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A vida dos outros por um olhar cúmplice

20 de março de 2010 4:24 pm

DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza, São Paulo: Edusp, 2009.

desafio

Avalanche de biografias no mercado provoca lançamento de ensaios sobre gênero e marca O advento de uma nova forma literária

Por Antônio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo

Num livro recentemente lançado e essencial para se entender o gênero, O Desafio Biográfico (Edusp, tradução de Gilson Césare Cardoso de Souza, 440 págs., R$ 65), o historiador francês François Dosse diz que Claude Arnaud, autor de uma biografia de Jean Cocteau, reduziu sua atividade ao comportamento de um canibal: o biógrafo seria aquele que bebe o sangue do poeta para erigir-lhe um túmulo. Arnaud, de dez em dez anos, tem um surto incontrolável de escrever a biografia de uma celebridade. E não apenas ele. Só esta semana estão sendo lançadas pela Companhia das Letras duas biografias de escritores célebres: Rimbaud: A Vida Dupla de um Rebelde, do norte-americano Edmund White, e O Mundo Prodigioso Que Tenho na Cabeça (ou Franz Kafka: Um Ensaio Biográfico), de Louis Begley, americano de origem polonesa. A mesma editora lança ainda este ano (em novembro) Borges: Uma Vida, biografia do maior autor argentino por Edwin Williamson, da Universidade de Oxford. E, para continuar na rota latina, chega no dia 24 às livrarias (pela Ediouro) uma nova biografia do Nobel colombiano, Gabriel García Márquez: uma Vida, do inglês Gerald Martin.

A lista de lançamentos poderia continuar nos parágrafos seguintes, mas bastam esses exemplos para provar que o gênero é o filão literário mais cobiçado pelas editoras. Arnaud, profissional que escreveu sobre a vida de vários autores (de Proust a Camus, passando por Faulkner), costuma dizer que esse crescente interesse do mundo editorial fez com que ficasse clara a distinção entre o historiador e o biógrafo: o último seria aquele capaz de “invadir a personalidade alheia”. Tanto que uma nova forma biográfica está ganhando força junto aos escritores – e que bem poderia se chamar “bioavatar”, considerando as semelhanças de vida e a empatia que movem um autor a assumir e a falar em nome do biografado. O marroquino francês Pierre Assouline, de quem está saindo no Brasil um ensaio original sobre o tema, Rosebud (Rocco), mostra, por exemplo, que tem experiência suficiente para encarar esse gênero “híbrido”, entre a dimensão histórica e ficcional, que vive da imaginação do biógrafo. Experiente, Assouline, que já assinou as biografias de Georges Simenon e Henri Cartier-Bresson, é um dos três entrevistados pelo Sabático sobre as dificuldades de restituir a complexidade da vida real de um autor numa simples biografia – os outros dois são os premiados Edmund White e Louis Begley.

Assouline, em Rosebud, exercita seu talento minimalista recorrendo a Roland Barthes, que, nos anos 1970, cunhou o termo “biografemas”, gênero que cruza a escrita romanesca com detalhes da vida dos biografados – Sade, Fourier e Loyola, no caso de Barthes, que definiu a biografia como “um romance que não ousa dizer seu nome”. Em outras palavras, ao contar a vida de seus eleitos em Rosebud – do escritor inglês Rudyard Kipling ao pintor espanhol Pablo Picasso, passando pelo fotógrafo francês Cartier-Bresson -, Assouline jamais começa pela infância das celebridades. Apega-se a um objeto do biografado do qual vai beber o sangue e conta sua história a partir desse “pequeno nada que nos trai revelando-nos aos outros”. O título do livro, aliás, faz referência à última palavra pronunciada pelo fictício magnata da imprensa Charles Foster Kane (Orson Welles) no filme Cidadão Kane, que leva um jornalista a investigar sua vida sem descobrir o “pequeno nada” que a revela: um trenó com o qual brincava na neve quando era uma criança pobre, do qual é abruptamente retirado para viver como milionário.

Assouline assume, como observou no passado André Maurois, que o biógrafo está sempre a meio caminho entre o desejo da verdade e o de se recriar por meio da vida dos outros. “A biografia não é uma ciência exata, mas bricolage literária entre a História e o romance, a crítica literária, a reportagem e a crônica policial”, diz. O biógrafo seria, então, um retratista, um artista inventor como Picasso – e ele, de fato, reinventa Picasso em Rosebud, ao mostrar sua afinidade espiritual com Balzac (os dois moraram, em diferentes épocas, na mesma casa, em Paris) – e como sua pintura Guernica e o livro de Balzac, A Obra-Prima Desconhecida, se interpenetram. “O desejo de viver outras vidas por procuração, de se inventar um outro passado por meio do passado alheio, prova que não existe uma empatia desinteressada”, observa Assouline, especialista em biografias intelectuais, que explicitam, segundo François Dosse, o ensejo de um envolvimento dos biógrafos com seus retratados. “Não abandono meus biografados, nem Gallimard nem Cartier-Bresson, pois eles constituem minha família de papel”, concorda Assouline.

Nada a esconder. Então, por que não escrever sua autobiografia? “Embora se confundam, os dois gêneros não têm nada a ver um com o outro”, responde o autor, contando uma história: “Um dia perguntaram a um escritor por que não escrevia suas memórias e ele respondeu que isso seria impossível, por simplesmente não ter nada a esconder.” De fato, segundo o historiador Pierre Bourdieu, a biografia “não apresenta pertinência alguma”. Dosse recupera um texto de Bourdieu em que ele revela o próprio itinerário, recusando-se a vê-lo como autobiografia e esclarecendo que o escreveu apenas para se prevenir contra possíveis biógrafos caçadores de celebridades, bem diferentes de Foucault – que lançou, em 1978, uma coleção (Vidas Paralelas, pela Gallimard) com biografias de anônimos destruídos, desde um hermafrodita suicida a um doente mental que passou a vida em asilos psiquiátricos.

Foucault prestava atenção a detalhes que escapavam aos outros. Esse, diz Assouline, é o segredo do bom biógrafo. Ninguém que passe diante de sua biblioteca parisiense deixará de notar livros de Fernando Pessoa, Proust, Gide, mas, provavelmente, passará ao largo da antiga edição que traz na capa o rosto do herói da Resistência Francesa Jean Moulin (1899- 1943), torturado pelo chefe da Gestapo em Lyon, Klaus Barbie, e morto na Alemanha. Ninguém, além de Assouline, notou que o cachecol de Moulin – o de sua mais famosa fotografia – revelava mais do que talvez desejassem seus antigos biógrafos: que esse herói, desejado pelas mulheres, era homossexual. “O aspecto visual é essencial e não é sem razão que Beckett recusou meu convite para uma partida de xadrez”, conta. “Ele, naturalmente, não iria me dar uma entrevista, mas respondeu que só se fosse um cego concordaria com o encontro, o que prova quanto é essencial o aspecto visual para se escrever uma biografia.”

Jorge Luis Borges era cego, mas isso não facilitou em nada a vida de Edwin Williamson, autor da extensa biografia do escritor argentino. Williamson viu nele uma vítima do confronto entre o liberalismo europeu e o individualismo gaúcho, reduzindo-o a um menino mimado pela mãe, tímido, um obstinado romântico. Seria esse mesmo Borges? Williamson é inglês, como o biógrafo de Gabriel García Márquez, o professor de literatura latino-americana Gerald Martin, o que explica a resistência de ambos a invadir a personalidade dos dois escritores latinos. No último caso, Martin age mais como historiador, dedicando 17 anos de sua vida a investigar a vida do Nobel colombiano. Num esforço gulliveriano para escapar a interpretações simplistas, o inglês fez mais de 300 entrevistas com familiares, amigos e presidentes para compor um mosaico do autor daquele que seria, segundo Martin, o “primeiro romance verdadeiramente global do mundo”, Cem Anos de Solidão.

Martin é pródigo em elogios e nada crítico sobre o apoio de García Márquez a Fidel Castro. De qualquer modo, mantém reservas a respeito da autobiografia do escritor colombiano publicada há oito anos, Viver para Contar. Gabo, como é conhecido, pode ter vivido para dar a própria versão de sua experiência existencial, mas não contou tudo. Tampouco Martin o fez. Apenas supõe que o papel do avô do autor que o criou, um coronel autoritário, foi além da conta, incutindo no neto um gosto exagerado pelo poder – o que explica sua adesão à ditadura castrista.

Interrogações. O biógrafo de Borges, respeitado em Oxford, talvez alimente as mesmas dúvidas a respeito de seu ensaio biográfico, recebido lá fora como um sério estudo sobre o conflito interior do escritor com o pai, que definiu sua vida tanto quanto a do avô de García Márquez. Deitando Borges no divã de Freud, Williamson conta que seu pai o levou a um bordel quando era adolescente, obrigando-o a fazer sexo com sua amante, o que teria provocado um trauma no escritor, homem reservado que teria sido dominado por suas mulheres. O biógrafo incorre no erro comum de confundir percurso biográfico com literário, desafiando o leitor a ler sua obra a partir de um diagnóstico médico. De qualquer modo, ainda é lícito esperar que qualquer biógrafo ofereça algum dia a biografia definitiva de Borges – ainda mais quando a abordagem psicobiográfica virou moda entre os contemporâneos, deixando muitos pontos de interrogação sobre a vida de biografados que se tornam próximos dos biógrafos.

Bem fizeram Edmund White e Louis Begley ao escolher para biografar escritores do passado. Prevalece neles o que Dosse chama de “imperativo da empatia”, como se os intérpretes da vida alheia devessem algo de sua formação à leitura dos autores a que se dedicaram. White lembra que não foi o status de Rimbaud como anti-herói existencialista o que mais lhe atraiu na juventude, mas a tensão de um poeta dividido entre sua vida provinciana no interior da França e sua viagem ao desconhecido, como White também fez, saindo do cafundó dos EUA para Nova York. Begley, sobrevivente do Holocausto, conta como a condição de Kafka – a de um judeu cuja visão de mundo deriva de sua experiência de viver à margem – marcou para sempre sua vida.

WHITE, Edmund. Rimbaud: a vida dupla de um rebelde. Tradução de Marcos Bagno, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

rimbaud

Não são poucas as biografias que procuram entender o mistério de Arthur Rimbaud (1854-91). Talento precoce, o poeta francês compôs toda a sua obra antes dos vinte anos, para depois abandonar qualquer projeto de criação artística. Neste ensaio biográfico, o crítico Edmund White refaz a trajetória do artista, de sua juventude sob os auspícios da mãe dominadora à boemia da Paris do fim do século XIX, até as andanças do poeta pela Europa e pelo continente africano depois de abandonar a literatura.
No centro de tudo está o relato da paixão de Rimbaud por outro poeta, o já então célebre Paul Verlaine, que o acolheria sob suas asas e promoveria sua obra nos círculos literários de Paris. Com seu comportamento extravagante, no entanto, Rimbaud afastou Verlaine dos amigos, arruinou seu casamento e foi responsável por sua prisão, anos mais tarde.
Da crônica desse amor conturbado, White extrai também a crônica de toda uma geração. Ganham vida a Paris da Comuna, os cafés e os clubes literários, bem como as polêmicas da época e o gradual impacto da obra de Rimbaud sobre os demais poetas. Num retrato desmistificador, White revela uma vida surpreendente, do artista que revolucionou uma época e que deu as costas à sua criação.

Leia trecho abaixo:

Frustrado como competidor literário, chocado e sentindo-se desamparado por causa do destino de Verlaine, Rimbaud voltou sem alarde para Paris. Ali ele era um pária social: ninguém se sentava à sua mesa nos cafés que frequentava. Tinha apenas três ou quatro amigos – e um novo companheiro, Germain Nouveau, um poeta desconhecido, originário da Provença, que tinha se mudado para a capital. Nouveau, três anos mais velho que Rimbaud, havia perdido a mãe aos oito anos e o pai aos doze – e agora exaurira rapidamente sua pequena herança numa clássica vida boêmia de dissipação. Nouveau tinha pouco mais de um metro e meio de altura, cabelo escuro e espesso puxado para trás das orelhas e uma barba cacheada que terminava em duas pontas – e olhos negros, de intensidade assustadora. Seu forte sotaque provençal fazia as pessoas sorrirem. Caiu imediatamente sob o feitiço de Rimbaud (o que incomodou seus poucos amigos) e quase no mesmo instante os dois jovens decidiram abandonar Paris e viajar juntos para Londres.

Nouveau seria homossexual e estaria apaixonado por Rimbaud? Ele se envolvera com uma mulher pouco antes de conhecer Rimbaud, mas tempos depois escreveria um poema estranho e ambíguo chamado “A Recusa” – um exercício semi-humorístico, francamente obscurso, sem dúvida brincalhão, que começa anunciando “Sou um pederasta na alma”, mas termina com a declaração “Não sou um pederasta”. Entre o primeiro e o último versos, o poeta reflete sobre a experiência de viver rodeado pelas suspeitas, uma infâmia que envenena a amizade: “A amizade, essa linda cadela/ Que uiva para sua lua de amor”. Nouveau descreve o fundador da escola de pederastia, um movimento que não conta com muitos adeptos. O nome do fundador, diz-nos ele, rima com veau (vitelo) – é claro que poderia ser Rimbaud ou Nouveau. Em seguida, ele nos conta que quase toda a humanidade se filia à heterossexualidade, mas existe uma exceção – possivelmente Rimbaud, embora pronunciar esse nome pudesse ofender os “castos ouvidos” da dama a quem todo poema é dirigido. Numa outra passagem estranha: mesmo sendo “apenas meio homem” (uma referência a sua baixa estatura), não tem ele o direito de buscar alguém que possa completá-lo?

BEGLEY, Louis. O mundo prodigioso que tenho na cabeça – franz kafka: um ensaio biográfico. Tradução de Laura Teixeira Motta, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

kafka

O romancista e ensaísta norte-americano Louis Begley trabalhou por vários anos como advogado num grande escritório de Nova York, experiência que decerto lhe foi útil na investigação da formação profissional de Franz Kafka e de sua influência sobre a revolucionária obra do escritor. Como se sabe, Kafka formou-se em direito e por muitos anos trabalhou numa companhia de seguros. Esse e outros fatos relevantes de sua curta biografia (1883-1924) são destacados por Begley por meio de uma criteriosa pesquisa documental, baseada nos diários, na correspondência e, sobretudo, nas entrelinhas das ficções de Kafka.
Os hesitantes relacionamentos amorosos e a inescapável ancestralidade judaica transparecem como principais fontes de tensão da atormentada personalidade do criador de obras-primas como A metamorfose e Na colônia penal. Aprisionado numa sociedade marcada pelo antissemitismo e pela intolerância e, sobretudo, esmagado pela figura do pai, Kafka procurava transfigurar nos escritos suas obsessões e horrores mais secretos. Os diários e as cartas enviadas a amigos e amantes revelam como a vida limitada pelos ritos burgueses quase sempre o levava à beira do colapso, rotina extenuante que pode ter contribuído para a deterioração de sua saúde. Morto pela tuberculose em 1924, aos 41 anos, Kafka deixou um legado literário cuja repercussão não cessa de ser discutida por escritores e críticos.

Leia trecho abaixo:

Os adeptos da teoria biográfica não escoram sua argumentação apenas em transposições de papéis, coincidências e coisas do gênero: também apontam o tormento de Kafka por ter induzido Felice a aceitar seu pedido de casamento quando no fundo sabia que a união era impossível para ele. Os sentimentos de culpa de Kafka eram sinceros, mesmo que excessivamente dramatizados, como se vê, por exemplo, na seguinte anotação em seu diário:

“Minha relação com a família dela só tem um significado consistente se eu conceber a mim mesmo como a ruína deles (…) Fiz F. infeliz, enfraqueci a resistência de todos os que precisam tanto dela agora, contribuí para a morte de seu pai, interpus-me entre Felice e Erna (…)”

Esses sentimentos de Kafka, contudo, eram apenas um elemento da sua vasta e indiferenciada sensação de culpabilidade e inadequação. Suas origens não tinham relação com o rompimento do noivado: eram mais profundas. Analogamente, a humilhação sofrida durante o episódio no Askanische Hof misturava-se à experiência direta e indireta de outras humilhações e punições, todas elas também envolvendo julgamentos: os casos Tiszaeszláer, Hilsner, Beilis e, obviamente, Dreyfus.

Ainda assim, é possível que o incidente no Askanische Hof tenha, em certo sentido, dado a partida em O Processo – e talvez até inspirado o título da obra, já que Kafka mencionou no diário o “tribunal no hotel”. Por outro lado, ele também usou o termo “processo” de modo revelador cinco anos depois em outro contexto, referindo-se na Carta ao Pai a “esse processo terrível que paira entre nós (Kafka e suas irmãs) e você (o pai deles)”. Talvez essa palavra esteja sempre nos lábios dos advogados. Além disso, Kafka também poderia divertir-se espalhando dicas que aludiam a uma ligação com Felice. Por exemplo, na descrição do quarto da sra. Bürstner, srta. Montag, que confronta K. como emissária da moça, talvez tenha sido introduzida porque Kafka desejasse provocar Grete Bloch. Mas sejam quais forem os fragmentos da biografia de Kafka que uma busca diligente em todo o romance possa revelar, eles não acrescentarão nada de significativo nem possibilitarão um novo nível de entendimento. O Processo não fala de Felice, Grete Bloch ou da corte de Kafka a Felice, e sim de uma provação cujas natureza e implicações não se compararam ao “outro processo de Kafka”.

MARTIN, Gerald. Gabriel garcía márquez: uma vida. Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.

gabo

Por Alvaro Costa e Silva

Jornal do Brasil

RIO – “Bem, suponho que todo escritor respeitável devesse ter um biógrafo inglês”, disse Gabriel García Márquez ao ouvir numa conversa o nome de Gerald Martin, o sujeito que desde 1991 vem escarafunchando a vida dele. Parte dessa investigação apareceu em 2008, com a publicação de Gabriel García Márquez: uma vida, cuja tradução chega às livrarias do Brasil no dia 24 de março. Parte porque, segundo Martin, trata-se de uma versão “compacta”, apesar de suas quase 800 páginas, de uma biografia muito mais longa, provavelmente em cinco volumes, que o inglês pretende publicar no futuro. O autor considera sensato atrasar a tarefa gigantesca enquanto o tema da obra, “agora um homem com mais de 80 anos, ainda está vivo e em condições de lê-la”.

Nos agradecimentos de praxe, Gerald Martin quase pede desculpas: “Um dos fardos e, sobretudo, uma das responsabilidades de se pesquisar uma biografia é que se tem de pedir inúmeros favores a muitas pessoas, que respondem, em sua maioria, com generosidade e boa vontade, ainda que não tenham absolutamente nada a ganhar pelo seu esforço”. Não se trata de elegância britânica. É que ele sabia, desde o início, que a tarefa seria difícil, quase impossível.

Quando começou o trabalho, o biógrafo ouviu de todos com quem conversou: “Você jamais conseguirá vê-lo e, se conseguir, ele não vai cooperar”. A primeira barreira Martin venceu: encontrou pessoalmente o biografado. Mas não se pode dizer que ele estivesse transbordando de entusiasmo, pois falou: “Por que você quer escrever uma biografia? Biografias significam morte”. E como todo mundo e mais a torcida do Real Cartagena sabem, Gabriel García Márquez tem um medo de morrer que se péla.

Mesmo assim, o escritor – homem de imprensa acostumado a valer-se de fontes e a respeitá-las – teve paciência com o inglês. Concordou sob uma condição: “Não me faça fazer o seu trabalho”.

Martin foi em frente e, esperto, inventou um subgênero para definir o que pretendia fazer: “Sempre que me perguntavam se era uma biografia autorizada, minha resposta era a mesma: é uma biografia tolerada”.

Gabriel García Márquez nunca concedeu a Gerald Martin uma “entrevista desarmada e sincera”, com a qual o biógrafo ainda sonha. Tal entrevista seria “uma indecência”, segundo o escritor colombiano – o que soa estranho para um velho repórter.

Pelas contas de Martin, os dois estiveram juntos no total um mês – em tempos diferentes e lugares diversos, de forma privada e pública. Nesse período, Martin ouviu um conselho cascudo: “Apenas escreva o que você vê. Seja lá o que escrever, é o que serei”.

Pegar o fio da meada para fazer Gabriel García Márquez: uma biografia – o autor é o primeiro a admitir – também não foi nada fácil. Gerald Martin teve de decifrar as múltiplas versões que o escritor costuma dar aos momentos importantes de sua vida – sem falar que ele próprio, adiantando-se ao biógrafo, escreveu uma autobiografia, Viver para contar. Como Martin poderia dar melhor o clima do bogotazo – protestos e desordens no centro da capital colombiana que se seguiram ao assassinato do candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán em 1948 – que García Márquez, que estava lá, no meio da turba? Ou narrar a viagem de volta a Aracataca para vender a casa, a famosa casa dos avós, onde ele nasceu – um episódio cheio de significados literários ocultos?

García Márquez – assim como outro grande contador de histórias, Mark Twain – é chegado a invencionices e exageros com sua própria trajetória. No Brasil, chamamos passarinho a essa mentira que arredonda a anedota. Ao mesmo tempo, é brincalhão, antiacadêmico, a favor de mistificações, intrigas e fuxicos, como o descreve o próprio Martin. Na Colômbia, chamam a essa atitude de mamagalismo (alguma coisa entre o debochado e o cafajeste).

Sabendo disso, a pergunta de García Márquez fica ainda mais pertinente: “Por que você quer escrever uma biografia?”.

Porque o inglês é fãzoca, macaca de auditório – de tudo que diga respeito ao criador de Macondo. Martin demonstra uma adoração digna de santo em relação a García Márquez, que é posto nos cornos da lua:

1. Autor mais conhecido que emergiu do Terceiro Mundo;

2. Expoente de uma escola literária, o realismo mágico, que teve milhares de seguidores (entre eles, é citado Salman Rushdie);

3. Romancista latino-americano mais admirado e representativo de todos os tempos;

4. Único grande nome das letras na segunda metade do século 20 a ter conseguido unanimidade (na primeira, são citados Joyce, Proust, Kafka, Faulkner, Virginia Woolf.).

5. Sua obra-prima Cem anos de solidão é um vértice da transição entre a ficção modernista e a pós-modernista;

6. Cem anos de solidão é também o único livro publicado entre 1950 e 2000 que encontrou grande número de leitores em todos os países e em todas as culturas do mundo. É portanto o primeiro romance globalizado;

7. Escritor sério mas ao mesmo tempo popular, que vende milhões de livros (na mesma condição, são citados Dickens, Victor Hugo e Hemingway);

8. Sua celebridade só se assemelha à de atletas, músicos e estrelas de cinema (Pelé é citado);

9. Mais popular ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1982;

10. Amigo de François Miterrand, Felipe González, Bill Clinton e Fidel Castro.

Martin, bem à inglesa, acha admirável que tudo isso tenha acontecido a um homem que nasceu “onde o vento faz a curva”, uma cidade com menos de 10 mil habitantes, analfabetos na maioria, com ruas não pavimentadas e sem esgoto. E com um nome – Aracataca – que faz as pessoas rirem quando o escutam pela primeira vez. “Embora” – completa o biógrafo – “sua semelhança com Abracadabra devesse torná-las mais cautelosas”.

Exotismos e deslumbramentos à parte, Martin recupera passagens e depoimentos sobre a infância do escritor que estão intimamente ligados a sua obra. O que a mãe achava do filho? “Gabito sempre foi velho. Quando criança, ele sabia tanto que parecia um homem velho pequenino. Era assim que nós o chamávamos: o velho pequenino”.

Sentava-se ao lado do avô Nicolás Márquez – aquele que matara um homem e dormia com um revólver debaixo do travesseiro – para ouvir as histórias sobre a Guerra dos Mil Dias, a presença da United Fruit Company nas plantações de banana e os horrores da greve de 1928 que terminou em massacre – episódios da história da Colômbia recriados em Cem anos de solidão. Assim como a lembrança de quando o mesmo avô o levou para ver o peixe congelado. Na fala de García Márquez: “Eu o toquei e senti como se ele tivesse me queimando”. E nas palavras da famosa abertura: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Reza a lenda que em 1965, dirigindo um pequeno Opel branco pelas estradas de curvas perigosas de Acapulco, García Márquez começou a ter a cabeça martelada pela primeira frase de um romance. Aquela: “Muitos anos depois….”. Por trás dela, invisível, estava o romance inteiro, como se ele fosse um cavalo e a obra tivesse baixado nele. Muitas são as versões e os detalhes a respeito dessa história, e Gerald Martin não esclarece nenhum deles. Ao contrário, alimenta o mito, ao dizer que “seja lá qual for a verdade, algo misterioso, para não dizer mágico, com certeza aconteceu”.

O livro apresenta uma detalhada descrição do tempo em que García Márquez passou escrevendo Cem anos…, trancado num quarto de sua casa – apelidado de A Cova da Máfia – de junho de 1965 a julho ou agosto de 1966. Desmentindo a lenda do cavalo das letras, o escritor reconheceu que sua maior dificuldade foi começar: “Terminei a primeira sentença e me perguntei, aterrorizado, que inferno viria depois. Até que o galeão fosse descoberto no meio da selva, não achava que o livro chegaria a lugar nenhum. Mas, daquele ponto em diante, a coisa toda se tornou uma espécie de frenesi”.

Ele que em geral escrevia um parágrafo por dia agora estava escrevendo várias páginas. Pregava-se à escrivaninha às 8h30 e ia até 14h30, quando os filhos voltavam da escola. Mercedes, a mulher, teve de lutar para conseguir dinheiro. As reservas haviam acabado. Primeiro, venderam o Opel branco. Quase cortaram o telefone, pela economia e para evitar a interrupção do trabalho. Depois começaram a empenhar tudo: televisão, geladeira, rádio, joias, secador de cabelos, liquidificador, aquecedor. O aluguel e a conta do açougue foram conversados.

Quando enfim o livro ficou pronto, quase não tiveram dinheiro para remeter os originais pelo correio ao editor argentino Paco Porrua, que concordara em publicar o romance no escuro. Mercedes comentou: “Só falta agora o livro não ser bom”.

Um dos maiores méritos de Gerald Martin são seus comentários acerca da obra de García Márquez – o que torna o livro mais próximo de um ensaio biográfico que de uma biografia. Sobre Cem anos…, afirma que o escritor aprendeu “que, em vez de um livro sobre a infância, deveria escrever sobre as memórias da infância. Em vez de um livro sobre Aracataca e sua gente, deveria ser um romance narrado pela visão do mundo daquela gente. Em vez de tentar mais uma vez ressuscitar Aracataca, ele diria adeus, narrando-a não apenas através da visão de mundo de seu povo, mas inserindo no romance tudo o que lhe havia acontecido, tudo que sabia sobre o mundo, tudo que ele era e que personificava como um latino-americano do fim do século 20. Em outras palavras, em vez de destacar a casa e Aracataca do mundo, Gabo colocara o mundo todo dentro de Aracataca. E, acima de tudo, em termos sentimentais, em vez de tentar acordar o fantasma de Nicolás Márquez, ele próprio deveria de algum modo se tornar Nicolás Márquez”.

Da mesma forma, outros toques de Martin iluminam obras não menos importantes como O outono do patriarca, Crônica da morte anunciada, O amor nos tempos do cólera, e uma novela menos badalada, mas de estofo literário superior a Cem anos de solidão, como Ninguém escreve ao coronel.

Mas não há uma visão do García Márquez de carne e osso, sua relação com os pais, a família, a mulher, os filhos, os amigos, os colegas de profissão, o fumo, a bebida, a fama, a solidão da fama. Coisas comezinhas de qualquer vida. Por exemplo, o que ele acha de Roberto Bolaño?

Sobre a amizade com Fidel Castro – que reserva lances inacreditáveis: a vez em que o escritor serviu de guarda-costas para o ditador numa visita à Colômbia – não há explicação. Mas neste caso Gerald Martin não tem culpa se, diante do barbudo, García Márquez usa antolhos.

A briga com Mario Vargas Llosa é bom exemplo do que falta ao livro. Os dois, na época do chamado boom da literatura latino-americana, nos anos 60, tornaram-se amigos de fé, camaradas. O peruano escreveu o catatau García Márquez: historia de un deicidio, um estudo ficcional orientado em termos biográficos, que Martin considera até hoje o melhor livro já escrito sobre o colombiano e fonte fundamental de referência.

Em 12 de fevereiro de 1976, na Cidade do México, Gabriel García Márquez compareceu à première do filme Os sobreviventes dos Andes. Ao chegar, Mario Vargas Llosa – que escrevera o roteiro – estava de pé no foyer do cinema. García Márquez abriu os braços e exclamou: “Irmão!”. Sem sequer uma palavra, Mario, “um consumado boxeador” (esta informação espantosa é de Martin), derrubou-o com um soco.

A essa altura do fato, Martin começa a especular: com o colombiano semiconsciente no chão, o peruano gritou: “Isso é pelo que disse a Patricia”. Ou: “Isso é pelo que fez a Patrícia”. Ora, são coisas bem diferentes.

Escreve o exagerado e impreciso inglês: “Esse se tornaria o soco mais famoso na história da América Latina, ainda sujeito a ávidas especulações até hoje. Houve várias testemunhas, e existem muitas versões, não apenas sobre o que de fato aconteceu, mas sobre o motivo”.

Continua Martin: “Dizem que o casamento de Vargas Llosa passou por um momento difícil em meados dos anos 70, e que García Márquez se arvorou para consolar a mulher ressentida e pertubada de Mario. Outros dizem que fez isso aconselhando-a a iniciar os procedimentos do divórcio; outros, que o conforto foi mais direto. É evidente que Mario concluiu García Márquez colocara a preocupação por Patrícia na frente da amizade entre os dois. Apenas Patricia Llosa sabe o que disse ao marido quando os dois se reconciliaram. Em outras palavras, somente ela sabe a história inteira”.

Ao menos Gerald Martin reconhece que alguém sabe a verdade.

Leia trecho abaixo:

“García Márquez sempre temera a morte e, por consequência, também temera as doenças. Desde que se tornara famoso, sempre seguira quase todas as recomendações médicas para uma vida saudável. E agora, apesar de todas as precauções, tinha adoecido. Poucas coisas eram mais aterradoras do que um câncer no pulmão. Mesmo assim, ele surpreendeu a si mesmo e àqueles que o conheciam. Aceitou o desafio e insistiu em aprender tudo sobre a doença e seus prováveis prognósticos, para depois se gabar: ‘Eu dominei minha vida’. Gabo deveria fazer repouso absoluto durante seis semanas, mas em 10 de junho anunciaram que ele estaria na Exposição de Sevilha em julho, como previsto, não apenas para inaugurar o Pavilhão da Colômbia mas também para lançar seu livro mais recente. Sabia-se que agora havia 12 ‘contos peregrinos’, e que o livro estava pronto.

García Márquez quase tomou de assalto a Exposição de Sevilha. Depois de sua chegada à cidade andaluza, tornou-se mestre absoluto do stand da Colômbi, apesar de ter declarado em Madri que não haveria um ‘Pavilhão de Macondo’ em Sevilha. (…)

Na realidade, essa foi a primeira vez que García Márquez compareceu ao lançamento de um de seus livros.

ASSOULIN, Pierre. Rosebud: fragmentos de biografias. Tradução de Carlos Nougue, Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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Os leitores das revistas Lire e L’Histoire conhecem bem Pierre Assouline (n. 1953), o escritor francês de origem marroquina que escreveu as biografias de Hergé e Georges Simenon. Os outros talvez se lembrem de um dos seus romances, Vida Dupla (2000). E, a avaliar pelo interesse que a literatura parece suscitar num número significativo de bloggers portugueses, é de prever que o seu blogue La République des livres seja muito concorrido. Por último mas não em último, Assouline é o homem que fez frente a Maria Kodama, viúva de Jorge Luís Borges, acusando-a de dificultar o acesso ao espólio do argentino.

Rosebud (2006), agora traduzido (Rocco, 2010), é uma colecção de ensaios biográficos de extensão variável. Rosebud significa botão de rosa mas, desde que foi usado por Welles em Citizen Kane (1941), as derivações semânticas atropelam-se. Do último analfabeto ao laureado Carlos Fuentes, todos se inclinam diante do espectro da palavra. Conhecedor do seu poder encantatório, nada mais natural que Assouline antecipasse a curiosidade associada à escolha. Éclats de biographies seria redutor…

Muito à francesa, Assouline teoriza largamente sobre o tema: «Há mais de trinta anos que procuro esse rosebud […] em cada um. Esse pequeno nada que nos trai revelando-nos aos outros.» Isto para dizer que o biógrafo é um escrutinador de almas, aquele que procura as «sombras do seu herói». Para tanto, Assouline cita os biografemas de Barthes, o «regalo branco» de Sade, a imundície de Destouches e Céline, a faxina de Beckett em casa de um casal de amigos músicos entrevados, a rotina matinal da Duras: «faz a sua cama todas as manhãs, senão não consegue trabalhar.» Simplificando muito, pode-se dizer que este Rosebud é a versão gaulesa de Intelectuais (1988) do britânico Paul Johnson. Ponto de partida, Welles. Ou não fosse Citizen Kane, ele o diz, «a matriz da biografia moderna.» A ver vamos.

Rudyard Kipling, por exemplo. Pouca gente se lembra que ele nasceu na Índia, mais precisamente em Bombaim, um entre tantos escritores despaísados (Beckett, Brodsky, Camus, Coetzee, Conrad, Derrida, Duras, Eliot, Ionesco, Nabokov, Orwell, Rushdie, etc.), como, aliás, o próprio Assouline, mas os Rolls-Royce do autor de If (1910) sobrelevam a questão identitária. Kipling, hoje quase esquecido, foi famoso por parâmetros que décadas mais tarde seriam os dos Beatles e de Madona: «O rumor do mundo precedeu o clarão do Nobel. […] A humanidade dos seus leitores desloca-se em massa ao cais para [o] acolher no seu regresso da viagem para lá do Atlântico…». Numa escrita ágil e sedutora, Assouline recupera as circunstâncias e o ar desse tempo.

Contra a assepsia do relato neutro, o discurso tem laivos de grandiloquência. Discreteando sobre Cartier-Bresson, dirá que a querela da imagem (entre os defensores do 24×36 e os defensores do 6×6) é um «falso debate» que se resolve entre «violência e cortesia».

A descrição do casamento do príncipe Carlos com a futura Lady Di, em Julho de 1981, é um prodigioso exercício de ironia. Depois de explicar como conseguiu lugar na Catedral de St Paul na qualidade de repórter do France-Soir, Assouline reduz a Inglaterra a uma síntese mordaz: «um conservatório de salsichas, chapéus-de-chuva, lítotes e classes sociais.» No meio de centenas de homens de fraque e calça de fantasia, conforme as regras do Burke’s Peerage e as exigências do convite, dois convidados estão de fato azul-escuro: Assouline e David Owen, o irreverente ministro dos Negócios Estrangeiros de Callaghan que meses antes abandonara com estrondo o Partido Trabalhista. Owen tinha o problema suplementar de calçar sapatos novos, não se tendo dado ao trabalho de os entregar a um criado que os dobrasse as vezes necessárias de modo a «retirar-lhes o aspecto intolerável da novidade». Heresia maior numa sociedade habituada a dividir a humanidade em função dos pés: «a parte de cima do sapato deve estar usada, a parte de baixo não deve oferecer o espectáculo cinzento e vulgar da rua.» Paradoxos de sofista, conclui Assouline.

Paul Celan é recordado em 23 páginas admiráveis: «Uma obra difícil começa sempre por ter amigos antes de ganhar um público. Tanto pior se eles não se amam.» Jean Moulin, o herói da resistência francesa, tem um retrato à altura da lenda.

Como bom francês, Assouline não dispensa a teoria: «Um simples gesto pode ser uma obra de arte.» Não havia necessidade. A qualidade dos seus ensaios dispensa a prestidigitação retórica.

Leia trecho abaixo:

“Estamos em meados dos anos 1930. O ateliê da rua La Boétie, onde Picaso se instalou, é pequeno demais. Dora Maar se encarrega de encontrar outra coisa no Quartier Latin onde ela vive, o mais perto possível de sua casa, na rua de Savoie. Fala-se de um lugar na rua dos Grandes-Augustins. Aquele que Georges Bataille utilizou para reuniões de seu grupo Contra-Ataque. O mesmo que Jean-Louis Barrault ocupou para seus ensaios de teatro do grupo Octobre, depois de ter feito trabalhar ali sua primeira trupe, a Compagnie du grenier des augustins. Antes deles, ali tinha estado o ateliê de um tecelão. (…)

Picasso é imediatamente conquistado. O lugar tem um não sei quê do Bateau-Lavoir, mais amplo. Poucos biógrafos se aventuram a imaginar que o pintor e sua companheira se tenham aproximado de Balzac. Um deles até julga ver ali ‘um sinal do destino’. Nenhuma alusão, porém, nas cartas, lembranças, arquivos, entrevistas de Picasso. Nem sequer a posteriori. Em 1937, o número 7 da rua dos Grands-Augustins é par ele ‘o sótão de Barrault’, após ter sido para ela ‘o local de Bataille’, e, antes de se tornar o ‘ateliê de Picasso’. O casal ignora tudo sobre o passado da antiga residência dos duques de Saboia. (…) ‘É aqui’. Picasso pregou com percevejos um pedaço de papel na porta, dirigido àqueles a quem o ambiente assusta. Atrás da porta, o ateliê se impõe imediatamente como as grandes personagens”.

Biografias-Kafka-Rimbaud

Goiânia é a cidade mais desigual do Brasil

2:43 pm
Goiânia

Goiânia

ONU revela que 5 capitais brasileiras têm grande diferença entre ricos e pobres

Por Alfredo Junqueira
RIO – O Estadao de S.Paulo

Cinco cidades brasileiras estão entre as 20 mais desiguais do mundo. Relatório apresentado ontem na abertura do V Forum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio, revela que Goiânia (10ª), Belo Horizonte (13ª), Fortaleza (13ª), Brasília (16ª) e Curitiba (17ª) são as que apresentam as maiores diferenças de renda entre ricos e pobres no País.

O documento “O Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido” também informa que o Brasil é o país com a maior distância social na América Latina. O Rio, na 28ª posição, e São Paulo, na 39ª, também são cidades com alto índice de desigualdade, de acordo com o relatório.

Nove municípios na África do Sul lideram o ranking. As capitais da Nigéria, Etiópia, Colômbia, Quênia e Lesoto também estão entre as mais desiguais. No total, 138 cidades de 63 países em desenvolvimento foram analisadas. O relatório baseia suas conclusões no coeficiente Gini – cujos indicadores medem a concentração de renda de um país.

Na avaliação do coordenador do relatório e diretor do Centro de Estudos e Monitoramentos das Cidades do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o mexicano Eduardo Lopez Moreno, existe vínculo direto entre desigualdade e criminalidade. Mais do que custos sociais, o abismo entre ricos e pobres também provoca prejuízos econômicos. “Estatisticamente, existe sim um vínculo. É muito possível que a cidade mais desigual gere muito mais facilmente distúrbios e problemas sociais. As autoridades desses países vão deslocar recursos que deveriam ir para investimentos para conter esses movimentos sociais. O custo social acaba se traduzindo em custo econômico”, afirmou Moreno.

Em termos de favelização, o estudo da ONU apresenta resultados paradoxais para o Brasil. Apesar de ter sido o país que apresentou o maior número absoluto de pessoas que deixaram de viver em condições de favelização na América Latina – 10,4 milhões -, a pesquisa mostrou que o desempenho relativo ficou abaixo dos vizinhos. Enquanto as condições de moradia melhoraram para 16% da população brasileira, esse índice ficou em 40,7% na Argentina, 39,7% na Colômbia, 27,6% no México e 21,9% no Peru.

As estimativas apresentadas na pesquisa são de que mais de 227 milhões de pessoas no mundo deixaram de viver em regiões faveladas desde 2000. Isso representa uma evolução 2,2 vezes maior do que o estimado nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, que haviam estabelecido o objetivo de melhorar as condições de habitação de 100 milhões de pessoas até 2020.

“A situação melhorou em dez anos, mas, infelizmente, no mesmo período o aumento dos pobres urbanos é de 55 milhões”, disse Anna Tibaijuka, diretora-executiva do ONU-Habitat. De acordo com a metodologia da pesquisa, deixar de viver em condição de favelização não significa necessariamente mudança de residência ou remoção de comunidade. Acesso a saneamento básico e água potável, o material utilizado nas moradias e a densidade das residências são os índices para avaliar se uma região é ou não favelada.

Para Moreno, o Brasil deve apresentar melhora de seus índices nos próximos anos por conta de programas governamentais de habitação e transferência de renda. “Bolsa-Família” e Minha Casa, Minha Vida são programas muito novos. É impossível medir agora porque essas mudanças têm uma evolução histórica. Elas vão mostrar em cinco anos os seus resultados”, avaliou.

Cidades brasileiras integram lista das mais desiguais

Cinco cidades brasileiras estão entre as 20 mais desiguais do mundo. Relatório apresentado hoje, na abertura do 5º Forum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio, revela que Goiânia (10ª), Belo Horizonte (13ª), Fortaleza (13ª), Brasília (16ª) e Curitiba (17ª) são as que apresentam as maiores diferenças de renda entre ricos e pobres no País. O documento “O Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido” também informa que o Brasil é o país com a maior distância social na América Latina.

O Rio de Janeiro, na 28ª posição, e São Paulo, na 39ª, também são cidades consideradas com alto índice de desigualdade, de acordo com o relatório da ONU. Nove municípios na África do Sul lideram o ranking. As capitais da Nigéria, Etiópia, Colômbia, Quênia e Lesoto também estão entre as mais desiguais. No total, 138 cidades de 63 países em desenvolvimento foram analisadas. O relatório baseia suas conclusões no coeficiente Gini – cujos indicadores medem a concentração de renda de um país.

Na avaliação do coordenador do relatório e diretor do Centro de Estudos e Monitoramentos das Cidades do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o mexicano Eduardo Lopez Moreno, existe vínculo direto entre desigualdade e criminalidade. Mais do que custos sociais, o abismo entre ricos e pobres também provoca prejuízos econômicos.

“Estatisticamente falando, existe sim um vínculo. É muito possível que a cidade mais desigual vai gerar muito mais fácil distúrbios e problemas sociais. As autoridades desses países vão deslocar recursos que deveriam ir para investimentos para conter esses movimentos sociais. O custo social acaba se traduzindo em custo econômico”, afirmou Moreno.

Favelas

Em termos de favelização, o estudo da ONU apresenta resultados paradoxais para o Brasil. Apesar de ter sido o país que apresentou o maior número absoluto de pessoas que deixaram de viver em condições de favelização na América Latina – 10,4 milhões -, a pesquisa mostrou que o desempenho relativo ficou abaixo dos vizinhos. Enquanto as condições de moradia melhoraram para 16% da população brasileira, este índice ficou em 40,7% na Argentina, 39,7% na Colômbia, 27,6% no México e 21,9% no Peru.

As estimativas apresentadas na pesquisa são de que mais de 227 milhões de pessoas no mundo todo deixaram de viver em regiões faveladas desde o ano 2000. Isso representa uma evolução 2,2 vezes maior do que o estimado nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, que haviam estabelecido objetivo de melhorar as condições de habitação de 100 milhões de pessoas até 2020.

“A situação melhorou em dez anos, mas infelizmente no mesmo período o aumento líquido dos pobres urbanos é de 55 milhões”, disse Anna Tibaijuka, diretora-executiva do ONU-Habitat.

De acordo com a metodologia da pesquisa, deixar de viver em condição de favelização não significa necessariamente mudança de residência ou remoção de comunidade. Acesso a saneamento básico e água potável, o material utilizado nas moradias e a densidade das residências são os fatores para avaliar se uma região é ou não favelada.

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Brasil reduziu favelas em 16% na última década

19 de março de 2010 9:21 am

favela

Cerca de 10,4 milhões de pessoas deixaram habitações precárias em dez anos; no mundo, porém, número de favelados cresceu

Na última década, o Brasil reduziu em 16% a população de habitantes de favelas, o que representa cerca de 10,4 milhões de pessoas. A fatia de habitantes que moram em habitações precárias diminuiu de 31,5% para 26,4% em dez anos, graças à adoção de políticas econômicas e sociais, diminuição da taxa de natalidade e migração do campo para a cidade. As conclusões estão no relatório “State of the World’s Cities 2010/2011”, produzido pelas Nações Unidas (ONU).

Em todo o mundo, 227 milhões de pessoas deixaram de viver em favelas nos últimos dez anos, informa o relatório. Entre os países que mais avançaram na questão, o Brasil está atrás apenas de China, Índia e Indonésia.

Apesar disso, a ONU aponta que crescimento populacional e o êxodo rural fizeram com que no total o número de favelados crescesse de 776,7 milhões para 827,6 milhões durante a década. Os autores do estudo calculam que, mantida a taxa atual, o número de habitantes de favelas chegará a 889 milhões em 2020.

Na América Latina, Argentina, Colômbia, México e Brasil juntos representam 79% do desenvolvimento urbano que a região conquistou no período. Na Argentina, destaca a análise, houve melhora na vida de 5 milhões de favelados.

Em relação ao Brasil, o estudo valia que a diminuição do número de favelados também foi possível com a criação do Ministério das Cidades, adoção de uma emenda constitucional afirmando o direito do cidadão à moradia e os subsídios de materiais de construção, terrenos e serviços.

‘PASSOS GIGANTES’

Segundo o relatório, China e Índia – países mais populosos do planeta – deram “passos gigantes” para melhorar as condições de moradia de suas populações.

Metade deste crescimento veio de pessoas que já viviam em favelas, um quarto de migrantes do campo para áreas urbanas e outro quarto de pessoas que viviam em áreas rurais nas bordas das cidades e que tiveram suas residências engolidas pelo crescimento urbano.

Na semana que vem, o Rio será sede do V Fórum Urbano Mundial, entre os dias 22 e 26. Com tema “O Direito à Cidade: Unindo o Urbano Dividido”, O evento da ONU visa analisar os desafios da rápida urbanização e seus impactos na sociedade.

“I’m Here”: una visión del amor en 30 minutos por Spike Jonze

8:45 am

Antes de ayer, gracias a Absolut Network, pude asistir al preestreno online de la nueva obra cinematográfica de Spike Jones, uno de mis directores favoritos, I’M HERE. Una historia de amor en 30 minutos acerca de dos robots que viven en la ciudad de Los Angeles y se enamoran. Acompañados de la música de Sam Spiegel, las canciones de Aska Matsumiya y otros grupos emergentes, los diálogos entre los protagonistas son pocos. Pues estos dos robots ’son robots de pocas palabras’ y gestos maravillosos. Tengo que reconoceos que hubo momentos en los que me vinieron muchas ganas de llorar, de ternura y melancolía, durante el pase. Me recordaba a ciertas relaciones virtuales que tenemos actualmente entre nosotros, a veces casi más humanas e intensas de lo que vivimos con nuestros compañeros de carne y hueso. Una obra de acento retrofuturista con tantas interpretaciones como personas hay en un concierto, preciosa.

Viernes 5 de Febrero de 2010

“I’m Here” es una historia de amor de 30 minutos acerca de dos robots que viven en la ciudad de Los Angeles. El film, escrito y dirigido por Spike Jonze transcurre en un escenario hipotético donde la vida fluye a un ritmo aparentemente normal, con la excepción de unos cuantos robots que viven entre la población sin mayor explicación.

Un robot bibliotecario interpretado por Andrew Garfield, con una vida solitaria y metódica, carente de creatividad, alegría y pasión ve su realidad alterada por el espíritu libre y aventurero de una robot caracterizada por Sienna Guillory.

El cortometraje tiene la esencia de un video musical extendido, en el que escasean las palabras que son exquisitamente sustituidas por la música original de Sam Spiegel, más conocido por su proyecto N.A.S.A. y canciones originales de la artista angelina Aska Matsumiya y otros músicos emergentes.

La colaboración creativa entre ABSOLUT VODKA y Spike Jonze está acompañada de una donación por $30,000 dólares a 20/20, una iniciativa del American Film Institute (AFI) diseñada para impulsar el intercambio cultural, el entendimiento y la colaboración entre cineastas y sus películas en Estados Unidos y otros países.

Con este proyecto, Spike Jonze se une al selecto grupo de artistas visionarios que ABSOLUT ha impulsado a crear en los últimos 30 años. Andy Warhol, Keith Haring y Helmut Newton entre otros se han conectado con ABSOLUT en memorables colaboraciones que hoy se extienden al cine de vanguardia.

“I’m Here” se estrenó en la última edición del Sundance Film Festival como parte de la primera versión del Opening Night’s Shorts Program y fue seleccionado en la sección Generation 14plus del Berlin Film Festival que se llevará a cabo en la capital alemana del 11 al 21 de febrero.

La premier mundial del cortometraje será exclusivamente online a través del sitio web: www.imheremovie.com en marzo.

Sigue el blog del proyecto en : http://blog.imheremovie.com/

Debate Grows on Nuclear Containment of Iran

17 de março de 2010 6:06 pm

irabomb

By DAVID E. SANGER

For a few months in the mid-1960s President Johnson and his aides secretly weighed bombing China’s nuclear sites — perhaps seeking Soviet help — rather than let Mao get the bomb. Then the costs of starting another war in Asia sank in and they decided to try containment — living with a threatening regime while deterring its most dangerous moves.

It worked. Nearly five decades later, more Americans wake up worried about our trillion-dollar debt to China than about China’s arsenal. China has evolved into a comparatively manageable military competitor, at least for now.

Today a version of the same debate about whether containment is the answer is breaking out again, this time about Iran. Prominent strategists like Zbigniew Brzezinski argue forcefully that what worked in the cold war will work with the mullahs. The cover of Foreign Affairs this month is an article titled “After Iran Gets the Bomb”; it draws scenarios for dealing with what many believe is inevitable. Meanwhile, the administration races to add antimissile systems and a naval presence in the Gulf — an effort to contain Iran’s power in the region, officials say, but it sure looks like the building blocks of a nuclear containment policy, a backup in case the next round of sanctions fails to do the trick.

The White House denies that nuclear containment is on the table. “The United States is determined to prevent Iran from acquiring nuclear weapons, period,” Vice President Joseph R. Biden Jr. said on his testy trip to Israel last week.

But to many in the early 1960s, a nuclear China was also unthinkable. More recently, George W. Bush would regularly repeat that America would never “tolerate” a nuclear North Korea. The reality was that during the last six years of his presidency, he tolerated it, then prepared the way for the current containment strategy of intercepting shipments from North Korea to customers for its nuclear know-how.

What is striking about the current debate about containing Iran is that neither side seems entirely confident in the solidity of its argument.

Those who advocate sanctions acknowledge that three rounds enacted by the United Nations Security Council failed to change Iran’s behavior. Even if the administration wins new sanctions aimed at the Revolutionary Guard, the advocates admit it will still be a long shot that Iran would hurt enough to stop enriching uranium.

Those who argue that a military strike might be needed if sanctions fail have their own doubts. They admit they cannot predict Iran’s response — from terror strikes to oil cutoffs to confrontations in the Strait of Hormuz.

Even the administration seems tentative about when Iran will exceed American tolerance. In the Pentagon and the intelligence agencies, several senior officials complain — though never on the record — that President Obama and his staff have not clearly defined when Iran will gain a “nuclear weapons capability.” Many argue that similar indecision preceded the day in 2006 when Mr. Bush woke up to discover that North Korea had conducted a nuclear test.

So what is the argument for containment? Basically, it assumes that if China and Russia changed over decades, so might Iran. And nuclear weapons can handcuff a nation as easily as they can empower it. Last week, at the University of Oklahoma, Mr. Brzezinski argued that either an Iranian bomb or an attack on Iran would be “a calamity, a disaster.” He said containment could work because Iran “may be dangerous, assertive and duplicitous, but there is nothing in their history to suggest they are suicidal.”

Nevertheless, in their Foreign Affairs essay, James Lindsay and Ray Takeyh concede that the Iran case differs substantially from the cold war ones, and that a successful strategy today would have to recognize that fact. They urge Mr. Obama to prescribe three explicit no-go zones for the Iranians: “no initiation of conventional warfare” against another nation; “no transfer of nuclear weapons, materials, or technologies”; no increase in support for terrorists. The penalty, they argued, would have to include “military retaliation by any and all means necessary,” including the use of nuclear weapons.

It is a logical list. But there is a counterargument: Why would Iran believe the threat if the United States, having said it would never allow Iran to get a nuclear capability, then allowed it?

In fact, the administration is deep into containment now — though it insists its increases in defensive power in the Gulf are meant to deter a conventional attack by Iran. If Iran’s threat went nuclear, America might have to extend its nuclear umbrella as well. Defense Secretary Robert Gates carefully stepped around that option last week while in Saudi Arabia and the United Arab Emirates, trying to reassure leaders who increasingly fear the prospect of an Iranian bomb.

Mr. Gates defended the sanctions strategy: “I think the prospects of success are certainly better than in a lot of other situations where sanctions have been applied,” he said. But he spent most of his time explaining the need for “defensive capabilities” against Iranian missiles.

Few doubt the missile threat can be contained. Strategists worry more that Iran might slip a crude weapon or nuclear material to terrorists, betting it couldn’t be traced back to Tehran. (It’s not a bad bet — the science of “nuclear attribution” is a lot weaker than it seems on “24.” )

Yet another argument against containment comes from Brent Scowcroft, the national security adviser under Presidents Gerald Ford and George H. W. Bush. “The ultimate consequence of trying to contain Iran has little to do with Iran itself,” he argues. “The biggest risk is that it will start an eruption of proliferation” around the Gulf, starting with Turkey, Saudi Arabia and Egypt. They would doubt the American deterrent capability, he said, and the problem would spread to Japan and South Korea.

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Ver mais sobre o assunto aqui.

The Moral Ambiguity of Looting

5:51 pm

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By DONALD G. McNEIL Jr.

“The law, in its majestic equality,” wrote the 19th-century novelist Anatole France, “forbids the rich as well as the poor to sleep under bridges, to beg in the streets and to steal bread.”

If crushed bodies were the enduring images of Haiti’s earthquake, the most memorable ones of Chile’s have been of looting. Because of stricter building codes, far more people survived in middle-class Chile than in impoverished Haiti.

Nonetheless, a pattern that now is a cliché of disaster journalism broke out there as well: Early reports of people raiding markets for food and diapers were quickly followed by pictures of people carrying TVs and dishwashers off into a city with no electricity. Intact stores were broken into. A department store in Concepción was set ablaze. In a few places, roving bands robbed anyone they could. Residents who formed self-defense posses were quoted saying that the “human earthquake” was worse than the geological one.

Which raises the questions: When are desperate people entitled to help themselves? And to what? At what chaotic point between the diapers and the dishwasher may the police shout, “Drop that (insert morally ambiguous item here) or I’ll shoot?”

By midweek, with thousands of troops deployed, the pictures began shifting: young men spread-eagled on the ground with gun muzzles pressed behind their ears.

All in all, it sounded a lot like Haiti. Or like New Orleans after Hurricane Katrina. Or like Dayton, Ohio, after the 1913 flood. Or like Rome in 410.

It is hard to name a single disruption in the social order, natural or man-made, that has not triggered looting somewhere. Thick snow? Chicagoans looted in a record blizzard in 1967. Montreal residents looted during a 1969 police strike. In 1911, Sicilians dodged lava flowing out of Mount Etna to loot homes abandoned in its path. And don’t forget the sacking of the National Museum in Baghdad, in the wake of invasion in 2003.

But it is also hard to predict when looting will erupt, and when it won’t. New York’s 1965 blackout was famous for the citywide bonhomie it produced. But July 1977 was different: When the lights went out then, if one lived in Greenwich Village it felt like the big block party was back; but in poor black and Hispanic neighborhoods, hundreds of stores were looted and 25 fires still burned the next morning.

Though looting starts spontaneously, how quickly it stops appears to depend on how rapid and severe a response it meets. That, in brief, is the argument for using force decisively.

The worst rampage in New York’s history was started not by a natural disaster, but by draft numbers being drawn. In 1863, poor laborers, most of them Irish, rebelled against conscription for the Civil War; the all-Irish “Fighting 69th” had just been virtually wiped out at Gettysburg.

The mobs lynched blacks and torched a black orphanage, attacked the mansions of anti-slavery Republicans and burned the mayor’s home. Most of the state militia was still in Pennsylvania, so it was days before Federal troops intervened in force, using artillery to disperse the mobs.

By contrast, in San Francisco in 1906, the earthquake struck at 5:13 a.m. In the Presidio, making decisions in a vacuum because telegraph and telephone lines were down, Brig. Gen. Frederick Funston ordered troops to march to the Hall of Justice and report to Mayor Eugene E. Schmitz. The first detachment arrived at 7 a.m., and by 3 p.m., Mayor Schmitz had officially authorized the troops “to kill any and all persons engaged in looting or in the commission of any other crime.”

“Let it be given out that three men have already been shot down without mercy,” he told reporters.

Historians disagree about how many were actually killed. Some witnesses claimed a few people trapped on the roofs of burning buildings or under flaming rubble were also shot — with their permission — to save them pain. In any case, looting was relatively minor, cavalrymen herded crowds away from huge fires, and the military was praised for the tent cities it hastily erected in the city’s parks.

Legally, as Anatole France observed, the starving may not filch even bread. But academics who study looting parse it into three separate rungs on a ladder of moral ambiguity.

Stealing food to survive is accepted by most.

Stealing TVs slides into a grey area. Yes, a starving man could sell a TV for food, but it’s never clear his motives are that pure.

And the third level — rampage and mayhem that is really ethnic or class warfare or the Hobbesian “war of all against all” — is universally condemned, even though many say the poor of every country have a right to be angry and ought to be forgiven for showing it during a crisis.

This article has been revised to reflect the following correction:

Correction: March 14, 2010

An article last Sunday about the morality of dealing with looting in times of disaster incorrectly stated that a blackout in 1965, which did not bring disorder to New York, resulted instead in a baby boom nine months later. There was no baby boom. A widespread belief that there had been one originated with a New York Times article, nine months after the blackout, reporting that some New York hospitals were experiencing higher than normal numbers of births; later scientific studies, however, found no evidence of a statistically significant spike in the birth rate.

Ver outra análise aqui.

El último encuentro con Lula

16 de março de 2010 11:03 pm

El líder de la Revolución Cubana afirmó que guardará un imborrable recuerdo de su última reunión con el Presidente de Brasil, con quien conversara durante su más reciente visita oficial a la Isla. Fidel agrega que Lula conoce desde hace muchos años que en nuestro país jamás se torturó a nadie, jamás se ordenó el asesinato de un adversario, jamás se mintió al pueblo. Tiene la seguridad de que la verdad es compañera inseparable de sus amigos cubanos.

vrede

Por Fidel Castro

1 de Marzo del 2010

Lo conocí en Managua en julio de 1980, hace 30 años, durante la conmemoración del primer aniversario de la Revolución Sandinista, gracias a mis contactos con los partidarios de la Teología de la Liberación, que se iniciaron en Chile cuando en el año 1971 visité al presidente Allende.

Por Frei Betto sabía quién era Lula, un líder obrero en el que los cristianos de izquierda ponían desde temprano sus esperanzas.

Se trataba de un humilde obrero de la industria metalúrgica que se destacaba por su inteligencia y prestigio entre los sindicatos, en la gran nación que emergía de las tinieblas de la dictadura militar impuesta por el imperio yanki, en la década del 60.

Las relaciones de Brasil con Cuba habían sido excelentes hasta que el poder dominante en el hemisferio, las hizo sucumbir.  Pasaron décadas desde entonces hasta que volviesen lentamente a ser lo que son hoy.

Cada país vivió su historia. Nuestra Patria soportó inusitadas presiones en las etapas increíbles vividas desde 1959, en su lucha frente a las agresiones del más poderoso imperio que ha existido en la historia.

Por ello, tiene para nosotros una enorme trascendencia la reunión que se acaba de efectuar en Cancún y la decisión de crear una Comunidad de Estados de América Latina y el Caribe. Ningún otro hecho institucional de nuestro hemisferio durante el último siglo refleja similar trascendencia.

El acuerdo se alcanza en medio de la más grave crisis económica que ha tenido lugar en el mundo globalizado, coincidiendo con el mayor peligro de catástrofe ecológica de nuestra especie y a la vez con el terremoto que destruyó a Puerto Príncipe, capital de Haití, el más doloroso desastre humano de la historia de nuestro hemisferio, en el país más pobre del continente y el  primero donde se erradicó la esclavitud.

Cuando escribía esta Reflexión, a sólo seis semanas  de la muerte de más de doscientas mil personas de acuerdo a cifras oficiales en aquel país, llegaron noticias dramáticas de los daños causados por otro sismo en Chile, que ocasionó la muerte de personas cuyo número  se acerca ya a mil, según cifras de las autoridades, y enormes daños materiales. Conmovían especialmente las imágenes de los sufrimientos de millones de chilenos afectados material o emocionalmente por aquel golpe cruel de la naturaleza. Chile, afortunadamente, es un país con más experiencia frente a ese tipo de fenómeno, mucho más desarrollado económicamente y con más recursos. De no haber contado con infraestructuras y edificaciones más sólidas, un incalculable número de personas, tal vez decenas o incluso cientos de miles de chilenos, habrían perecido. Se habla de dos millones de damnificados y posibles pérdidas que oscilan entre 15 y 30 mil millones de dólares. En su tragedia cuenta también con la solidaridad y las simpatías de los pueblos, entre ellos el nuestro, aunque dado el tipo de cooperación que necesita es poco lo que puede hacer Cuba, cuyo gobierno fue uno de los primeros en expresar al de Chile sus sentimientos de solidaridad, cuando las comunicaciones estaban aún colapsadas.

El país que hoy pone a prueba la capacidad del mundo para enfrentar el cambio climático y garantizar la supervivencia de la especie humana es sin duda Haití, por constituir un símbolo de la pobreza que hoy padecen miles de millones de personas en el mundo, incluida una parte importante de los pueblos de nuestro continente.

Lo ocurrido en Chile con el terremoto de la increíble intensidad de 8,8 en la escala de Richter, aunque afortunadamente a más profundidad que el que destruyó Puerto Príncipe, me obliga a enfatizar la importancia y el deber de estimular los pasos de unidad logrados en Cancún, aunque no me hago ilusiones sobre lo difícil y compleja que será nuestra lucha de ideas frente al esfuerzo del imperio y sus aliados dentro y fuera de nuestros países por frustrar la tarea unitaria e independentista de nuestros pueblos.

Deseo dejar constancia escrita de la importancia y el simbolismo que para mí tuvo la visita y el último encuentro con Lula, desde el punto de vista personal y revolucionario. Él dijo que, próximo ya a finalizar su mandato, deseaba visitar a su amigo Fidel; calificativo  honroso que recibí de su parte. Creo conocerlo bien. No pocas veces conversamos fraternalmente dentro y fuera de Cuba.

Una vez tuve el honor de visitarlo en su casa, situada en un modesto barrio de Sao Paulo, donde residía con su familia. Fue para mí un emotivo encuentro con él, su esposa y sus hijos. No olvidaré nunca la atmósfera familiar y sana de aquel hogar, y el sincero afecto con que lo abordaban sus vecinos, cuando Lula era ya un prestigioso líder obrero y político. Nadie sabía entonces si llegaría o no a la Presidencia de Brasil, pues los intereses y fuerzas que se le oponían eran muy grandes, pero me agradaba hablar con él. A Lula tampoco le importaba mucho el cargo;  le satisfacía, sobre todo, el placer de luchar y lo hacía con intachable modestia; que demostró sobradamente cuando, habiendo sido vencido tres veces por sus poderosos adversarios, sólo accedió a permitir la postulación del Partido de los Trabajadores en una cuarta ocasión por fuerte presión de sus más sinceros amigos.

No intentaré hacer recuento de las veces que hablamos antes de que lo eligieran Presidente;  una de ellas, entre las primeras, fue a mediados de la década de los 80 cuando luchábamos en La Habana contra la deuda externa de América Latina, que entonces ascendía a 300 mil millones de dólares y había sido más de una vez pagada. Es un luchador nato.

Tres veces, como dije, sus adversarios, apoyados en enormes recursos económicos y mediáticos, lo derrotaron en las urnas. Sus más cercanos colaboradores y amigos sabíamos sin embargo que había llegado la hora de que aquel humilde obrero fuese el candidato del Partido de los Trabajadores y de las fuerzas de izquierda.

Con seguridad sus oponentes lo subestimaron, pensaron que no podría contar con mayoría alguna en el órgano legislativo. No existía ya la URSS. ¿Qué podía significar Lula al frente de Brasil, una nación de grandes riquezas, pero de escaso desarrollo en manos de una burguesía rica e influyente?

Sin embargo, el neoliberalismo entraba en crisis, la Revolución Bolivariana había triunfado en Venezuela, Menem estaba en caída vertical, Pinochet había desaparecido de la escena y Cuba resistía. Pero Lula es electo cuando Bush triunfa fraudulentamente en Estados Unidos, despojando a su rival Al Gore de la victoria.

Se iniciaba una etapa difícil. Impulsar la carrera armamentista y con ella el papel del Complejo Militar Industrial, y reducir los impuestos a los sectores ricos, fueron los primeros pasos del nuevo Presidente de Estados Unidos.

Con el pretexto de la lucha contra el terrorismo, reinició las guerras de conquista e institucionalizó el asesinato y las torturas como instrumento de dominio imperialista. Son impublicables los hechos relacionados con las cárceles secretas, que delataban la complicidad de los aliados de Estados Unidos con esa política. De este modo, se aceleró la peor crisis económica de las que en forma cíclica y creciente acompañan al capitalismo desarrollado, pero esta vez con los privilegios de Bretton Woods y sin ninguno de sus compromisos.

Brasil, por su parte, en los últimos ocho años bajo la dirección de Lula, vencía obstáculos, incrementaba su desarrollo tecnológico, y potenciaba el peso de la economía brasileña. La parte más difícil fue su primer período, pero tuvo éxito y ganó experiencia. Con su incansable batallar, serenidad, sangre fría y creciente consagración a la tarea, en condiciones internacionales tan difíciles, Brasil alcanzó un PIB que se aproxima a los  dos millones de millones de dólares.  Los datos varían según las fuentes, pero todas lo sitúan entre las 10 mayores economías del mundo. A pesar de eso, con una superficie de 8 millones 524 mil kilómetros cuadrados, frente a Estados Unidos, que apenas posee algo más de territorio, Brasil sólo alcanza aproximadamente el 12% del Producto Interno Bruto de ese país imperialista que saquea al mundo y despliega sus fuerzas armadas en más de mil bases militares de todo el planeta.

Tuve el privilegio de asistir a su toma de posesión a fines del 2002. También estuvo Hugo Chávez, que acababa de enfrentar el golpe de Estado traidor del 11 de abril de ese año, y posteriormente el golpe petrolero organizado por Washington. Ya Bush era Presidente. Las relaciones entre Brasil, la República Bolivariana y Cuba siempre fueron buenas y de mutuo respeto.

Yo tuve un accidente serio en octubre del 2004, que limitó seriamente mis actividades durante meses, y enfermé gravemente a fines de julio del 2006, en virtud de lo cual no vacilé en delegar mis funciones al frente del Partido y del Estado en la proclama del 31 de julio de ese año, con carácter provisional, al que pronto le asigné carácter definitivo cuando comprendí que no estaría en condiciones de asumirlas nuevamente.

En cuanto la gravedad de mi salud me permitió estudiar y meditar, me consagré a eso y a revisar materiales de nuestra Revolución, y de vez en cuando a publicar algunas Reflexiones.

Después que enfermé he tenido el privilegio de ser visitado por Lula cuantas veces ha viajado a nuestra Patria y de conversar ampliamente con él. No diré que siempre coincidí con toda su política. Soy, por principio, opuesto a la producción de biocombustible a partir de productos que puedan ser utilizados como alimentos, consciente de que el hambre es y podrá ser cada vez más una gran tragedia para la humanidad.

Este sin embargo ­­―lo expreso con toda franqueza­― no es un problema creado por Brasil y mucho menos por Lula. Forma parte inseparable de la economía mundial impuesta por el imperialismo y sus aliados ricos que, subsidiando sus producciones agrícolas, protegen sus mercados internos y compiten en el mercado mundial con las exportaciones alimentarias de los países del Tercer Mundo, obligados a importar en cambio los artículos industriales producidos con las materias primas y los recursos energéticos de ellos mismos que heredaron la pobreza de siglos de colonialismo. Comprendo perfectamente que Brasil no tenía otra alternativa, frente a la competencia desleal y los subsidios de Estados Unidos y Europa, que incrementar la producción de etanol.

La tasa de mortalidad infantil todavía en Brasil es de 23,3 por cada mil nacidos vivos y la materna de 110 por cada 100 mil partos, mientras en los países industrializados y ricos es menos de 5 y 15 respectivamente. Otros muchos datos similares podrían citarse.

El azúcar de remolacha, subsidiada por Europa, arrebató a nuestro país el mercado azucarero, derivado de la caña de azúcar, trabajo agrícola e industrial precario y eventual que mantenía en el desempleo gran parte del tiempo a los trabajadores azucareros. Estados Unidos por su parte, se apoderó también de nuestras mejores tierras y sus empresas eran dueñas de la industria. Un día, abruptamente, nos despojaron de la cuota azucarera y bloquearon a nuestro país para aplastar la Revolución y la independencia de Cuba.

Hoy Brasil ha desarrollado el cultivo de la caña de azúcar, la soya y el maíz con máquinas de alto rendimiento que pueden emplearse en esos cultivos con altísima productividad. Cuando un día observé la filmación de una extensión de 40 mil hectáreas de tierra en Ciego de Ávila dedicada al cultivo de soya en rotación con maíz donde se tratará de laborar durante todo el año, exclamé: es el ideal de una empresa agrícola socialista, altamente mecanizada con elevada productividad por hombre y por hectárea.

Los problemas de la agricultura y sus instalaciones en el Caribe son los huracanes que, en número creciente, arrasan su territorio.

También nuestro país ha elaborado y firmado con Brasil la financiación y construcción de un modernísimo puerto en el Mariel, que será de enorme importancia para nuestra economía.

En Venezuela están utilizando la tecnología agrícola e industrial brasileña para producir azúcar y utilizar el bagazo como fuente de energía termoeléctrica. Son equipos de avanzada que laboran en una empresa también socialista. En la República Bolivariana utilizan el etanol para mejorar el efecto ambientalmente nocivo de la gasolina.

El capitalismo desarrolló las sociedades de consumo y también el derroche de combustible que engendró el riesgo de un dramático cambio climático. La naturaleza tardó 400 millones de años en crear lo que nuestra especie está consumiendo en apenas dos siglos. La ciencia no ha resuelto todavía el problema de la energía que sustituirá a la que hoy genera el petróleo;  nadie sabe cuánto tiempo requerirá y cuánto costaría resolverlo a tiempo. ¿Dispondrá de él?  Eso fue lo que se discutió en Copenhague y la Cumbre resultó un fracaso total.

Lula me contó que cuando el etanol cuesta un 70% del valor de la gasolina, ya no es negocio producirlo. Expresó que disponiendo Brasil del mayor bosque del planeta, reducirá progresivamente la tala actual en un 80%.

Hoy posee la mayor tecnología del mundo para perforar en el mar, y puede extraer combustible situado a una profundidad de siete mil metros de agua y fondo marino. Hace 30 años habría parecido historia de ciencia ficción.

Explicó los programas educacionales de alto nivel que Brasil se propone llevar adelante. Valora altamente el papel de China en la esfera mundial. Declaró con orgullo que el intercambio comercial con ese país se eleva a 40 mil millones de dólares.

Una cosa es indiscutible:  el obrero metalúrgico se ha convertido actualmente en un estadista destacado y prestigioso cuya voz se escucha con respeto en todas las reuniones internacionales.

Está orgulloso por haber recibido el honor de los Juegos Olímpicos para Brasil en el 2016 en virtud del excelente programa presentado en Dinamarca. Será sede también del Mundial de Fútbol en el 2014. Todo ha sido fruto de los proyectos presentados por Brasil, que superaron a los de sus competidores.

Una gran prueba de su desinterés fue la renuncia a buscar la reelección, y confía en que el Partido de los Trabajadores continuará gobernando a Brasil.

Algunos envidiosos de su prestigio y de su gloria, y peor aún, los que están al servicio del imperio, lo criticaron por visitar Cuba. Utilizaron para ello las viles calumnias que desde hace medio siglo se usan contra Cuba.

Lula conoce desde hace muchos años que en nuestro país jamás se torturó a nadie, jamás se ordenó el asesinato de un adversario, jamás se mintió al pueblo. Tiene la seguridad de que la verdad es compañera inseparable de sus amigos cubanos.

De Cuba partió rumbo a nuestro vecino Haití. A él le informamos nuestras ideas sobre lo que proponemos con relación a un programa sostenible, eficiente, especialmente importante y muy económico para Haití. Conoce que más de cien mil haitianos fueron atendidos por nuestros médicos y los graduados de la Escuela Latinoamericana de Medicina después del terremoto. Hablamos cosas serias, conozco sus ardientes deseos de ayudar a ese noble y sufrido pueblo.

Guardaré un imborrable recuerdo de mi último encuentro con el Presidente de Brasil y no vacilo en proclamarlo.

Fidel Castro Ruz

Marzo 1 de 2010

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Sucursal do Inferno

1:41 pm







“Amarre um cachorro e chute ele todos os dias. Veja se ele não te morde quando você o soltar”. Essa frase que ouvi de um preso do Carandiru não saia da minha cabeça enquanto fotografava a matéria que foi publicada na Folha, no ultimo domingo sobre a situação estarrecedora dos presídios na região metropolitana de Vitória, no Espírito Santo.
No corredor que dá acesso as celas, o cheiro de podridão azeda podia ser sentido de longe. Um bafo quente veio junto com o fedor, embaçando a lente e causando náusea. Mais perto, os gritos inconformados de quem dorme e acorda na merda todos os dias completam a cena de terror extremo. Um preso cospe sangue e pede pra ser levado dali. Um outro grita sem parar que quando sair vai devolver tudo pra sociedade. Se existe inferno, deve ser parecido com aquilo que eu estava vendo ali.
Em uma cela de 2,5 x 2,5m, do tamanho de um banheiro, oito presos conviviam dia e noite. No canto esquerdo um buraco era a privada e um ventilador amarrado na grade amenizava o calor insuportável. “Pra dormir, fazemos revezamento. Quatro dormem enquanto os outros quatro ficam de pé e a cada quatro horas trocamos. Quem ta em pé as vezes se amarra na grade pra não atrapalhar quem dorme” diz um deles.
Num outro DP perto dali, os presos se organizaram em camadas. Três andares de redes amarradas no teto e nas grades amenizavam o problema da falta de espaço. Só ali, haviam mais de 250 presos. Alguns ainda tinham força pra gritar. outros apenas apontavam pra minha lente embaçada pelo calor o olhar vazio de quem já está entregue.
Se você acha que não existe nada mais degradante que isso, é porque não conhece o “microondas”. É assim que é chamado o caminhão de transporte de presos que fica estacionado do lado de fora da delegacia sob o forte sol capixaba e até semana passada servia como cela para presos jurados de morte, que não podem ficar junto dos demais.
Quando chegamos, o “microondas” havia sido removido, depois de uma matéria denunciando essa atrocidade veiculada na TV Record dias antes.
Nos fundos da delegacia prateleiras de aço ao ar livre guardavam BOs, processos e a documentação dos presos expostos a chuva e sol, deixando claro que o descaso é absoluto por aquelas pessoas.
Dias atrás, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) fez uma inspeção nas delegacias do estado. Um policial contou que pra maquiar a superlotação, cerca de metade dos presos de um dos DPs visitados foi colocada em um caminhão que ficou a tarde toda circulando pelas ruas da cidade até o fim da vistoria. Assim que os membros do CNJ foram embora, o caminhão devolveu-os a cela.
Outro agente que não quis se identificar conta que há uma recomendação “de cima” para que eles evitem ao máximo efetuar novas prisões. A situação ali beira o insustentável.
Nos fundos da delegacia, armários de aço guardam a céu aberto os processos e BOs deixando claro o mais absoluto descaso com aquelas pessoas.
Misturando ladrões de galinha inofensivos com homicidas perigosos, traficantes com usuários, pedófilos com estupradores e todo tipo de bandido, as autoridades seguem fazendo sua parte pra piorar ainda mais o que não pode ser pior.
Do lado de fora das grades, nas ruas do Espírito Santo a violência só aumenta. Sobre o mesmo asfalto em que ainda reina a Scuderie Le Cocq, famoso grupo de extermínio fundado no Rio que migrou para a capital capixaba, cada vez mais sangue é derramado. Se é inocente ou culpado, já não importa mais. E se depender dos governos estadual e federal, parece que tudo isso vai continuar assim.

Veja o video publicado na Folha Online gravado no dia das fotos.

Direto do inferno: veja aqui.

Cultura humana tem força evolucionária, dizem cientistas

15 de março de 2010 10:20 am

homem-e-macaco

Por NICHOLAS WADE

The New York Times

As populações humanas, a exemplo de outras espécies, são moldadas pelas forças usuais da seleção natural, como a fome, as doenças ou o clima. Agora, uma força nova chama a atenção. É algo que carrega implicações surpreendentes: a ideia de que, mais ou menos nos últimos 20 mil anos, as pessoas têm inadvertidamente moldado sua própria evolução.
A força em questão é a cultura humana, definida a grosso modo como qualquer comportamento aprendido, incluindo a tecnologia. Biólogos têm visto a cultura humana como um escudo que nos protege contra outras pressões seletivas, já que roupas e moradia protegem contra o frio, e a agricultura, contra a escassez de comida.
Devido a essa ação protetora ou amortecedora, acreditava-se que a cultura teria reduzido o ritmo da evolução humana no passado distante, ou até mesmo o interrompido. Muitos biólogos hoje enxergam o papel da cultura sob uma ótica muito diferente.
Embora ela de fato proteja as pessoas contra outras forças, a própria cultura também parece constituir uma força poderosa de seleção natural. As pessoas se adaptam geneticamente a mudanças culturais, como dietas novas. E essa interação funciona mais rapidamente que outras forças seletivas, “levando alguns a argumentar que a coevolução genético-cultural pode ser o modo dominante de evolução humana”, escreveram Kevin N. Laland, biólogo evolutivo na Universidade St. Andrews, na Escócia, e colegas na edição de fevereiro da “Nature Reviews Genetics”.
Dois proponentes destacados desse argumento -Robert Boyd, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Peter J. Richerson, da Universidade da Califórnia em Davis- vêm argumentando há anos que genes e cultura se interligam para moldar a evolução humana.
A melhor evidência em favor disso encontrada por Boyd e Richerson é a tolerância à lactose constatada entre muitos europeus do norte do continente. A maioria das pessoas desliga o gene que digere a lactose do leite pouco depois de ser desmamada, mas, entre europeus do norte -descendentes de uma cultura pecuarista antiga que emergiu na região há cerca de 6.000 anos-, o gene continua ligado na idade adulta.
Hoje, a tolerância à lactose é reconhecida como um caso em que uma prática cultural -consumo de leite cru- provocou uma mudança evolutiva no genoma humano. Presume-se que a nutrição garantida pelo leite fosse uma vantagem tão grande que os adultos capazes de digeri-lo deixaram mais descendentes, e a mudança genética se espalhou.
O caso não é único. Os biólogos têm vasculhado o genoma humano em busca das assinaturas de genes que passam por seleção. A assinatura é formada quando uma versão de um gene se torna mais comum que outras versões, porque seus donos estão deixando mais descendentes. A julgar pelos exames, até 10% do genoma -cerca de 2.000 genes- mostra sinais de estar sob pressão seletiva.
Tais pressões ainda são recentes em termos de evolução -a maioria provavelmente data de entre 10 mil e 20 mil anos atrás, opina Mark Stoneking, geneticista alemão. Os biólogos podem inferir a razão dessas forças seletivas a partir do tipo de genes que são marcados pelos exames de genoma. Os papéis da maioria dos cerca de 20 mil genes do genoma humano ainda são pouco compreendidos, mas todos podem ser atribuídos a categorias amplas de função provável, dependendo da estrutura da proteína que especificam.
Segundo esses critérios, a maioria dos genes sob seleção parece reagir a pressões convencionais. Mas outros parecem ter sido favorecidos por mudanças culturais. Estes incluem muitos genes envolvidos na dieta e no metabolismo, e presume-se que o fato reflita a grande mudança na dieta humana durante a transição do extrativismo para a agricultura, iniciada há cerca de 10 mil anos.
A amilase é uma enzima presente na saliva e que decompõe o amido. Pessoas em sociedades agrárias consomem mais amido e possuem cópias adicionais do gene da amilase, comparadas às que vivem em sociedades que se alimentam da caça e da pesca. As mudanças genéticas que possibilitam a tolerância à lactose foram detectadas não só em europeus, mas também em três sociedades pastoris africanas. A mutação é diferente em cada 1 dos 4 casos, mas todas têm o mesmo resultado: o de impedir que o gene da digestão da lactose seja desligado.
A cultura se tornou uma força atuante na seleção natural, e, se ela mostrar ser a força principal, é possível que a evolução humana esteja se acelerando, à medida que as pessoas se adaptam a pressões que elas próprias criaram.

Bill Clinton en zapatillas

14 de março de 2010 9:21 am

bill-clinton

El periodista Taylor Branch grabó durante ocho años a su amigo el presidente de EE UU Bill Clinton sus comentarios más personales sobre el ejercicio del poder. Un libro, editado por RBA, recoge esas conversaciones con jugosos detalles. Ofrecemos un adelanto en exclusiva.

Por JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

Una medianoche de septiembre de 1993, Bill Clinton dio instrucciones a su consejero de seguridad, Anthony Lake, para que llamara al embajador de Israel en Washington: “Quiero que esperes por lo menos una hora. Que sea lo suficientemente tarde para estar seguro de que le despiertas, porque entonces se dará cuenta de que es importante. Dile a Rabinovich que el presidente está preocupado por las informaciones sobre que el primer ministro cree que no va a ser bienvenido. Dile de la forma más enérgica posible que por supuesto que será bienvenido, y que creo que es una buena idea que venga”.

Clinton había ganado las elecciones presidenciales el 3 de noviembre de 1992 y menos de un año después preparaba la Casa Blanca para la firma del tratado entre israelíes y palestinos macerado durante las conversaciones de paz de Oslo. De ellas había salido una declaración de principios en la que las dos partes reconocían mutuamente su existencia por primera vez, la OLP se comprometía a ocuparse de la seguridad en los territorios ocupados e Israel les concedía cierta autonomía. La ceremonia estaba fijada para el 13 de septiembre, pero corría el riesgo de quedar descafeinada por las exigencias de ambas partes. Hicieron falta ensayos y horas de diplomacia de pasillo para orquestar el espectáculo que culminó con el apretón de manos entre Isaac Rabin y Yasir Arafat con Clinton guardándoles las espaldas en el jardín.

Los miembros de su gabinete habían aconsejado al presidente que, ante el incierto futuro de los acuerdos, mantuviera un perfil bajo y limitara la ceremonia a la categoría de los ministros de Exteriores que iban a firmar el documento. Así, el compromiso quedaría por escrito, pero sin el simbolismo de los dos líderes máximos. Clinton, sin embargo, insistió en que ese simbolismo era fundamental y lanzó su cebo por el camino de en medio diciendo que cada parte podía enviar al representante que quisiera. “Eso dio a Arafat un espacio lo suficientemente grande como para meter por él un camión”, recordó más tarde Clinton.

El camión era él mismo: el líder de la OLP dijo rápidamente que acudiría, pero Rabin se hizo de rogar, dividido entre la presión que le imponía el gesto del dirigente palestino, que reclamaba un contrapeso de su nivel, y el temor de que una foto con Arafat le pasara factura: las leyes israelíes prohibían entonces cualquier contacto con representantes de la OLP por considerarlos terroristas. La última excusa de Rabin era el temor de no ser bien recibido en Washington, pero Clinton la desactivó con aquella calculada y teatral llamada nocturna de su consejero. “Al fin y al cabo, no tenemos que firmar una paz con nuestros amigos”, terminaría diciendo el primer ministro hebreo.

Una vez en la Casa Blanca, y antes de salir al jardín el 13 de septiembre, se instruyó diplomáticamente a los participantes para que pusieran la mano izquierda en el hombro derecho de su interlocutor en un gesto de amistad que, sin ofender a nadie, tuviera un efecto claro: impedir el acostumbrado beso y abrazo de los árabes. Ya antes, las dos partes habían amenazado con irse. Los israelíes, si Arafat llevaba pistola o alguna insignia militar. Los palestinos, si en el acuerdo no se cambiaba “equipo palestino” por Organización para la Liberación de Palestina. Con todo, el penúltimo momento de incomodidad se produjo minutos antes de la ceremonia pública. Ambas delegaciones se encontraron en el Salón Azul, pero sin dirigirse la palabra. Clinton pidió al fotógrafo de la Casa Blanca que dejara la habitación para facilitar un saludo informal y envió al vicepresidente, Al Gore, a romper el hielo. Gore volvió diciendo que Rabin no le había hecho “ni caso”. Cuando el propio Clinton trató de presentar a los dos líderes, Rabin se llevó las manos a la espalda y dijo escuetamente: “En la ceremonia”.

Clinton recordaría luego que, paradójicamente, los dos líderes transmitieron en sus alocuciones algo distinto a lo que los preliminares parecían presagiar. Mientras Rabin habló en tono de profeta existencialista -“basta de sangre y lágrimas, basta”-, Arafat dejó a un lado su buen inglés para pronunciar un discurso en árabe agarrotado por la impresión que podía causar entre los suyos. Según el presidente estadounidense, al líder palestino le gustaba aparecer en televisión, pero no tenía muy claro para qué. Al israelí le ocurría justo lo contrario.

presidente entre 1993 y 2001, William Jefferson Clinton entró en la Casa Blanca con 47 años y salió de ella con 54. Había derrotado a Bush padre y vio cómo su delfín, Gore, era derrotado por Bush hijo. Desde el primer día de su mandato tuvo un ojo en la historia, o, mejor, en el modo en que la historia pondría sus ojos sobre él. Por eso, antes incluso de tomar posesión, encargó al historiador y periodista Taylor Branch la grabación de una serie de conversaciones en las que él se encargaría de comentar periódicamente los principales acontecimientos de su presidencia. Clinton y Branch no eran dos desconocidos. Ambos habían convivido a principios de los setenta, en los años de lucha por los derechos civiles y de oposición a la guerra de Vietnam. “Alguien que había sido compañero mío de piso y a quien había perdido la pista era presidente de Estados Unidos”, dice Branch, experto en el legado de Martin Luther King y consciente de que su gran ventaja era a la vez su gran limitación: “Nuestra amistad truncada hacía que Bill Clinton fuera para mí un misterio mayor que si nunca lo hubiera conocido”.

cuando el presidente tenía un hueco en su agenda, Branch recibía una llamada y conducía desde Baltimore hasta la capital armado con dos grabadoras. Terminada cada sesión, el periodista entregaba las cintas a su interlocutor, que las ponía a buen recaudo. “Las grabaciones en la Casa Blanca”, admite, “han sido un tema tabú desde que su veracidad sin tapujos expulsó a Richard Nixon del cargo en 1974”. Watergate aparte, las muchas cintas que grabaron los presidentes durante la guerra fría siguen “sin conocerse o abandonadas”. De vuelta en su coche, a veces de madrugada, Taylor Branch grababa sus propias impresiones de la jornada. De estas últimas ha salido Las grabaciones de Clinton. Lidiando con la historia en compañía del presidente, un libro que RBA publica la próxima semana en España.

Cuenta Branch que su intención ha sido retratar la forma “de presionar, de intentar seducir, de ser presidente” de Bill Clinton, un hombre que en su libro aparece con los grandes de la Tierra, pero también en chándal, ironizando con el hecho de que por primera vez ganaba más que Hillary, corrigiendo los deberes de matemáticas con su hija Chelsea, combatiendo la alergia que le producían los adornos navideños, enfermo de la espalda, devoto del saxofón, los naipes, el baloncesto y el golf -un deporte que aborrece su esposa, que asiste en bata a alguna de las sesiones- y empeñado en sortear su reputación de inculto reflexionando sobre el sida en la película Philadelphia o el Holocausto en La lista de Schindler.

la madre de clinton estaba embarazada de él cuando su padre, alcohólico, murió en un accidente de coche. Por eso siempre ha dicho que los hombres de su familia duran poco. El mes pasado, el ex presidente fue operado con urgencia del corazón y al salir del hospital recomendó hacer deporte y comer sano: “Yo me equivoqué, tomé muchos fritos”. Las arterias (y los fritos) le habían jugado una mala pasada justo cuando había sido nombrado enviado especial de la ONU para Haití tras el terremoto de enero pasado. Ese nombramiento sólo sorprendió a los que no conocían el empeño que, contra viento y marea, había puesto en diciembre de 1993 para enviar tropas a la isla destinadas a devolver el poder al presidente haitiano Jean Bertrand Aristide después de que lo derrocara un golpe de Estado.

Clinton se enfrentó entonces a la opinión de buena parte de su propio partido y a la del responsable de la Junta de Jefes de Estado Mayor, el general Colin Powell, quien, “como muchos descendientes de las colonias británicas en el Caribe”, opinaba que Aristide era “un visionario aficionado al vudú”, y Haití, “un país turbulento de cultura francesa que debía gobernarse con mano dura”. Teniendo en cuenta que la última expedición estadounidense, la de 1915, había permanecido en la isla 20 años, el presidente tendría, según Powell, que escoger entre dos males: “Ocupar un caldero en ebullición por tiempo indefinido -quedar atrapados- o salir de allí y ver cómo el país volvía a su pasado autoritario”. Haití era, a unas millas de la costa de Florida, “el perdedor por excelencia”, pero el presidente Clinton, que había llegado a la Casa Blanca desde el palacio de gobernador de Arkansas, en Little Rock, recordó -con la ayuda de Branch, amigo de Aristide, y de su mala conciencia de sureño- la cuarentena a la que Estados Unidos había sometido a Haití para proteger la esclavitud en los Estados del Sur después de que, en tiempos de Napoleón, la revuelta de los esclavos pusiera patas arriba la que entonces era la colonia más rica de Francia, que en aquel tiempo producía el 40% del azúcar mundial.

Clinton, que dejó el poder con un superávit histórico y con la aprobación más alta en las encuestas de un presidente desde la Segunda Guerra Mundial, conocía sus dotes de seducción y no estaba acostumbrado a perder. Por eso le dolió embarrancar, igual que Obama, en una reforma sanitaria en la que se había volcado la propia Hillary. Por eso también le desconcertó chocar con un gigante que empezaba a despertar de su letargo: China. En un encuentro privado con Jiang Zemin, el líder chino le leyó un discurso sobre la gloriosa historia de su país y sobre la locura de tratar de influir en sus asuntos internos. El monólogo duraba tanto que Clinton interrumpió a su interlocutor para, usando frases directas y “todo el encanto” del que fue capaz, invitarle a hablar de algo tan concreto como prohibir la exportación de artículos fabricados por mano de obra cautiva.

Cuando el estadounidense terminó, el chino reanudó su discurso como si nada. Los funcionarios de protocolo habían además advertido a Clinton que nunca sonriera en presencia de Jiang para no dar la impresión de que insultaba a China con una familiaridad excesiva. El presidente vio neutralizado así lo que él mismo llamaba su “instinto” para tratar con sus homólogos, para superar las trincheras de la retórica y buscar algún vínculo personal que le permitiera crear un ambiente favorable.

En una ocasión, tras cenar con Borís Yeltsin y comprobar que el alcohol era “algo más que un problema pasajero” para el dirigente ruso, éste declaró a la prensa que le había gustado reunirse con el presidente de Estados Unidos, pero que “para pasárselo verdaderamente bien uno debe estar en presencia de una mujer hermosa”. Yeltsin es una pieza estelar en una colección en la que también tiene su sitio de honor Silvio Berlusconi, al que Clinton trató durante la primera etapa de éste como primer ministro italiano y del que le sorprendía la “ingenuidad” que le llevaba a preguntarse por qué la política no era tan sencilla como los negocios. “Pensaba que hasta Perot era más sofisticado que Berlusconi”, apunta Taylor Branch comparando a Il Cavaliere con el multimillonario tejano con fama de patán machista que ejerció de tercero en discordia entre Bush padre y Clinton cuando éste resultó elegido.

Para Clinton, el problema central del siglo XX se resumía en una pregunta: “¿Cómo sobrevivirá la libertad ante la presión que recibe en lugares en los que nunca se ha probado?”. Para él, Rusia era un problema para Rusia. De China le preocupaba la proyección de su poder hacia fuera. Según él, Jiang Zemin era muy consciente de que su dimensión gigantesca y su rápido crecimiento iban a convertir su economía en la mayor del mundo. Tan claro lo tenía que Clinton le reconoció la posibilidad de tener una cumbre muy diferente 50 años después en la que algún líder chino intentase convencer a un presidente estadounidense de que “reformara” su Constitución con arreglo a la de China.

El tercer presidente más joven en la historia de la vencedora de la guerra fría salió de la entrevista con su homólogo asiático con la idea de que para éste la democracia norteamericana no era más que un “accidente dudoso” en el calendario chino, no un hito en la historia mundial: “Mire”, le dijo Jiang, “está muy bien que ustedes tengan toda esa libertad y todo ese dinero, pero ¿qué hacen con ello? Tienen 33.000 homicidios por armas de fuego. Sus ciudades son inhabitables. Sus escuelas no funcionan. Consumen drogas desenfrenadamente y no pueden controlar a su población. ¿Quién puede decir que su libertad merece la pena a cambio de todo eso?”.

hasta aquella ducha fría china, Clinton consideraba que uno de los grandes fracasos de su presidencia había sido su incapacidad para levantar el embargo de armas a Bosnia durante la guerra de los Balcanes. De hecho, en la grabación de sus charlas con Taylor Branch critica con dureza el doble rasero de los países europeos, con Francia y el Reino Unido a la cabeza. En público justificaban su oposición a levantar ese embargo por motivos humanitarios, es decir, sosteniendo que aumentar el número de armas sólo serviría para aumentar el baño de sangre. En privado alegaban que una Bosnia independiente sería algo “antinatural”, el único país musulmán en Europa. Su único aliado era el canciller alemán Helmut Kohl, su mejor amigo entre los mandatarios extranjeros -“el viejo tío holandés” de Clinton, se llamaba a sí mismo- hasta que lo desbancó en el puesto el rey Hussein de Jordania. El problema era que Alemania no tenía asiento en el Consejo de Seguridad de la ONU, cuyo secretario general de entonces, Butros-Ghali, compartía la “sangre fría” de los dirigentes europeos, que, además, en las reuniones de la OTAN veían con recelo el apoyo sin reservas de Clinton a Javier Solana.

Pese a todo, en el exterior, su don de gentes le había sido de gran utilidad en sus visitas a los países del antiguo bloque soviético para no levantar demasiadas suspicacias en el Gobierno ruso (transformó el G-7 en G-8 para evitarle a Rusia la incomodidad de verse como una antigua potencia postergada), en su mediación entre israelíes y palestinos o entre católicos y protestantes en Irlanda del Norte. Durante su mandato, de hecho, se firmaron los acuerdos de Viernes Santo, que empezaron a desenredar la madeja norirlandesa. La comparación entre ese éxito y el fracaso en Oriente Próximo después del avance de Oslo llevaron a Clinton a elaborar una particular teoría sobre los procesos de paz. En su opinión, éstos se dividen en costras y abscesos. Una costra, decía, era una herida con una postilla protectora que podía sanar con el tiempo y unos cuidados sencillos. De hecho, si se tocaba demasiado se podía reabrir la herida y causar una infección. Un absceso, en cambio, empeoraba de forma inevitable si no se hacía una intervención dolorosa pero sanadora: “Oriente Próximo es un absceso. Irlanda del Norte es una costra”.

El servicio secreto llamaba a Clinton POTUS (President Of The United States) y así lo llamaba irónicamente también su esposa a veces. En enero de 1998, una bomba estalló entre ambos y puso a Clinton al borde de la destitución: la bomba se llamaba Monica Lewinsky, la becaria de 24 años que refutó la declaración en la que el presidente de Estados Unidos negaba haber mantenido relaciones sexuales con ella. El caso Lewinsky formaba parte de una lista de affaires en la que había otros nombres como los de Gennifer Flowers o Paula Jones. La diferencia es que ahora él vivía en la Casa Blanca. Después de negarlo todo durante meses, el 17 de agosto, Bill Clinton prestó declaración durante cuatro horas por videoconferencia ante el gran jurado: “He engañado a varias personas, incluida mi esposa. Me arrepiento profundamente”. Hillary estaba furiosa y le dijo a su marido que era él el que tenía que contárselo a su hija Chelsea.

Taylor Branch apunta que Clinton se quejó de que en el informe del fiscal se usaba la palabra sexo 500 veces: “El informe de Starr selló su humillación con voluminosos detalles de sus intercambios sexuales: los manoseos furtivos en el Despacho Oval, el vestido azul manchado de semen, el cigarro apagado dentro de la vagina”. El caso Lewinsky es tal vez el momento más delicado de la relación entre el historiador y su protagonista. “Con cautela le pregunté si quería hablar de Lewinski con las grabadoras en marcha”, recuerda Branch. “Dijo que sí. Las pruebas desplegadas ante el gran jurado eran especialmente parciales, porque no le habían permitido poner en tela de juicio ninguna de las acusaciones. Mencionó una afirmación de Lewinsky de que había comido con Hillary. No era verdad. Y otra de que en una ocasión había correteado desnuda por el Despacho Oval. No era verdad. También señaló que Starr había estado todo el año amenazando a Lewinsky con la cárcel por haber negado bajo juramento la relación. Si Clinton hubiera dicho cualquier cosa sobre la relación, Starr podría haberle convertido en testigo contra Lewinsky, con lo que habría traicionado el discreto silencio de ella. Estas sutilezas me parecieron originales, pero también tendenciosas. El presidente no alegó en ningún momento la caballerosidad como motivo real de sus constantes negativas, ni refutó que en lo esencial el relato de Lewinsky fuera cierto”.

Un mes después de su declaración, las confesiones de Clinton ante el gran jurado se hicieron públicas y fueron retransmitidas por todos los informativos y pantallas del mundo, incluido el monumental Jumbo Tron de Times Square, en Nueva York. En esa misma ciudad y a la misma hora, el presidente estadounidense era recibido con una ovación de la ONU puesta en pie. Semanas antes, dos atentados suicidas contra las embajadas norteamericanas de Kenia y Tanzania habían matado a 220 personas y herido a más de 4.000. Para Clinton, que había sido advertido por lo servicios de inteligencia de los posibles atentados, el responsable de aquellos ataques, Osaba Bin Laden, guardaba un inquietante parecido con los malos de las películas de James Bond. Así, “era una presencia internacional sin lealtad a ningún Gobierno, con una enorme fortuna personal y una red de agentes en numerosos países, incluido el nuestro”. Faltaban tres años para el 11-S y la apostilla de Taylor Branch también parece de película: “Todo esto me resultó completamente nuevo”. Poco después apagó la grabadora.

El libro ?as grabaciones de Clinton. Lidiando con la historia en compañía del presidente? (RBA) sale a la venta el próximo jueves, 18 de marzo.

A voz do anônimo

13 de março de 2010 9:01 pm

anonimo-e-um-babaca

Por Marcelo Rubens Paiva

Num espaço público, o anônimo vira estrela, se excede, confessa seu racismo, sexismo e todos os ismos empastelados pela modernidade: leitores que postam comentários em blogs e, através de emails falsos, não querem ser identificados.

É a praga que perturba a paz de muitos blogueiros.

Fui alertado sobre eles, quando comecei o blog há um ano. Já que eu não os deletava, pouco a pouco contaminaram o ambiente, jogaram a sua ira contra mim, o veículo, os temas postados.

Blogueiros mais experientes me aconselhavam a eliminá-los na simples operação deletar. Mas, filho de quem sou, um democrata radical, que seguia os princípios de Voltaire (“posso não concordar com o que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer”), aprovava os insultos, alimentava polêmicas, respondia à altura.

Quando comentei o fechamento da festa Gambiarra por um fiscal frequentador, a ira foi contra os boêmios, arruaceiros que desgraçam o sono do trabalhador comum. Um leitor me perguntou: “Já fumou a sua macoínha hoje?” Foi o primeiro a ser deletado.

Críticas sobre meus livros e ideias nunca me incomodaram. Mas descobri o direitista radical, que não pode se expor publicamente- pois no Brasil somos todos moderninhos e sem preconceitos- e despejava a sua raiva contra aqueles que combateram a ditadura.

Fruto das aposentadorias incabíveis, ou das opções políticas de ex-combatentes, como Zé Dirceu, Genoino e a gangue do mensalão, que causou um estrago incalculável para a história do País, manchando a imagem de milhares de vítimas.

Até um comentário me convencer a expurgar de vez para a lixeira o ódio e a intolerância. “A ditadura fez um trabalho pela metade, matou apenas o seu pai”, escreveu um anônimo.

Falar do regime militar divide opiniões. Descobrem-se pelos blogs os muitos desinformados e uma nova geração que confunde fatos, personagens e períodos.

Ao narrar histórias sobre o desaparecimento político do meu pai, li aberrações como: “Meu pai nunca fez nada, ficou tranquilo em casa e está vivo. O seu deve ter aprontado.”

Os debates sobre a Lei da Anistia geraram posturas radicais. Muitos disseram que militares não poderiam ser punidos por combater terroristas assassinos e ladrões de bancos. Até um amigo italiano, Luigi Ghermandi, revoltado, dar um ponto final à confusão: “Ninguém que se opõe a uma ditadura é terrorista, que fique claro”.

A ignorância encontrou a sua voz através do anonimato de comentários em blogs. Revela a triste constatação de como nossa história está mal contada.

Lehman Brothers ocultou US$ 50 bi em crédito ruim

11:58 am

lehman

Por Michael J. de la Merced e Andrew Ross Sorkin*

The New York Times

É o equivalente a um relatório de médico-legista – um documento de 2.200 páginas que mostra, com novos e chocantes detalhes, como o Lehman Brothers usou a prestidigitação contábil para ocultar os maus investimentos que o levariam à ruína.

O relatório, compilado por um examinador do banco falido, atingiu Wall Street como um soco, na quinta-feira. A companhia de 158 anos, ele concluiu, morreu de causas múltiplas. Entre elas estavam ativos hipotecários ruins e, menos diretamente, cobranças de dois rivais, o JP Morgan Chase e o Citigroup, para que o banco periclitante desse garantias para os empréstimos de que desesperadamente precisava.

Mas o examinador, Anton R. Valukas, também expôs, pela primeira vez, o que o relatório caracterizou de malabarismos contábeis “materialmente enganosos” que o Lehman usou para mascarar a condição perigosa de suas finanças.

A falência do banco, a maior da história americana, abalou o mundo financeiro. Os temores de que outros bancos pudessem desmoronar numa quebradeira geral levaram Washington a arranjar um salvamento abrangente do sistema financeiro.

Segundo o relatório, o Lehman usou o que não passou de uma engenharia financeira para tirar temporariamente US$ 50 bilhões de seus livros nos meses que antecederam o seu colapso, em setembro de 2008, para ocultar sua dependência de dinheiro emprestado. Executivos seniores do Lehman, além da auditora do banco, a Ernst & Young, sabiam das medidas, segundo Valukas, um sócio do escritório de advocacia Jenner & Block, que depositou o relatório em conexão com o caso da quebra do Lehman.

Richard S. Fuld Jr., o ex-presidente do Lehman, certificou as contas falsificadas, escreveu Valukas. “Sem o conhecimento do investidor, de agências de classificação de crédito, de reguladores do governo e do conselho diretor, o Lehman fez a engenharia inversa da relação de alavancagem líquida da empresa para consumo público”, escreveu Valukas. Fuld foi “pelo menos grosseiramente negligente”, declara o relatório.

Henry Paulson, o então secretário do Tesouro, advertiu Fuld de que o Lehman poderia falir se não estabilizasse suas finanças ou encontrasse um comprador. Executivos do Lehman se envolveram no que o relatório caracterizou de “manipulação de balanço acionável”, além de “erros não inculpáveis de julgamento econômico”.

O relatório não tira conclusões sobre se os executivos do Lehman violaram leis do mercado, mas sugere que existem evidências suficientes para potenciais ações civis. Executivos do Lehman já são réus em ações civis, mas não foram acusados de delitos criminosos.

O relatório surge mais de um ano e meio depois que a maior parte do Lehman foi vendida ao Barclays, que ocupa os antigos escritórios do Lehman em Manhattan. Grande parte do relatório de nove volumes está centrada nas manobras contábeis, conhecidas dentro do Lehman como “Repo 105”.

Usado pela primeira vez em 2001, muitos antes da crise, o Repo 105 envolveu transações que retiraram secretamente bilhões de dólares dos livros do Lehman, numa época em que o banco estava sob pesado escrutínio. Segundo Valukas, Fuld ordenou que executivos do Lehman reduzissem o endividamento do banco, e funcionários de alto escalão buscaram repetidamente aplicar o Repo 105 para melhorar o aspecto dos resultados. Outros executivos nomeados no relatório, em conexão com o uso da ferramenta contábil, incluíram três ex-diretores financeiros do Lehman: Christopher O”Meara, Erin Callan e Ian Lowitt.

Patricia Hynes, uma advogada de Fuld, disse, numa declaração por e-mail, que Fuld “não sabia o que eram essas transações – ele não as estruturou ou negociou nem estava ciente de seu tratamento contábil”.

Charles Perkins, um porta-voz da Ernst & Young, disse, numa declaração por e-mail: “Nossa última auditoria da companhia foi para o ano fiscal terminado em 30 de novembro de 2007. Nossa opinião indicou que as declarações financeiras do Lehman para aquele ano foram corretamente apresentadas, de acordo como os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos (Gaap, em inglês), e continuamos com essa opinião”.

Bryan Marsal, atual presidente executivo do Lehman, disse: “Acabamos de receber esse relatório volumoso e o apreciaremos cuidadosamente nas próximas semanas para avaliar como ele poderá nos ajudar em nossos esforços atuais para promover os interesses do credor”.

“Repos”, abreviação para acordos de recompra, são uma prática comum em Wall Street, representando empréstimos de curto prazo que por vezes propiciam financiamentos cruciais. Mas o Lehman usou uma contabilidade agressiva em suas transações Repo 105, que lhe permitiu tirar ativos problemáticos de seus livros para ajudá-lo a atingir metas de fim de trimestre.

Numa série de e-mails citados pelo examinador, um executivo do Lehman escreve sobre o Repo 105: “É basicamente camuflagem”. Outro responde: “Percebo… Então, é legalmente factível, mas não parece bom quando o fazemos? Será que o resto da Street o faz? Também é por isso que temos tanto BS (balanço) para Rates Europe.” O primeiro executivo retruca: “Sim, não e sim.”

Valukas escreve no relatório que “demandas plausíveis” poderiam ser feitas contra ex-executivos do Lehman e da Ernst & Young, significando que haviam evidências suficientes que poderiam levar à concessão de indenizações num julgamento. Ele acrescentou que diretores do Lehman não estavam cientes da engenharia contábil.

Com sua prestação de contas, o Lehman conseguiu “descartar” cerca de US$ 39 bilhões de seu balanço no fim do quarto trimestre de 2007, US$ 49 bilhões no primeiro trimestre de 2008 e US$ 50 bilhões no segundo trimestre. Na época, o Lehman tentava tranquilizar o público de que suas finanças estava bem… Apesar da pressão de vendedores a descoberto.

Executivos, entre os quais Herbert McDade, conhecido internamente como “o czar dos balanços”, parecia ter conhecimento de que o uso repetido do Repo 105 estava ocultando a saúde real do banco. “Estou ciente…É outra droga em que estamos metidos”, ele escreveu, num e-mail de abril de 2008 citado no relatório.

Em maio e junho de 2008, o vice-presidente sênior do Lehman, Matthew Lee, escreveu à administração sênior e à Ernst & Young indicando “impropriedades contábeis”. Nem executivos do Lehman nem a Ernst & Young alertaram o conselho de administração sobre as alegações de Lee, diz o relatório.

Fuld é descrito no relatório como tendo negado conhecimento das Repos 105, embora tenha lembrado de emitir várias diretrizes para reduzir o endividamento. McDade é reportado como dizendo a Fuld sobre o uso do Repo 105 para alcançar esse objetivo.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

*Os autores são jornalistas

Leitura para o final de semana

12 de março de 2010 10:28 am

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ALVES, Alaôr Caffé, LAFER, Celso, GRAU, Eros Roberto, COMPARATO, Fábio Konder, TELLES JUNIOR, Goffredo da Silva Telles, FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. O que é a filosofia do direito? São Paulo: Manole, 2004.

“O que é a Filosofia do Direito?” é um texto didático e inovador, na medida em que enfrenta um dos grandes temas da Filosofia do Direito, com base na reunião de debates entre os mais significativos nomes da jusfilosofia nacional, e em, especial do Largo de São Francisco. Trazendo lições didaticamente expostas, o texto convida o leitor ao mergulho filosófico, iniciando e, ao mesmo tempo, aprofundando-o na dimensão do pensar especulativo.

Os grandes desafios temáticos da área da Filosofia do Direito são abordados em textos sucintos, polêmicos, e que apresentam visões distintas, às vezes complementares, às vezes antagônicas, que permitem ao leitor fixar-se nas diversas possíveis compreensões do fenômeno jurídico pensando de modo reflexivo. Não havendo similar editorial no mercado brasileiro, a obra vem dar alento à literatura brasileira, uma vez que se permite servir como um duplo ferramental: como iniciação jusfilosófica, para estudantes, esclarecendo acerca das metas e dos papéis da Filosofia do Direito, e como aprofundamento reflexivo, para interessados, debatendo visões acerca das metas e dos sentidos possíveis do Direito.

OS AUTORES:

Alaôr Caffé Alves
Professor associado do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Celso Lafer
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Eros Roberto Grau
Professor Titular do Departamento de Direito Econômico da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Fábio Konder Comparato
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Goffredo da Silva Telles Junior (in memoriam)
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Tercio Sampaio Ferraz Junior
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da universidade de São Paulo.

Em Cuba, basta a suspeita

10 de março de 2010 4:21 pm
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Pela lei de ‘periculosidade’, as autoridades prendem pessoas que não cometeram nenhum crime

Por Nik Steinberg*

THE WASHINGTON POST

Clique. E depois, silêncio. Era o som que eu temia em minhas ligações para Cuba. Quando eu reunia testemunhos de parentes de presos políticos, nunca sabia o significado da interrupção abrupta de um telefonema. Teriam os serviços de inteligência cubanos cortado a linha, ou era apenas a precariedade do sistema telefônico? Eu tornava a ligar imediatamente, com frequência recebendo um sinal de ocupado ou uma mensagem gravada dizendo que o número estava fora de serviço. Se descobria o que havia acontecido, era, em geral, dias ou semanas depois.

“Um vizinho apareceu para me vigiar, alguém suspeito.” “Não sei, meu telefone parou de funcionar.” Durante meses eu fiz – e perdi – essas ligações. Como Cuba não permite visitas de grupos de direitos humanos, somos obrigados a reunir informações por entrevistas telefônicas, relatórios de grupos locais e as raras cópias de sentenças de prisão contrabandeadas para fora por parentes visitantes.

Durante quase cinco décadas, Fidel Castro silenciou virtualmente todas as formas de dissidência em Cuba, trancafiando quem ousasse criticar seu governo. Depois que a saúde debilitada o obrigou a entregar o controle a seu irmão em 2006, muitos esperavam que a repressão abrandasse. Mas Raúl Castro permitiu que as levas de dissidentes detidos no tempo de Fidel permanecessem presas. Um deles, Orlando Zapata, morreu na semana retrasada após 85 dias de uma greve de fome que havia empreendido para protestar contra as condições em que era mantido.

Raúl Castro também encarcerou outras levas de presos políticos, como Ramón Velásquez, que terminou de cumprir uma pena de 3 anos em janeiro, mas foi detido novamente após a morte de Zapata. Falei pela primeira vez com a mulher de Ramón, Barbara, por telefone há um ano. Ela me contou como, em 10 de dezembro de 2006, eles haviam participado com sua filha de 18 anos, Rufina, de uma “marcha da dignidade” em Cuba para pedir respeito aos direitos humanos e liberdade para presos políticos.

Eles marcharam em silêncio, de leste para oeste, dormindo nas estradas ou nas casas de pessoas que as abrigavam. Ao longo do caminho, a polícia os deteve, eles foram atacados e carros chegaram a expulsá-los da estrada. Eles continuaram marchando. Em janeiro de 2007, a 300 quilômetros do ponto de partida, Ramón foi preso. Foi acusado de “periculosidade” e sentenciado a 3 anos de prisão.

Pela lei de “periculosidade” de Cuba, as autoridades podem prender pessoas que não cometeram nenhum crime sob a suspeita de que poderiam cometê-lo no futuro. Atividades “perigosas” incluem distribuir cópias da Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrever artigos críticos ao governo e tentar formar um sindicato independente. Bárbara e eu nos falamos várias vezes nos meses seguintes sobre suas visitas a Ramón na prisão; sobre seu filho René, que cuidava dela; e sobre como Rufina fugiu para os EUA após a prisão do pai.

Minha organização pediu permissão para visitar Cuba, mas nunca recebeu uma resposta. Por fim, resolvemos ir de qualquer jeito. Para reduzir ao mínimo os riscos, não contamos a ninguém que estávamos indo. No meio do ano passado, um colega e eu alugamos um carro em Havana e guiamos para leste, realizando entrevistas ao longo do caminho.

Quando chegamos à casa de Velásquez, nos arredores de Las Tunas, somente René estava lá. Ele contou que Bárbara estava voltando de uma visita a Ramón na prisão. Nos sentamos numa pequena cozinha com chão de terra. René nos contou que não estivera na marcha e não se considerava um político. Mas depois da prisão do pai ele voltou para casa e descobriu a frase “Morte aos vermes da casa 58”, o endereço de sua família, pichado no ponto de ônibus próximo. Uma semana depois, foi demitido de seu emprego no hospital. Membros do “comitê de defesa revolucionária” local – a associação de bairro conectada ao Partido Comunista – o insultaram na rua e tentaram provocá-lo para uma briga.

Um homem foi designado para vigiar Velásquez e à sua mãe. A namorada de René e os amigos pararam de falar com ele. “É como ter alguém com uma bota plantada bem no meio do meu peito e aplicando tanta pressão que eu mal consigo respirar”, nos disse René.

Não demorou para Bárbara chegar de sua viagem de cinco horas. Exausta, ela falou durante alguns minutos e foi se deitar. Quando partimos, René insistiu para nos acompanhar até nosso carro. Seguimos pela rua, passando por vizinhos, que olhavam fixamente, e pelo homem na esquina, que saiu em nosso encalço alguns passos atrás. Quando chegamos ao carro, René pediu para passar uma mensagem a sua irmã, com quem ele não falava havia meses: “Digam-lhe que estamos bem – para não se preocupar.” Olhei pelo retrovisor. René caminhava para casa, passando pelo olhar vigilante de seus vizinhos.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

*Nik Steinberg é pesquisador da divisão para as Américas da Human Rights Watch

Opinião de Demétrio Magnole sobre leis “raciais” afirmativas

9 de março de 2010 12:57 pm

Sobre o tema, ver mais informações aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

demetrio11

Por Demétrio Magnoli*

Etnia ou cidadania

A história imprimiu uma cruz sobre os Bálcãs. Seu eixo vertical é uma linha de fratura cultural traçada a partir da divisão do Império Romano, pelo Cisma do Oriente, que separou os católicos, no ocidente, dos cristãos ortodoxos, no oriente. Seu eixo horizontal é uma fratura cultural mais recente, derivada da expansão turco-otomana, que separou populações muçulmanas, no sul, dos cristãos, no norte. Uma camada de linhas mais tênues se superpõe a essa estrutura em cruz e define grupos étnicos: sérvios, croatas, eslovenos, macedônios, albaneses, húngaros e gregos. Kosovo é um fragmento dessa coleção balcânica, ele mesmo dividido internamente pelo eixo horizontal que separa a maioria albanesa muçulmana da minoria sérvia ortodoxa.

A primeira Iugoslávia emergiu em 1918, como Grande Sérvia, das ruínas dos impérios Austro-Húngaro e Turco-Otomano. A segunda Iugoslávia emergiu em 1946, da catástrofe étnica que se combinou com a 2ª Guerra Mundial e tragou o experimento nacionalista da Grande Sérvia. Na hora da sua implosão, em 1991, o Estado criado por Josip Broz Tito ganhou um diagnóstico sintético, cunhado pelo jornalista Norman Stone: ””A Iugoslávia tinha seis repúblicas, cinco povos, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido – o comunista.”” A independência de Kosovo evidencia tanto a presciência quanto os limites desse diagnóstico.

O pilar constitucional da Iugoslávia de Tito era a distinção entre cidadania e nacionalidade. Os iugoslavos eram cidadãos tanto da Iugoslávia quanto da república federal na qual habitavam, mas podiam escolher, por decisão individual, a sua nacionalidade. O sistema nunca funcionou genuinamente, pois a cidadania é um contrato amparado na vigência da democracia – e a Iugoslávia era uma ditadura de partido único. No fim das contas, a solda da unidade era o monopólio da política pelo partido comunista. Quando essa solda se dissolveu, o Estado começou a se estilhaçar em fragmentos cada vez menores.

Mas a reação em cadeia, sem um fim previsível, não é um destino inscrito na história profunda e nos insondáveis mistérios da cultura. A balcanização dos Bálcãs, hoje, é um fruto direto da existência da União Européia e das estratégias políticas dos governos dos EUA e das potências da Europa.

O ””princípio das nacionalidades””, proclamado por Woodrow Wilson na Conferência de Paris de 1919, ressurgiu nos Acordos de Dayton, de 1995, quando nasceu a Bósnia independente, sob o patrocínio americano. Mas Bill Clinton e seu negociador, Richard Holbrooke, rejeitaram a partição completa da Bósnia segundo linhas étnicas e articularam o compromisso que originou uma confederação multinacional composta pelas repúblicas muçulmano-croata e sérvia. A preservação de uma entidade Bósnia decorreu das lições de sangue oferecidas pela História e do complexo mapa bósnio, no qual as fronteiras étnicas e religiosas passam no meio dos quartos dos casais.

Agora, a ambivalência desapareceu, dando lugar à aplicação impiedosa de um ””princípio das nacionalidades”” que é, na prática, um ””princípio das etnias””. Montenegro, que declarou sua independência da Sérvia há dois anos, começou a inventar-se como nação étnica em 1993, fabricando às pressas um passado autônomo e uma língua nacional. A sua soberania não passa de uma casca vazia, preenchida pelo conteúdo emprestado das instituições e da moeda da União Européia. Kosovo nasce agora como mais um protetorado da União Européia, defendido por tropas européias, estabilizado por policiais europeus e dotado de um corpo de leis escrito por um exército de juristas enviado por Bruxelas. Os habitantes desses protetorados balcânicos serão governados, de fato, por uma burocracia supranacional sobre a qual não têm nem sequer o controle indireto de que dispõem os cidadãos da União Européia. Nos tempos da Iugoslávia de Tito, eles tinham uma cidadania oca e identidades étnicas circunscritas à esfera privada. Nas novas entidades balcânicas, devem sacrificar a esperança de direitos efetivos de cidadania no altar de uma etnicidade pública feita com a matéria do orgulho e da amargura.

A província de Kosovo foi ocupada por forças da OTAN para evitar a reprodução de uma guerra de ””limpeza étnica”” similar à que devastou a Bósnia. Depois disso, uma revolução popular derrubou o regime ultra nacionalista de Slobodan Milosevic, responsável principal pelas atrocidades na Bósnia, e a Sérvia iniciou a construção de uma democracia. Hoje, o argumento da punição da Sérvia pelos crimes do regime de Milosevic, formulado pelos EUA e pelas potências européias para justificar a secessão de Kosovo, não passa de um álibi sob o qual se oculta uma operação geopolítica mais ampla. O alvo dessa operação é suprimir o pouco que resta da influência russa nos Bálcãs, mas suas vítimas são as populações balcânicas.

As elites políticas adventícias nos fragmentos dos Bálcãs aprenderam com as experiências recentes que têm o poder de erguer Estados como crianças esculpem castelos de areia, com a condição de se associarem aos poderes da Europa e à burocracia de Bruxelas. A mensagem emitida pelas suas aventuras ecoa na Sérvia, onde os ultra nacionalistas retomam a narrativa sangrenta das origens míticas da nação, na batalha medieval de Kosovo-Polje, e incitam as minorias sérvias de Kosovo e da Bósnia a reivindicar as suas próprias secessões. Na Macedônia, essa mensagem reacende as fogueiras separatistas entre albaneses do oeste e gregos do sul. Muito além dos Bálcãs, o precedente de Kosovo estimula a Rússia a invocar o ””princípio das etnias”” e jogar a carta do separatismo em regiões habitadas por ossétios na Geórgia e por russos na Ucrânia. O triunfo da política do sangue, da ancestralidade e das tradições culturais representa a derrota do conceito de cidadania e a promessa de guerras sem-fim.

Visita à ”terra dos negros”

Milton Gonçalves encarna um personagem protagonista na novela do horário nobre da Rede Globo. É uma boa notícia para todos os que apreciam a arte do grande ator. Devia ser motivo de celebração pelos grupos do movimento negro que apontam, com razão, a persistência de uma regra racial oculta na seleção de elencos no Brasil. Mas eles não gostaram, pois o personagem de Milton Gonçalves é um político corrupto. O deputado estadual José Candido (PT-SP) acusou o ator de prestar um “desserviço” ao movimento negro, passando “uma má impressão do negro à população”. Se entendi direito, o corpo negro é imune à corrupção.

Numa entrevista a este jornal, o ator não se limitou a responder a Candido, mas ofereceu uma aula singela. Disse ele: “Algumas coisas mudaram na minha cabeça” depois de visitar a África: “Descobri que não sou um negro brasileiro, mas um brasileiro negro. Descobri que não sou africano, sou brasileiro.” São descobertas incompreensíveis para os que nos governam.

Uma lei de 2003 tornou obrigatório o ensino de “história e cultura afro-brasileira e africana” nas escolas brasileiras. A determinação não se circunscreve a indicar uma temática, mas pretende orientar uma abordagem. Num parecer de março de 2004, destinado a esclarecer o espírito da lei, o Conselho Nacional de Educação afirma que o “fortalecimento de identidades e de direitos deve conduzir para o esclarecimento a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal”. Segundo a palavra impressa do Estado brasileiro, a humanidade se divide em raças e as crianças devem aprender que uma ponte racial liga os negros do Brasil a uma pátria ancestral africana.

“Não sou um negro brasileiro, mas um brasileiro negro.” O ator está dizendo que a sua identidade principal emana da esfera política e tem como referência o conceito de cidadania, não o de raça. Os brasileiros, de todos os tons de pele, formam uma nação única, alicerçada sobre o contrato da igualdade perante a lei. A identidade brasileira constitui nossa identidade pública. No espaço privado, segundo opções pessoais, podemo-nos definir como negros, brancos, mestiços, gays ou corintianos.

“Não sou africano, sou brasileiro”. A segunda descoberta esclarece a primeira – e esclarece muito mais. A África está no Brasil, de mil maneiras, e há inúmeros bons motivos para se falar mais da África na escola. O melhor foi explicado pela antropóloga Yvonne Maggie, no seu O Medo do Feitiço: Relações entre Magia e Poder no Brasil (RJ, Arquivo Nacional, 1992). Analisando a perseguição judicial contra as religiões mediúnicas, Maggie comprova a hipótese de que a crença na magia afeta pessoas de todas as cores e classes sociais no Brasil. Isso forma uma ponte essencial entre nós e a África. Mas essa ponte também conecta todos os brasileiros e faz de nossa mestiçagem algo mais profundo que o intercâmbio de genes. Mesmo assim, não somos africanos.

O Brasil é o Novo Mundo, a África é o Velho Mundo. No Brasil, o que vale não é a ancestralidade, mas a posição e a renda. Na esperança de inventar uma Europa tropical, o Império do Brasil distribuiu títulos nobiliárquicos, mas tais signos da diferença circulavam como mercadorias especiais no bazar dos privilégios simbólicos. Na África, como em tantos lugares da Europa, a linhagem de sangue define posições e regula relações. Atrás de uma fachada política de Repúblicas, as sociedades africanas continuam a girar à volta de constelações de reis tradicionais e líderes ancestrais. Sob certos sentidos, não é o brasileiro, mas o europeu que está mais em casa na África.

“Não sou africano.” Ninguém é africano. África, no singular, é uma declaração de ignorância. As crianças dizem que algum lugar está na África, como se o continente fosse um país. Os europeus inventaram uma África singular para designar a “terra dos selvagens” e, mais tarde, a “terra dos negros”. Os intelectuais negros dos EUA e do Caribe que formularam a doutrina do pan-africanismo beberam no conceito racial europeu para desenhar no céu dos seus sonhos a África singular. No início do século 21, o Brasil oficial ainda não aprendeu que existem Áfricas incontáveis e pretende usar o nome do continente como metáfora para ensinar uma fábula racial às crianças.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, prometeu apresentar em agosto um plano nacional para a implementação da lei de 2003. Leonor Franco de Araújo, coordenadora-geral de Diversidade do MEC, identificou dificuldades na aplicação da lei e as atribuiu ao fato de que os professores “não recebem essa formação durante a graduação”. Deixem-me contribuir com o esforço de Haddad e Leonor na formação dos professores, oferecendo-lhes duas pequenas citações. A primeira: “As raças, como as famílias, são organismos e ordenações de Deus; e o sentimento racial, tal como o sentimento familiar, é de origem divina. A extinção do sentimento racial é tão possível quanto a extinção do sentimento familiar. Na verdade, a raça é uma família.” A segunda: “A história do mundo é a história não de indivíduos, mas de grupos, não de nações, mas de raças.” Os autores, pela ordem, são Alexander Crummell (1819-1898) e W. E. B. Du Bois (1868-1963), americanos, negros, pais fundadores do pan-africanismo.

O diagnóstico de Leonor está correto, mas de um modo que ela não suspeita. Há muito a fazer no campo da formação de professores. Contudo, no caso, as dificuldades de aplicação da lei de ensino racial não derivam da ignorância teórica dos mestres, mas do seu saber prático, vivido e experimentado. Como Milton Gonçalves, os professores sentem-se brasileiros e aprenderam, bem antes da graduação, que existe “uma identidade humana universal”. Eles têm dificuldades em narrar a história segundo o paradigma racial. Eles resistem à diretiva de dividir a humanidade e seus alunos em raças. O MEC terá de se esforçar mais.

Carta aberta ao Grande Chefe Branco

Prezado deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP):

No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Câmara passou a lei de cotas nas universidades e instituições federais de ensino médio, que é a primeira lei racial na história da República. A aprovação se deu sem o voto dos deputados, por conluio entre lideranças. Você participou destacadamente daquele conluio, renunciando à posição contrária à inclusão da raça na lei que dizia sustentar.

Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente da Câmara, celebrou o desenlace e ofereceu um diagnóstico: “Os que têm opiniões divergentes cederam, o que resultou em um grande avanço.” Traduzo a frase do seguinte modo: nada é impossível, nem mesmo derrubar o princípio da igualdade perante a lei, quando a oposição abdica de seus deveres básicos. Estou errado?

Serei franco. Surpreendeu-me a sua colaboração, sem a qual o projeto teria de aguardar uma sessão com quórum e ser votado nominalmente pelos deputados. Li num jornal a sua justificativa. De acordo com ela, o projeto não é ruim, pois estabelece cotas raciais proporcionais à composição “racial” da população de cada unidade federativa, de modo que, nas suas palavras, nos Estados com predomínio demográfico de brancos, eles terão chances maiores de ingressar nas universidades. Se entendi, você negociou e aprovou o projeto pois não viu nele desvantagens para a “raça branca”. Posso, então, intitulá-lo Grande Chefe Branco?

Não há ironia nisso, acredite. Os patrocinadores de projetos de cotas no ensino e no mercado de trabalho almejam a condição de líderes negros. Eles usam o fruto envenenado da raça para impulsionar carreiras políticas ou conquistar posições de prestígio em ONGs muito bem financiadas. Mas é claro que a construção de identidades raciais oficiais no Brasil abre possibilidades inusitadas. Se há líderes negros, por que não líderes brancos? (Veja que para isso nem se precisa de algo tão aparente quanto a cor da pele: em Ruanda a vida política girava em torno de líderes tutsis e líderes hutus, ao menos até o genocídio).

Não nos enganemos. Políticos oportunistas em busca da condição de líderes negros (ou brancos) são elos instrumentais na passagem de leis de raça, mas a concepção de tais leis se deve aos doutrinários racialistas, que são pessoas dotadas de princípios – e o xis do problema reside no conteúdo desses princípios. Racialismo é a doutrina baseada numa dupla crença: 1) raças existem, se não na natureza, ao menos na história; 2) “a história do mundo não é a história de indivíduos, mas de grupos, não a de nações, mas a de raças”. Empreguei, para expor a segunda crença racialista, uma citação de William Du Bois (1868-1963), o pai fundador da doutrina. Toda a lógica das políticas de cotas raciais se encontra delineada na obra desse americano. Seria inoportuno sugerir que a lesse?

Du Bois era um racialista, não um racista, pois não acreditava em noções de superioridade racial. Ele visitou a Alemanha nazista e gostou do orgulho de raça promovido pelo regime, mas confessou sua repulsa com a perseguição aos judeus. Bem antes, em 1903, escreveu Os talentosos dez por cento, em que expunha a tese de que, por meio de uma criteriosa seleção educacional, um negro em cada dez poderia converter-se em líder mundial da raça negra. O artigo começa assim: “A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens excepcionais. O problema da educação entre negros, então, deve antes de tudo concentrar-se nos 10% talentosos…” Entendeu, agora, a proposta de cotas? Percebeu que ela nada tem que ver com um programa de redução de desigualdades sociais?

Nos EUA, as leis de segregação racial definiram quem era branco e quem era negro. Du Bois falava para uma raça oficializada pela discriminação. Por aqui, os racialistas lamentam a ausência de leis desse tipo no nosso passado, pois recaiu sobre os ombros deles a missão de fabricar, na mente das pessoas, a consciência racial e o orgulho de raça. Fico um tanto triste ao perceber que se procura realizar essa obra a partir da escola. Tarso Genro, na sua passagem pelo Ministério da Educação, ordenou que todas as escolas associem nominalmente cada aluno a uma raça. Você, um ex-ministro da Educação, e Paulo Haddad, o atual titular da pasta, articularam juntos o projeto de cotas raciais aprovado na Câmara. Vocês não são três, mas uma tríade. Juntos, por cima de diferenças partidárias, invadem as aulas de História e Biologia para apagar a lousa onde está escrito que raças humanas não existem, a não ser como invenção do racismo. Mas você liga para o que está escrito na lousa?

Já notou que os brasileiros sentem uma certa repugnância diante da idéia de serem divididos oficialmente em raças? Por coincidência, no mesmo dia em que vocês aprovavam uma lei que faz exatamente isso, divulgou-se uma pesquisa de opinião pública sobre atitudes diante do tema racial. Encomendada pelo Cidan, uma ONG racialista, a pesquisa fez perguntas viciadas, tendenciosas, a uma amostra da população carioca. Mesmo assim, 63% declaram-se contra as cotas raciais. Mais interessante é que as posturas diante das cotas raciais não variam em função da cor autodeclarada das pessoas. Entre os “brancos”, 63,7% rejeitam essa política; entre os “pardos”, 64%; entre os “pretos”, 62,2%. Eu interpreto isso como uma opção identitária: as pessoas, independentemente da cor da pele, querem ser cidadãos iguais perante a lei. Estou errado?

Não há motivo para imaginar que os demais brasileiros pensem diferente dos cariocas. Apesar da maciça propaganda racialista veiculada pelo Estado, os cidadãos percebem o mal que a pedagogia das raças faz aos jovens estudantes. A coincidência entre a divulgação da pesquisa e a aprovação por conchavo da lei de cotas coloca uma pergunta constrangedora: onde está a representação parlamentar da maioria que rejeita as leis raciais?

”Coisa de preto”

O Senado logo retomará o debate do projeto de lei de cotas raciais nas universidades e escolas técnicas federais, que pode tornar-se a primeira lei racial da nossa história. Diferentes pesquisas evidenciam que ampla maioria dos brasileiros, de todas as cores, rejeita a introdução da raça na lei. Mas o projeto, que passou na Câmara dos Deputados sem voto em plenário, por acordo de lideranças, tem grandes possibilidades de ser aprovado no Senado. Como explicar o paradoxo que faz a maioria parlamentar deliberar contra a vontade da maioria dos eleitores?

Há, antes de tudo, um desvio que não é exclusivo de nosso sistema político. Os parlamentares temem contrariar os grupos de pressão organizados mais do que temem frustrar as expectativas da maioria desorganizada. Corporações, movimentos sociais e ONGs atuam como máquinas eleitorais, impulsionando ou destruindo candidaturas. Os interesses da maioria, por sua natureza difusa, podem ser contrariados com menor risco. Se o Estado brasileiro criar, oficialmente, castas de cidadãos separadas pela cor da pele, isso será um triunfo das ONGs racialistas e uma derrota da vontade popular.

Não existe no Brasil um “movimento negro” em nenhum sentido legítimo da palavra. As ONGs racialistas quase nada representam, além dos interesses e ideologias de seus próprios ativistas. Mas elas recebem, todos os anos, milhões de dólares da Fundação Ford e se incrustaram no interior do Estado, dispondo do aparelho de uma secretaria especial da Presidência e do controle de postos-chave nos Ministérios da Educação e da Saúde. Os dirigentes de tais grupos formam uma elite adventícia, estruturada em redes nas universidades e instituições internacionais, que se reclamam porta-vozes de uma “raça”. Eles usarão o termo “racista” como insulto destinado a marcar a ferro todos os que insistem em defender o princípio da igualdade perante a lei. Eis o que temem deputados e senadores.

A ciência a serviço da expansão imperial europeia inventou a raça no século 19. A ciência do pós-Guerra a desinventou, provando que a cor da pele é uma adaptação evolutiva superficial a níveis diferentes de exposição à luz solar. Mas a questão de saber se a raça existe não pode ser solucionada em definitivo pelos cientistas, pois o Estado tem o poder de fabricar raças na esfera política. Nos EUA e na África do Sul, leis raciais incutiram na sociedade a noção de que uma fronteira natural divide as pessoas em grupos fechados.

Leis raciais supostamente voltadas para o “bem” não são, sob esse aspecto crucial, diferentes de leis raciais voltadas para o “mal”. Umas e outras ensinam às pessoas que seus direitos estão ligados à sua cor da pele – e que seus interesses objetivos solicitam a “solidariedade de raça”. A lei que tramita no Senado pouco afetará os mais ricos, mas dividirá os alunos de escolas públicas em dois conjuntos “raciais” com interesses opostos. Na hora em que os filhos dos trabalhadores não puderem mais olhar uns aos outros como irmãos e colegas, terá emergido um Brasil diferente daquele que conhecemos. Mas a nossa elite política não vislumbra esse risco, pois interpreta a Nação pelas lentes do preconceito de classe.

A maioria dos parlamentares não nutre entusiasmo pelo projeto de cotas raciais, mas está disposta a contribuir com a indiferença para sua aprovação. Eles enxergam as leis raciais como esmolas concedidas aos pedintes, moedinhas inúteis entregues a meninos na rua, um preço quase simbólico que se paga para comprar gratidão. “Coisa de preto” – é assim que, silenciosamente, avaliam os projetos apresentados sob a cínica justificativa de fazer justiça social por intermédio da oficialização da raça. Mas não se trata, a rigor, de preconceito racial: o “preto”, no caso, funciona como sinônimo de pobre, na mais pura tradição senhorial brasileira. Juntamente com o temor dos grupos de interesse, as leis de raça beneficiam-se dessa aversão benevolente ao princípio da igualdade.

Há mais de um ano foi aprovado em comissão um projeto de lei, de autoria do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que determina a implantação de tempo integral nas escolas públicas de ensino fundamental. Mas a maioria governista não permite que o projeto siga para votação, alegando que custaria cerca de R$ 20 bilhões anuais, pouco menos que o dobro do Bolsa-Família. Parece muito, mas representaria apenas 1,6% do Orçamento da União – algo como um aumento inferior a 15% nos repasses federais para Estados e municípios. É um valor relevante, porém perfeitamente viável se a deflagração de uma revolução qualitativa no ensino público figurasse, de fato, como prioridade nacional. Entretanto, nossa elite política parece preferir enfeitar com cotas raciais a ordem iníqua que relega a maioria dos jovens, de todas as cores, a escolas arruinadas.

O antropólogo Kabengele Munanga, um arauto das políticas de raça, justificou do seguinte modo a necessidade das cotas raciais: “Muitos acham que o caminho para corrigir as desigualdades sociais seria uma política universalista, baseada na melhoria da escola pública, o que tornaria todos os cidadãos brasileiros capazes de competir. Mas isso é um discurso para manter o status quo, porque enquanto se diz isso nada é feito.” A afirmação é uma esfinge que pede para ser decifrada. Munanga sugere ser favorável à política universalista de “melhoria da escola pública”, mas, simultaneamente, qualifica tal demanda como “um discurso para manter o status quo”, pois na prática “nada é feito”. Então, utilizando-se de uma perversão lógica, não reivindica que se faça a “política universalista”, mas a sua substituição por uma política diferencialista destinada a distribuir direitos segundo a cor da pele. É que no Congresso, enquanto ele diz isso, os parlamentares que compartilham sua ideologia racialista ajudam a bloquear o projeto universalista do tempo integral.

”Brasileiro tem maior aceitação de sua origem miscigenada”

ENTREVISTA – Demétrio Magnoli: doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Por Andrea Vialli

O maior número de brasileiros que se autodeclaram pardos – de 42,5% da população em 2007 para 43,8% em 2008 – sugere maior aceitação das origens mestiças. Essa é avaliação do sociólogo Demétrio Magnoli, que afirma que esse processo de autoaceitação já influencia estatísticas desde a década de 1940. Eis alguns trechos de sua entrevista ao Estado.

O que explica o aumento no número de pardos?

Isso vem acontecendo desde 1940, quando foram consolidadas as cinco categorias de raça, e é um duplo fenômeno: aumenta o número de pessoas que se declaram pardas, e diminui tanto o número de brancos quanto o de pretos. Isso ocorre pela continuidade do processo de miscigenação da sociedade. A diminuição dos pretos e dos brancos não é marginal, é um fenômeno muito grande. O segundo motivo, uma hipótese que eu levanto, é maior consciência e aceitação da miscigenação.

Então, o brasileiro hoje se aceita?

No pensamento racista, isso é explicado como sendo uma rejeição de ser negro e uma tentativa de branqueamento da cor da pele. Mas essa explicação só poderia ser aceita se se reduzisse o número de pretos, mas não o de brancos. Mas não é o que acontece. Cada vez mais pretos e brancos mudam para a coluna de pardos. Os pardos não estão insatisfeitos. Mas na cabeça das pessoas que fazem a declaração, a pessoa pensa: “não sou nem branco nem preto, não tenho raça, sou uma mistura”, então se declara como pardo. Se houvesse a categoria mestiço, teria até mais pessoas se declarando como tal. Pardo é uma palavra com certo estigma. Temos uma sociedade no Brasil que cada vez menos se amolda aos dois polos raciais tradicionais. Que se vê como misturada e a Pnad revela a continuidade disso. Em décadas, teremos 70% de gente se dizendo parda. É uma maior aceitação da miscigenação. E uma das características mais importantes do racismo é ser antimistura. Os textos racistas do século 19 tratam miscigenação como degeneração. Quando os brasileiros se misturam e se declaram como mestiços, eles declaram não acreditar nesse racismo, o que é positivo.

Existe algum reflexo das políticas de cotas nas estatísticas?

Creio que é muito cedo para se fazer uma afirmação direta desse tipo, mas possivelmente tem algum efeito e isso contribui para um processo de “pardização” dessas pessoas que se diziam brancas. O que não é oportunismo.

*Demétrio Magnole é doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Sobre o tema, ver mais informações aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O jornalismo delinquente

10:28 am

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Por DEMÉTRIO MAGNOLI*

AS PESSOAS, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (“DEM corresponsabiliza negros pela escravidão“, Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (“África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: “Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor”. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: “Negros corresponsabilizam negros pela escravidão”.
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. “Não discutimos a escravidão”, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.

*DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo, é autor de “Uma Gota de Sangue – História do Pensamento Racial” (SP, Contexto, 2009)

Quatro em cada cinco pessoas dizem que internet é direito fundamental

8 de março de 2010 11:54 am

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Sondagem da BBC entrevistou 27 mil adultos em 26 países, inclusive o Brasil.

– Quatro entre cinco adultos no mundo consideram o acesso à internet um direito fundamental do ser humano, segundo uma pesquisa realizada em 26 países para o Serviço Mundial da BBC.

Das mais de 27 mil pessoas entrevistadas, 87% das que usam a rede mundial de computadores defenderam o direito de ter acesso a ela. Entre os não-usuários, 71% disseram que deveriam ter o mesmo direito.

O Brasil foi um dos países que mais defendeu esse ponto de vista, com 91% dos entrevistados concordando com o direito ao acesso à internet. A Coreia do Sul (com 96%), o México (com 94%) e a China (com 87%) também estão entre esses países.

A pesquisa foi realizada pelo instituto internacional GlobeScan para a série SuperPotência da BBC, que durante o mês de março vai trazer reportagens e análises explorando o poder da internet. Foram entrevistados 27.973 adultos de 26 países, em novembro de 2009 e fevereiro de 2010. Dos que responderam às perguntas, 14.306 são usuários da internet.

A pesquisa mostrou ainda que a maioria dos usuários entrevistados veem como positivas as mudanças que a internet trouxe às suas vidas, principalmente o volume e a variedade de informações que ela oferece.

Para 90% dos entrevistados, a rede mundial de computadores é um “bom lugar para se aprender”. E 78% sentem que a internet deu a eles mais liberdade.

Pouco mais da metade (51%) disse gostar de navegar em sites de relacionamentos sociais, como o Facebook e o MySpace, mas apenas 30% afirmou que a rede é um bom lugar para se encontrar um namorado ou namorada.

O papel da internet como fonte de entretenimento, ferramenta para pesquisas e compra de produtos e serviços, e espaço para um debate criativo foi menos mencionado entre os aspectos mais valorizados da rede.

Cautela

Apesar do entusiasmo geral com a ferramenta, a maioria (55%) disse que poderia viver sem a internet.

Muitos dos entrevistados também se mostraram cautelosos com a rede mundial de computadores. Cerca de um terço deles (32%) dizem que as fraudes são o aspecto mais preocupante da internet. Outros 27% acreditam que o pior problema é o conteúdo violento e explícito presente em muitos sites.

Praticamente metade das pessoas que responderam à pesquisa (49%) acreditam que a internet não é um lugar seguro para elas expressarem suas opiniões. Na Alemanha, este número sobe para 72% dos entrevistados, acompanhado de 71% na França e 70% na Coreia do Sul.

A sondagem também mostrou que 53% dos entrevistados creem que a internet não deveria ser regulada pelos governos. BBC Brasil

Direitos dos homossexuais

7 de março de 2010 11:19 am

homossexualidade

Justiça não se curva à omissão do legislador

Por Maria Berenice Dias

Não adianta. O legislador insiste em não assumir o seu compromisso maior, que é o de editar leis que atendam à realidade da vida. Tal omissão afeta principalmente todos aqueles que são alvo da exclusão social. Como vivem situação de vulnerabilidade, são os que mais merecem especial tutela do sistema jurídico.

O exemplo mais flagrante diz com as maiores vítimas do preconceito e discriminação: a população LGBT. A resistência do Congresso Nacional em aprovar leis que garantam direitos às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis não pode significar que elas não possuem direito algum. Não. O silêncio tem caráter punitivo. O legislador incorpora o papel de guardião de uma moral conservadora e condena à invisibilidade tudo o que foge ao modelo convencional. Esta atitude é histórica. Foi o que ocorreu com a dissolução do matrimônio e com o reconhecimento da união estável.

Na tentativa de manter o casamento indissolúvel, foram necessários 27 anos para ser aprovado o divórcio, e 70 anos para as uniões extramatrimoniais serem reconhecidas como entidade familiar. Ainda assim, essas mudanças só ocorreram depois de a jurisprudência driblar as restrições impostas ao concubinato, criando a figura do companheiro. Em face da indissolubilidade do vínculo conjugal foram atribuídos efeitos à separação de fato. Do mesmo modo, diante do limitado conceito da família, aflorou toda uma nova concepção de estrutura familiar focada no vínculo da afetividade.

Claro que não poderia ser diferente com as uniões homoafetivas. É severo o calvário para quem só quer assumir deveres e ver reconhecidos alguns direitos. Mas, apesar de focos de resistência, vêm se consolidando conquistas nas diversas justiças, instâncias e tribunais de todos os estados. Não só a justiça estadual, também a justiça federal assegura direitos no âmbito do direito das famílias, direitos sucessórios, previdenciários e trabalhistas. As decisões contam-se às centenas.[1]

Como são as manifestações dos tribunais superiores que balizam o entendimento das demais instâncias, cabe lembrar os avanços que já ocorreram. Data do ano de 1998 a primeira decisão do Superior Tribunal de Justiça que, afirmando a existência de sociedade de fato, assegurou ao parceiro homossexual a metade do patrimônio adquirido pelo esforço comum.[2] Ainda que estabelecida a competência das varas cíveis,[3] a Corte vem admitindo a partilha de bens a depender de prova da mútua colaboração.[4].

O Superior Tribunal Eleitoral, ao estender a inelegibilidade da parceira do mesmo sexo, atestou a existência de uma união estável homossexual.[5] Mais recentemente, o STJ reconheceu a possibilidade jurídica da ação declaratória de união homoafetiva, sob o fundamento de que não existe vedação legal para o prosseguimento do feito. Afirma o ministro Antônio de Pádua Ribeiro que os dispositivos legais limitam-se a estabelecer a possibilidade de união estável entre homem e mulher, dês que preencham as condições impostas pela lei, quais sejam, convivência pública, duradoura e contínua, sem, contudo, proibir a união entre dois homens ou duas mulheres. Ponderou o Relator: Poderia o legislador, caso desejasse, utilizar expressão restritiva, de modo a impedir que a união entre pessoas de idêntico sexo ficasse definitivamente excluída da abrangência legal. Contudo, assim não procedeu. É possível, portanto, que o magistrado de primeiro grau entenda existir lacuna legislativa, uma vez que a matéria, conquanto derive de situação fática conhecida de todos, ainda não foi expressamente regulada. E conclui: Ao julgador é vedado eximir-se de prestar jurisdição sob o argumento de ausência de previsão legal. Admite-se, se for o caso, a integração mediante o uso da analogia, a fim de alcançar casos não expressamente contemplados, mas cuja essência coincida com outros tratados pelo legislador. [6]

E, falando da postura do STJ frente à população LGBT, não há como deixar de citar o reconhecimento de direito dos transexuais à alteração do nome e identidade de gênero[7], inclusive homologando sentenças estrangeiras que autorizaram a redesignação sexual em países outros.[8]

Mas é no âmbito do direito previdenciário que se multiplicam as decisões, principalmente da Justiça federal. O tema chegou no STJ no ano de 2005, que admitiu a inclusão do companheiro como dependente em plano de assistência médica reconhecendo que a relação homoafetiva gera direitos analogicamente à união estável. Disse o Min. Humberto Gomes de Barros que o homossexual não é cidadão de segunda categoria. A opção ou condição sexual não diminui direitos e, muito menos, a dignidade da pessoa humana.[9]

Em outro julgamento, o mesmo relator, ao reafirmar a existência do direito à inclusão no plano assistencial ressalta: A questão a ser resolvida resume-se em saber se os integrantes de relação homossexual estável têm direito à inclusão em plano de saúde de um dos parceiros. É grande a celeuma em torno da regulamentação da relação homoafetiva (neologismo cunhado com brilhantismo pela e. Desembargadora Maria Berenice Dias do TJ-RS). Nada em nosso ordenamento jurídico disciplina os direitos oriundos dessa relação tão corriqueira e notória nos dias de hoje. A realidade e até a ficção (novelas, filmes, etc) nos mostram, todos os dias, a evidência desse fato social. Há projetos de lei, que não andam, emperrados em arraigadas tradições culturais.

A construção pretoriana, aos poucos, supre o vazio legal: após longas batalhas, os tribunais, aos poucos proclamam os efeitos práticos da relação homoafetiva. Apesar de tímido, já se percebe algum avanço no reconhecimento dos direitos advindos da relação homossexual.[10]

A pensão por morte ao companheiro de relacionamento homoafetivo também já foi concedida pelo STJ, reconhecendo, inclusive, a legitimidade do Ministério Público para intervir no processo em que ocorre reivindicação de pessoa, em prol de tratamento igualitário quanto a direitos fundamentais. Disse o Min. Hélio Quaglia Barbosa: O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático de direito e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Eis o fundamento da decisão: Por ser a pensão por morte um benefício previdenciário, que visa suprir as necessidades básicas dos dependentes do segurado, no sentido de lhes assegurar a subsistência, há que interpretar os respectivos preceitos partindo da própria Carta Política de 1988 que, assim estabeleceu, em comando específico: ‘Art. 201 – Os planos de previdência social, mediante contribuição, atenderão, nos termos da lei, a: […] V – pensão por morte de segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, obedecido o disposto no § 2 º. Não houve, pois, de parte do constituinte, exclusão dos relacionamentos homoafetivos, com vista à produção de efeitos no campo do direito previdenciário, configurando-se mera lacuna, que deverá ser preenchida a partir de outras fontes do direito.[11]

Agora, mais uma vez, o STJ reafirma: os que vivem em uniões de afeto com pessoas do mesmo sexo estão enquadrados no rol dos dependentes preferenciais dos segurados, no regime geral, bem como dos participantes, no regime complementar de previdência, em igualdade de condições com todos os demais beneficiários em situações análogas. A ministra Fátima Nancy Andrigui, ressaltou que a união afetiva constituída entre pessoas de mesmo sexo não pode ser ignorada em uma sociedade com estruturas de convívio familiar cada vez mais complexas, para se evitar que, por conta do preconceito, sejam suprimidos direitos fundamentais das pessoas envolvidas.

Segundo a relatora, enquanto a lei civil permanecer inerte, as novas estruturas de convívio que batem às portas dos tribunais devem ter sua tutela jurisdicional prestada com base nas leis existentes e nos parâmetros humanitários que norteiam não só o direito constitucional, mas a maioria dos ordenamentos jurídicos existentes no mundo. Diante da lacuna da lei que envolve o caso em questão, a aplicação da analogia é perfeitamente aceitável para alavancar como entidade familiar as uniões de afeto entre pessoas do mesmo sexo. Se por força do artigo 16 da Lei n. 8.213/91, a necessária dependência econômica para a concessão da pensão por morte entre companheiros de união estável é presumida, também o é no caso de companheiros do mesmo sexo, diante do emprego da analogia que se estabeleceu entre essas duas entidades familiares.[12]

Ao depois, cabe lembrar que o INSS, em decorrência de decisão judicial, estabeleceu os procedimentos a serem adotados para a concessão de benefícios previdenciários ao companheiro homossexual em sede administrativa.[13] Deste modo, escancaradamente afronta ao princípio da igualdade não assegurar o mesmo direito aos homossexuais em se tratando de previdência privada. De todo descabido conceder direitos aos empregados celetistas e excluir os mesmos direitos de quem é segurado por entidades previdenciárias estatais ou federais.

A partir do balizamento levado a efeito pelo Superior Tribunal de Justiça, que tem a seu encargo impor respeito à legislação infraconstitucional, perde significado o irresponsável silêncio do legislador. Nenhum juiz mais pode alegar inexistência de lei e se furtar de cumprir com a sua obrigação de assegurar direitos a quem está condenado à invisibilidade por absoluta inércia legislativa. Toda a caminhada que prioriza o direito à individualidade necessariamente impõe à eliminação das diferenças, única forma de atingir o tão almejado respeito à dignidade humana.

Afinal, a Justiça precisa cumprir com sua missão de assegurar a todos o direito à felicidade.

[1] Disponíveis em www.direitohomoafetivo.com.br

[2] STJ, REsp 148897-MG, 4ª T. rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, j. 10.02.1998.

[3] STJ, REsp 323.370-RS, 4ª T. – Rel. Min. Barros Monteiro – j. 14.12.2004; STJ, REsp 502.995-RN, 4ª T. Rel. Min. Fernando Gonçalves, j. 26/04/2005.

[4] STJ, Resp 773.136-RJ, 3ª T., Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 10.10.2006; STJ, REsp 648.763/RS, 4.ª T., Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, j. 07.12.2006.

[5] TSE, REsp. Eleitoral 24.564, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 01.10.2004.

[6] STJ, REsp 820475-RJ, 4ª T. Rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, Rel. p/ Acórdão Min. Luis Felipe Salomão, j. 02.09.2008.

[7] STJ, 3.ª T., REsp 678.933/RS, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 22.03.2007; STJ – Resp 1.008.398 – SP, 4ª T.Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 15 de outubro de 2009; STJ – Resp 737.993 –MG, 4ª T. Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 10.11. 2009.

[8] STJ – SE 001058-IT 2005/0067795-4, rel. Min. Barros Monteiro, j. 01.08.06; STJ-SE 2.149 – IT 2006/0186695-0, Rel. Min. Barros Monteiro, j. 04.12. 2006; STJ – SE 002.732 – IT 2007/0105198-0, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, j. 07.04.2009; STJ – SE 004179 – IT 2008/0273512-), Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, j. 07.04.2009.

[9] STJ, REsp 238.715-RN, 3ª T. Rel. Min.  Humberto Gomes De Barros, j. 19.05.2005.

[10] STJ, REsp 238.715-RS, 3ª T. Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, j. 07.03.2006.

[11] STJ, REsp 395904-RS,  6ª T. Rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa, j. 13.12.2005.

[12] STJ , REsp 1.026.981-RJ, 4ª T.Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 04.02.2010.

[13] Instrução Normativa 25, de 7 de junho de 2000.

Déficits, câmbio e crescimento

11:05 am
Luiz Carlos Bresser-Pereira

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira*

São muitos os economistas ortodoxos brasileiros, mas nenhum é tão sério e competente quanto o prof. Affonso Celso Pastore. Suas análises macroeconômicas são sempre bem estruturadas e bem argumentadas, e terminam quase sempre pela recomendação de maior austeridade fiscal – algo com o que concordo. Somos ambos contra déficits públicos que endividam irresponsavelmente o Estado. Por que não ter a mesma posição em relação a déficits em conta corrente que endividam irresponsavelmente a nação (as famílias, as empresas e o Estado)? Por que dois pesos e duas medidas? O prof. Pastore, em artigo no Estado (28/2/2010), tem uma explicação para essa contradição – para sua defesa de déficits em conta corrente e para a política cambial vigente. Ela reproduz a teoria que os países ricos e seus economistas sempre usaram em relação aos países em desenvolvimento: propor que incorram em déficit em conta corrente para assim obter “poupança externa” na forma de investimentos diretos ou de empréstimos que financiem aquele déficit. O pressuposto que o nome “poupança externa” sugere é que o déficit em conta corrente se somaria à poupança interna dos países e, assim, sua taxa de investimento (que é decisiva para o desenvolvimento econômico) aumentaria. Entretanto, essa tese, ou a afirmação que “os países ricos em capital devem transferir seus capitais para os países pobres em capitais” é tão verdadeira quanto a de que a terra é plana… Parece ser verdadeira, mas é essencialmente falsa.

Quando um país decide aceitar essa proposta de “crescimento com poupança externa”, a primeira consequência é a apreciação da taxa de câmbio. Em seguida, do lado da oferta, ocorre o aumento artificial dos salários, e, em consequência, o aumento do consumo interno. Dada a propensão marginal a consumir elevada existente nos países em desenvolvimento, o aumento do consumo e a correspondente redução da poupança interna são grandes, de forma que diminui a poupança interna e a poupança externa em grande parte a substitui, ao invés de se constituir em um acréscimo à poupança interna. Do lado da demanda, o resultado é o mesmo: a apreciação da moeda provoca a diminuição das oportunidades de investimento lucrativo voltados para a exportação; caem os investimentos e, em termos keynesianos, cai a poupança interna. Mais amplamente, o endividamento externo provoca uma sucessão de três males: primeiro, temos uma elevada taxa de substituição da poupança interna pela externa, grande parte das entradas de capitais financiando o consumo ao invés do investimento; segundo, temos o aumento do endividamento externo que leva o país a uma condição de fragilidade externa e à política desastrosa do confidence building, a aceitar sem crítica as recomendações de nossos credores e concorrentes; e, terceiro, temos a crise de balanço de pagamentos.

Se os investimentos de empresas multinacionais (que são desejáveis se trouxerem tecnologia) financiam déficit em conta corrente, eles têm o mesmo destino dos empréstimos. Mesmo que a empresa multinacional faça um investimento novo em vez de apenas comprar uma empresa já existente, boa parte dos recursos entrados no país acaba indiretamente financiando o consumo por meio da valorização do câmbio. Isso não ocorreria se o investimento direto não financiasse déficit em conta corrente mas se constituísse em recurso que o país usa para fazer seus investimentos e aplicações financeiras externas. É assim que age a China.

Argumenta Pastore que nossa taxa de poupança é insuficiente – menos da metade da mesma China. Não há dúvida sobre isso. O equívoco está em pensar linearmente que o problema se resolve com apelo à poupança externa. Hoje já existe um conjunto de pesquisas significativo mostrando que quanto menor for o déficit (ou maior o superávit) em conta corrente, maior é a taxa de crescimento do país. Essa mesma relação pode ser decomposta em dois estágios, de forma que quanto menor for o déficit (ou maior o superávit) em conta corrente, mais competitiva é a taxa de câmbio, e quanto mais competitiva a taxa de câmbio, maior a taxa de crescimento do país.

Como, então, aumentar a taxa de poupança do Brasil? É necessário que as famílias reduzam seu consumo de luxo e que o Estado reduza seus gastos administrativos ou burocráticos, ou que torne mais eficientes seus serviços sociais e seus serviços de segurança. Mas o mais importante para aumentar a poupança é administrar a taxa de câmbio para que ela se mantenha competitiva em vez de cronicamente apreciada. É não aumentar artificialmente os salários, e, sim, garantir aos empresários boas expectativas de lucro ou, boas oportunidades de investimento voltado para a exportação. Em um país que ainda tem mão de obra relativamente barata como o Brasil, se a taxa de câmbio for competitiva, todo o mercado externo estará aberto às suas empresas competentes. Quando a taxa de câmbio é sobreapreciada como é hoje a brasileira, de nada adianta ser eficiente.

O prof. Pastore afirma que “os críticos do atual regime cambial brasileiro” defendem uma taxa de câmbio “permanentemente mais depreciada”. Não é isso que defendo, e sim uma taxa de câmbio de equilíbrio, competitiva. Como defini-la? Se não fôssemos vítimas da doença holandesa, a taxa de câmbio competitiva é aquela que equilibra intertemporalmente a conta corrente: é a de “equilíbrio corrente”. Hoje, algo em torno de R$ 2 por dólar. Como, porém, temos uma leve mas real doença holandesa (grave é a dos países produtores de petróleo), a taxa de câmbio competitiva é a de “equilíbrio industrial” – ou seja, aquela que torna competitivas internacionalmente as empresas produtoras de bens e serviços comercializáveis que adotem tecnologia no estado da arte mundial. Hoje, algo provavelmente em torno de R$ 2,40 por dólar.

Para manter a taxa de câmbio relativamente estável nesse nível é preciso administrá-la. Sabemos que a dos países em desenvolvimento não é bem controlada pelo mercado, não flutua docemente em torno do equilíbrio corrente, como pretendem os ortodoxos. Nem é simplesmente volátil em torno desse equilíbrio, como supõem os keynesianos. Na verdade, se deixada completamente livre, ela tende estruturalmente à sobreapreciação, não sendo o mercado, mas as crises de balanço de pagamentos, as paradas súbitas, que a “controlam”. Quando ocorre a crise, há uma violenta depreciação, mas, em seguida, passam a operar as causas de apreciação. Entre elas, temos, em primeiro lugar, a doença holandesa, que puxa a taxa de câmbio do equilíbrio industrial para o corrente; em seguida, a política de crescimento com poupança externa, as entradas de capitais especulativos e o populismo cambial que levam o país sucessivamente ao déficit em conta corrente, à substituição da poupança interna pela externa, ao endividamento externo excessivo, ao confidence building, e, afinal, a nova crise.

O prof. Pastore está ciente dos perigos dos déficits em conta corrente. Diz-nos ele: “Os déficits nas contas correntes muito elevados contêm a semente de sua própria destruição ao exigirem, depois de algum tempo, a depreciação do câmbio real de equilíbrio para financiar os encargos de um passivo externo líquido mais elevado”. Por que, então, a contradição de começar o artigo defendendo o “crescimento com poupança externa”? A explicação está nas duas crenças equivocadas que acabei de criticar: a de que déficits em conta corrente valham a pena porque aumentariam significativamente os investimentos; e a de que o mercado tende a manter a taxa de câmbio no equilíbrio desejado, não precisando ser administrada.

Na verdade, não basta controlar a taxa de inflação, é preciso administrar o câmbio de forma a neutralizar a tendência à sua sobreapreciação. Não é conveniente definir uma meta – é preferível pensá-la em termos de faixa – mas é fundamental que se garanta às empresas sua manutenção nesse nível. O desenvolvimento econômico brasileiro depende criticamente da existência de demanda – de oportunidades de investimento. No lado da oferta, o único ponto de estrangulamento de curto prazo é o da infraestrutura – e esse problema exige um esforço redobrado do governo e das empresas. Realizado esse esforço e garantida uma taxa de câmbio competitiva – no nível do equilíbrio industrial – o Brasil poderá crescer nos próximos anos a uma taxa média de 7% ano, em vez dos 3,5% que, em média, a atual taxa de câmbio permite, em meio a crises recorrentes. Os países asiáticos dinâmicos crescem a taxas superiores porque aprenderam a administrá-la. Está na hora de nós fazermos o mesmo.

*Economista, professor da FGV-SP

A sociedade Narciso e a saúde

10:54 am

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Por Roger Cohen

The New York Times

Onde Édipo um dia nos atormentava, agora é Narciso. Patologias associadas a autoridade e dominação cederam lugar à angústia ilimitada da autocontemplação. A velha pergunta – “O que me é permitido fazer?” – deu lugar à também assustadora “O que sou capaz de fazer?” Alain Ehrenberg, um escritor e psicólogo francês, fala da “privatização da existência humana”.

A comunidade – um emprego estável, experiência nacional compartilhada, família grande, sindicatos – desapareceu ou se desgastou. Em seu lugar entrou um individualismo frenético, o solipsismo de olhos grudados nas telas, os prazeres incorpóreos das redes de relacionamento social e a vida a la carte definida por 600 canais de TV e uma multidão de blogs.

Sentimentos de ansiedade e inadequação crescem na câmara solitária de introspecção e projeção.

Essas tendências são comuns a todas as democracias modernas globalizadas, das que premiam o individualismo, como os Estados Unidos, àquelas como a França, onde a solidariedade social é um valor supremo. O novo livro de Ehrenberg, La Société du Malaise (A sociedade do mal-estar, em português) está cheio de insights do impacto da neurose narcisista.

Por vezes, parece que estamos tão solitários como aqueles pequenos aviões sobre o Atlântico em mapas de navegação em vídeos a bordo.

Estive pensando nisso durante um período recente como jurado em um júri de instrução. Reunido por duas semanas na Suprema Corte do Brooklyn com outros 22 jurados, ocorreu-me como é raro na vida americana de hoje ficar reunido fisicamente com um grupo de outras pessoas de idades, antecedentes, cores, crenças, fés, gostos, níveis educacionais e convicções políticas diferentes e ser obrigado a resolver nossas diferenças para fazer o trabalho.

Nem sempre foi fácil, é claro. Não foi fácil lidar com o paramédico nervoso mastigando fritas durante testemunhos de assassinato, os flertes inconstantes do ex-músico de rhythm and blues, as ruminações importunas do velhote que sabia que tinha sempre razão, o tédio e incoerência intermitentes.

Ainda posso ouvir o jurado ao meu lado. “Eu trabalho no 311” – o número que os nova-iorquinos ligam com reclamações e perguntas sobre a cidade. “Me deixa maluco estar nisso há cinco anos. As pessoas tratam a gente como idiotas. A maioria das vezes é água vazando nos porões, sistema de esgoto entupido. Pelo menos meu emprego não foi terceirizado para Bangalore, na Índia. As pessoas me perguntam: “Você está em Nova York?” Elas me perguntam: “Você é um ser humano ou um robô?” Às vezes eu digo: “EU… SOU… UM… ROBÔ.” Mas nós temos supervisores ouvindo as chamadas. Uma coisa que me deixa maluco é que todas as pessoas falam devagar, como se eu fosse um idiota. Eu digo a elas: “Pode falar mais rápido, sabe!” Trabalhar em júri é mesmo um alívio!”

De certa maneira, foi um alívio. Nós viemos a conhecer os tiques uns dos outros e, depois de lidar com assassinato, estupro, assalto e fraude de seguro, todos nos abraçamos no fim. Ó ato impensável, nós fizemos alguma coisa desinteressada para o bem comum, aprendemos a nos ouvir mutuamente, aceitamos diferenças e defendemos nossos pontos de vista para chegar às decisões.

Os EUA poderiam usar mais esse tipo de experiência. Atualmente, todos gritam o seu ódio solitário, enterrando-se mais fundo no estresse, olhando fixamente para a própria imagem – e gerando paralisia.

O que me leva ao sistema de saúde: chegou a hora de definir uma questão central para o futuro da nação, em que é necessário um reconhecimento de que, no que diz respeito à saúde, estamos todos no mesmo barco. Distribuir os riscos entre todos é a maneira mais eficiente de forjar uma sociedade mais saudável. É o que fazem outras sociedades desenvolvidas. E elas não têm mais de 30 milhões de não segurados.

Agora, tal como entendo, o movimento Tea Party (disperso movimento de protesto conservador) está irritado com desperdício, salvamentos para os ricos e escalada da dívida. Eles detestam o Estado grande. Mas se desperdício e dívida são realmente o que os incomoda, que tal o desperdício de mais de 1,8 mil assistências médicas relacionadas a falências pessoais, os 25% a 30% de alguns custos de seguradoras corporativas que vão para o governo (ante 6% do Medicare), a disparada dos prêmios de seguro-saúde que está minando corporações americanas (e com isso tirando empregos), a papelada interminável dos procedimentos de reembolso privado e as mortes desnecessárias? Os americanos não querem um Estado superprotetor europeu – ótimo! Mas, como me disse Manuel Wally, um amigo advogado, “quando se trata de saúde, faz mais sentido envolver o governo, que presta contas às pessoas, que corporações, que prestam contas a acionistas”. A conversa alarmista de “nacionalizar” 17% da economia é bobagem.

O governo, via Medicare e Medicaid, já está administrando quase a metade da assistência médica americana e fazendo isso com menos desperdício que o setor privado. Os custos per capita do Medicare para benefícios comuns cresceram 4,9% entre 1998 e 2008, contra 7,1% das seguradoras privadas. Por que não oferecer o Medicare como uma escolha – uma escolha – para todos? Então os republicanos não são zelosos sobre a escolha? A opção pública, que não está morta, representaria o reconhecimento do interesse compartilhado na saúde pessoal e alheia e da necessidade de usar melhor as energias e recursos dos EUA. Isso envolveria 300 milhões de pessoas dando-se os braços. Ou podemos dar as costas uns aos outros e, como Narciso, perecer na contemplação de nossos próprios reflexos.

Tradução de Celso M. Paciornik