontrou evidências de guerra entre tribos primitivas. Essas descobertas contrariam muitas ilusões políticas da esquerda.

SEXUALIDADE – Certas correntes radicais do feminismo negam qualquer diferença na psicologia de homens e mulheres. Mas a neurociência já mostrou que o cérebro feminino e o masculino têm configurações diferentes.

EDUCAÇÃO – Pesquisadores têm procurado demonstrar que a influência da educação paterna na personalidade das crianças é pequena. Os genes contam mais.

ARTES – Pinker diz que nosso gosto estético foi configurado pela evolução, com a função primária de nos atrair para ambientes e parceiros sexuais desejáveis. Gostamos instintivamente da harmonia. Artistas que fazem uma arte chocante e reclamam da “incompreensão do público” estão enganados. Eles é que não compreenderam o funcionamento da mente humana.

Leia trecho de A Tábula Rasa, de Steven Pinker
PARTE I
A tábula rasa, o bom selvagem e o fantasma na máquina

Todo mundo tem uma teoria da natureza humana. Todo mundo precisa prever o comportamento dos outros, e isso significa que todos nós necessitamos de teorias sobre o que motiva as pessoas. Uma teoria tácita da natureza humana - a de que o comportamento é causado por pensamentos e sentimentos - está embutida no próprio modo como pensamos sobre as pessoas. Encorpamos essa teoria perscrutando nossa própria mente e supondo que a outra pessoa é como nós, observando o comportamento das pessoas e arquivando na mente as generalizações. Outras idéias absorvemos de nosso clima intelectual: de opiniões de especialistas e da sabedoria convencional de nossa época. Nossa teoria da natureza humana é o manancial de muita coisa em nossa vida. Nós a consultamos quando queremos persuadir ou ameaçar, informar ou enganar. Ela nos aconselha sobre o modo de manter nosso casamento, criar nossos filhos e controlar nosso comportamento.

Suas suposições sobre o aprendizado gerem nossa política educacional; suas suposições sobre motivação gerem nossas políticas para a economia, o direito e o crime. E porque ela delineia o que as pessoas podem conseguir facilmente, o que podem conseguir somente com sacrifício ou dor e o que não podem conseguir de jeito nenhum, ela afeta nossos valores: os objetivos que julgamos racionalmente possíveis de atingir como indivíduos e como sociedade. Teorias rivais da natureza humana entrelaçam-se em diferentes modos de vida e em diferentes sistemas políticos, e têm sido fonte de muito conflito ao longo da história.

Por milênios as principais teorias da natureza humana vieram da religião. A tradição judaico-cristã, por exemplo, oferece explicações para boa parte dos assuntos hoje em estudo pela biologia e psicologia. Os seres humanos são feitos à imagem de Deus e não têm parentesco com os animais. As mulheres derivam dos homens e destinam-se a ser governadas por eles. A mente é uma substância imaterial; tem poderes que nenhuma estrutura puramente física possui, e pode continuar a existir quando o corpo morre. A mente é constituída por diversos componentes, incluindo senso moral, capacidade para amar, capacidade de raciocínio que reconhece se um ato condiz com ideais de bondade, e faculdade de decisão que escolhe o modo de se comportar. Embora a faculdade de decisão não seja limitada pelas leis de causa e efeito, possui tendência inata a escolher o pecado. Nossas faculdades cognitivas e perceptivas funcionam com precisão porque Deus implantou nelas ideais que correspondem à realidade e porque ele coordena seu funcionamento com o mundo exterior. A saúde mental provém de reconhecer o propósito de Deus, escolhendo o bem e arrependendo-se do pecado, e amando a Deus e aos semelhantes em consideração a Deus.

A teoria judaico-cristã baseia-se em eventos narrados na Bíblia. Sabemos que a mente humana nada tem em comum com a dos animais porque a Bíblia afirma que os humanos foram criados separadamente. Sabemos que a constituição da mulher baseia-se na do homem porque, no brevíssimo relato da criação da mulher, Eva foi moldada a partir de uma costela de Adão. As decisões humanas não podem ser os efeitos inevitáveis de alguma causa, podemos inferir, pois Deus responsabilizou Adão e Eva por comerem o fruto da árvore do conhecimento, e isso implica que eles poderiam ter escolhido não fazê-lo. As mulheres são dominadas pelos homens como castigo pela desobediência de Eva, e homens e mulheres herdam o pecado do primeiro casal.

A concepção judaico-cristã ainda é a mais popular teoria da natureza humana nos Estados Unidos. Segundo levantamentos recentes, 76% dos americanos acreditam no relato bíblico da criação, 79% acreditam que os milagres descritos na Bíblia realmente aconteceram, 76% acreditam em anjos, no diabo e em outras almas imateriais, 67% acreditam que existirão sob alguma forma depois de morrer e apenas 15% acreditam que a teoria da evolução de Darwin é a melhor explicação para a origem da vida humana na Terra. Políticos de direita acolhem explicitamente a teoria religiosa, e nenhum político influente ousaria contradizê-la em público. Mas as ciências modernas da cosmologia, geologia, biologia e arqueologia tornaram impossível que uma pessoa com conhecimentos científicos elementares acredite que a história bíblica da criação aconteceu de fato. Em conseqüência, a teoria judaico-cristã da natureza humana não é mais explicitamente sustentada pela maioria dos acadêmicos, jornalistas, analistas sociais e outros integrantes da intelectualidade.

Apesar disso, toda sociedade precisa operar com uma teoria da natureza humana, e nossa corrente intelectual dominante está comprometida com outra. Essa teoria raramente é enunciada ou abertamente defendida, mas está no cerne de numerosas crenças e políticas. Bertrand Russell escreveu: “Todo homem, aonde quer que vá, está envolto por uma nuvem de convicções confortadoras, que se deslocam com ele como moscas em um dia de verão”. Para os intelectuais de hoje, muitas dessas convicções estão no campo da psicologia e das relações sociais. Chamarei essas convicções de tábula rasa: a idéia de que a mente humana não possui estrutura inerente e de que a sociedade, ou nós mesmos, podemos escrever nela à vontade.

Essa teoria da natureza humana - ou seja, a de que ela praticamente inexiste - é o tema deste livro. Assim como a religião contém uma teoria da natureza humana, também as teorias da natureza humana assumem algumas das funções da religião, e a tábula rasa tornou-se a religião secular da vida intelectual moderna. É vista como uma fonte de valores, e por isso o fato de que se baseia em um milagre - uma mente complexa surgindo do nada - não é usado para questioná-la. Contestações da doutrina por céticos e cientistas mergulharam alguns crentes em uma crise de fé e levaram outros a desferir os tipos de ataques ferozes comumente destinados a hereges e infiéis. E assim como muitas tradições religiosas acabaram por conciliar-se com aparentes ameaças da ciência (como as revoluções de Copérnico e Darwin), também nossos valores, procurarei mostrar, sobreviverão à extinção da tábula rasa.

Os capítulos desta parte do livro (Parte I) tratam da ascendência da tábula rasa na vida intelectual moderna e da nova visão da natureza e cultura humanas que está começando a contestá-la. Em partes subseqüentes mencionaremos a preocupação provocada por essa contestação (Parte II) e veremos como essa preocupação pode ser abrandada (Parte III). Em seguida, mostrarei como uma concepção mais rica da natureza humana pode nos proporcionar vislumbres esclarecedores da linguagem, pensamento, vida social e moralidade (Parte IV) e esclarecer controvérsias sobre política, violência, gênero, criação dos filhos e artes (Parte V). Finalmente, mostrarei que a extinção da tábula rasa é menos inquietante, e em alguns aspectos menos revolucionária, do que parece à primeira vista (Parte VI).

Steven Pinker

Steven Pinker

Os grandes mestres e o crescimento global

11:26 am
Kenneth Rogoff

Kenneth Rogoff

Por Kenneth Rogoff*, Project Syndicate

À medida que a economia global sai capengando da última década e ingressa em 2010, qual será a nova força que impulsionará o crescimento mundial?

Alguns apostam que a década que se inicia será aquela em que a inteligência artificial se desenvolverá a uma velocidade exponencial, e passará a ter um impacto econômico paralelamente à emergência da Índia e da China.

Reconheço que minha perspectiva está profundamente influenciada pelo universo do xadrez, um jogo em que atuei como profissional e que ainda acompanho de longe. Embora peculiar, o xadrez por computador nos proporciona uma janela para acompanharmos a evolução do silício e, ao mesmo tempo, um barômetro de como as pessoas se adaptarão a ele.

Um pouco de história ajudará. Em 1996 e 1997, o campeão mundial de xadrez, Gary Kasparov, jogou alguns matches contra um computador da IBM chamado “Deep Blue”. Na época, Kasparov dominava o xadrez mundial, do mesmo modo que Tiger Woods dominava o golfe, pelo menos até pouco tempo. No match de 1996, Deep Blue deixou o campeão estupefato ao vencê-lo na primeira partida. Mas logo Kasparov tratou de explorar o ponto fraco do computador no planejamento estratégico a longo prazo, em que seu julgamento e intuição aparentemente derrotaria o cálculo mecânico da máquina.

Infelizmente, a suprema confiança de Kasparov não levou suficientemente a sério Deep Blue no match de retorno, em 1997. O campeão ficou consternado quando o computador ganhou por 3,5 a 2,5. Muitos comentaristas definiram o triunfo de Deep Blue como um dos acontecimentos mais importantes do século 20.

Talvez Kasparov conseguisse ganhar a revanche se pudesse ter continuado por todas as 24 partidas (na época, era esta a duração dos matches nos campeonatos mundiais). Mas, nos anos seguintes, enquanto o homem aprendia por meio dos computadores, as máquinas foram evoluindo a uma velocidade muito maior.

Com processadores cada vez mais poderosos, os jogadores de xadrez de silício desenvolveram a capacidade de calcular com tamanha antecipação que a distinção entre os cálculos táticos a curto prazo e o planejamento estratégico a longo prazo quase desapareceram. Ao mesmo tempo, os programas de computação começaram a explorar enormes bancos de dados das partidas entre os grandes mestres (o título mais alto no xadrez), utilizando os resultados de jogos entre seres humanos para descobrir as jogadas com maiores chances de sucesso. Em pouco tempo, ficou claro que até mesmo os melhores jogadores humanos teriam poucas possibilidades de ir além de um empate ocasional.

Hoje, os programas de xadrez foram aperfeiçoados a tal ponto que os grandes mestres, às vezes, têm dificuldade para compreender a lógica que move suas jogadas. Nas revistas de xadrez, é possível ler frequentemente comentários de grandes jogadores como: “Meu amigo de silício diz que eu deveria ter movido o rei em lugar da rainha, mas ainda acho que eu fiz a melhor jogada que um “ser humano” poderia fazer”.

E a coisa está ficando pior. Muitos programas de computador disponíveis no mercado imitam os estilos dos maiores mestres de maneira surpreendente. De fato, agora os programas de xadrez estão muito perto de superar o último teste do matemático inglês, Alan Turing, da inteligência artificial: um ser humano que conversa com a máquina poderá dizer que ela não é humana? Eu com certeza não posso. Ironicamente, como as trapaças assistidas por computador estão inundando os torneios de xadrez (em que as acusações chegam a níveis inesperados), o principal aparelho usado para detectá-las exige o emprego de outro computador. Somente uma máquina pode dizer o que outro computador deve fazer em determinada posição. É possível que, se Turing estivesse vivo hoje, ele definisse a inteligência artificial como a incapacidade de um computador de dizer se outra máquina é humana! Então, será que tudo isso colocou os jogadores de xadrez de escanteio? Felizmente, a resposta é “ainda não”.

De certo modo, o xadrez hoje é tão popular e faz tanto sucesso quanto nas décadas anteriores. Ele se presta muito bem a ser jogado na internet, e os fãs podem acompanhar os torneios de altíssimo nível em tempo real, muitas vezes com comentários. A tecnologia contribuiu para a total globalização do xadrez, enquanto o indiano Vishy Anand, atualmente o primeiro asiático campeão mundial, e o jovem norueguês, Magnus Carlsen, alcançaram a posição de astros do rock. Homem e máquina aprenderam a coexistir, por enquanto.

Evidentemente, esse é um microcosmo das maiores transformações que podemos esperar. Os horríveis sistemas de secretária eletrônica computadorizada, com os quais sofremos agora, poderão ser aperfeiçoados. Imaginem só, algum dia, vocês poderão preferir operadores digitais a seres humanos.

Daqui a 50 anos, os computadores poderão fazer qualquer coisa, desde dirigir táxis a realizar intervenções cirúrgicas de rotina. Muito antes disso, a inteligência artificial transformará o ensino superior, tornando a formação em universidades amplamente acessível, até mesmo nos países mais pobres. E, evidentemente, em toda parte há outros usos mais prosaicos, embora cruciais da inteligência artificial, desde gerir a instalação eletrônica e elétrica nas nossas casas até a disseminação de “grades inteligentes” para água e eletricidade, ajudando a monitorar estes e outros sistemas para reduzir o desperdício.

Em suma, não concordo com a ideia de que, depois da internet e do PC, teremos de esperar muito tempo até a próxima inovação. A inteligência artificial fornecerá o impulso que favorecerá a evolução nesta década.

Portanto, apesar de um início difícil depois da crise financeira (que ainda freará o crescimento global este ano e no próximo), não há nenhuma razão para que a nova década tenha de ser um fiasco econômico. A não ser que ocorra mais uma série de profundas crises financeiras, isso não acontecerá - desde que os políticos não atrapalhem o novo modelo de comércio, tecnologia e inteligência artificial.

*Kenneth Rogoff é professor de Economia e Política Pública da Universidade de Harvard, e foi chefe da equipe de economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI)

Bons Costumes

11:20 am

Noel Coward reinventado

O diretor australiano Stephan Elliott desmonta as classes sociais com base na mordacidade do autor inglês no filme Bons Costumes, que estreia hoje na cidade

Luiz Carlos Merten

Stephan Elliott é australiano, tem 47 anos e, para o cinéfilo, é o diretor de um só sucesso - Priscilla, a Rainha do Deserto, road movie que estourou nas telas de todo o mundo, em 1994, a partir de sua exibição no Festival de Cannes. A história das drag queens que atravessam o deserto num ônibus cor de rosa, ao som de ABBA, caiu no gosto de todas as plateias e não apenas do público GLS, ao qual parecia destinado. Elliott perdeu-se depois em projetos descontrolados, mas ele ressurge agora promissor com uma adaptação de Noel Coward.

Bons Costumes foi exibido em 2008, no Festival do Rio. Elliott adora o Rio - praia, sol, caipirinha, samba. Ele chegou a morar um tempo na “cidade maravilhosa”. Era o primeiro a comemorar sua “ressurreição”. O filme que estreia hoje é uma produção inglesa. Elogiar atores como Kristin Scott Thomas e Colin Firth pode parecer redundância, mas Elliott consegue o que a muitos críticos parecia impossível - extrair uma boa interpretação de Jessica Biel, pois não adiantaria dizer apenas que ela oferece sua melhor atuação até agora. O melhor de Jessica ainda poderia ser pouco, mas a bela atriz mostra que o problema não é tanto dela, mas de seus diretores.

Era o que dizia no Rio, há um ano e pouco - o festival ocorre em setembro/outubro -, o diretor. “Muita gente torceu o nariz e até pensava que eu estava entrando numa fria ao contratar Jessica, mas nunca tive dúvidas de que ela poderia render o papel.” Na história, Jessica faz americana que, nos anos 1920 - os chamados “roaring twenties” -, se casa com inglês aristocrático e provoca um cataclismo ao ser apresentada à família do noivo. Se você viu o trailer, já deve ter começado a rir ali com a cena em que a “noiva” invade a caçada à raposa montada numa… moto. Embora o filme seja uma produção inglesa, Elliott sabe que não participa do cinema inglês.

“Qualquer pessoa que acompanhe essa cinematografia sabe que o tema da imigração tem sido decisivo nos últimos anos, e eu diria até décadas. Os diretores estrangeiros são numerosos por lá e assim acho que não há problema em que eu, um australiano, portanto, um estrangeiro, lance um olhar de fora sobre o tema das relações entre norte-americanos (os “ianques”) e ingleses.” Este é um tema em pauta em muitas adaptações feitas por James Ivory - o mais inglês dos diretores norte-americanos (pois nasceu na Califórnia), principalmente nos filmes baseados em Henry James. Bons Costumes, que no original se chama Easy Virtue, já havia sido filmado por Alfred Hitchcock no começo de sua carreira, em 1927. Naquele caso, o caminho era inverso do de Ivory e Hitchcock, um diretor inglês, foi fazer carreira na América.

“Noel Coward tinha 24 anos quando escreveu a peça e Hitchcock tinha um pouco mais, 28, quando fez o filme. Coward já esgrimia sua mordacidade no texto, mas Hitchcock ainda era um diretor sem estilo ou, eu diria, um talento em formação. Mas o filme dele revela imaginação e isso é cool.” Elliott diz que o mais interessante no texto de Noel Coward é que ele não ficou datado. Dramaturgo e cineasta de prestígio - codirigiu Nosso Barco, Nossa Vida, o primeiro David Lean, em 1942 -, o fleumático Coward foi um ácido crítico do sistema de classes britânico, que já estava começando a ruir quando ele entrou em cena. “O bom desse texto é que ele continua atual”, explica Elliott. Mesmo assim, ele admite que quis fazer uma adaptação “para o século 21″.

Alguns críticos reclamaram do que lhes pareceu um defeito - o filme oscila entre comédia e drama, numa hora tentando fazer rir e logo em seguida adotando um tom sério para forçar o público à reflexão. “Fico muito preocupado quando ouço isso, porque o desafio de Bons Costumes consiste justamente em equilibrar elementos díspares. Se reclamam, é porque não acertei. Veja bem, desde que a peça surgiu, a definição para ela tem sido “laughable dramatics”, ou seja, é um drama para rir.” A modernidade do texto é realçada pelo diretor na trilha. Inicialmente, canções de Cole Porter iam emoldurar as ações de Bons Costumes. “Eu tinha uma bela trilha só dele, mas quis incrementar com rock para que os avós se sentissem mais à vontade”, brinca o diretor. Bons Costumes pode não ser dançante como Priscilla, mas Stephan Elliott não objetaria, se você tivesse vontade de se sacudir na poltrona.

Veja o trailer de Bons Costumes:

Estadão - há 160 dias sob censura

7 de janeiro de 2010 10:54 am

Tristes trópicos!

censura-estadao

A censura humilha o povo e rebaixa o Brasil

Manoel Vilela de Magalhães*, sabendas@gmail.com

Há quase 200 dias sob censura prévia, imposta pelo Judiciário da capital federal e de certo modo aceita em instância superior, sob a luz claríssima da democracia reconquistada pelo povo brasileiro, o Estado comemora 135 anos de circulação. Não é a primeira vez que vê tolhida a liberdade de informação, a despeito da disposição constitucional que veda qualquer tipo de censura.

Fui repórter desse jornal e, na minha caminhada, presenciei dois períodos de cerceamento à liberdade de informação. No primeiro, eu era aluno do antigo curso ginasial em escola pública no norte do Paraná, à qual, como às demais, chegavam determinações emanadas de um governo ditatorial, o ciclo de Getúlio Vargas. Tudo era proibido e notícias apenas as oficiais, como as veiculadas pela Rádio Nacional e pela A Noite, ambas do governo. Tudo ao sabor e ao requinte do extravagante Departamento de Imprensa e Propaganda, o nada saudoso DIP, copiado do regime nazista (o Nationalsozialismus) que vigorava na Alemanha de Hitler e com o fascismo, a doutrina totalitária de Benito Mussolini então vigorante na Itália. Em 1940, o DIP determinou intervenção no Estado. Sua direção foi destituída e o jornal submetido ao controle de um representante da ditadura Vargas até 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, que coincide com o fim do Estado Novo. Extinto, nesse mesmo ano, o DIP foi substituído pelo Departamento Nacional de Informações (DNI), mais tarde transformado no Serviço Nacional de Informações (SNI).

Como escolar, era obrigado, como todo o alunato, a ficar de mão no peito, com a escola formada para o hasteamento da Bandeira Nacional, entoando um hino de louvor a Vargas (o estribilho dizia: “Getúlio Vargas, Getúlio Vargas/nobre filho dos Pampas do Sul”). Não só a isso se resumiam as posturas do chamado Estado Novo, o regime político centralizado e autoritário fundado em 1937, que se prolongou até 1945. Por ordem do Palácio do Catete, então sede do governo federal, no Rio, o tradicional desfile escolar de 7 de Setembro, Dia da Pátria, foi antecipado para 5 de setembro, em homenagem a um inacreditável Dia da Raça, de inspiração ditatorial e criado como se aqui fosse a terra de Joseph Goebbels, o ministro do Povo e da Propaganda de Adolf Hitler e executor severo do controle sobre instituições educacionais e meios de comunicação na Alemanha nazista.

Não sei a extensão desse “feriado” Brasil adentro. Não existia televisão e a telefonia era muito precária. Na pequenina cidade de Jacarezinho, meu colégio público teve o privilégio de contar, como diretor, com um democrata, o professor Guido Arzúa. Visando a driblar a compulsória comemoração, ele instituiu uma prova pedestre de revezamento, a “Corrida do Livro”, que se desenrolaria simultaneamente com o desfile. Essa modalidade mobilizava muitos corredores, que, de quarteirão em quarteirão, ao invés de bastão, iam repassando um livro. Os familiares também se mobilizavam na torcida, assim obnubilando o significado da data nazista.

O outro ciclo é mais recente: o regime militar de 1964. Fomos obrigados a conviver por duas dezenas com o Estado de exceção. Aí entra a nova tragédia imposta aos meios de comunicação, com a censura prévia. Os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde davam exemplos de resistência, publicando textos de Camões e receitas culinárias nos espaços vetados pelo lápis vermelho dos censores, O noticiário político originário de Brasília enfrentava mil peripécias redacionais. Na abertura das matérias (o lead, no jargão jornalístico) os repórteres localizavam as falas de líderes da Arena. Recheadas de trololós, meras frases vazias em resposta a denúncias do MDB. Desatentos, os censores encantavam-se com as frases dos governistas, plenas de elogios ao sistema, sem perceber nos parágrafos seguintes as críticas oposicionistas, em discursos na Câmara e do Senado. Isso dava certo e chegou a levar a Brasília o historiador brasilianista Thomas Skidmore, desejoso de conhecer pormenores a respeito. Entreguei-lhe cópias do registro jornalístico de minha autoria, com a síntese de palestra por ele proferida, no auditório de música da Universidade de Brasília. Adverti-o de que, no dia seguinte, no lugar da descrição de sua palestra, ele iria ler mais um trecho de Os Lusíadas.

O Estado jamais deixou de se esforçar e sempre busca estampar com isenção a realidade do dia a dia, no País e no mundo. Em caso de dificuldades, desenvolve esforços sem tamanho para que sua missão não fique incompleta. Nos primórdios do 31 de março e um pouco antes, as comunicações com Brasília foram cortadas e o aeroporto fechado. Logo no restabelecimento dos voos e com a cidade ainda sem telefones, fui instruído para tomar o primeiro avião e levar o noticiário recente e uma retrospectiva de dias angustiantes para uma população sitiada, como o indescritível momento do voo rasante do Caravelle da velha Varig/Cruzeiro sobre o DF. Viera com a missão de levar o presidente Goulart para o exílio no Uruguai.

Esses dados ajudam a desnudar uma verdade histórica: a censura só ocorria em esquemas de exceção. Jamais sob a democracia. O atual episódio vivido pelo Estado fere a liberdade. Estaria faltando apreço à ordem constituída? Em nome de quem rasgam a Constituição? Com a censura, eles aviltam o povo e rebaixam o Brasil.

*Manoel Vilela de Magalhães, professor, foi redator do Estado.

censura

Esse um verdadeiro caso de “crime” de opinião. Lamentável é enquadrar no mesmo rol os crimes comuns cometidos por Battisti

26 de dezembro de 2009 3:35 pm

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China condena dissidente a 11 anos de prisão

Pena aplicada a Liu Xiaobo é a mais dura em acusações de ’subversão’

Cláudia Trevisan

Liu Xiaobo, um dos mais proeminentes e ativos dissidentes chineses, foi condenado anteontem a 11 anos de prisão, na mais severa pena aplicada por Pequim em acusações de subversão dos últimos anos. A decisão indica o endurecimento do Partido Comunista em relação a seus críticos, que se traduz no aumento das prisões, no fechamento de ONGs e na intensificação da censura à imprensa e à internet.

O dissidente foi preso no dia 8 de dezembro de 2008, dois dias antes da divulgação da Carta 08, documento que pede democracia, liberdade de expressão e o fim do regime de partido único na China. Liu Xiaobo, de 54 anos, é um dos signatários originais do manifesto, que já recebeu 8.000 adesões na internet.

A decisão foi criticada pela Organização das Nações Unidas (ONU), por governos ocidentais e por entidades de defesa dos direitos humanos. A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillav, disse que a decisão é um retrocesso. Em nota, a entidade Human Rights Watch ressaltou que a condenação é uma advertência explícita aos intelectuais e à sociedade civil da China de que o governo vai punir de maneira severa aqueles que considerar como uma ameaça a seu poder.

Um diplomata norte-americano disse em Pequim que o governo dos EUA está preocupado com a situação de Liu Xiaobo e continuará a pressionar por sua libertação. A decisão também foi condenada pela chanceler alemã, Angela Merkel.

A extensão da pena de Liu Xiaobo é mais que o dobro da aplicada em casos recentes de julgamento sob acusação de “incitamento à subversão”. O mais proeminente dissidente julgado antes dele foi Hu Jia, condenado em 2008 a três anos de meio de prisão. No dia 10 de setembro de 2007, 11 meses antes dos Jogos de Pequim, Hu Jia assinou com o advogado Teng Biao o manifesto “A China Real e a Olimpíada”, que denunciava as agressões aos direitos humanos no país.

Liu Xiaobo tem uma longa história de enfrentamento com as autoridades de Pequim. Professor de Literatura na época dos protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989, o dissidente apoiou as manifestações pró-democracia iniciadas pelos estudantes. Desde então, passou três períodos na prisão: de 1989 a 1991, de 1995 a 1996 e de 1996 a 1999. No último, ficou num campo de reeducação pelo trabalho, sistema desvinculado do Poder Judiciário e para o qual pessoas são enviadas por decisões administrativas.

Depois de libertado, Liu Xiaobo era vigiado constantemente pelas autoridades e colocado em prisão domiciliar em todas as datas consideradas “sensíveis” pelo governo, como os aniversários do massacre de estudantes de 1989.

Pavão Misterioso

24 de dezembro de 2009 4:30 pm

Pavão Misterioso (Ednardo)

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar…

Pavão misterioso
Nessa cauda
Aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda
Quero olhar…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse seu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar…

Vídeos preto e branco

17 de dezembro de 2009 1:39 am

clips-pb

Do blogue IdeaFixa

A fotografia começou em preto e branco e o cinema também. As primeiras fotografias coloridas só surgiram quando os irmãos Lumiere, com seu charme MAGAIVER, utilizaram fécula de batata para compor os seus Autocromos. (Os quais estão viajando pelo Brasil com a exposição Autocromos Lumiere - O Tempo da Cor. Já passou por Curitiba e agora estão em exposição, até o dia 7 de dezembro, no Palácio das Artes em Belo Horizonte).

Ao contrário do que eu imaginava, li num esclarecedor e muito completo artigo na Wikipédia que os filmes p&b atuais “têm uma grande gama de tonalidade, superior até mesmo aos coloridos, resultando em fotos muito ricas em detalhes. Por isso, as fotos feitas com filmes PB são superiores as fotos coloridas convertidas em PB“.

Não sou fotógrafa, não entendo bulhufas destes detalhes técnicos mais apurados, digamos; porém a impressão que se tem, ao menos no vídeo, é de que o preto e branco faz com que o público volte sua atenção inteiramente no significado da imagem, mais que na imagem propriamente dita. Aquele papo de ver “a alma da imagem” ou as expressões que uma boinice inspirada pode inventar. Partindo dessa idéia, a cor pode parecer um coadjuvante. Não é. A cor rouba tanto a nossa atenção que, quando é feito um filme, acredite, ela é totalmente planejada para ser um elemento narrativo que reforce a trama e não que o disperse.

Jean-Pierre Jeunet e Bruno Delbonnel ao pensar no tom sublime e “fabuloso” do filme de Amelie Poulain optaram por pintar seus frames com Verde, Vermelho e Amarelo. As mesas cores usadas nas obras do pintor brasileiro Juarez Machado, que serviu de inspiração para a Fotografia de sonho do filme.

Já Anton Corbijn ao filmar Control - a cinebiografia de Ian Curtis - optou pelo preto e branco por um motivo simples: Toda e qualquer memória que temos do Joy Division, assim como de Ian Curtis, é composta de imagens preto e branco. Dá uma olhada no álbum da banda no Last Fm , onde as fotos são upadas pelos fãs, e conte nos dedos as fotos coloridas. Eu conto pra você: UMA.

A única foto colorida do Joy Division é desbotada.

Videoclips são cinema em comprimidos, porções densas e apertadinhas de tudo o que o cinema pode oferecer esteticamente, fotograficamente, tecnicamente e artisticamente. Clips têm uma missão difícil, precisam se submeter à música e ser a síntese do que está tocando. Pelo menos é desejável que a estrela principal do vídeo seja o som. E escrevi todo esse bla bla bla whiskas sachê até aqui para justificar que certas músicas merecem um vídeo em preto e branco, ou só podem ser perfeitamente expressas nas imagens sem cor.

Caso, por exemplo do do The Big Pink para Velvet:

Download:

FLVMP43GP

Não simpatizo com a forma que a letra se apresenta, porém o preto e branco só reforça o tom de sonho das imagens (I found her in a dream/ looking for me/ Doesn’t make sense/ see her again) e a força que causa na nossa visão todos os braços amarrados (These arms are mine).

Imediatamente após ver este clip me surpreendi lembrando de outros clips onde o preto e branco os tornam memoráveis. Vai a lista!

10. Bob Dylan - Subterranean Homesick Blues / “Weird Al” Yankovic – Bob
Olha o valor histórico na sapucaí, gente! Em 1965 o fato é que não tinha outra maneira de fazer um vídeo que não fosse preto no branco. Ótimo uso do que se tinha nas mãos. Segue abaixo a homenagem marota do Weird Al Yankovic. Se não me engano uma banda tipo INXS ou A-HA fez uma cópia cuspida e escarrada, mas não me lembro do nome da música, nem dei o trabalho de procurar.

Download:

FLVMP43GP

9. The Raveonettes - Black and White
A Gap pediu para a Agência Rehab promover sua Coleção Primavera-verão. Resultado: 5 bandas cantando sobre 5 cores. O Preto no Branco ficou para o The Raveonettes, Chris Do fez o vídeo em animação usando de um universo infantil para retratar temas contrastantes como o amor e o ódio, a juventude e a velhice, o preto e o branco.

8. Beyoncé - Single Ladies (Put A Ring On It)
Para o Kanye West não fazer esta ceninha, não vou deixar a Beyonça de fora da lista. Acho este clip Single Ladies realmente muito bem feitinho, bonito, tudo perfeito, sincronizado, arrumadinho e frio. Ultimamente Beyoncé só aparece em vídeos black and white; se é para deixar a moça caucasiana, tá funcionando.

7. Madonna - Justify my Love
O clip de putaria mais cheio de finesse que já vi na vida.

6. The Cranberries – Linger
The Cranberries vem para o Brasil ano que vem e este clip me remete a minha infância com os meus primeiros chifrinhos de amores platônicos do Jardim de Infância. Na época eu via a novela A Viagem, tocava Linger quando aparecia a ruivinha de cabelo enroladinho que era casada com o Miguel Falabela e  - na minha memória – trocava ele por um cavalo. Bem… Chega das minhas memórias! Vamos ao clip que é o que interessa.

5. White Stripes – I just don’t know what to do with myself
I just don’t know o que falar sobre este clip. Gosto de pensar nele como a visão do cara que está cantando que Planning everything for two/ Doing everything with you/ And now that were through/ I just don’t know what to do, enquanto toma um tubão vendo a moça em questã, mas pensando em outra que só ele pode ver na mente, não nós.

4. Amy Winehouse – Back to Black
Amy Winehouse chora, esperneia, quebra os dentes e se enterra porque ela já “die a hundred times”, enquanto seu maridão volta para a outra, ela “go back to black”. Preto e Branco extremamente pertinentes.

3. Radiohead – Street Spirit
Acredito que os movimentos de câmera assim como a dança das luzes e do movimento das pessoas só atingiu o espírito da coisa (espírito da coisa hein? hein? hein? Street Spirit got? got? got?) pelo preto no branco. Se fosse colorido, nada feito.

2. Smashing Pumpkins – Disarm
O clip é tão perfeito, mas tão perfeito, mas tão perfeito que eu não tenho palavras para para expressar o quanto eu pago pau.

1. Cat Power - Nude as the News
Nude as the News é uma música difícil de entender, mas quando chega a hora e você percebe que está merecendo essa música, tenha certeza será uma hora angustiante. O vídeo explica tudo.

E mesmo depois dessa lista eu tenho certeza de que algo ficou faltando, mas eu não tô conseguindo me lembrar de nada agora. Mas sempre algo falta. Certo?

That’s all folks!

Oi, meu nome é Débora Avadore e eu não escrevi nestes meses porque eu tava vestibulando. Como eu não passei, o jeito é afogar as mágoas criando bunda vendo you tube.

Filosofia sem feitiços universais

13 de dezembro de 2009 5:11 pm

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Richard Rorty

Richard Rorty

O pensador Richard Rorty faz testamento-síntese das teses que defendeu durante sua carreira

Lucia Santaella

Bem-vinda a tradução do último livro, Filosofia Como Política Cultural, do filósofo neopragmatista norte-americano Richard Rorty (1931-2007), uma coletânea de ensaios, escritos entre 1996 e 2006 e publicados no original pouco antes da morte do autor.

Sem dúvida, um dos mais proeminentes filósofos da segunda metade do século 20, original, provocativo, sujeito a controvérsias e ataques, mas sempre genial, Rorty foi leitor voraz desde a infância. Conhecedor profundo de línguas e literatura, declarou que, inepto para pequenas conversas, por toda a vida preferiu os livros às reuniões sociais. De fato, seus escritos denunciam leituras infindas, o que lhe permitia mover-se com fluidez perturbadora de Wittgenstein a Heidegger, de Dewey a Derrida, ao mesmo tempo em que extraía ensinamentos de Proust e Nabokov ao lado de Kant e Nietzsche.

Arguto para o comentário de ideias, tinha sempre em vista a discussão de cruciais dilemas ético-políticos. Com aguda capacidade para a análise sagaz e irônica dos argumentos alheios, media milimetricamente suas validades ou suas incongruências. Dotado de lucidez desconcertante, sua escritura exibe um charme retraído, espirituosidade ágil e mordente, vertiginosa capacidade para analogias. Seu estilo marcante não é só de escritura, mas, sobretudo, de pensamento, apresentando um modo hábil e inimitável de se localizar entre diversos pensadores numa única sentença. Discursos menos talentosos, que tentam fazer isso, não passam de uma coleção de pastiches.

Rorty se declarava neossofista, intermediário socrático, polipragmático, ironista liberal. O filósofo, para ele, deve ser um intelectual público e um diletante informado. Politicamente, proclamava-se liberal romântico, cético em relação a quaisquer formas de radicalismo, confiante no fato de que reformas paulatinas podem fazer avançar a justiça econômica e aumentar as liberdades a serem usufruídas pelos cidadãos. Sua agenda política se orientava para o aprofundamento e expansão da solidariedade. A proposta deste seu último livro, traduzido por João Carlos Pijnappel, de que a filosofia funcione como uma política cultural, é uma espécie de testamento-síntese das teses que defendeu nas obras precedentes. Estava convicto de que a filosofia não é uma disciplina epistemológica privilegiada, cabendo-lhe desempenhar um papel político em meio às disputas que agitam a vida cultural.

AUSÊNCIA DE FÉ

Os grandes temas, que repetidamente enunciou em diferentes entonações críticas, estão voltados para a natureza da mente, para o conhecimento, a verdade, a ciência, a ética e os perenes - mas, para ele, inevitavelmente submetidos a contingências - problemas da linguagem e do significado. O que integra a variedade de seus temas em uma unidade é a ausência de fé de que possa haver qualquer descrição acabada da realidade sob o ponto de vista de um olhar divinizado, sob a perspectiva da eternidade.

Sua fama se expandiu pela influência que exerceu sobre as mais diversas áreas das humanidades e ciências sociais: literatura, direito, historiografia, psicoterapia, estudos da comunicação, teoria social. “Quanto mais a filosofia interage com outras atividades humanas - não apenas com a ciência natural, mas também com a arte, a literatura, a religião e a política - mais relevante para a política cultural ela se torna - e, portanto, mais útil. Quanto mais ela luta por autonomia, menos atenção ela merece.” Eis o lema que Rorty enunciava sem estremecer diante dos possíveis opositores.

Definia seu pragmatismo sob a rubrica de longas e pesadas palavras: antifundacionalismo, antirrepresentacionalismo e antiessencialismo. Mantendo-se fiel à tese explicitada no seu primeiro livro, A Filosofia e o Espelho da Natureza, argumentava que as discussões sobre mente, conhecimento e sobre a própria filosofia têm sido dominadas, há séculos, pela ideia de representação. Rorty acreditava que são as imagens, mais do que as proposições, as metáforas, mais do que as afirmações, que determinam a maior parte de nossas convicções filosóficas. A imagem que manteve cativa a filosofia tradicional é a da mente como um grande espelho que reflete a realidade. Segundo essa imagem, cabe ao conhecimento ocupar-se da precisão desse reflexo, enquanto à filosofia cabe desenvolver estratégias para obter esse conhecimento. Rorty, ao contrário, abandonou qualquer procura de correspondência entre pensamento-linguagem e mundo.

Tanto quanto John Dewey, seu herói filosófico pessoal, abominava os ninhos e ninhadas de dualismos que animaram o pensamento ocidental durante séculos e que, infelizmente, continuam robustos e vigentes. Como nos diz Paulo Ghiraldelli, um dos maiores estudiosos de Rorty no Brasil, isso começa pela idolatria da dicotomia do sujeito e objeto como guia das ciências naturais e sociais, um modelo metafísico que ajudou a manter, no âmbito da teoria do conhecimento, o dualismo neoplatônico e iluminista entre realidade-ilusão, essência-aparência, de que nem mesmo Marx se safou.

HORIZONTES

Em lugar da aspiração pelas essências suprassensíveis ou pelas profundidades inefáveis, para Rorty, a finalidade da investigação não é atingir a verdade, mas sim solucionar problemas, pois os horizontes da investigação estão em constante expansão. Portanto, todo trabalho filosófico deve direcionar-se para a busca de acordos intersubjetivos, sem a ilusão da promessa de validade universal. Essa é a chave da contribuição que pode ser prestada pelos filósofos para a conversação da humanidade consigo mesma. Uma conversação que segue caminhos imprevisíveis, mas sempre na mira da superação de problemas que não cessam de gerar novos problemas.

Por tudo que seu pensamento demoliu e por tudo que reconstruiu, Richard Rorty merece ser lido não apenas por aqueles que com ele concordam, mas, especialmente, por aqueles que dele discordam.

Lucia Santaella é coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital/PUC-SP

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Leituras para o verão

11 de dezembro de 2009 11:26 am

Listas com os melhores lançamentos em livros são uma ótima oportunidade para relembrar bons momentos vividos ao longo do ano - ou descobrir obras que marcaram a produção cultural. Neste brinde especial de fim de ano, que você recebe com a edição de dezembro de NOVA ESCOLA, confira alguns desses “novos clássicos” para curtir nos meses de recesso escolar.

Histórias extraordinárias de qualquer um

Foto: Paulo Vitale

Esta coletânea reúne 39 textos inéditos em livro da coluna A Vida Como Ela É, que Nelson Rodrigues escreveu durante dez anos para o jornal Última Hora. Com seu estilo inconfundível, ele tece crônicas sobre personagens atormentados e imprevisíveis. A morte é tema recorrente, assim como o sexo e suas maldições. Quase sempre em situações extremas, as pessoas comuns criadas pelo autor alternam finais trágicos e patéticos. Sem perdão, traem, matam, se jogam de edifícios e se aventuram no mais absurdo cotidiano. Não há como não reconhecer a genialidade de uma escrita única, que se impôs como um grande marco da literatura brasileira. Só um gênio para arrancar humor e poesia de situações terríveis e assustadoramente humanas.

Por que ler O Anjo Pornográfico, como é conhecido o escritor, é garantia de boa literatura, com tragédias e nenhuma redenção.

Sobre o autor De maldito e amaldiçoado, se tornou uma unanimidade nacional, porém nada burra.

Não Tenho Culpa Que a Vida Seja Como Ela É, Nelson Rodrigues, 264 págs., Ed. Agir, tel. (21) 3882-8200, 49,90 reais

Troca de ideias e impressões

Foto: Paulo Vitale

Gravadas para o rádio durante 1984 e 1985, as conversas entre os argentinos Borges e Ferrari chegam em três volumes: Sobre a Filosofia, Sobre a Amizade e Sobre os Sonhos. Neste, discorrem sobre o tempo, o mar e como sonhar é uma espécie de literatura.

Por que ler Para “ouvir” uma boa conversa entre homens eruditos e brilhantes.

Sobre os autores Borges é escritor, e Ferrari, jornalista.

Sobre os Sonhos e Outros Diálogos, Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari, 248 págs., Ed. Hedra, tel. (11) 3097-8304, 20 reais

Notícias da ilha de Fidel

Foto: Paulo Vitale

Uma coletânea de posts do aclamado blog Generación Y, escrito pela cubana eleita uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Com suas impressões sobre o cotidiano na ilha, Yoani Sánchez desvela um país sob censura.

Por que ler Traz uma visão crítica, ainda que por vezes bem-humorada, sobre Cuba.

Sobre a autora É formada em Filologia Hispânica.

De Cuba com Carinho, Yoani Sánchez, 208 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 33 reais

À espera da morte, com toque baiano

Foto: Paulo Vitale

A ilha de Itaparica, seus personagens divertidos e a sonoridade da linguagem do povo estão de volta, para a felicidade dos (muitos) fãs de João Ubaldo Ribeiro, que em 2009 comemora 50 anos de carreira. Ao contar a história de Tertuliano, um homem à espera da morte iminente, este romance generoso se embrenha com simplicidade nos mistérios incontornáveis da vida. É uma obra serena, mas que celebra a velhice e a renovação, sem cinismos e autopiedade. Como velhos conhecidos, os personagens se apresentam repletos da peculiar baianidade, travando diálogos que alternam pureza e malícia. Um livro que sabiamente se autodefine como “eloquente e silencioso”, pois é conduzido por uma prosa rica e madura a serviço de reflexões que calam na alma de todos nós.

Por que ler É o retorno, após sete anos sem publicar, de um dos grandes nomes da nossa literatura.

Sobre o autor Vencedor em 2008 do Prêmio Camões, o maior da língua portuguesa, e imortal da Academia Brasileira de Letras.

O Albatroz Azul, João Ubaldo Ribeiro, 224 págs., Ed. Nova Fronteira, tel. (21) 2131-1111, 39,90 reais

Em foco, o filho de Adão e Eva

Foto: Paulo Vitale

Uma nova releitura da Bíblia feita pelo autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O caim (em minúscula, assim como deus) da história presencia as sagas do Velho Testamento, como o dilúvio e a ordem dada a Abraão para sacrificar seu filho.

Por que ler É uma publicação polêmica de autoria de um escritor consagrado e ateu.

Sobre o autor Português, ganhou o Nobel de Literatura em 1998.

Caim, José Saramago, 176 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 36 reais

Amor sem limite de idade

Foto: Paulo Vitale

A história do casal que se reencontra ao longo da vida, com idades distintas e sem ordem cronológica, já chegou aos cinemas (Te Amarei para Sempre). Mas o filme não traduz a sutileza desse livro, em que o amor se fortalece enquanto viaja no tempo.

Por que ler O livro vendeu mais de 5 milhões de exemplares em todo o mundo.

Sobre a autora Norte-americana, tem nova obra chegando ao Brasil.

A Mulher do Viajante no Tempo, Audrey Niffenegger, 456 págs., Ed. Suma de Letras, tel. (21) 2199-7824, 49 reais

Curiosidades por trás da música

Foto: Paulo Vitale

Aproveitando a amizade de muitos anos com Chico Buarque, Wagner Homem colecionou informações em torno da criação das músicas que imortalizaram em vida o grande compositor. Ordenadas cronologicamente, essas intimidades são apresentadas dentro de um contexto histórico que ajuda a entender como a obra musical de Chico está diretamente ligada aos últimos 50 anos de nosso país. Anedotas, fofocas, fotos e algumas preciosidades fluem acompanhadas das principais letras. O leitor fica sabendo que o escritor Nelson Rodrigues, ao ouvir Carolina, achou-a tão linda que sentiu vontade de sair de casa, sentar-se no meio-fio e começar a chorar. Já o autor da canção simplesmente detesta a música, feita para pagar uma dívida com a TV Globo.

Por que ler Representa um amplo painel da obra de Chico Buarque, escrito em um estilo simples e direto.

Sobre o autor “Deformado”, como ele mesmo diz, em administração de empresas, é curador do site oficial do artista.

Histórias de Canções - Chico Buarque, Wagner Homem, 356 págs., Ed. Leya Brasil, tel. (11) 3129-5448, 44,90 reais

Uma vida é uma vida ou duas vidas

Foto: Paulo Vitale

A obra é o único best-seller dessa norte-americana, mais conhecida por seus experimentalismos (é dela o antológico verso “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”). Mesmo assim, subverte o conceito de autobiografia e adota o artifício de narrar a própria vida pela voz de uma terceira pessoa. No caso, sua companheira durante 25 anos, Alice. O casal, em sua casa, em Paris, recebeu o que viria a ser a expressiva geração de gênios expatriados entre a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929. As duas conviveram com Pablo Picasso, Henri Matisse, James Joyce, Vaslav Nijinski, Ernest Hemingway, Jean Cocteau e Guillaume Apollinaire, quase todos ainda jovens e desconhecidos. Na narrativa, a autora leva os leitores até essa magnífica sala de estar.

Por que ler Conta a biografia de uma das mais importantes escritoras de língua inglesa.

Sobre a autora Escritora, poetisa e feminista, inscreveu seu nome na vanguarda literária do século 20 em seu período mais intenso.

A Autobiografia de Alice B. Toklas, Gertrude Stein, 288 págs., Ed. Cosac Naify, tel. (11) 3218-1444, 59 reais

Sociedade degradada

Foto: Paulo Vitale

Uma típica família do interior dos Estados Unidos serve de microcosmo para a crítica ao capitalismo nesta peça de 1939. Os personagens agem como predadores (as “pequenas raposas” citadas nos Cânticos, da Bíblia), em uma rapina inclusive moral.

Por que ler Exemplo da moderna dramaturgia norte-americana.

Sobre a autora Engajada, também escreveu vários roteiros de cinema.

As Pequenas Raposas, Lillian Hellman, 168 págs., Ed. José Olympio, tel. (21) 2585-2070, 29 reais

É impossível ser feliz sozinho

Foto: Paulo Vitale

Famoso pelo site malvados.com.br, um fenômeno dos quadrinhos online, Dahmer reúne aqui o melhor do que fez nos últimos dois anos. Expõe seus personagens (e a si mesmo) ao ridículo e desmascara a solidão que apequena o homem contemporâneo.

Por que ler Filosofia com humor inteligente e cáustico.

Sobre o autor Formado em Desenho Industrial, é pintor e quadrinista.

A Cabeça É a Ilha, André Dahmer, 200 págs., Ed. Desiderata, tel. (21) 3882-8200, 34,90 reais

Leitura para o final de semana

7:59 am
ERICK J. HOBSBAWM - Companhia das Letras. Autobiografia narra o século vivido por ele, do fim da 1.ª Guerra ao crescimento do PT

ERICK J. HOBSBAWM - Companhia das Letras. Autobiografia narra o século vivido por ele, do fim da 1.ª Guerra ao crescimento do PT

TEMPOS INTERESSANTES: uma Vida no Século XX

O discurso de Obama em Oslo, ontem, ao receber o Nobel da Paz, pode ser encaixado como o lamento que, segundo Hobsbawn na obra “A Era dos Extremos”, caracteriza o final do século XX, o que transportaria o final daquele século para o dia 10 de dedembro de 2009. Nada de novo sob o sol.

Um provérbio chinês sugere que, quando não se gosta de alguém, deve-se sugerir que a pessoa viva “tempos interessantes”. A ironia deu o título da autobiografia do historiador britânico Eric J. Hobsbawm, que se tornou conhecido do público por suas “eras” - A Era das Revoluções, A Era do Capital e, principalemente, A Era dos Extremos - embora já fosse um autor importante entre seus pares, especialmente entre os que estudam as ideias marxistas.

O autor de Tempos Interessantes, nasceu em Alexandria (Egito) em 1917, numa família judaica, embora quase nada recorde de lá. “Nada absolutamente me recordo a respeito, exceto, talvez, uma gaiola de passarinhos no zoológico de Nouzha e um fragmento estropiado de uma canção infantil grega, provavelmente cantada por uma babá daquela nacionalidade.” Viveu seus primeiros anos em Viena (Áustria), passou por Berlim (Alemanha), mudou-se para Londres (Inglaterra) com o fim da República de Weimar.

Atravessou praticamente o mesmo período de sua Era dos Extremos - que começa com a Revolução Russa de 1917 e termina com o fim da União Soviética. “Esse meu livro contava uma história com uma visão de fora, embora eu tenha, vez ou outra, a ilustrada com minhas experiências; minha autobiografia narra o mesmo período, a partir de um ponto de vista interno”, afirma ele.

“Infelizmente, acho que ainda vivemos tempos interessantes”, diz ele. O século 20, na sua opinião, teve ao mesmo tempos bons e maus. “Se foi o período em que mais pessoas morreram em guerras, também chegamos ao fim do século com uma população três vezes maior, algo nunca antes possível, e as pessoas vivem melhor do que em qualquer outro momento da história humana.”

Para Hobsbawm, é possível que os futuros historiadores utilizem o atentado de 11 de setembro para marcar o início de um novo século, mas apenas por uma questão de conveniência: ele aconteceu em 2001, ano em que, também de acordo com os matemáticos, o século começou. “A grande mudança ocorrida com o 11 de setembro é que, desde o fim da guerra fria (1991), acabara a divisão do mundo em duas potências, mas não havia uma clara reorganização do mundo.
Depois de 11 de setembro, os EUA passaram a se declarar a única potência hegemônica.”

Segundo Hobsbawm, seu novo livro, de um certo modo, complementa o anterior.

Juntos, dão uma forma à história do século 20. “Quando publiquei A Era dos Extremos, amigos e familiares sugeriram-me que eu fizesse uma autobiografia.

Mas decidi mesmo a pedido de meu editor.”

Embora não tenha sido um refugiado judeu em sentido estrito - Hobsbawm defende que sua família via toda a Europa Ocidental como um lugar para viver, não tendo um sentimento nacional que os ligasse especialmente a nenhum país -, o historiador freqüentou momentos fundamentais do século 20.

Já era um militante comunista em 1933, quando Hitler sobe e alcança o poder absoluto. Com o boicote aos negócios de judeus e também com a repressão violenta aos comunistas - depois do incêndio do Reichstag, os campos de concentração são institucionalizados -, Hobsbawm parte para Londres. Só se filiaria oficialmente ao Partido (”sempre pensávamos nele com letra maiúscula”) em 1936, quatro anos depois de ler o Manifesto Comunista.

Durante a 2.ª Guerra Mundial, lamentou-se do fato de não ter se engajado diretamente - sua passagem por Viena, em especial, e a militância comunista, para completar, eram características suspeitas na Inglaterra de então.

Mas claro, há também espaço para questões familiares. Afinal, em 1931, dois anos depois da morte de seu pai, Leopold Percy, morre sua mãe, Nelly. E o menino vai a Berlim. Como biografia, as questões pessoais obrigatoriamente se misturam com os grandes movimentos da história.

Stalinismo - Em A Era dos Extremos, Hobsbawm não menciona os processos de Moscou, a última etapa de “depuração” do sistema soviético, com a condenação à morte de vários dissidentes. Os processos também não são um assunto especial dessa autobiografia. “Não acho que fossem algo importante em si na história da União Soviética”, diz ele. “O que procurei mostrar foi o terror e os sacrifícios a que Stalin submeteu a população soviética, embora eu mesmo estivesse enganado na época pela propaganda soviética”, diz o historiador.

Como explicar a ascensão de um personagem como Stalin? “Quando os comunistas chegam ao poder, em 1917, não se viam qualidades nos regimes liberais. Eles tiveram de operar em circunstâncias muito difíceis e seria quase impossível não se instaurar um regime duro”, afirma ele.

“Stalin”, continua, “foi um ditador particularmente cruel e muitas vezes na história do século 20 os regimes autoritários evoluíram para ditaduras pessoais, caudilhescas. Mas há uma grande diferença entre a União Soviética de Stalin e a de Brejnev”. “Espero que no século 21 não voltem a haver ditaduras pessoais.”

Um dos 23 capítulos de Tempos Interessantes trata da relação entre os historiadores comunistas, um grupo que atuou entre 1946 e 1956 na Inglaterra e que inclui nomes como E.P. Thompson e Christopher Hill. “Acho que nós aprendemos muito uns com os outros, porque não havia, com exceção de Maurice Dobb, que era mais velho, nenhum mestre entre nós. Eu e Hill compartilhávamos o mesmo gosto, o de contar a história de pessoas comuns.

Thompson também seguiria esse caminho mais tarde, depois de deixar o PC, mas, naquela época, estava mais preocupado com a literatura.”

Um outro capítulo é dedicado à América Latina, especialmente aos países de língua espanhola, onde Hobsbawm fez parte de suas pesquisas, embora ele também fale do Brasil.

Depois de dizer que, desde a Revolução Cubana, nenhuma experiência política que observou teve conseqüência duradoura, ele escreve que só duas poderão fazê-lo: a ascensão do PT no Brasil (a obra foi concluída em fevereiro de 2002) e a derrota do PRI no México, em 2000. Ele escreve: “‘Lula é provavelmente o único operário industrial a chefiar um partido trabalhista em qualquer lugar. É um exemplo tardio de um partido trabalhista e movimento socialista de massa clássico, como os que emergiram na Europa antes de 1914.

Levo seu distintivo em meu chaveiro para recordar simpatias antigas e contemporâneas e lembranças de meus momentos com o PT e com Lula, freqüentemente tocantes, às vezes emocionantes, como as histórias dos ativistas de base das fábricas de automóveis de São Paulo e das aldeias remotas do interior.”

Na entrevista, Hobsbawm afirmou que a eleição de Lula é um evento de grande importância na história do Brasil. “É uma vitória sem precedentes, só comparável ao que ocorreu em alguns momentos na Europa.” Na sua opinião, a escala da vitória de Lula tem também um significado especial e indica que o PT representou nessa eleição não apenas os trabalhadores, mas também outras classes sociais. “Lula terá de fazer um governo menos radical, o que não significa traição”, diz ele. “Enfrentará severas limitações, tanto externas quanto internas, e as expectativas realistas devem ser modestas.”

TRECHO

Os meses que passei em Berlim me tornaram comunista para o resto da vida, ou pelo menos me transformaram em alguém cuja vida perderia a natureza e o significado sem o projeto político a que se dedicou quando estudante, ainda que visivelmente esse projeto tenha falido - e, como agora sei, somente poderia falir. O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera de que os técnicos o recuperem dos discos rígidos. Abandonei-o, ou melhor, rejeitei-o, mas não foi eliminado.

Até hoje me vejo tratando a memória e a tradição da União Soviética com uma indulgência e uma ternura que não sinto em relação à China comunista, porque pertenço à geração para a qual a Revolução de Outubro representava a esperança do mundo, o que nunca foi verdade quanto à China. A foice e o martelo da União Soviética eram seu símbolo. Mas o que poderia ter transformado aquele menino de escola de Berlim em comunista?

Escrever a autobiografia significa pensar em si próprio como nunca antes. No meu caso é raspar as camadas geológicas de três quartos de século e resgatar, ou descobrir, um desconhecido sepultado, reconstruindo-o. Olhando para trás e procurando compreender essa criança remota e estranha, chego à conclusão de que, se tivesse vivido em outras circunstâncias históricas, ninguém lhe vaticinaria um futuro de apaixonado engajamento político, emborar qualquer observador lhe pudesse predizer um futuro como intelectual de alguma espécie. Não parecia se interessar especialmente pelos seres humanos, tanto individual quanto coletivamente, e certamente eles o interessavam menos do que os pássaros. Na verdade, dá a impressão de que aquele menino se distanciava mais do que o normal dos assuntos mundanos. Não tinha motivos pessoais para rejeitar a ordem social e não se sentia vítima nem mesmo do anti-semitismo comum da Europa Central, pois pelos cabelos alourados e olhos azuis era identificado não como Der Jude, e sim com Der Engländer. Numa escola alemã, levar a culpa pelo Tratado de Versalhes podia ser duro, mas não era aviltante. As atividades para as quais eu espontaneamente gravitava, numa escola em que sem dúvida me sentia bem, nada tinham a ver com política: a sociedade literária, o clube náutico, a história natural, as maravilhosas excursões no Mark Brandenburg e Mecklenburg, os campamentos ou as noites passadas nos albergues de juventude em colchões de palha, onde conversávamos até de madrugada, cheios de alegria e paixão. Conversando sobre o quê? Sobre tudo, desde a natureza da verdade até nossa identidade, desde sexo e mais sexo até literatura e arte, de gracejos a destino. Porém não sobre a política da época. Pelo menos assim recordo aquelas noitadas inesquecíveis. Certamente não tenho memória de discussões políticas, e muito menos desacordo, com meus dois amigos mais chegados, Ernst Wiemer e Hans-Heinz Schroeder (o poeta da turma, que morreu na Rússia durante a guerra). Não sei bem o que tinha em comum com eles. Simplesmente registro que na fotografia da formatura de minha turma, em 1936, estavam eles entre os únicos quatro, dentre 23 alunos e dois professores, que apareciam em mangas de camisa, sem gravata. Sem dúvida isso não era uma atitude política.

ONG manda carta contra censura ao governo brasileiro

6 de dezembro de 2009 10:42 am
censura
Repórteres sem Fronteiras alerta para censura ao Estado, perseguição a blogs e prisão de jornalista

Moacir Assunção, de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - A organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras mandou uma carta aberta ao governo brasileiro para pedir a intervenção federal em alguns casos que envolvem liberdade de expressão - entre eles a censura imposta ao Estado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF). São citados, também, o caso do jornalista Antônio Muniz, comentarista de TV e colunista do jornal O Rio Branco, preso no Acre por supostas ofensas ao senador Tião Viana (PT), e de dois blogs tirados da internet por ordem judicial.

Na correspondência, assinada pelo secretário-geral Jean-François Julliard e endereçada aos ministros Tarso Genro (Justiça) e Hélio Costa (Comunicações), a ONG denuncia que o jornalista acreano está preso em Rio Branco com base na Lei de Imprensa, extinta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em maio deste ano.

O documento também condena a censura ao Estado, a partir de liminar obtida pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) e deplora a proibição de circulação dos blogs www.prosaepolitica.com.br, da jornalista Adriana Vandoni, e do www.paginadoenock.com.br, de Enock Cavalcanti, pela Justiça de Mato Grosso, a pedido do deputado e presidente da Assembleia Legislativa, José Geraldo Riva (PP), que teria sido criticado pelos jornalistas. A mordaça ao Estado é citada com destaque na carta, em uma crítica à decisão do TJ-DF, que determinou o envio do processo à Justiça do Maranhão.

“Transferir o processo para um tribunal do Estado do Maranhão, cuja governadora, Roseana Sarney, é irmã de (Fernando) Sarney, leva a um flagrante conflito de interesses”, afirma Julliard na carta. Fernando, que entrou com a liminar pedindo censura ao Estado, foi investigado pela Polícia Federal na Operação Boi Barrica e indiciado por vários crimes.

Os casos, para a ONG, representam “um ataque direto ao princípio da liberdade de expressão e opinião consagrado na Constituição democrática de 1988″. Depois de ser condenado a um ano de prisão, em 2002, sob a acusação de difamar Viana em um artigo de 1999, Muniz conseguiu que a pena fosse suspensa. Na quarta-feira, entretanto, foi preso.

Avanços

A ONG reconhece que houve avanços em termos de liberdade de imprensa no Brasil, mas isso ainda não se refletiu nos Estados e na Justiça. “A soberania dos Estados individuais em um sistema federal só é aplicável enquanto princípios constitucionais fundamentais não sejam violados”, afirma a ONG no documento.

Procuradas, as assessorias dos ministros Tarso Genro e Hélio Costa não retornaram aos telefonemas.

Grupo LEFIS e Universidad de Zaragoza em Curitiba

30 de novembro de 2009 1:58 pm

Após o 8º Encontro Íbero Latino Americano de Governo Eletrônico, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC de 17 a 19 de novembro de 2009, estiveram em Curitiba-PR do dia 22 a 28 de novembro de 2009 os Profs. Fernando Galindo e Manuel Vásquez (Universidad de Zaragoza e LEFIS  - Legal Framework for the Information Society), a fim de cumprirem uma agenda intensa no âmbito dos Projetos eGobs e Law&ICT Virtual Shared Campus, além de darem continuidade ao Programa Amaricampus a partir do convênio institucional firmado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR e a Universidad de Zaragoza.

Abaixo está o relato das principais atividades havidas em Curitiba:

Segunda-feira (23.nov.)

9hs00 - conferência do Prof. Fernando Galindo para os alunos da PUC/PR

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14hs00 - atividades relacionadas aos programas de Governo Eletrônico e Inclusão Digital realizados pela Prefeitura de Curitiba-PR, cuja programação foi conduzida por Luiz Fernando Ortolani, da Assessoria de Planejamento da Secretaria Municipal de Administração (Smad), conforme abaixo:

Notícia do site do Instituto Curitiba de Informática - ICI

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Da esq.: Vásquez, Galindo, Hansel e Cella - Foto: Eveline Martins

Professores de Zaragoza visitam ICI

O ICI recebeu nesta segunda-feira (23) os professores Fernando Galindo e Manuel Vásquez, da Universidade de Zaragoza, Espanha. A visita é fruto de parceria entre essa universidade e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, que criaram o convênio e-Gov. Segundo José Renato Cella, da PUC, há um projeto de se criar um observatório de governo eletrônico entre universidades.
Para isso, primeiramente, os espanhóis foram recebidos no Brasil e, futuramente, novos intercâmbios devem ser agendados. A visita foi conduzida por Luiz Fernando Ortolani, da Assessoria de Planejamento da Secretaria Municipal de Administração (Smad).
No ICI, os professores foram recebidos pelo diretor administrativo e financeiro, Lucio Alberto Hansel, que apresentou o Instituto como o “centro de informações da Prefeitura de Curitiba”, pelo desenvolvimento e manutenção dos sistemas da estrutura municipal e o armazenamento dos bancos de dados. Hansel destacou que os projetos desenvolvidos pelo ICI, em parceria com a Assessoria Técnica de Informações da Prefeitura (ATI), têm como foco “gestão voltada ao cidadão”.
Fernando Galindo e Manuel Vásquez, professores de direito e matemática, respectivamente, acompanharam apresentação do projeto Sala de Situação, monitoramento eletrônico e outras ferramentas que compõem o Centro Integrado de Informações Estratégicas (CIIE), como a Central 156, Central de Relacionamento Municipal, Geoprocessamento e Business Intelligence.
Para Galindo, “o interesse é de realizar estudos, mostrar a Zaragoza os serviços que existem e as possibilidades que eles permitem”. O professor ficou impressionado com as apresentações, com aplicações que, segundo ele, “nem sabia que existiam”. “Esperamos tomar ações conjuntas e buscar mais conhecimento para prepararmos nossos estudantes, para que eles possam utilizar corretamente todas essas informações”, disse.
Antes de conhecer o ICI, os professores estiveram na Smad, onde foram recebidos pelo secretário José Richa Filho, que lhes apresentou o plano de governo, dando destaque aos projetos de inclusão digital. Na sequência, conheceram um Farol do Saber e uma das unidades do Liceu de Ofícios.
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Vásquez, Galindo e Ortolani
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Galindo, Ortolani e Vásquez no Farol do Saber Machado de Assis
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Vásquez, Ortolani e Galindo no Farol do Saber Machado de Assis
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Vásquez, Cella e Galindo no Liceu do Ofício do Pilarzinho

18hs00 - reunião com o Grupo de Pesquisa “Gestão da Informação e do Conhecimento e Inovação“, do Programa de Pós-Graduação em Administração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, conforme abaixo (mais informações no blog do grupo):

Fotos por Victoria Kianu

O Grupo recebeu a primeira vista internacional de 2009, a Universidade de Saragoça (Espanha).
O professor adjunto do Curso de Direito, José Ranato Gaziero Cella, iniciou sua fala expondo sobre o convênio da Universidade de Saragoça com a PUC/PR e em seguida apresentou o professor Dr. Fernando Galindo Ayuda, Presidente da Rede LefisRede Jurídica para a sociedade da informação da União Europeia.
O Professor Galindo apresentou a instituição que representa, falou da importância deste convênio com a PUC/PR e de seus principais projetos.

Em seguida o professor Quandt apresentou uma visão geral do Grupo de Pesquisa e os principais projetos realizados e em desenvolvimento.
A Professora Maria Alexandra falou dos projetos envolvendo Governo Eletrônico.
O Professor Denis fez uma breve exposição sobre  projetos em Gestão do Conhecimento nas prefeituras.
Em seguinda: Beatriz, Diego, Iris e Cícero  falaram rapidamente das suas atuais pesquisas.
A Professora Maria Alexandra fez a apresentação do Observatório de Práticas de TI na Gestão Pública.
A reunião foi encerrada às 20h30.
Estavam presentes:
Professora Maria Alexandra
Professor Damião
Professor Denis
Professor Jansen
Professor Kato
Professor Quandt
Annya
Bia
Cícero
Diego
Iris
Marcelo
Osvaldo
Paulo Muro
Thiago
Victória

Terça-feira (24.nov.)

9hs00 - reunião com a Direção dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação do Curso de Direito da PUC/PR, em que estiveram presentes, além de Galindo, Cella e Vásquez, a Diretora e a Vice-Diretora da graduação em Direito, Profs. Maristela Denise Marques de Souza e Amélia Sampaio Rossi, respectivamente; a Diretora do Programa de Pós-Graduação em Direito - PPGD, Prof. Fabiane Lopes Bueno Bessa; as Profs. Claudia Maria Barbosa e Carla Pucci. Na reunião foi tratado do convênio firmado entre a Universidad de Zarazoza e a PUC/PR a fim de que se dê início à mobilidade de alunos entre as Faculdades de Direito de ambas as Universidades; além de se ter tratado dos projetos em curso acerca do Governo Eletrônico e do Campus Global, tudo com o intuito de que seja dado início a ações conjuntas de pesquisa nesses temas.

14hs00 - reunião na Justiça Federal em Curitiba-PR, em que Galindo, Vásquez e Cella foram recebidos pelo Diretor da Seção Judiciária do Paraná, Juiz Federal Danilo Pereira Junior; e pelo Juiz Federal Nivaldo Brunoni, Titular da 3ª Vara Criminal Federal de Curitiba-PR. Na reunião foi tratado do projeto de Observatório do Governo Eletrônico no âmbito judicial que vem sendo conduzido pelo Grupo LEFIS, ocasião em que os magistrados expuseram a forma pela qual o Processo Judicial Eletrônico está sendo implantado na Justiça Federal, especialmente pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Após as explanações iniciais, o grupo foi conduzido à seção de informática do Foro, onde foram efetuadas demonstrações do funcionamento do processo eletrônico.

16hs00 - reunião na CELEPAR - Informática do Paraná sobre as ações de eGOV do Estado do Paraná, em que Galindo, Vásquez, Javier Mur e Cella  foram recebidos por Claudio Dutra e o staff técnico da empresa, ocasião em que se tratou do projeto de Observatório do Governo Eletrônico que vem sendo conduzido pelo Grupo LEFIS, bem como das ações do Governo do Estado do Paraná acerca de softwear livre e serviços de eGOV que estão sendo implantados no Paraná.

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19hs30 - conferência do Prof. Fernando Galindo para os alunos da PUC/PR

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Fernando Galindo

Fernando Galindo

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LAW&ICT Shared Virtual Campus

Quarta-feira (25.nov.)

09hs00 - reunião no Parque Tecnológico da PUC/PR, onde Galindo, Vásquez e Cella foram recepcionados por Juliana e Claudé, responsáveis pelo desenvolvimento das plataformas de Ensino à Distância da PUC/PR a fim de que o Grupo LEFIS venha a ser integrado ao sistema. Na ocasião se fez a demonstração do funcionamento da Plataforma Eureka.

10hs45 - encontro com o Prof. Álvaro Amarante, que é Diretor do Núcleo de Intercâmbio Universitário & Relações Internacionais da PUC/PR, após o que Galindo, Vásquez, Cella e Amarante foram recebidos na Reitoria pelo Prof. Vice-Reitor Paulo Mussi Augusto, ocasião em que foram externados os compromissos mútuos de cooperação entre a Universidad de Zaragoza e a PUC/PR.

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Galindo, Vásquez e Amarante

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14hs00 - apresentação institucional da PUC/PR com os Profs. Álvaro Amarante e Anelise Hofmann

15hs00 - visita ao campus (biblioteca, centros e parque tecnológico) com os Profs. Álvaro Amarante, Anelise Hofmann e José Renato Cella

Galindo, Amarante, Vásquez e Cella

Galindo, Amarante, Vásquez e Cella

Galindo, Amarante, Hoffman e Vásquez

Galindo, Amarante, Hoffman e Vásquez

17hs00 - reunião com a Direção do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná - UFPR, em que Galindo, Vásquez e Cella foram recebidos pelos Profs. Cesar Antonio Serbena e Vera Karam de Chueiri, ocasião em que foram apresentados os projetos em curso do Grupo LEFIS e iniciadas conversações para possíveis convênios futuros entre LEFIS e UFPR.

Galindo, Vásquez e Serbena

Galindo, Vásquez e Serbena

Galindo, Vásquez, Serbena e Karam

Galindo, Vásquez, Serbena e Karam

Quinta-feira (26.nov.)

9hs00 - reunião com os responsáveis pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da PUC/PR, em que Galindo, Cella, Marilena Indira Winter (decana adjunta do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais da PUC/PR - CCJS) e Roberto Linhares da Costa (decano do CCJS) foram recebidos pelos Profs. Rodrigo José Firmino e Klaus Frey, ocasião em que foram tratados temas para futura pesquisa conjunta com o Grupo LEFIS na área do Observatório do Governo Eletrônico.

Galindo, Frey, Firmino e Winter

Galindo, Frey, Firmino e Winter

Galindo, Frey, Firmino e Winter

Galindo, Frey e Firmino

14hs00 - reunião com as empresas Kerygma e Auspex, em que Galindo, Cella e Vásquez foram recebidos por Marcelo Kimura (Auspex) e da empresa Kerygma por Paulo Alberto Bastos Júnior, Rodrigo Gomes Marques Silvestre e Juliana Vieira Pelegrini, ocasião em que foram adiantados os projetos de cooperação e trabalhos conjuntos entre essas empresas e o Grupo LEFIS no que se refere ao Observatório de Governo Eletrônico na América Latina e na Europa.

Galindo, Vásquez, Bastos Jr., Silvestre, Kimura e Pelegrini

Galindo, Vásquez, Bastos Jr., Silvestre, Kimura e Pelegrini

Pelegrini, Kimura, Silvestre, Bastos Jr., Vásquez e Galindo

Pelegrini, Kimura, Silvestre, Bastos Jr., Vásquez e Galindo

Além dessa programação, o Prof. Manuel Vásquez ministrou um Curso de 20 (vinte) horas aos alunos dos 5º e 9º períodos da Graduação em Direito da PUC/PR (campi Curitiba e São José dos Pinhais), em que foram tratados os temas “Assinatura Eletrônica” e “Democracia, Teorema de Arrow e Sistemas Eleitorais“.

Assinatura Eletrônica

Manuel Vásquez

Manuel Vásquez

Democracia, Teorema de Arrow e Sistemas Eleitorais

Como visto, a semana foi bastante produtiva e em seguida haverá muito trabalho para que sejam extraídos resultados efetivos dos projetos de cooperação, pesquisa e desenvolvimento de produtos que estão em curso e aqueles que resultarão das tratativas iniciais com os diversos órgãos públicos e programas acadêmicos que tiveram contato com o Grupo LEFIS.

Newton da Costa - 80 anos

18 de novembro de 2009 10:38 pm

Newton da Costa, 80 anos de vitalidade e prazer em ensinar

16 de Novembro de 2009

Inspiração: mais de 30 mil citações em obras

Um dos maiores cientistas brasileiros contribui com o Grupo de Lógica do CFH
Um dos maiores matemáticos e filósofos brasileiros, de reputação internacional, está trabalhando na UFSC há mais de seis anos.

Professor titular aposentado da USP, Unicamp e catedrático da Universidade Federal do Paraná, Newton da Costa é professor visitante da UFSC, onde tem colaborado com o Grupo de Lógica e Fundamentos da Ciência do Núcleo de Lógica e Epistemologia do Departamento de Filosofia.

Com 80 anos recém-completados, o professor Newton recebeu, em agosto passado, o título de professor emérito da Unicamp, como reconhecimento dos relevantes serviços prestados àquela instituição.

Graduado em Engenharia Civil e ainda detentor de um bacharelado e uma licenciatura em Matemática, todos pela UFPR, o docente ficou reconhecido internacionalmente por suas contribuições no campo dos sistemas lógicos paraconsistentes, que, a grosso modo, contesta princípios da lógica clássica como o da contradição e entende que uma sentença e sua negação podem, ambas, ser verdadeiras.

“Eu adoro o que faço”, comenta o professor Newton para explicar a disposição e a energia que ficam evidentes quando se tem contato pessoal com ele.

Ao Boletim da Apufsc, recebido pelo matemático e filósofo no dia 5 de novembro, ele explicou que se mudou para Florianópolis por razões pessoais e familiares:

– Estou aqui há quase seis anos. Vim para cá não somente porque vários de meus ex-alunos estão lecionando aqui, como os professores Décio Krause e Antonio Coelho, do Departamento de Filosofia, mas também porque meus filhos moravam aqui. Um deles, Newton Costa Jr., é professor no curso de Economia. Em virtude disso e porque em São Paulo estava com problemas de saúde por causa daquela poluição, eu vim para cá.

Como aposentado, o professor Newton não pode ser remunerado pela UFSC, “mas estou como uma espécie de professor visitante com uma bolsa do CNPq”, esclarece. Assim, ele tem colaborado com a universidade, dando cursos, ministrando conferências, orientado estudantes, não somente com o Departamento de Filosofia, mas também com o Departamento de Matemática. “Estou muito feliz. Desde que saí de São Paulo, eu remocei, pelo menos consigo respirar direito”

Para Newton da Costa, a UFSC e a Unicamp são os locais com os quais podem colaborar mais efetivamente, onde se concentram “grupos de discípulos” seus. “São pessoas que trabalharam muito comigo. Os professores Décio Krause e Antonio Coelho fizeram doutorado comigo em São Paulo. Além de outros ex-alunos ou pessoas às quais estou ligado de outros departamentos. Estou muito contente, muito satisfeito e espero que nosso grupo de Lógica e Fundamentos da Ciência (http://www.cfh.ufsc.br/~logica/) possa progredir, se ampliar e a gente possa fazer uma escola aqui”.

Na UFSC, o professor Newton tem ministrado seminários de pesquisa para a pós-graduação, com auxílio dos professores Décio Krause e Antonio Coelho. “Não estou mais envolvido no ensino de graduação. Tenho colaboradores na matemática, pessoas da área da Física e muitos professores estrangeiros que têm vindo à UFSC. Nosso grupo não é só local, mas que têm relações com outros grandes grupos na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Austrália”, ressalta Newton.

Os seminários fazem parte de uma disciplina do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, mas também é aberto a todos os interessados. “É um prazer receber quem quer que seja”, diz o professor Newton. “Tecnicamente, é um seminário para ganhar créditos para concluir o pós-graduação. Uma grande parte do trabalho do grupo é orientar teses. Muitos alunos brilhantes já passaram aqui e defenderam suas teses e agora nós estamos pensando em desenvolver um programa de doutorado”, esclarece ele.

SATISFAÇÃO – Krause, do Departamento de Filosofia e coordenador do Grupo de Lógica e Fundamentos da Ciência, ressalta a importância da contribuição de Newton Costa para o pós-graduação:

- É uma satisfação muito grande tê-lo aqui. Ele já tem publicado muito com o nome de nossa universidade e está pondo o nome da UFSC no contexto internacional. Além de ser uma pessoa da qual gostamos muito, cientificamente ele é um fenômeno.

O professor explica que há no departamento “um Núcleo de Epistemologia e Lógica e dentro deste núcleo existem algumas unidades específicas de acordo com os interesses de seus integrantes, como, por exemplo, Filosofia da Linguagem, Metafísica, e, em particular, o nosso grupo, de fundamentos da ciência”.

O grupo é catalogado no diretório de pesquisas do CNPq e conta também com a colaboração de pessoas de outras universidades, do Brasil e do exterior. “Estamos agora com o encontro da Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), em maio, em Canela (RS). Haverá uma sessão de Filosofia e Fundamentos da Física, patrocinada por vários grupos, inclusive, os núcleos das universidades de Bruxelas, Buenos Aires, Cagliari e o nosso grupo da UFSC. Nós já trabalhamos com os argentinos. Vamos acentuar a relação com os italianos. Eu já estive na Itália, em Florença, o professor Newton foi professor visitante lá e em outros lugares”, relata Krause.

O coordenador do grupo destaca ainda que os seminários cumprem duas funções. A primeira é atender os alunos da pós-graduação em Filosofia, com uma disciplina do curso com aulas ministradas por ele. Já as conferências sobre temas mais gerais ou específicos são proferidas pelo professor Newton.

BENÇÃO – O professor Hamilton Medeiros Silveira, do Departamento de Engenharia Elétrica, diz que, como engenheiro, não tem formação filosófica, mas se interessa muito por fundamentos da ciência e a parte fundamental de matemática. “Os professores Newton e Décio são experts nisso. Venho acompanhando esses seminários há alguns anos e são uma maravilha. Cada vez que venho aprendo alguma coisa”, elogia.

Silveira lamenta que “a universidade não participe mais disso. Ter o professor Newton na UFSC é uma benção, pela cultura, pela visão. Ele tem uma visão quase transcendental das coisas técnicas, aquilo que a gente não consegue ver”. O docente destaca que “o professor Newton é o maior matemático brasileiro. Ele tem inúmeros artigos e livros espalhados pelo mundo. O número de citações prova a influência dele. Há uns dois anos, ele tinha 30 mil citações de trabalhos deles que inspiraram trabalhos de outras pessoas. Poucos brasileiros conseguiram isso”.

PRAZER – Perguntado sobre a receita para se chegar aos 80 anos com tanto vigor, produzindo e trabalhando com satisfação e alegria, Newton da Costa sorri e tenta explicar:

– Eu adoro o que faço. Costumo dizer que nunca trabalhei na minha vida, apesar de lecionar desde os 14 anos, quando já fazia um dinheirinho dando aulas. Sempre foi um prazer. Venho aqui e me sinto rejuvenescido com as “brigas” com os outros. Gosto de discutir com aluno. Quanto mais jovem melhor. Gosto tanto que se amanhã três pessoas estiverem carpindo a terra e quiserem saber o que é lógica, eu vou lá e converso com eles. É um prazer que tenho. Não posso dar uma receita, mas posso dizer que, no meu caso, uma das coisas que contribui é adorar o que eu faço. Quando faço isso, desapareço. É como seu eu tivesse tomado um elixir de rejuvenescimento. Só essa discussão aqui hoje valeu a pena. Passei mais de três horas aqui discutindo e o tempo voou. Esse é o prazer da minha vida.

Morre aos 100 o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss - Ele vai fazer falta

3 de novembro de 2009 10:05 pm

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Pesquisador deu aulas nos primeiros anos da USP e iniciou os estudos que o tornariam famoso no Brasil

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SÃO PAULO - O antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss morreu aos 100 anos de idade. Lévi-Strauss lecionou na Universidade de São Paulo nos anos 30. Aqui, realizou seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas, trabalho que desenvolveu ao longo da vida e que o transformou num clássico obrigatório das ciências humanas.

A USP divulgou nota lamentando a morte do antropólogo: “Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso ‘Tristes Trópicos’, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês”.

A França reagiu emocionalmente a sua morte, com o presidente francês Nicolas Sarkozy se juntando a oficiais do governo e políticos em tributos ao antropólogo. O ministro do Exterior, Bernard Kouchner, elogiou sua ênfase em um diálogo entre culturas e disse que o país perdeu um “visionário”. Sarkozy honrou o “humanista incansável”.

A Academia Francesa disse que planeja um tributo ainda nesta semana. Com um programa de filmes, leituras e reflexões sobre sua contribuição ao pensamento moderno. A editora informou apenas sobre a morte de Lévi-Strauss sem dar mais detalhes sobre as causas ou o lugar onde aconteceu. No entanto, de acordo com colegas da Escola de Estudos Sociais, Lévi-Strauss morreu na madrugada do domingo.

Lévi-Strauss foi reconhecido no mundo todo por ter reestruturado a antropologia, introduzindo novos conceitos em padrões de comportamento e relacionamento especialmente através de mitos, em sociedades primitivas e modernas.  Durante sua carreira de seis décadas, ele escreveu livros como “Saudades do Brasil” e “O cru e o cozido”.

Foi com “Tristes Trópicos”, de 1955,  que o antropólogo alcançou a fama: um relato do período em que viveu no Brasil entre 1935 e 1939, bem como das expedições que fez ao norte do Paraná, Mato Grosso e Goiás, onde conviveu com tribos indígenas. O livro é considerado um dos mais importantes do Século 20.

Lévi-Strauss, que teria completado 101 anos em 28 de novembro, influenciou de maneira decisiva a filosofia, a sociologia, a história e a teoria da literatura.

Devido à avançada idade, no ano passado, ele não participou pessoalmente dos atos comemorativos de seu centenário. Apesar de tudo, responsáveis do museu Quai Branly, onde há um auditório com o nome do antropólogo, disseram então que o intelectual se mantinha lúcido e em bom estado de saúde.

Apesar de sua longevidade e intensa atividade intelectual desde antes da 2ª Guerra Mundial, Lévi-Strauss, membro da Academia da França desde 1973, goza de boa saúde e se mantém lúcido, como relatou à imprensa Stéphane Martin, diretor do museu Quai Branly de Paris, instituição que abriga um teatro com o nome do célebre antropólogo.

Francês nascido em Bruxelas em 1908, o autor de “Tristes Trópicos” trabalhou como professor na Universidade de São Paulo e na New School for Social Research de Nova York, antes de ser diretor associado do Museu do Homem de Paris e de lecionar no Collège de France até sua aposentadoria, em 1982.

Discípulo intelectual de Émile Durkheim e de Marcel Mauss, e interessado pela obra de Karl Marx, pela psicanálise de Sigmund Freud, pela lingustica de Ferdinand de Saussure e Roman Jakobson, pelo formalismo de Vladimir Propp, entre outros, era também um apaixonado pela música, geologia, botânica e astronomia.

O autor de Mitológicas lecionou como professor desta última disciplina até receber um convite de Marcel Mauss, pai da etnologia francesa, para ingressar no recém-criado departamento de etnografia.

Foi assim que despertou em Lévi-Strauss a curiosidade por um campo do conhecimento no qual desenvolveria uma brilhante carreira e que lhe concedeu um “lugar proeminente entre os pesquisadores do século 20″, explicou à Agência Efe o professor de Antropologia Social da Universidade Complutense de Madri, Rafael Díaz Maderuelo.

Sua nova vocação o levou a aceitar um posto como professor visitante na Universidade São Paulo (USP), de 1935 a 1939, estadia que lhe possibilitou realizar trabalhos de campo no Mato Grosso e na Amazônia.

Ali teve estadias esporádicas entre os índios bororós, nambikwaras e tupis-kawahib, experiências que o orientaram definitivamente como profissional de antropologia, campo no qual seu trabalho ainda hoje “continua sendo válido para a maioria dos antropólogos”, declarou Díaz Maderuelo sobre o autor de O Pensamento Selvagem.

Após retornar à França, em 1942, mudou-se para os Estados Unidos como professor visitante na New School for Social Research, de Nova York, antes de uma breve passagem pela embaixada francesa em Washington como adido cultural.

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Imagem do livro "Saudades do Brasil"

Novamente em Paris, foi nomeado diretor associado do Museu do Homem e se tornou depois diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études, entre 1950 e 1974, trabalho que combinou com seu ensino de antropologia social no Collège de France, até sua aposentadoria em 1982, quando dirigia o Laboratório de Antropologia Social.

Discípulo intelectual de Émile Durkheim e de Marcel Mauss, além de interessado pela obra de Karl Marx, pela psicanálise de Sigmund Freud, pela lingüística de Ferdinand Saussure e Roman Jakobson, pelo formalismo de Vladimir Propp etc., é ainda um apaixonado por música, geologia, botânica e astronomia.

As contribuições mais decisivas do trabalho de Lévi-Strauss podem ser resumidas em três grandes temas: a teoria das estruturas elementares do parentesco, os processos mentais do conhecimento humano e a estrutura dos mitos.

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A teoria das estruturas elementares defende que o parentesco tem mais relação com a aliança entre duas famílias por casamento respectivo entre seus membros que, como sustentavam alguns antropólogos britânicos, com a ascendência de um antepassado comum.

Para Lévi-Strauss, não existe uma “diferença significativa entre o pensamento primitivo e o civilizado”, declarou Díaz Maderuelo, pois a mente humana “organiza o conhecimento em processos binários e opostos que se organizam de acordo com a lógica” e “tanto o mito como a ciência estão estruturados por pares de opostos relacionados logicamente”.

Compartilham, portanto, a mesma estrutura, só que aplicada a diferentes coisas.

A respeito dos mitos, o intelectual sustenta, desde a reflexão sobre o tabu do incesto, que o impulso sexual pode ser regulado graças à cultura.

“O homem não mantém relações indiscriminadas, mas as pensa previamente para distinguir-las. Desde este momento perdeu sua natureza animal e se transformou em um ser cultural”, comentou Díaz Maderuelo.

Para Lévi-Strauss, as estruturas não são realidades concretas, estando mais próximas a modelos cognitivos da realidade que servem ao homem em sua vida cotidiana.

As regras pelas quais as unidades da cultura se combinam não são produto da invenção humana e a passagem do animal natural ao animal cultural - através da aquisição da linguagem, da preparação dos alimentos, da formação de relações sociais, etc - segue leis já determinadas por sua estrutura biológica.

Obras Fundamentais

TRISTES TRÓPICOS: Mais que um livro de viagem, é um clássico da etnologia (1955). Além de trazer detalhes pitorescos das sociedades indígenas do Brasil, o livro discute as relações entre Velho e Novo Mundo e o significado da civilização e do progresso. Lévi-Strauss desloca parâmetros consagrados e

questiona viajantes e cientistas. O mundo dos cadiuéus, bororos, nhambiquaras e dos tupi-cavaíbas revelam seus próprios estilos e linguagens.

ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL: Publicada em 1958, a obra reúne artigos que propõem um empréstimo das teorias estruturalistas de Roman Jakobson, lingüista que Lévi-Strauss conheceu nos EUA, para renovar o método antropológico. Ela se divide em cinco partes: Linguagem e parentesco; Organização social; Magia e religião; Arte; e Problemas de método e de ensino. A obra será lançada pela Cosac Naify no dia 11.

O SUPLÍCIO DO PAPAI NOEL: A Cosac Naify lança, também no dia 11, O Suplício do Papai Noel, ensaio de 1952. Lévi-Strauss parte da queima de um boneco de Papai Noel em Dijon, França, em 1951, para analisar, por meio da antropologia estrutural, o significado das festas de fim de ano, a comercialização das datas tradicionais e a influência norte-americana nesse processo.

MITOLÓGICAS: Composta por quatro obras - O Cru e o Cozido (1964), Do Mel às Cinzas (1967), A Origem dos Modos à Mesa (1968) e O Homem Nu (1971) - a série analisa 813 mitos de diferentes povos indígenas do continente americano.

DE PERTO E DE LONGE: Em entrevista para o filósofo Didier Eribon em 1988, o antropólogo faz um balanço sobre sua história pessoal, formação intelectual e conceitos-chave de sua teoria.

HISTÓRIA DE LINCE: Segundo Lévi-Strauss, essa obra (1991) é a última incursão pela mitologia americana. Questões presentes em sua produção de mitólogo são retomadas e esclarecidas.

SAUDADES DO BRASIL: Obra de 1994 reúne fotografias feitas entre 1935 e 1939. Lévi-Strauss se deu conta de que poderia descrevê-las, localizando-as no tempo e no espaço, com auxílio da memória afetiva. Saudades de São Paulo, de 1996, também tem um depoimento em que se revisitam imagens de uma cidade onde o gado convivia com carros e bondes.

OLHAR, ESCUTAR, LER: De 1993, é escrita em tom de conversa, inteiramente dedicada à arte.

O PENSAMENTO SELVAGEM: No livro, de 1962, ele focaliza um traço universal do espírito humano - o pensamento selvagem que se desenvolve tanto no homem antigo como no contemporâneo.

(Com AP, DJ, Efe e O Estado de S. Paulo)

Veja também:

linkLévi-Strauss 100 anos

link Trópico da saudade

lista Conheça a vida e a obra de Claude Gustave Lévi-Strauss

lista Senhor das longas durações e das coisas que ficam

especial Especial em áudio sobre o centenário de Lévi-Strauss

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8º Encontro Íbero-Latino-Americano de Governo Eletrônico e Inclusao Digital

31 de outubro de 2009 10:40 am

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8º Encontro Íbero Latino Americano de Governo Eletrônico

5º Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia aplicada ao eGov

Local: UFSC – auditório CSE - Florianópolis

Dia 17 de novembro

09:30 – 10:15 – Palestra de Abertura – Hugo Cesar Hoeschl, Post. Doc.
Coordenador do Conselho Consultivo de Governo do Estado de Santa Catarina - CONSULT

10:15 – 11:15 – Palestra II – Timothy Waema, Dr.
School of Computing and Informatics
University of Nairobi - Kenia
Titulo: Successes and Failures of e-Governance Implementation: Lessons from e-local Governance Research in Africa

11:15 – 12:30 – Mesa I – Interoperabilidade
Vagner Diniz, Esp.
Gerente do Escritório Brasil W3C
Titulo: A crise do governo eletrônico e as novas possibilidades com dados governamentais abertos
Marcelo Stopanovski Ribeiro, MSc.
Secretário de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas da Controladoria-Geral da União da Presidência da República

14:00 – 15:15 – Mesa II - Inovação
Antonio Diomário de Queiroz, Dr.
Presidente da Fundação de Apoio A Pesquisa Científica e tecnológica do Estado
de Santa Catarina – FAPESC
Tania Cristina D’Agostini Bueno, Dra.
Presidente do Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas-i3G
Marzely Gorges Farias, Dra.
Coordenadora da Coordenadoria de Inovação e Propriedade Intelectual da UDESC

15:15 – 16:00 – Palestra III – Roberto Lerena , Ing.
Consultor do Centro de Transferencia Tecnológica e Consultoria da Universidad FASTA em Mar del Plata, Argentina
Titulo: VIHDA: Cuando el Gobierno Electronico ayuda a salvar vidas”

16:30 – 17:15 – Palestra IV –Hipolito M. Rodríguez Casavilca , MSc.
Jefe de la Unidad de Virtualización de la Universidad Inca Garcilaso de la Vega, Lima, Perú
Titulo: El aula virtual en el posgrado de Gestion y Control Gubernamental: Un apoyo al campus y a la clase virtual

17:15 – 18:30 – Mesa III – e-GOV
Paulo Luna, Dr.
Hugo Cesar Hoeschl, Post. Doc.
Roberto Giordano Lerena, Ing.
Dia 18 de novembro

Painel 1 - Das 9:00 às 10:30
Prof. Dr. Aires José Rover (UFSC) - Projetos de governo eletrônico para o controle do orçamento
Prof. Dr. Fernando Galindo (Zaragoza/Espanha) - Aprendizagem virtual e governo eletrônico
Moderador: Prof. Dr. Luis Adolfo Olsen da Veiga (UFSC)

Painel 2 - Das 10:30 às 12:00
Prof. Dr. Manuel Vázquez (Zaragoza/Espanha) - Inclusão digital e identificação
Prof. Dr. Francisco Javier Garcia Marco (Zaragoza/Espanha) - Acesso eletrônico a administração pública: cidadania e o desenvolvimento democrático
Moderador: Prof. Dr. Orides Mezzaroba (CPGD/UFSC)

Painel 3 - Das 14:30 às 16:00
Prof. Dr. Vinícius Medina Kern (UFSC) - Plataformas e-gov como sistemas sociotecnológicos
Prof. Dr. Ricardo Sebastián Piana (Argentina) – Experiências de governo eletrônico na América Latina
Moderador: Prof. Dr. José Leomar Todesco

Painel 4 - Das 16:00 às 18:30
Desembargador Sérgio Renato Tejada Garcia (Justiça Federal) e Prof. Dr. José Miguel Busquets (Uruguai) – Processo eletrônico na Justiça Federal
Secretário Geral Rubens Curado (CNJ): O processo digital no Brasil
Moderador: Prof. Dr. José Renato Cella (PUC/PR)

Painel 5 - Das 19:00 às 20:30
Dr. André Barbosa Filho (Assessor Especial da Casa Civil) - A TV digital pública interativa pode ser o caminho mais curto para a inclusão digital
Msc. Amery Moisés Nadir Júnior (Gerente de Substituição Tributária e Comércio Exterior da Secretaria da Fazenda de Santa Catarina) e Msc. Renato Dias Marques de Lacerda
(Coordenador Técnico dos programas de Modernização da Gestão Fiscal Estadual - PROFISCO e PMAE)
- A administração tributária na sociedade da informação e do conhecimento: o processo de modernização do fisco catarinense
Moderador: Prof. Tarcísio Vanzin (UFSC)

Dia 19 de novembro
Apresentação de trabalhos

Leitura para o final de semana

29 de outubro de 2009 11:49 pm

pensadores

ADAMS, Ian; DYSON, R. W. 50 pensadores políticos essenciais. Traduzido por Eduardo Brandão, Difel, Rio de Janeiro: 2006.

O livro que se indica para leituta traz o pensamento filosófico em linhas gerais, com tratamento panorâmico de uma série de excelentes textos introdutórios sobre a vida e as ideias das mais influentes figuras do pensamento político ocidental, da Grécia antiga aos dias atuais. De PLATÃO a FOUCAULT, passando por ROUSSEAU e NIETZSCHE, os professores IAN ADAMS e R.W. DYSON traçam um estudo cronológico dos mais destacados pensadores que se valeram dos instrumentos filosóficos de cada época para desvendar a natureza da política.

Os autores começam da Grécia Antiga e seguem até os pensadores políticos do século XX, como LENIN e GANDHI. Assim também como as mulheres que ocuparam seu espaço na arena política com proeminência, HANNAH ARENDT e SIMONE DE BEAUVOIR. Cumpre observar que, para aqueles que têm o interesse de se aprofun-darem mais no tema, o estudo do pensamento medieval é indispensável para a compreensão do pensamento político moderno que está na base de nossas estruturas sociais contemporâneas e, ainda, de nossas crenças.

Para tanto, é essencial o contato com autores como ETIENNE GILSON, que escreveu a célebre Filosofia na Idade Média, já lançado em versão traduzida para o português pela editora Martins Fontes, a qual acaba de brindar os lusófonos com a tradução de EDUARDO BRANDÃO (que foi vencedor do Prêmio de tradução da Academia Brasileira de Letras) para a obra O Espírito da Filosofia Medieval, oriunda de seminários que o autor presidiu quando, em 1931, foi convidado a definir em dez aulas o espírito da filosofia medieval. As aulas foram ministradas em Aberdeen, na Escócia. No ano seguinte foram reunidas em livro, que volta aos leitores de hoje. No prefácio, GILSON diz: “Convidado para a difícil tarefa de definir o espírito da filosofia medieval, aceitei-a, por causa da opinião bastante difundida de que, embora a Idade Média tenha uma literatura e uma arte, não tem uma filosofia que lhe seja própria.

Foi procurando defini-la em sua essência específica que me vi levado a apresentá-la como a ‘filosofia cristã’ por excelência.” E mais à frente: ” A única questão que se trata de examinar é saber se a noção de filosofia cristã tem sentido e se a filosofia medieval não seria precisamente sua expressão histórica mais adequada.” Paradigmática também será a leitura da obra Os Dois Corpos do Rei, de ERNEST HARTWIZ KANTOROWICZ, bem como o estudo das emblemáticas Fundações do Pensamento Político Moderno, de QUENTI SKINNER, autor este que, aliás, é profundo conhecedor da obra de THOMAS HOBBES. Enfim, depois da leitura da obra de ADAMS e DYSON, torna-se indispensável a incursão nos clássicos acima indicados, especialmente agora no período que antecede as eleições da OAB, notadamente a seccional do Paraná, em que a chapa da situação XI de Agosto, conforme se tem insistido aqui, parece não ter saído ainda da mentalidade medieval.


Juiz queria ser tratado como “doutor” pelos funcionários de seu condomínio

10:10 pm

“Doutor” não é forma de tratamento

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - COMARCA DE NITERÓI - NONA VARA CÍVEL

Processo n° 2005.002.003424-4

S E N T E N Ç A

Cuidam-se os autos de ação de obrigação de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO LUÍZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do prédio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de senhor.

Disse o requerente que sofreu danos, e que esperava a procedência do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de “Doutor”, “senhor” “Doutora”, “senhora”, sob pena de multa diária a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condenação dos réus em dano moral não inferior a 100 salários mínimos.

DECIDO.

“O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter.” (Noberto Bobbio, in “A Era dos Direitos”, Editora Campus, pg. 15).

Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, não se justificando tamanha publicidade que tomou este processo. Agiu o requerente como jurisdicionado, na crença de seu direito. Plausível sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solução do conflito. Não deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta ação pode ter conotação de incompreensível futilidade. O cerne do inconformismo é de cunho eminentemente subjetivo, e ninguém, a não ser o próprio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.

Está claro que não quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudatório, posto que é homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que não lhe assiste razão jurídica na pretensão deduzida.

“Doutor” não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universitário. Constitui-se mera tradição referir-se a outras pessoas de “doutor”, sem o ser, e fora do meio acadêmico. Daí a expressão doutor honoris causa - para a honra -, que se trata de título conferido por uma universidade à guisa de homenagem a determinada pessoa, sem submetê-la a exame. Por outro lado, vale lembrar que “professor” e “mestre” são títulos exclusivos dos que se dedicam ao magistério, após concluído o curso de mestrado.

Embora a expressão “senhor” confira a desejada formalidade às comunicações - não é pronome -, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir.

O empregado que se refere ao autor por “você”, pode estar sendo cortês, posto que “você” não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social.

O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe “semi-culta”, que sequer se importa com isso.

Na verdade “você” é variante - contração da alocução - do tratamento respeitoso “Vossa Mercê”.

A professora de lingüística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas freqüências do pronome “você”, devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de “seu” ou “dona”, e isso é tratamento formal.

Em recente pesquisa universitária, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor/senhora e você quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente.

Na edição promovida por Jorge Amado “Crônica de Viver Baiano Seiscentista”, nos poemas de Gregório de Matos, destacou o escritor que Miércio Táti anotara que “você” é tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 1999).

Urge ressaltar que tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico, como já se disse. A própria Presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes.

Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de “você” e “senhor” traduz-se numa questão sociolingüística, de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais.

Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade.

Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o incômodo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honorários de 10% sobre o valor da causa. P.R.I.

Niterói, 2 de maio de 2005.
ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO
Juiz de Direito

Do blog do Prof. Aires José Rover