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Em torno de Mark Twain, autor no controle de sua imagem

17 de abril de 2010 11:23 am

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Mark Twain

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Memórias do criador de “Huckleberry Finn” tiveram a pretensão de cobrir lacunas deixadas por seus biógrafos

WILLY LEWIN - Não há muito foi traduzida e publicada entre nós a “autobiografia” de Mark Twain, editada com introdução e notas por Charles Neider (1). O próprio original norte-americano é ainda recente, pois sua edição data de 1959. Ao que tudo indica, pretendeu Neider preencher lacunas deixadas pelos seus antecessores, visando selecionar e, sobretudo, ordenar o caos das memórias escritas pelo autor de Tom Sawyer. Esses antecessores são: Albert Bigelow Paine, biógrafo, amigo e testamenteiro literário de Twain, e Bernard de Voto que, em 1940, aproveitando em grande parte material abandonado por Paine, deu nova versão à Autobiografia sob o título de Mark Twain in Eruption.

Aludimos à tentativas - não só de Charles Neider, como de Paine e de De Voto - de ordenar o caos da Autobiografia. A expressão caos pode ser entendida em dois sentidos: 1) o imediato, físico ou material, propriamente dito: entre 1880 e 1910, Twain ocupou considerável parte do seu tempo a escrever (e frequentemente a ditar) uma compacta série de lembranças pessoais que, segundo suas próprias intenções, destinavam-se a constituir sua autobiografia; 2) o modo pelo qual M. T. desejou elaborar, do ponto de vista literário, suas reminiscências. Sob tal aspecto reportamo-nos às suas próprias palavras:

“Pretendo que esta autobiografia venha a constituir-se em modelo para todas as demais possíveis, quando for publicada depois de minha morte, e pretendo também que seja lida (…) por causa de sua forma e de seu método (…). Howells aqui esteve, ontem à tarde, e falei-lhe acerca do plano desta autobiografia, do seu sistema aparentemente sem sistema. (…) Trata-se de um sistema deliberado, cujo princípio é lançar mão da matéria que no momento me interesse, passando a outra coisa quando a primeira tenha deixado de interessar-me. É um sistema que não segue um caminho previamente traçado. É uma confusão completa e propositada - um curso que não começa em parte alguma, não segue uma direção específica e não poderá jamais atingir um fim enquanto eu estiver com vida”.

É curioso observar que esse “sistema” muito se aproxima do que foi adotado por André Gide, ao redigir, pouco antes de morrer, os cahiers publicados postumamente sob o titulo Ainsi soit-il ou les jeux sont faits.

Diz Gide: “Não sei no que isto vai dar: resolvi escrever ao acaso. Empresa difícil: a pena (é uma caneta-tinteiro) está sempre atrasada em relação ao pensamento. Ora, o importante é não prever o que se vai dizer. (…) Se me vier o desejo de contradizer-me, fá-lo-ei sem escrúpulo: não procurarei a “coerência”. Mas, não terei também a afetação da incoerência”.

E cessam as semelhanças. O “caos” de Gide não atinge 200 páginas e está condicionado, literalmente, à própria economia do seu estilo. O de Mark Twain é uma enchente do … Mississippi. Gide foi um francês “elegante”, “fino”. E pode-se dizer sem injuria (à guisa, até, de elogio, sob vários aspectos imponderáveis…) que Mark Twain foi um tanto “grosso”.

No que tange à autobiografia editada por Charles Neider, tudo mostra que este não apenas levou muito a sério a tarefa que empreendeu, como também - e principalmente - empresta alta importância literária a essa parte da obra de Twain. Coisa diversa teria ocorrido aparentemente - e sob aspectos paradoxais, à primeira vista - com seu antecessor imediato no planejamento e edição da autobiografia. O fato é que, ao organizar para a Vilcing Press, de Nova York, o volume The Portable Mark Twain, Bernard. De Voto, na compilação feita, aproveitou apenas 15 das 785 páginas das memórias.

O entusiasmo de Neider - não se sabe bem se contaminado pela sua própria satisfação de “autor” secundário - transparece nestas palavras do prefácio: “Na minha opinião a autobiografia de Mark Twain é um clássico das letras americanas, podendo rivalizar com as autobiografias de Benjamin Franklin e Henry Adams. Creio que assim será olhada durante o curso dos anos. A obra derradeira de um dos mais queridos autores nacionais é produto de um desses gigantes do século XIX que o século atual tem sido lento em substituir. Ela possui os sinais da grandeza: estilo, escopo, imaginação, tragédia”.

Possuirá mesmo? Para um conhecido reviewer, Dwight Macdonald (comentando em The New Yorker a edição de Neider, na época do seu lançamento). o estilo da Autobiografia é “relaxado”, seu escopo é “limitado”, sua imaginação é “rasa”, e há antes sentimentalismo e “patético”, nas suas secções pessoais, do que a “tragédia” vislumbrada pelo compilador. Mais longe ainda foi o inglês Richard Aldington, citado na própria introdução de Neider. Investiu contra Twain, dizendo, em geral, não ser ele nem humorista, nem escritor genuíno. Quanto à “Autobiografia”, em particular, aludiu ao “tédio” que se evola de suas páginas. Vale recordar, entretanto, que Aldington tem demonstrado um parti pris especial contra os “vultos consagrados” É recente a sua tentativa de demolição do “ídolo” T. E. Lawrence, e um pouco antes fizera restrições, entre severas e sibilinas (”a genius, but…”), ao outro Lawrence, o D. H. Contudo, Macdonald e Aldington têm pelo menos, alguma razão. E antes de recorrermos aos nossos próprios argumentos - ou melhor: às amostras que selecionamos, por nossa própria conta, ao longo da compacta autobiografia editada por Charles Neider - vale, talvez, a pena tecer algumas considerações de ordem geral sobre o “fenômeno” (literário) Marke Twain.

Para dizer tudo, em breves e simples palavras, trata-se de um escritor em cuja obra numerosa coexistem indiscutíveis platitudes (humorísticas ou sentimentais) e realizações autênticas, plenas, como essa obra-prima que é The Adventures of Huckleberry Finn, a qual mereceu a celebre declaração de Ernest Hemingway: “Toda a moderna literatura americana provém de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn”. Aqui realmente encontramos o que se denomina um grande estilo. E os que, porventura, julgaram demasiado entusiástica a frase de Hemingway, longe estariam de supor-lhe as consequências mais remotas ou profundas; longe estariam de imaginar, por exemplo, que a saga de Huck Finn, na observação aguda do crítico inglês Michael Millgate (Falkner, série Critics and Writers, Oliver and Boyd, London), repercutiria num dos romances faulknerianos mais tipicamente assinalados pelas experiências de avant garde: As I Lay Dying. Escreve Millgate: “A maneira de As I Lay Dying é primordialmente cômica: tudo parece indicar que a complexa estrutura moderna tenha sido imposta a uma anedota linear na tradição das tell tales de fronteira, e a linguagem, embora inteiramente original, recorda, e até rivaliza, com os melhores escritos vernáculos de Mark Twain. Ao mesmo tempo é, como Huckleberry Finn, um romance profundamente sério. (…) Nos dois livros, tragédia e comédia, terror e farsa, acham-se justapostos e reconciliados em termos da tradição fronteiriça de realismo humorístico”.

No entanto, há testemunhos fidedignos de que Twain não colocava Huck Finn - para alguns à sua única grande obra de literatura - entre os seus livros mais queridos. O que serviria para explicar a radical opinião de D. Macdonald, no review atrás mencionado: “Os escritores são frequentemente maus juizes de suas obras, mas a obtusidade de Mark Twain atingiu o patológico”.

Isto posto, voltamos à Autobiografia que para Charles Neider, como vimos, “é um clássico das letras americanas” e “possui as marcas da grandeza: estilo, escopo, imaginação, tragédia”. Estruturalmente, é um caos, além do desejado, ou melhor: não exatamente como foi desejado. Estilisticamente, caracteriza-se, não pela simplicidade (adequada, aliás, à recordação e ao registro de episódios ou fatos vividos), mas por aquilo que, na língua inglesa, se exprime por looseness, e costuma, precisamente, denunciar o mau escritor. Por fim, quanto aos próprios episódios ou fatos rememorados, a intenção, em si mesma razoável, de tudo anotar, resulta, geralmente, em monotonia, e mais do que em monotonia, em insignificância. A isso se acrescente, para mais agravar as coisas, a intermitente intervenção do “pensador” ou do “filosofo” Mark Twain. Por exemplo: “Quem ora por Satã? Quem, durante oito séculos, teve o sentido humano de orar pelo único pecador que mais precisava de orações, o nosso único semelhante e irmão que mais necessitava de estímulo e que, todavia, nenhum teve; o único pecador, entre todos nós, que tinha o mais elevado e o mais claro direito (o grifo é do original) às orações diurnas e noturnas de todos os cristãos, pela simples e indiscutível razão de que sua necessidade era a primeira e a maior de todas, já que era ele o supremo entre os pecadores?” No plano do primarismo, é difícil encontra-se aliança mais prefeita de idéia e estilo.

São, por outro lado, excessivamente fáceis certos excessivamente fáceis certos efeitos humorísticos como este, entre muitos: “A vila contava com cem habitantes e eu aumentei a população em um por cento”.

É certo que o bom Mark Twain também faz sentir a sua presença. Veja-se a tal respeito a evocação da infância no capítulo IV: “Sou capaz de evocar o prado, a sua solidão e a sua paz. (…). Sei como eram as amoras silvestres” etc.; veja-se o episódio do hipnotizador que revolucionou a aldeia; veja-se o capítulo XII, onde se narra o concerto de uma troupe de negros. E sem dúvida há ainda muita coisa que se lê com real prazer.

Para o fim da autobiografia, Mark Twain registra suas impressões européias. Irrelevantes, num sentido, geral. E quando não o são, traem, significativamente, ou uma incompreensão, ou uma auto-satisfação “americana” que nos fazem sorrir. Parece incrível, por exemplo, que a respeito de Florença (de Florença!), praticamente Twain tenha-se lembrado, apenas, de descrever com minúcias o palácio que lhe serviu de residência. Aliás, nessa parte final da autobiografia, revela-se um pormenor digno de nota! a par de um certo arrivismo, a vaidade (ou a vaidadezinha) do escritor. Ao fornecer elementos para a compreensão de suas memórias - e de sua personalidade - ele dissera: “Rejubilo-me quando um rei ou duque passa pelo meu caminho e faz-se útil a esta Autobiografia, mas eles são fregueses raros. (…) Posso usá-los como faróis ou monumentos, ao longo do meu caminho, mas para coisas sérias, dependo do rebanho comum”. Parece, entretanto, que a passagem dos “grandes” pela vida de M. T., o contato com o luxo, o gozo dos prestígios intelectuais e mundanos, o impressionaram e o satisfizeram mais do que ele admitiria. E quando essa Europa, “atrasada” aos seus olhos de americano “progressista” (”Ao descer a noite sobre a casa, não há gás nem eletricidade para combatê-la, mas apenas lâmpadas sem graça, exageradamente feias, e de incomparável pobreza em matéria de eficiência”), lhe concede honras especiais, como o diploma de Doutor em Letras pela Universidade de Oxford, aí então a recompensa vale a pena, e Mark Twain, provisoriamente, arquiva a sua opinião de que “para o bem ou para o mal continuaremos a educar a Europa”…

(1) Trad. de Neil R. da Silva. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1961.

(O Suplemento Literário circulou no Estadão entre 1956 e 1974. Foi mantida aqui a ortografia original do artigo)

Temor reeditado

9:48 am

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O medo dos EUA de sofrer ataque nuclear da URSS agora está voltado a redes terroristas como a Al-Qaeda

Por Scott Shane
The New York Times

A ultrassecreta Estimativa de Inteligência Nacional não mediu palavras. Os Estados Unidos enfrentavam um inimigo “sem nenhum escrúpulo de empregar qualquer arma ou tática”, disse ela, e armas nucleares infiltradas através de fronteiras porosas ameaçavam devastar cidades americanas. Células “adormecidas”, advertia o documento, já poderiam estar dentro dos EUA.

Ao menos foi o que disse a Agencia Central de Inteligência (CIA) ao presidente Harry Truman, em 1951.

Tornou-se sabedoria convencional, repetida pelo presidente Barack Obama na reunião de Cúpula sobre Segurança Nuclear na semana passada, que o perigo da Guerra Fria de ataques com milhares de mísseis nucleares deu lugar a uma nova ameaça: terroristas matando dezenas de milhares de americanos com um artefato nuclear roubado ou improvisado. Um amplo leque de especialistas em segurança concorda em que o terrorismo nuclear pode perfeitamente ser o mais sério perigo que os EUA enfrentam hoje.

Mas isso não é novidade. Aliás, quase desde a invenção da bomba atômica, autoridades ficaram alarmadas com a ameaça de armas nucleares compactas serem contrabandeadas para os EUA por agentes soviéticos e detonadas.

“As autoridades consideram a possibilidade de sabotagem nuclear como a ameaça mais grave de subversão que este país, com suas fronteiras virtualmente não patrulhadas, jamais enfrentou”, reportava The New York Times em 1953, dizendo aos leitores que a administração Eisenhower estava se preparando para alertar o público sobre o perigo de “bombas-valises”.

Centenas de páginas de documentos dos anos 50 que deixaram de ser secretos, obtidas por The New York Times, contam uma história espantosamente familiar em que agentes comunistas fazem o papel que hoje é preenchido pela Al-Qaeda.

Tanto naquela época quanto agora, investigadores procuraram os agentes que temiam que estivessem nos EUA à espera de ordens de ataque. Também naquela época, o governo gastou milhões para instalar detectores de radiação em aeroportos e portos apesar das dúvidas sobre sua eficácia. (Naquela época, alarmes nucleares falsos foram disparados por mostradores de relógios contendo rádio, que antes ficavam ocultos num colete de mulher.) Não é novo tampouco o temor dos últimos anos sobre material nuclear cruzar a permeável fronteira mexicana. Um memorando de 1953 do FBI advertia que “um sabotador poderia facilmente se passar por um imigrante ilegal mexicano e entrar no país sem ser detectado, carregando uma arma atômica em sua bagagem.”

Antes mesmo de a União Soviética haver detonado sua primeira bomba atômica em 1949, autoridades de segurança estudaram a ameaça de armas contrabandeadas. Mas relatórios secretos concluíram que a União Soviética provavelmente só tentaria um ataque desses como um prelúdio de uma guerra total. Um ataque em larga escala, acreditavam especialistas americanos, poderia começar até com a detonação de armas nucleares contrabandeadas para escritórios diplomáticos soviéticos em Nova York e Washington.

A inteligência temia que partes da bomba pudessem ser entregues por malotes diplomáticos, carregadas por passageiros de voos internacionais em suas bagagens ou entregues por barco ou submarino numa praia isolada.

Agentes comunistas já presentes no país poderiam, então, montar, plantar e detonar as armas. “A vigilância de todos os membros e simpatizantes do Partido Comunista é impossível e impraticável pois numericamente eles superam muitas vezes o total da força de Agentes Especiais do FBI”, queixava-se em um memorando o então diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que estava intensamente concentrado na ameaça de contrabando nuclear. Ele propôs um aumento de seus efetivos para lidar com a situação.

Os temores com o contrabando começaram a diminuir no fim dos anos 50 com o advento dos mísseis balísticos intercontinentais que tornavam a ameaça incomparavelmente maior. Mas, no meio século seguinte, o medo nunca desapareceu por completo.

A maioria dos especialistas em segurança acredita que o foco dos anos recentes em destruir ou proteger material nuclear é bem mais eficaz do que vedar as fronteiras americanas. O esforço global para reduzir a ameaça teve um avanço na reunião de cúpula em Washington, com compromissos de muitos países de destruir ou proteger suprimentos de plutônio e de urânio enriquecido. Tradução de Celso M. Paciornik

“É o celibato, estúpido!”

16 de abril de 2010 8:57 am

celibato

Por Bárbara Gancia

Como pode o Vaticano vir falar em celibato e em “identidade sexual dos padres” ao mesmo tempo?


A VIDA ENSINA que, quanto mais o sujeito tem raiva de homossexuais, mais enfiado deve estar seu pé no armário. E ensina também que de oportunistas o mundo está cheio. O caso de Roy Ashburn, senador republicano pela Califórnia, é emblemático.
Passou dois mandatos combatendo os direitos dos homossexuais e, em março, acabou detido por dirigir alcoolizado ao sair de uma boate gay com um garoto de programa. No seu pedido de demissão, admitiu que ser antigay era uma boa maneira de atrair o voto do eleitor.
Outro fato conhecido é o do pastor Ted Haggard, que pregava contra a homossexualidade para o público ultraconservador do meio-oeste americano até que um profissional do sexo cansou da hipocrisia e revelou publicamente que o pastor era seu cliente havia três anos.
Esses casos de “ódio funcional” remetem ao tititi da semana. O que eu gostaria de saber é se houve algum problema recente envolvendo homossexuais e pedofilia. Os gays fizeram alguma coisa errada? Creio que não, não é mesmo?
Então por que o número dois do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone resolveu declarar guerra aos gays? Já não bastava a CNBB ter voltado seus canhões contra a lei que criminaliza a homofobia no país, projeto que busca apenas valorizar o homossexual como cidadão?
Pouco importa se a Santa Sé depois tenha tentado abrandar as palavras do cardeal, que é o segundo na hierarquia da igreja. O estrago contra milhões de pessoas está feito.
Na tentativa desesperada de acobertar o que não consegue mais conter (no mês passado foram 15 mil ligações a uma linha telefônica para denúncias anônimas contra padres na Alemanha), a igreja empurrou o problema para a frente e tentou criar um vínculo na mente de seus fiéis entre homossexuais e um crime asqueroso. É de uma desonestidade de ajoelhar no milho.
Eu digo que já passou da hora de acabar com esse bullying da igreja. Poderíamos começar colocando os pingos nos is. Alô, cardeal Bertone! Palavras terminadas em “ismo” são as patologias. Que eu saiba, homossexualidade deixou de ser considerada como doença pela Organização Mundial da Saúde há mais de 20 anos, então não pode ser “homossexualismo”. Já celibato é a supressão da sexualidade, isso sim, uma coisa de dar medo.
Aliás, eu gostaria de entender: como é que o Vaticano fala, ao mesmo tempo, em celibato e em “identidade sexual dos padres”? Não seria misturar as duas coisas o que acabou dando nessa confusão toda em que a igreja se meteu?
Dois dos mais conceituados intelectuais ateus do nosso tempo, Richard Dawkins e Christopher Hitchens, afirmaram nesta semana que estão estudando uma maneira legal de pedir a prisão do papa Bento 16 por crimes contra a humanidade assim que ele pisar na Inglaterra, em visita oficial, em setembro.
Na visão deles, o papa teria acobertado casos de pedofilia quando cardeal, deve ser julgado como cúmplice e não tem imunidade diplomática, já que o Vaticano não é um estado representado na ONU.
Parece extremo? Bem, do ponto de vista das centenas de milhares de vítimas de estupro praticado por padres ou aos olhos dos homossexuais que, para a igreja, não passam de aberrações, nem tanto…

barbara@uol.com.br

www.barbaragancia.com.br

Twitter: @barbaragancia

Igreja transferiu suspeito de abuso ao Brasil

Levantamento da Associated Press em 21 países revela 30 casos de padres mandados ao exterior após denúncias de pedofilia

Críticas a clérigo que atuou com índios após suspeita nos EUA surpreendem no Pará; padre fundador de abrigos na Bahia foi morar na África

Folha de São Paulo

Levantamento realizado pela agência Associated Press em 21 países revelou ontem 30 casos de padres que, depois de sofrerem denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes, foram para outros países. Dois desses casos envolvem o Brasil.
O primeiro é o do padre xaveriano Mario Pezzotti, acusado pelo americano Joseph Callander de abuso e de estupro, em 1993. Os crimes, dizia Callander, tinham ocorrido em 1959, quando estudou em um extinto colégio xaveriano do Estado americano de Massachusetts.
O caso acabou num acordo indenizatório de US$ 175 mil. Na época, num bilhete, o padre disse que achara “a cura” no Brasil. Dez anos mais tarde, Callander descobriu que o novo trabalho do padre era com crianças da tribo caiapó, no Pará. Ele reclamou, e o padre foi enviado à Itália apenas para, em 2008, retornar ao Brasil. Na internet, o padre está abraçado a crianças, em fotos tiradas em Redenção (PA). “Eu esperava que eles o mantivessem distante de crianças”, disse Callander à Folha.
“Ele merece ficar na cadeia, como qualquer criminoso”, disse. O padre Robert Maloney, que atuou no acordo entre Pezzotti e Callander, disse que o colega só pôde trabalhar com crianças após avaliação e que não houve queixas contra ele.
De fato, na Amazônia, a denúncia gerou surpresa. “Eu conheci o padre Mario em 1980 e nunca ouvir dizer algo a respeito dele. É uma pessoa correta”, disse o padre xaveriano Renato Trevizan, 67. Os caiapós chamavam Pezzotti de “tetukre”, que quer dizer pernas pretas, por uma fratura que ele sofreu. Aos 75, ele atua na sede da missão em Parma e não fala do passado.
Outro caso é o do padre jesuíta Clodoveo Piazza, premiado por seu trabalho na Organização de Auxílio Fraterno, que mantém abrigos em Salvador. Italiano naturalizado brasileiro, ele chegou a ser secretário estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, antes de ser alvo de denúncias de abuso e exploração sexual.
Em 2009, a Promotoria acusou a ele e a um colega de ONG com base em relatos de vítimas segundo as quais não só ambos abusavam como deixavam que estrangeiros em visita ao país o fizessem. Como as denúncias tardaram, a maioria prescreveu, explica a promotora Maria Eugênia Vasconcelos de Abreu.
Há sete meses, Piazza vive em uma residência jesuíta na cidade de Maputo, em Moçambique. Entrevistado pela Associated Press, ele negou os abusos e disse ser vítima de chantagem por parte de “círculos políticos”, que se recusa a citar. “Isso é propaganda para ganhar dinheiro”, disse. Em site, os jesuítas italianos apoiam o colega e comentam que a “difamação de missionários é um jogo cada vez mais popular”. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) disse que transferências e acusações contra padres são tratadas localmente, mas a reportagem não conseguiu contato com as dioceses envolvidas.
Outros casos revelados pela Associated Press envolvem um padre que confessou abuso em Los Angeles e foi transferido para as Filipinas, onde vive financiado pela igreja; e um padre condenado no Canadá que voltou a cometer abusos na França. Clérigos disseram que, em alguns casos, os padres se mudaram por iniciativa própria e, em outros, não eram culpados. (GABRIELA MANZINI)

Americano que acusa padre diz que igreja “só quer evitar escândalo”


GABRIELA MANZINI

O aposentado Joseph Callander, 65, acusa o padre xaveriano Mario Pezzotti de tê-lo abusado e estuprado em 1959, quando estudou em um extinto colégio xaveriano da cidade de Holliston, no Estado americano de Massachusetts. Nos últimos anos, ele monitora com estupefação a trajetória do clérigo, que veio ao Brasil trabalhar com crianças indígenas da tribo caiapó, no Pará.

Morando com a mulher, com quem se casou há 35 anos, Callander se indigna com o que considera uma quebra de promessa por parte da igreja, que teria lhe prometido manter Pezzotti longe de crianças. “Eles [clérigos] não precisam fazer as pazes com Joe Callander, precisam fazer as pazes com o mundo. Eles cometem o mesmo erro várias vezes. Se eles acham que as pessoas vão aceitar isso, estão errados.”

Procurado pela agência Associated Press, o padre Robert Maloney, que atuou no acordo entre Pezzotti e Callander, disse que o colega só pôde trabalhar com crianças após avaliação psicológica e que jamais houve queixas contra ele, no Brasil. De fato, na Amazônia, a denúncia gerou surpresa.

Leia abaixo trechos da entrevista com Callander:

FOLHA - O que o senhor pensa sobre a ida do padre no Brasil?
JOSEPH CALLANDER - Eu imagino como o povo brasileiro ficaria incomodado de saber que eles transferiram um pedófilo para o seu país.

FOLHA - O que aconteceu?
CALLANDER - Passei um ano nessa escola, e ele era o responsável pela escola. Eu estava no segundo ano do colegial, tinha 14, 15 anos. Ele abusava de mim, e é difícil falar disso mesmo agora, 50 anos depois. Em 1993, eu denunciei e fiz um acordo com ele.

FOLHA - Por US$ 175 mil?
CALLANDER - Mas, acredite, nem dez vezes esse dinheiro seria suficiente. Eu pagaria isso, na verdade, para apagar todos os anos em que tive de viver com isso. Não é dinheiro, é princípio. Na época, eles me prometeram que ele não trabalharia mais com crianças, e ele ficou mais dez anos no Brasil. Há fotos dele no Brasil com crianças de uma reserva indígena. Você já viu essas fotos? Elas falam por si. Esse homem é um pedófilo. Os xaverianos o manteriam longe das crianças e dez, 20 anos depois, lá está ele. Eles não mudaram nada, não mantiveram sua palavra.

FOLHA - O que o senhor esperava que fosse feito, após sua denúncia?
CALLANDER - Eu esperava que eles o mantivessem longe de crianças. Não estava escrito no acordo, mas era a palavra deles de que ele não ficaria perto de crianças em nenhuma circunstância. Em 2003, eles me disseram que isso não aconteceria e o enviaram pra Itália. Depois, o mandaram de volta em 2008. Ele ficou lá só alguns meses e tirou aquelas fotos que eles publicaram em seu próprio boletim mensal. Eu as vi e, como disse, elas falam por si. Você o deixaria tomar conta dos seus filhos?

FOLHA - Como o senhor se sentiu?
CALLANDER - Eles não mantiveram sua palavra. São mentirosos, basicamente.

FOLHA - Como o senhor se sente em relação à igreja hoje?
CALLANDER - Cinquenta anos depois, a igreja não tem papel na minha vida e nunca terá. Todos com quem eu lidei nunca fizeram o que disseram que iriam fazer, em termos de manter o mundo distante desses padres. Eles os mantiveram soltos, perto de crianças, contanto que nada fosse dito nem feito. Não sou só eu, olhe quantos casos há. A preponderância de provas está lá. A igreja não está fazendo nada sobre o problema, só quer saber se evitar o escândalo. Bom, o escândalo está aí e eles precisam resolvê-lo. E a única forma de lidar com o problema é resolvê-lo.

FOLHA - O senhor se arrepende de ter encerrado o processo em acordo?
CALLANDER - Eu me arrependo de não ter deixado mais claro no acordo que ele seria vigiado. Pensando agora, se estivesse em Massachusetts, talvez ele enfrentasse acusações criminais. [...] Esse homem merece ficar na cadeia, como qualquer criminoso. Ele se livrou da cadeia e da lei só porque usa batina.

FOLHA - O senhor espera que a igreja faça para fazer as pazes com o senhor?
CALLANDER - Eles não precisam fazer as pazes com Joe Callander, precisam fazer as pazes com o mundo. Eles cometem o mesmo erro várias vezes. Se eles acham que as pessoas vão comprar isso, estão errados. É inacreditável pensar que usarão a mesma influência política para se safar de novo.

FOLHA - O papa pediu desculpas às vítimas da Irlanda há cerca de um mês, o que o senhor acha?
Ele não precisa do nosso perdão. Ele precisa fazer o que é moralmente obrigado a fazer, que é afastar esses padres de crianças e mantê-los assim. Em algum tipo de monastério, onde fiquem longe de crianças. Outra coisa que deviam estar fazendo é processá-los criminalmente para que eles possam cumprir pena, como aconteceria com qualquer um.

Promotores têm medo da Justiça?

13 de abril de 2010 12:39 pm

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Por PAULO MALUF*

Quando atuam de maneira irresponsável, procuradores devem arcar com as consequências de atentados à honra dos administradores


Alguns poucos promotores e procuradores do Ministério Público recorrem a uma das práticas mais usadas por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, quando tentam desclassificar o projeto de lei nº 265/2007, que apresentei no Congresso Nacional.
Dizia Goebbels: nunca tente desqualificar uma ideia ou proposta, mas, sim, o seu autor. Apelando para o processo da desqualificação, alguns promotores e procuradores parecem ter medo da Justiça.
O projeto de lei que proponho, como está em seu artigo 1º, quer deixar expressa a responsabilidade de quem ajuíza ação civil pública, ou popular, ou de improbidade administrativa temerárias, com má-fé, manifesta intenção de promoção pessoal ou visando perseguição política.
Ou seja, certo é que a característica basilar do Estado democrático de Direito é o fato de que ninguém está acima da lei. Assim, em caso de autores que praticam atos com desvio de finalidade, sem base legal ou jurídica, nada mais correto do que a sua devida responsabilização.
O projeto de lei nº 265, de minha autoria, foi aprovado por maioria absoluta na Comissão de Constituição e Justiça, constituída por juristas, professores de direito, ex-governadores, ex-prefeitos e constitucionalistas.
Atuando de maneira irresponsável, procuradores e autores populares devem arcar com as consequências de atentados à boa imagem e à honra dos administradores, nunca sendo demais lembrar que atos de improbidade podem ocorrer em ambos os lados. Mas o que o projeto de lei nº 265/ 2007 apresenta que tanto atemoriza alguns promotores e procuradores?
Nada além de que eles cumpram com seu dever.
Meu projeto de lei não tenta impedir que o Ministério Público investigue o que quer que seja, mas propõe que a investigação seja imparcial, profunda, sem poupar nada do que seja necessário esclarecer.
O ex-ministro Eduardo Jorge, durante anos, foi acusado, execrado, vilipendiado publicamente pelo procurador Luiz Francisco, com ampla cobertura da mídia e, depois, foi inocentado pela Justiça. E agora, quem paga os prejuízos morais e financeiros que Eduardo Jorge sofreu?
Promotores e procuradores tentaram me desqualificar neste espaço (”A vingança de Maluf”, “Tendências/Debates”, 6/4). Tratam-me, no artigo, como culpado, quando nenhum dos processos movidos contra mim por eles foi julgado. Dizem que estive preso por mais de 40 dias, mas escondem que a maioria do Supremo Tribunal Federal julgou essa minha prisão ilegal e sem base jurídica. Esgotadas todas as instâncias jurídicas aqui no Brasil, procuradores e promotores foram aos Estados Unidos e instaram um promotor local a apresentar denúncia, em Nova York, sobre supostas irregularidades cometidas na construção de uma avenida aqui em São Paulo.
Usaram como testemunha o falso depoimento de um doleiro de caráter duvidoso e violaram naquele país a soberania de um outro Estado, atacando um congressista brasileiro legitimamente eleito.
A democracia brasileira tem sorte na presente quadra de ter dois defensores. O ministro Gilmar Mendes, do STF, que colocou nos seus devidos lugares aquelas instituições da polícia e do Ministério Público que queriam substituir o Judiciário, e o atual procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que, com sua autoridade moral, tenta restringir os desmandos de poucos promotores e procuradores.
Tentam desqualificar, pejorativamente, meu projeto de lei nº 265/ 2007, simplesmente por responsabilizar quem proponha ação popular ou processo de improbidade administrativa sem base legal ou jurídica. E há alguma coisa mais justa do que isso? Hoje, quem arca com todas as despesas nesses procedimentos é o acusado, e não quem acusa.
Em muitas cidades do interior, a maior autoridade não é mais o prefeito, mas o Ministério Público, que apresenta com frequência, contra o eleito, acusações que depois não são provadas.
Aqui mesmo em São Paulo, capital, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), eleito com mais de 4,5 milhões de votos, já foi alvo de acusações desse tipo feitas por um promotor.
Não há nenhum desejo meu de vingança. Moro há 45 anos no mesmo endereço, nunca me recusei a comparecer para depor, sempre confiei e confio na Justiça. A mesma Justiça da qual certos procuradores e promotores parecem ter medo.


*PAULO MALUF , 78, engenheiro, é deputado federal pelo PP-SP. Foi governador de São Paulo (1979-1982) e prefeito da cidade de São Paulo (1969-1971, 1993-1996).

Ver mais sobre o tema aqui.

A cúpula sobre segurança nuclear

12:03 pm

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Esse daí zomba do acordo que aponta para a redução gradual do arsenal atômico

Esse daí zomba do acordo que aponta para a redução gradual do arsenal atômico

Por Rubens Barbosa*

Para a Cúpula de Segurança Nuclear (Nuclear Security Summit), realizada em Washington no fim de semana, estiveram reunidos 46 chefes de governo, inclusive o presidente Lula.

O encontro, convocado pelo presidente Barack Obama, tinha como objetivo coordenar ações para fortalecer a segurança internacional, em particular no que diz respeito ao combate ao terrorismo nuclear, uma das preocupações centrais da política doméstica norte-americana desde os ataques de 11 de setembro de 2001.

A crescente ameaça das redes terroristas internacionais e a dificuldade para identificar e controlar o comércio de materiais ou de armas nucleares levaram os EUA a mobilizar a comunidade internacional para enfrentar esse desafio.

Logo depois de sua eleição, em abril de 2009, para enfrentar a ameaça nuclear do terrorismo internacional, o presidente Obama definiu uma estratégia com propostas visando a: 1) Adotar medidas para reduzir e eventualmente eliminar os arsenais nucleares existentes; 2) fortalecer o Tratado de Não-Proliferação (TNP) e dificultar a proliferação de armas nucleares; e 3) impedir que grupos terroristas possam ter acesso a armas ou materiais nucleares.

A agenda da cúpula, refletindo os objetivos do governo dos EUA, concentrou-se no exame de medidas de prevenção do terrorismo nuclear e sobre o acesso de agentes não-estatais a materiais físseis, que poderiam ser utilizados para a produção de explosivos atômicos.

Os presidentes concentraram sua atenção nos seguintes tópicos:

a ameaça do terrorismo nuclear;

ações nacionais para prevenção do terrorismo nuclear e proteção de materiais físseis;

o papel da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) na segurança nuclear; e

ações internacionais para prevenção do terrorismo nuclear e proteção de materiais físseis.

A cúpula aprovou um Comunicado Conjunto e um Programa de Ação, cujos elementos, trabalhados em reuniões preparatórias (Washington, novembro de 2009; Tóquio, dezembro de 2009; e Haia, fevereiro de 2010), apontam para medidas visando a alcançar um maior grau de segurança nuclear no desenvolvimento e na expansão do uso da energia nuclear para fins pacíficos.

O Brasil manifestou-se favorável à adoção de medidas acautelatórias, mas ressaltou que a questão da segurança nuclear é mais ampla e complexa. O presidente Lula apoiou a iniciativa do presidente Obama e se associou ao consenso para a adoção do documento final do encontro.

A discussão sobre segurança nuclear faz-se igualmente relevante diante da necessidade de a operação das instalações nucleares e do manejo do material nuclear serem realizados de forma segura. Sua abrangência, no entanto, deveria ter sido tratada de maneira mais ampla.

Segurança nuclear, segundo definição da Aiea, envolve “a prevenção e a detecção de roubo, sabotagem, acesso não autorizado, transferência ilegal ou outros atos maliciosos envolvendo material nuclear, outras substâncias radioativas ou as instalações a ela associadas, bem como a resposta a esses eventos”.

Nesse contexto, a segurança está vinculada diretamente à proteção física do material nuclear, não apenas para a prevenção do terrorismo, mas, principalmente, para a criação de um ambiente nacional, regional e global seguro que facilite e fortaleça a promoção dos usos pacíficos da energia nuclear.

Além de tentar controlar o terrorismo nuclear, preocupação central do encontro, a reunião de cúpula foi uma oportunidade para preparar alguns temas da conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação, que ocorrerá em maio, e para examinar, nos bastidores, a questão das sanções da ONU ao Irã.

No encontro de maio, o futuro do tratado será discutido e serão examinados assuntos sensíveis, como a questão do desarmamento nuclear e a da não-proliferação. Esses temas interessam diretamente a países como o Brasil, que tem avanços significativos no domínio do ciclo do combustível nuclear.

A questão do desarmamento nuclear tem ocupado uma posição secundária na agenda política internacional em virtude de preocupações mais urgentes como o conflito no Oriente Médio, as guerras do Afeganistão e do Iraque, as diferenças com a China, além de preocupações regionais mais prementes como os desastres no Haiti e no Chile e o terrorismo no Paquistão e na Índia.

Há mais de dez anos as negociações relativas ao TNP estão paralisadas pela dificuldade de conciliar interesses divergentes entre os países nucleares e os não nucleares. Nesse período, contra o espírito e a letra do TNP, Índia e Paquistão passaram a integrar o restrito número de países nuclearizados em termos militares, sem oposição das potências nucleares. Israel, que decidiu não participar da cúpula de Washington, embora não o admita, também dispõe de armas nucleares.

Com o objetivo de dar impulso a essas negociações, os EUA anunciaram nas últimas semanas duas importantes iniciativas: o acordo com a Rússia para redução em 30% dos estoques de armas nucleares nos dois países e a revisão da política nuclear. A revisão inclui a promessa de reduzir o papel das armas nucleares na estratégia de segurança dos EUA e a proibição, como previsto no tratado, do emprego de armas nucleares contra Estados não nucleares membros do TNP, desde que sejam cumpridas as obrigações de não-proliferação (condição que passou a fazer parte das ameaças ao Irã).

Nesta mesma semana, no dia 16, o Irã promoverá conferência alternativa sobre o uso pacífico da energia nuclear. O Brasil deverá adotar uma posição discreta e, com prudente cautela, não enviará delegação de nível alto, por conta do sinal político controverso que isso sugere.

*PRESIDENTE DO CONSELHO DE COMÉRCIO EXTERIOR DA FIESP, FOI EMBAIXADOR EM WASHINGTON

SEO para campanhas de marketing em mídias sociais

12 de abril de 2010 11:28 am

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Do blogue Mídias Sociais

Palavras-chave podem ser divididas em dois grupos principais, palavras-chave de cauda curta e palavras-chave de cauda longa. O termo “cauda longa” foi cunhado por Chris Anderson e é usado para descrever a estratégia de segmentação por nichos de mercado. Por exemplo, uma palavra-chave de cauda longa seria “web design para pequenas empresas” e a palavra-chave de cauda curta seria “web design”.

Como você sabe, o SEO é importante em qualquer campanha de marketing nas mídias sociais, e entender as palavras-chave de cauda curta e cauda longa é de igual importância.

O que funciona melhor para o marketing de mídias sociais? cauda curta? Ou cauda longa?

Na verdade, há valor em ambas. Parece que as palavras-chave de cauda curta são úteis para criar interesse e direcionar o tráfego. Palavras-chave da cauda longa, por outro lado, são mais efetivas quando se fala de conversão.

Assim, há um lugar para cada uma, e talvez ter um melhor entendimento de quando e onde usar cada tipo de palavra-chave seja a diferença para sua utilização racional e obter os melhores efeitos.

Aqui estão alguns pontos fundamentais para construir uma estratégia efetiva que você pode facilmente trabalhar em suas campanhas de marketing nas mídias sociais.

Facebook: Um grande número de empresários de comércio eletrônico vem obtendo bons resultados com palavras-chave de cauda curta nos anúncios em barras laterais. O segredo para faze-los funcionar de forma efetiva é diminuir o nível de granularidade dos dados . Palavras-chave de cauda longa funcionam melhor para páginas de fãs, as páginas de eventos, grupos e outras. Tendo em mente que tudo no Facebook é indexado pelos motores de busca você pode entender melhor a importância e os benefícios das palavras-chave de  cauda  longa no conteúdo.

Twitter: Em primeiro lugar, ao pensar sobre o uso de qualquer tipo de palavra-chave para o Twitter, você tem que lembrar que tudo é em tempo real e muito dinâmico. Portanto sua melhor aposta seria nas palavras de cauda curta. Também lembro que as  hashtags são palavras-chave. (Uma hashtag é o símbolo – # – seguido por um nome que pode ser utilizado para transmitir a um grupo específico de pessoas.)

YouTube: Se você estiver usando o YouTube como uma de suas plataformas de marketing de mídia social , o que é definitivamente uma boa ideia, tenha em mente que o Google realmente é dono do YouTube e acessa constantemente, milhares de vezes por dia. Assim, certifique-se de otimizar o seu conteúdo do YouTube, que acompanha o vídeo com palavras-chave da cauda longa.

Há uma variedade de serviços gratuitos e ferramentas disponíveis na Web que vão ajudar a medir a sua eficácia e resultados nas mídias sociais, bem como mostrar que áreas você precisa melhorar. É uma boa ideia utiliar um desses serviços e analisar a eficácia das suas palavras-chave de cauda curta e longa em uma plataforma específica para ver qual delas está sendo mais efetiva.

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Duas eras judiciais

9:47 am

John Paul Stevens

John Paul Stevens

Trajetória de juiz da Suprema Corte que deixará cargo é ponte entre fases diferentes da Justiça americana

Por Linda Greenhouse*
The New York Times

Os mais de 34 anos de serviço do juiz John Paul Stevens na Suprema Corte representam uma ponte entre duas eras da política doméstica e judicial dos EUA.

Percebi o quanto estes dois mundos são diferentes quando aprofundei-me na contribuição de Stevens para a jurisprudência da corte a respeito do aborto.

Ele foi o primeiro juiz a ser nomeado para a Suprema Corte depois que esta declarou, no caso Roe versus Wade, o direito constitucional das mulheres de optar pelo aborto.

Quase três anos se passaram até a decisão tomada em dezembro de 1975 pelo presidente Gerald R. Ford de escolher Stevens.

Obtive uma transcrição da audiência do Senado que confirmou a nomeação dele para descobrir que tipo de pergunta os senadores fizeram a ele sobre o aborto. Ninguém sabia o que ele pensava a respeito. Surpreendentemente, não encontrei nenhum pergunta. Após cinco minutos de debate, o Senado, controlado pelos democratas, aprovou a nomeação de Stevens por 98 votos favoráveis e nenhum voto contrário.

Seis anos mais tarde, quando Ronald Reagan nomeou Sandra Day O”Connor, tudo tinha mudado. Pela primeira vez, a plataforma eleitoral republicana de 1980 tinha anunciado o objetivo de nomear juízes que se opusessem ao aborto. O”Connor foi sabatinada a respeito do tema por assessores da Casa Branca e interrogada por senadores republicanos, que duvidavam das credenciais antiaborto. E assim tem sido desde então, apesar de o diálogo ter passado à linguagem codificada de “stare decisis” (jurisprudência vinculante) e recebido o direito à privacidade.

Uma pesquisa realizada pela Gallup antes de a corte ter anunciado seu veredicto mostrou que o número de republicanos que apoiava a ideia de que a decisão caberia à mulher e seu médico era maior do que o número de democratas - e esta opinião era majoritária em ambos. Foi somente no restante da década que os partidos políticos se realinharam diante do tema.

Na época em que Stevens entrou para a corte, a pena de morte era o tema que mais dividia o país, tendo sido invalidada pela Suprema Corte três anos antes.

Seis meses depois, Stevens foi o autor de três decisões que fizeram a corte mudar de rumo e promover uma nova geração de leis estaduais para a pena de morte. O novo juiz demonstrou tendências conservadoras também em relação a outros temas.

Num dos primeiros conjuntos de decisões posteriores ao caso Roe, ele votou contra a exigência de que o governo pagasse por abortos realizados por mulheres que não poderiam pagar pelos mesmos.

Nada sugeria que ele desempenharia um papel estratégico importante na preservação do direito ao aborto, e muito menos que se aposentaria como líder dos últimos liberais da corte.

O que houve? Stevens pode ter começado a responder quando falou em 2005 num fórum em sua homenagem na Faculdade de Direito da Universidade Fordham.

“Aprender com o trabalho é essencial para o processo de julgar”, disse ele.

John Paul Stevens nunca perdeu a disposição de testar seus instintos contra as próprias observações. Foi somente há dois anos que ele renunciou ao apoio à pena de morte, numa opinião enraizada em anos de observação dolorosa nos quais ele viu a pena ser aplicada por meio de estatutos e decisões da Suprema Corte que restringiam caminhos para a apelação. A premissa adotada pelos juízes segundo a qual a pena de morte poderia ser racional e justa não se concretizou, disse ele.

Lembro da cena de 3 de outubro de 2005 na corte, quando Stevens presidiu o juramento de posse do novo juiz-presidente, John G. Roberts Jr., 35 anos mais novo do que ele. Os dois se conheceram 25 anos antes, quando John Paul Stevens era juiz e John Roberts era oficial de justiça.

As duas figuras togadas apresentavam um notável quadro vivo da mudança de gerações, mas, na época, não parei para pensar que Stevens representava uma era que já tinha se apagado da memória coletiva, um período no qual um nomeado para a Suprema Corte não tinha que assinalar cada resposta, uma época em que podíamos dar as boas-vindas a um nomeado que estivesse disposto a aprender alguma coisa com o trabalho. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
*COLUNISTA DO “THE NEW YORK TIMES” E FOI CORRESPONDENTE DO JORNAL NA SUPREMA CORTE DOS EUA

Devassa em cascata

10 de abril de 2010 10:52 am

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O Estado de São Paulo

Numa decisão para a qual poucos parecem ter atentado, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou no começo da semana passada o Projeto 418/03, que contém uma ameaça como de há muito não se via aos direitos e garantias civis da população, consagrados na Constituição brasileira. O projeto, que agora será examinado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, institui o que os juristas consideram quebra de sigilo por ricochete, ou, na linguagem corrente, em cascata, a partir de uma única autorização judicial.

De autoria do senador Antonio Carlos Valadares, do PSB sergipano, e apresentado em 2003, o texto pretende tornar mais ágeis e efetivas as ações contra acusados de crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Medidas com esse objetivo decerto vão ao encontro do interesse público. Mas nos seus 15 artigos e 129 itens, a proposta faz tábula rasa do indispensável equilíbrio, que deve prevalecer nas sociedades democráticas, entre dois imperativos: o de defender o bem comum, nesse caso representado pelo erário, e o de preservar as franquias individuais da intrusão desabrida do Estado.

Na esfera da coibição e punição de presumíveis delitos contra as finanças públicas, como, de resto, em relação a toda forma de atropelo das leis, o Judiciário encarna os proverbiais freios e contrapesos à ação dos organismos incumbidos de investigar procedimentos eventualmente ilegais e, uma vez comprovada a ilegalidade, propor sanções contra os seus autores. A Polícia e o Ministério Público não podem, como é sabido, abrir os sigilos fiscal, bancário ou das comunicações do acusado. A quebra do sigilo por prazo determinado e a sua possível prorrogação dependem do ato de um juiz que responderá por ele.

Esse salutar princípio é revogado pelo absurdo projeto, que tem o potencial de transformar o País numa imensa delegacia, ao atribuir a policiais e promotores poderes descomunais. O cheque em branco que eles e seus colegas de uma penca de agências federais passariam a receber tem o seguinte formato: sempre que, num inquérito, “surgirem novos suspeitos ou novos bens, direitos ou valores que mereçam investigação própria”, fica dispensado o pedido de ampliação da devassa originalmente concedida por um magistrado. Este deixa de decidir, sendo apenas informado da iniciativa. O rito se torna automático.

São nada menos de uma dezena as repartições estatais às quais o projeto concede a prerrogativa de perscrutar a intimidade de pessoas que tenham, ou tiveram, vínculos com os suspeitos cujo sigilo havia sido rompido por decisão judicial: Receita Federal, Banco Central, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Agência Brasileira de Inteligência, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Comissão de Valores Mobiliários, Ministério Público, Comissões Parlamentares de Inquérito, Secretaria de Previdência e Seguros Privados.

“Tem de escancarar”, diz o senador Gérson Camata, do PMDB do Espírito Santo, relator do projeto na comissão do Senado que o aprovou, desdenhando das garantias civis dos brasileiros. Ele alega que, se a medida já estivesse em vigor, “o Brasil não teria mensalão do PT nem mensalão do DEM” ? o que não passa de uma frase de efeito, impossível de cotejar com a realidade. O projeto, reage a criminalista Flávia Rahal, do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, “regride na proteção à intimidade”. O seu colega Tales Castelo Branco lembra que a Constituição “é taxativa” com relação a isso. Ele entende ser uma “licenciosidade perigosa” deixar a quebra de sigilo “ao arbítrio de uma autoridade administrativa”.

O projeto ainda autoriza as instituições financeiras a comunicar ao Ministério Público movimentações “consideradas suspeitas”, o equivalente a dar-lhes poderes investigatórios, advertem os advogados Eduardo Antonio da Silva e Celso Meira Junior em artigo publicado ontem neste jornal. “Não se pode, sob o fundamento de combater um mal, criar outro de igual ou maior magnitude”, argumentam, aludindo à violação da intimidade. “Da mesma forma que não existe um direito absoluto, não pode haver uma regra tão abrangente e genérica de devassa.”

Ver mais sobre o tema aqui.

Por que os “direitos de autor” devem voltar à sua intenção original

9 de abril de 2010 4:34 pm

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Do blogue Cultura Digital

Tradução livre do Editorial do
“The Economist”, em 08/04/2010:
Copyright and wrong
– Why the rules
on copyright need to return to their roots

Quando o Parlamento decidiu, em 1709, criar uma lei que protejesse os livros da pirataria, as editoras e livreiros com sede em Londres, que vinham clamando por proteção, ficaram extasiados. Quando a Rainha Anne deu seu parecer favorável em 10 de abril do ano seguinte — em data que completa 300 anos esta semana — ao que considerou “um ato para o encorajamento da aprendizagem”, eles já não pareciam tão entusiasmados. O Parlamento concedeu-lhes direitos de proteção, mas estabeleceu um limite de tempo para tal: 21 anos para os livros já impressos e 14 anos para as novas publicações, com um adicional de 14 anos caso o autor ainda estivesse vivo ao final do primeiro mandato. Depois do período de proteção, todo este conteúdo entraria em domínio público, estando liberado para que qualquer um possa reproduzi-lo. Os parlamentares fizeram valer sua intenção de equilibrar o incentivo à criação com o interesse que a sociedade tem no acesso livre ao conhecimento e a arte. O Estatuto de Anne, assim, ajudou a fomentar e canalizar a onda de criatividade que a sociedade iluminista e seus sucessores empreenderam deste então.

Nos últimos 50 anos, porém, o equilíbrio foi alterado. Em grande parte graças aos advogados e lobistas da indústria do entretenimento, o escopo e duração da proteção dos direitos autorais aumentou muito. Nos Estados Unidos, detentores de direitos autorais obtiveram proteção de 95 anos como resultado de uma prorrogação concedida em 1998, ato que foi ironizado pelos críticos como o “Mickey Mouse Protection Act”. Moções em curso estão apelando para uma proteção ainda maior, e tem havido esforços para introduzir termos semelhantes na Europa. Tais argumentos devem ser combatidos: é hora de fazer a balança voltar ao prumo.

Annie get your gun

A proteção prolongada, argumenta-se, aumenta o incentivo para criar. No caso, a tecnologia digital parece reforçar o argumento: ao tornar a cópia mais fácil, parece exigir uma maior proteção em troca. A idéia de estender direitos de autor também tem um apelo moral. A propriedade intelectual pode, por vezes, assemelhar-se em muito aspectos à propriedade de bens imóveis, especialmente quando ela é sua, e não de alguma corporação sem rosto. Como resultado as pessoas sentem que, uma vez que são donas da obra, especialmente se elas mesmo a produziram, eles devem possuí-la como propriedade, da mesma forma como poderiam transmitir aos seus descendentes uma casa que adquiriram em vida. De acordo com esta leitura, a proteção deve ser permanente, e tentar elevar ao máximo o limite do tempo de proteção aproximando-o da perpetuidade torna-se uma demanda razoável.

No entanto, a noção de que o alongamento do tempo de proteção promove maior criatividade dos autores é questionável. Autores e artistas em geral não consultam os livros de lei antes de decidir se querem ou não pegar em uma caneta ou pincel. E períodos excessivos de proteção dos direitos de autor em geral dificultam ao invés de incentivar a difusão, impacto e influência de uma obra. Pode ser muito difícil localizar os detentores do copyright para obter o direito de reutilização de materiais antigos. Como resultado, todo este conteúdo acaba em um limbo legal (e no caso de filmes e gravações de som antigos, tendem a extinção, pois realizar a cópia digital a fim de preservá-los também pode constituir um ato de infracção). As sanções, até mesmo por violações inadvertidas, são tão punitivas que os criadores têm incorporado a rotina de auto-censura ao seu trabalho. Por outro lado, o advento da tecnologia digital também não reforça a necessidade de prorrogação do período de proteção, uma vez que uma das motivações originais do marco regulatório dos direitos autorais está relacionada à cobertura parcial dos custos de criação e distribuição de obras em forma física. A tecnologia digital diminui drasticamente estes custos e, portanto, reduz o argumento para a proteção.

A argumentação moral, embora mais fácil de ser levada à sério, configura de fato uma tentativa de “fazer o bolo e também comê-lo”.  O copyright foi originalmente a concessão de um monopólio temporário apoiado pelo governo sobre a cópia de um trabalho, não um direito de propriedade. De 1710 em diante, se constituiu em um acordo no qual o autor ou editor desiste de qualquer reivindicação natural e permanente, a fim de que o estado a proteger esta forma de direito artificial e limitado. É assim que este acordo está constituido, até hoje.

A questão é como esse acordo pode ser constituído de forma equilibrada. Neste momento, os termos do acordo favorecem demasiadamente os editores. Um retorno para os direitos autorais de 28 anos do Estatuto da Anne pode em muitos aspectos ser considerado arbitrário, mas não podemos dizer que não é razoável. Se há casos que justificam prazos mais longos de proteção, eles devem funcionar com base em um modelo de renovação dos direitos, de modo que o conteúdo não seja bloqueado automaticamente. O valor que a sociedade imputa à criatividade deve gerar cenários onde o ‘uso justo’ (limitações e exceções) seja ampliado, e a violação inadvertida de direitos de autor deve ser minimamente penalizada. Nada disso deve ficar no caminho da aplicação dos direitos de autor, que continua a ser uma ferramenta vital na promoção da aprendizagem. Mas ferramentas não são fins em si mesmos.

Tradução livre: Google Translate + josemurilo.

Quebra de sigilo com efeito cascata é criticada

8 de abril de 2010 4:59 pm

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Advogados protestam contra projeto que dispensa autorização judicial para ampliar acesso a dados bancários

Por Fausto Macedo
O Estado de São Paulo

Juristas e advogados com experiência na defesa de causas relacionadas a crimes contra a ordem tributária, evasão e lavagem de capitais avaliam que o projeto 418/03, que confere efeito cascata à quebra do sigilo bancário, viola princípios básicos dos direitos e garantias individuais assegurados na Constituição.

Aprovado há nove dias pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o projeto afasta a necessidade de autorização judicial toda vez que surgir novo alvo no curso de uma investigação e garante a uma extensa gama de órgãos de fiscalização acesso automático às informações sobre movimentações financeiras.

São 15 artigos e 129 itens que abrem a possibilidade de uma devassa a partir de uma única autorização judicial, não mais necessária a renovação do pedido “quando surgirem novos suspeitos ou novos bens, direitos ou valores que mereçam investigação própria”. A única exigência aos investigadores é uma comunicação ao juiz do caso. O texto será agora apreciado pela Comissão de Constituição e Justiça.

“É inconstitucional”, reage a criminalista Flávia Rahal, presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, que reúne nomes importantes da advocacia no País. “Essa flexibilização de que falam nada mais é que uma tentativa de acabar de vez com o sigilo. Se passar a quebra em cascata não teremos mais garantia de sigilo, é regredir na proteção à intimidade.”

Para Flávia, “o perigo é iminente quando ignora-se direitos sob alegação de suposto interesse público”. Ela adverte que a devassa derruba a segurança jurídica das instituições financeiras com seus clientes. “O sigilo é da essência da atividade bancária. É fundamental para o próprio funcionamento do sistema a relação de confiança. É um abuso sair quebrando sigilo de terceiros.”

Essencial. Para o senador Gérson Camata (PMDB-ES), relator do projeto na CAE, a abertura em cascata é essencial para o interesse público. “Se um suspeito cometeu crime e o juiz autoriza a abertura de seu sigilo e no decorrer do inquérito surge um novo nome, a medida deve ser ampliada imediatamente. Tem que escancarar.”

Camata anota que a polícia ou a procuradoria terá apenas que comunicar à Justiça os novos passos sem se submeter à tramitação demorada. “Cada pedido leva de 6 a 7 meses. Esse modelo vigora nos países mais avançados, como Estados Unidos e Itália, conhecidos pelo respeito a direitos.”

Ele rechaça a tese de abusos. “O projeto defende o interesse público. Quanto teríamos poupado para os cofres do País se essa medida já estivesse em vigor? O Brasil não teria mensalão do PT, nem mensalão do DEM.”

“A Constituição é taxativa com relação à preservação da imagem e da intimidade do cidadão”, alerta o criminalista Tales Castelo Branco. “É perigoso esse arbítrio que se quer conceder a autoridades para que possam agir sem controle jurisdicional. Esses procedimentos devem passar pelo crivo do juiz, apontando-se o caso concreto e se há mesmo necessidade da ampliação da quebra do sigilo.”

Castelo Branco destaca que já existem mecanismos legais que permitem o afastamento do sigilo. “Juízes autorizam a abertura frequentemente. Se fica ao arbítrio de uma autoridade administrativa torna-se licenciosidade perigosa. A pretexto de ataque mais forte à criminalidade não se pode esmagar prerrogativas e princípios duramente conquistados pelo País. Logo vão pregar pena de morte e linchamento.”

O advogado Mário de Oliveira Filho é categórico. “Para que a regra da preservação da intimidade seja afastada a exceção tem que ser veemente, uma situação excepcional, que tenha o aval da Justiça. A polícia tem muito mais que comunicar o juiz, tem que fundamentar o pedido, em respeito ao devido processo legal. Fora isso é uma violência.”

“Não pode haver regra tão genérica de devassa”

Por Eduardo Antonio da Silva e Celso Meira Junior*
As novas regras aprovadas pelo Senado são questionáveis sobre o prisma da constitucionalidade, uma vez que criam uma espécie de quebra do sigilo por ricochete ou automático, na medida em que permitem, por meio de uma única autorização judicial em relação a uma pessoa, a abertura de dados de outras pessoas que com ela tiverem transações. A necessidade de uma decisão específica para cada pessoa investigada é inafastável, pois cada situação deve ser tratada com base em suas peculiaridades. Sob pretexto de investigar não se pode generalizar e causar injustiças.

Outro ponto é o que traz a possibilidade das instituições financeiras comunicarem o Ministério Público quando houver movimentações financeiras “consideradas suspeitas”. As instituições financeiras terão poder investigatório? Isso parece indevido, mesmo porque esse juízo de valoração não lhes pertence de acordo com nossa Constituição.

Não se pode sob o fundamento de combater um mal (evasão de divisas, lavagem de capitais) criar outro de igual ou maior magnitude (violação à intimidade). Da mesma forma que não existe um direito absoluto, não pode haver uma regra tão abrangente e genérica de devassa. Tal projeto ainda pende de análise pela Comissão de Constituição e Justiça e pela Câmara dos Deputados. Portanto, não se trata de algo definitivo.

*Advogados

Picado pela mosca azul

6 de abril de 2010 12:31 pm

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Prezado Beto Richa

Todos os repelentes pareciam estar à sua disposição, mas deles, talvez cegado que está pelo canto da sereia do poder, deixou de fazer uso e a mosca azul fez o seu trabalho.

Há dois anos de completar o mandato municipal que lhe fora conferido pelo voto e com o apoio de Osmar Dias por meio de acordo que comprometia a sua adesão ao pleito de Osmar ao governo estadual agora em 2010, você, Beto, deixou seu posto, ignorou o acordo e se lançou no precipício que provavelmente afetará sua carreira política por longos anos, já que o que lhe espera será o papel de coadjuvante e não de protagonista do cenário político paranaense.

Estivesse vivo seu pai, jamais você teria se lançado nessa aventura fadada ao desastre.

Requião, Pessuti, Osmar, Álvaro, Bueno não terão dificuldades em passá-lo pelo moedor; seus aliados - aqueles que munidos de pesquisas enfeitiçantes o levaram ao cadafalso - vão deixá-lo só, se é que ainda não o fizeram.

Sua opção criou situação favorável, no Paraná, ao projeto federal do atual governo e inviabilizou palanque decente para o candidato da oposição.

Você é novo e muito provavelmente chegaria a sua vez no futuro, bastava paciência.

Sua permanência na prefeitura com apoio a Osmar abriria espaço para que Fruet ou Arns postulassem ao Senado com boas chances, mas a mosca azul o levou para o adiamento de uma nova composição de novas lideranças no Paraná, que seguirá com seus líderes medíocres e suas práticas políticas antiquadas e abjetas.

O sensato caminho do possível foi interrompido por mais alguns anos e a culpa é sua, a quem essa conta deverá ser debitada por meio de uma quarentena no papel, na melhor das hipóteses, de Deputado Federal por um bom período que talvez não cessará, pois se espera que surja uma nova liderança que reinicie o bom trabalho que você, agora se vê, não era digno de capitanear.

Ao ostracismo!

José Renato Gaziero Cella

Dom Oscar Romero

4 de abril de 2010 11:40 am

SEGUNDA sangrenta

ÚNICO ENVOLVIDO NO CRIME A SER CONDENADO PELA JUSTIÇA, SARAVIA DIZ QUE O ASSASSINO DE MONSENHOR ROMERO AINDA ESTÁ À SOLTA E RELEMBRA O DIA A DIA DE CORRUPÇÃO, TRÁFICO DE DROGAS E ARMAS NA EL SALVADOR DOS ANOS 1980

Edu Ponces/RUIDO Photos/El Faro.net

O capitão Álvaro Rafael Saravia durante entrevista

CARLOS DADA
DO “EL FARO”

Ele começa a ler devagar, em voz alta: “Alguns anos depois de assassinar o monsenhor Romero, o capitão Álvaro Rafael Saravia abriu mão de seu posto militar, abandonou sua família e se mudou para a Califórnia”. Segura na mão várias páginas com o texto impresso de uma nota jornalística publicada cinco anos atrás.
Ajusta seus óculos -duas lentes grandes sustentadas por um arame. Tem as unhas quebradas e sujas e os olhos muito abertos e agitados. Alertas. Volta a ler o primeiro parágrafo.
“Alguns anos depois de assassinar o monsenhor Romero, o capitão Álvaro Rafael Saravia…” Ele faz uma pausa e repete esse nome, que não pronuncia há muito tempo: “O capitão Álvaro Rafael Saravia”.
Ele levanta a cabeça e me olha fixamente.
- Foi o senhor quem escreveu isto, certo?
- Sim.
- Pois está errado.
- Por quê?
- Aqui diz: “Alguns anos depois de assassinar o monsenhor Romero”. E não o matei.
- E quem o matou?
- Um fulano.
- Um estrangeiro?
- Não. Um índio, um dos nossos. Ele anda por aí.
- O senhor não disparou, mas participou.
- Trinta anos, e vou morrer perseguido por isso. Sim, é claro que participei. É por isso que estamos conversando .
Ele tem as mãos gastas pela miséria e o trabalho no campo. Mãos que não têm nada a ver com as daquele piloto da Força Aérea convertido em lugar-tenente do líder anticomunista salvadorenho Roberto d’Aubuisson, depois em entregador de pizzas, lavador de dinheiro para a máfia colombiana e, finalmente, vendedor de carros usados na Califórnia.
Agora já não é nada disso. Perdeu um julgamento ao qual não assistiu, no qual foi condenado pelo assassinato do monsenhor Romero.
- Me conte como foi.
- Vou lhe contar tudo, mas devagar. É uma longa história.

Frente anticomunista
Em 1979, Saravia, um indisciplinado capitão da aviação querido por todos os seus companheiros, mas com inclinação excessiva por álcool e brigas, foi convencido pelo major Robert d’Aubuisson, major do Exército e especialista em inteligência contrainsurgente, a trabalhar com ele na formação de uma frente anticomunista.
D’Aubuisson morreu em 1992 de câncer na língua, após ter conduzido o seu partido [Arena] à Presidência de El Salvador, pouco depois da assinatura dos acordos de paz que puseram fim à guerra civil. Nessa época, o capitão Saravia já vivia nos EUA. Mudou-se para Modesto, cidadezinha na região central da Califórnia, e ali vendeu carros usados até 2004.
Em outubro daquele ano, começou a fugir de si mesmo, quando o Centro para a Justiça e a Prestação de Contas, organização não governamental com sede em San Francisco, na Califórnia, o submeteu a um julgamento cível no qual o considerou culpado do assassinato do monsenhor Romero e o condenou a pagar US$ 10 milhões aos familiares.
Saravia desapareceu pouco antes do julgamento e agora vive escondido. Ele voltou a um país de língua espanhola.
O capitão Álvaro Rafael Saravia foi membro ativo de um grupo apontado como responsável por assassinatos e torturas -um esquadrão da morte. “Um psicopata” é como o descreve Ricardo Valdivieso, um dos fundadores do Arena.
Saravia viveu rodeado de sequestradores e assassinos, mas nega sua participação em assassinatos. “Nunca comandei uma operação para matar ninguém. Digo isso francamente.” Ele esquece que estamos sentados aqui exatamente porque ele participou do assassinato de maior repercussão da história de El Salvador.
Ele não nega a participação de seu chefe, o major D’Aubuisson, em operações clandestinas para matar seres humanos, mas alega que ele o fazia por meio de contatos em outros organismos de segurança.
Seguem duas versões de seu rompimento com o major para o qual trabalhava. Uma é a dele, segundo a qual se cansou dessa vida agitada e sentia já não gozar da confiança de D’Aubuisson, razão pela qual teria partido para os EUA.
Outra é de Ricardo Valdivieso, fundador do Arena e hoje diretor do Instituto Roberto d’Aubuisson: um dia, durante as longas temporadas que passavam na Guatemala conspirando, lhes telefonaram de um bar em Izabal para lhes dizer que o capitão Álvaro Rafael Saravia estava brigando com vários homens.
Quando foram buscá-lo, Saravia bateu também em D’Aubuisson, e a relação deles acabou ali.

Abatido e enrugado
Não há ordens de captura emitidas contra Saravia, exceto nos EUA, onde é procurado para ser deportado. Alguns anos atrás, falou com o “Miami Herald” para dizer que havia pedido perdão à igreja e que contaria tudo em um livro. Não disse que onde está vivendo não há papel e que o vizinho mais próximo que sabe ler e escrever vive a 20 minutos de sua casa.
Na falta de um livro, quer contar tudo em uma entrevista.
Marcamos nosso primeiro encontro em um pequeno hotel de um povoado, ao qual Saravia chegou após cinco horas de caminhada, atravessando campos, evitando estradas e em caronas em camionetas e ônibus.
Eu me recordava dele como sendo aquele homem gordo, com dobras no queixo duplo, o bigode e os cabelos loiros que aparecem no cartaz de “Procura-se” publicado pelo Departamento de Migração e Alfândegas dos EUA em 2004, “por suspeitas de violações dos direitos humanos”.
Mas me deparei com um velho magro e abatido, com a pele enrugada e lacerada; o rosto oculto atrás de uma barba grisalha e descuidada e com forte cheiro rançoso.
- E por que o senhor quer falar agora?
- Por meus filhos. É que até eles me veem como Hitler.
Pela primeira vez desde que começamos a conversar, Saravia abaixa a cabeça.
- Há quanto tempo não fala com eles?
- Dez anos. Lembro deles todos os dias. Se bem que eu tenha até medo de falar com eles.
Nos dias seguintes, Saravia confessará também outros motivos para falar: de todos os envolvidos, é o único que foi julgado e o único que vive escondido.
Amado Garay, o motorista, também vive escondido, mas na condição de testemunha protegida pelos EUA.
Outras cinco pessoas envolvidas nesse crime ou em sua ocultação, não puderam esconder-se. Uma morreu decapitada, outra se suicidou, outra desapareceu, mataram outra em um posto policial na estrada. Ainda outra terminou em pedacinhos. Na Guatemala.
Saraiva tentou, em diversas ocasiões, comunicar-se com alguns de seus antigos companheiros de luta, mas ninguém lhe respondeu.
“Trinta anos se passaram, e continua a mesma merda. Não tenho mais nada a esconder. Acho que há uma conspiração de quem não quer que saibam quem matou Romero.”
A segunda vez em que nos vemos é no mesmo hotel, e Saravia chega 15 minutos depois do horário combinado. Ele quer mencionar nomes. Faz um pedido apenas: “Que os capturem. Que lhes deem um apertão nas bolas como se fazia antes, para ver se não abrem a boca!”.
O julgamento em que foi condenado se baseou principalmente em dois elementos.
Um, o depoimento de Amado Garay, o motorista que levou o assassino até a igreja em que o monsenhor Romero celebrava a missa em 24 de março de 1980; e, dois, a agenda sua que o Exército apreendeu em março desse mesmo ano, na qual estava anotada uma operação chamada Operação Pinha e cujas características coincidem com as do assassinato.
“Não vi mais essa agenda desde que a levaram”, admite Saravia. “Eu não podia me lembrar de todas as minhas coisas. Estava anotada lá a Operação Pinha, por meio da qual buscávamos algumas granadas na fronteira com a Guatemala.”
Mostro a ele uma fotocópia de sua agenda, e ele a olha longamente. A Operação Pinha inclui um atirador. Estranho, porque não é preciso atirador para ir buscar granadas na fronteira. “Sim, é verdade”, reconhece. De repente, tem uma epifania. “Essa não é minha letra. É a letra de Roberto.”
De fato, a letra é diferente da que aparece nas outras páginas da agenda. Por que Roberto d’Aubuisson teria anotado a Operação Pinha na agenda de seu lugar-tenente? Saravia não sabe, mas há alguém que sabe.
Em 1980, o coronel Adolfo Arnoldo Majano era membro da Junta Revolucionária do Governo e um dos dos últimos militares que ainda acreditavam em uma saída negociada do conflito.
Foi ele quem ordenou a captura de D’Aubuisson e seus seguidores no sítio San Luis, de Santa Tecla, e quem primeiro teve acesso à agenda de Saravia e seu conteúdo.

Lista sinistra
“A Operação Pinha coincide com os dados do que aconteceu”, diz Majano, “mas não estava na agenda de Saravia. Esse é um papel que foi apreendido de D’Aubuisson. O oficial do Estado-Maior que me ajudou a fazer as fotocópias o juntou com as páginas da agenda para que não se perdesse.”
A Operação Pinha aparece escrita em um papel em branco, sem as impressões da agenda, e com um selo na margem da página que corresponde à Mariscos Tazumal, empresa pesqueira fundada por D’Aubuisson e Fernando “El Negro” Sagrera.
Foi D’Aubuisson, e não Saravia, o autor dessa lista -que, de acordo com a Comissão da Verdade e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, corresponde ao assassinato do monsenhor Romero. A lista é a seguinte: Starlight, Robert’s, automáticas, granadas, motorista, atirador, segurança.

Mira telescópica
O Starlight é uma mira telescópica para fuzis de precisão, necessários para operações desse tipo. A distância da rua até o altar da Igreja da Divina Providência é de mais ou menos 35 metros -o atirador precisava de uma mira telescópica.
O 257 Roberts é um rifle de calibre 25 fabricado pela empresa Remington, muito utilizado para tiros de precisão com mira telescópica.
É duvidoso que tenha sido o rifle com o qual o monsenhor Romero foi assassinado. Mas o atirador não saiu da equipe de D’Aubuisson, e sim do outro conspirador: Mario Molina, filho do ex-presidente Arturo Armando Molina. Mario Molina contribuiu com o assassino, a arma e a equipe de segurança.
O motorista saiu da equipe de D’Aubuisson, sob a supervisão de Saravia. Amado Garay, ex-soldado original de Quezaltepeque [El Salvador], levou o assassino até diante da porta da igreja e depois o conduziu a um lugar seguro. Garay vive nos EUA sob o programa de proteção de testemunhas.
O atirador é salvadorenho, ex-guarda nacional, e era membro da equipe de segurança de Mario Molina. Em 24 de março, com um disparo certeiro, pôs fim à vida do arcebispo de San Salvador [capital do país].
Para encontrar Saravia, é preciso descer até o inferno.
O mundo terminou vários quilômetros atrás, e neste lugar só vivem pessoas com desejo de despedaçar-se a golpes de facão. As crianças perambulam nuas, e as mulheres de 30 anos parecem anciãs, desdentadas, com as mãos marcadas e os peitos caídos de tanto amamentar.
Nesta terra de morenos curtidos pelo sol e encolhidos pela fome, vive El Gringo, um homem branco curtido pelo sol e encolhido pela fome e o trabalho no campo.

Colchonete sujo
Ele vive em uma casinha de barro, com janelas de madeira sem vidro e com apenas três peças de roupa penduradas em um fio estendido no quarto.
Um colchonete gasto e sujo lhe serve de cama. Vive aqui de favor. A dona do casebre varre, enquanto lhe conta que alguém quer queimar a casa. “Andaram atirando pedras, mas nenhuma delas acertou a janela. Pensei que iam destruir a casa”, diz ela.
Os atacantes são alguns dos dez filhos que ela pôs no mundo e que amamentou e criou até quando tiveram idade suficiente para assassinar seu próprio pai. “Dos dez, cinco me saíram bons”, ela conta.
“Tome cuidado”, diz a anciã a El Gringo. “Uma de minhas filhas vai queimar a casa para tirá-la de mim.” Ela não sabe que El Gringo é salvadorenho nem que se chama Álvaro Rafael Saravia. Tampouco que ele é piloto de aviões e que participou do assassinato de um arcebispo.
Trinta anos depois de assassinar o monsenhor Romero, o capitão Álvaro Rafael Saravia está no inferno.
- Claro, é um castigo. Tudo no qual eu estava metido era uma podridão, todos andavam atrás de dinheiro de qualquer maneira. Os meios não importavam -eles queriam dinheiro. Queriam enriquecer.
- O senhor também.
- Eu também. Claro! Veja como estou agora. Aprendi a viver com o que tenho. Convivi com gente que sofre de verdade, sofre uma calamidade espantosa. A pior desgraça do mundo! A pobreza! Como o homem não ia ser guerrilheiro, se vê os filhos morrerem de fome? E, quando iam cagar, cagavam lombrigas! Pego meu fuzil e vou para o inferno.
- Como a vida dá voltas.
- Minha vida deu uma volta. Terrivelmente. E tenho sofrido como essa gente: porque não há milho. Então vá cortar bananas. Às vezes há milho, mas não há com o quê. Então é preciso colocar sal na tortilha. Então se come a tortilha com sal. E às vezes não há. Tenho uma família ali em frente. Às vezes, me deixam umas quatro tortilhas. Isso, sim, é ser comunista…

O bobo
Debaixo da cama de Álex “O Bobo” Cáceres há duas garrafas de uísque e três de champanhe. Ele as esconde cada vez que vai viajar, mas seus inquilinos sabem perfeitamente onde encontrá-las.
Nessa casa da colônia San Benito, os homens que fazem parte da equipe de segurança de D’Aubuisson passam algumas noites aproveitando o fato de o proprietário viver em Miami.
Fernando “El Negro” Sagrera e o capitão Saravia abrem uma garrafa de uísque e começam sua festa particular. Seu chefe foi passar o fim de semana inteiro em San Miguel, na casa de amigos. Ainda não voltou.
Do lado de fora, no estacionamento e na guarita de segurança da casa, pelo menos 12 homens aguardam instruções.
É domingo, dia tranquilo para fazer festa, mas agitado para a política porque é o dia em que o arcebispo de San Salvador, monsenhor Óscar Arnulfo Romero, celebra a missa na catedral e aproveita a homilia para falar sobre a situação do país.
“Falava-se da homilia de Romero, um homem que estava agitando o povo… Isso era algo comentado por toda parte, a homilia de Romero”, recordará depois o capitão Saravia.
Nesse domingo, 23 de março de 1980, o monsenhor Romero disse algumas coisas tremendas. Falou aos soldados, aos guardas nacionais, aos policiais, aos integrantes de todos os órgãos de segurança, para lhes dizer que não devem matar seus irmãos camponeses.
“Em nome de Deus e em nome deste povo sofrido cujos lamentos sobem ao céu, cada vez mais perturbados, suplico, rogo, ordeno a vocês, em nome de Deus: ponham fim à repressão!” Para o grupo do qual fazem parte os dois que agora estão tomando uísque escocês, essas palavras só podem vir de um comunista. E o comunista é o inimigo. É hora de matá-lo.
Bem cedo na manhã de 24 de março de 1980, o capitão Eduardo Ávila Ávila entra na casa de Álex “O Bobo” Cáceres e acorda Fernando Sagrera e o capitão Saravia.
Ele lhes informa sobre o plano: o monsenhor Óscar Arnulfo Romero Galdámez será assassinado nessa missa. E tudo foi coordenado com Mario Molina e Roberto d’Aubuisson.
D’Aubuisson não está em casa. Foi passar o fim de semana em San Miguel, para descansar na casa da família García Prieto. Dará as ordens por telefone. Primeiro Ávila lhes avisa que já tem um atirador: um membro da equipe de segurança de Mario Molina. Só precisa de um veículo. Isso fica a cargo deles.

O filho do presidente
Mario Ernesto Molina Contreras nasceu em berço de ouro. É assim que oficiais do Exército na ativa e na reserva se referem a ele e sua família.
Filho do coronel Arturo Armando Molina, um dos militares mais poderosos de El Salvador no século 20 e que presidiu o país entre 1972 e 1977, Mario Molina cresceu com as comodidades com que convive o filho de um presidente militar salvadorenho do século 20.
Dispõe de segurança, impunidade e dinheiro garantidos; com o selo da nobreza militar; com viagens ao exterior; com as vantagens de pertencer ao alto escalão dos uniformizados.
Na Casa Presidencial de seu pai, conheceu dois homens com quem, poucos anos depois, se reencontrou nos movimentos de ultradireita e que terminaram também envolvidos no assassinato do monsenhor Romero: Roberto d’Aubuisson revisava e organizava os arquivos de inteligência e Álvaro Rafael Saravia fazia parte da equipe avançada de segurança do presidente Molina.
Mencionado no relatório da Comissão da Verdade e no da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Molina conseguiu conservar um perfil discreto durante todos esses anos, distante da vida pública.

Cocaína e prostitutas
Como várias das casas da segurança, a casa do empresário Roberto Daglio é um centro de diversão para alguns dos homens que cercam o major D’Aubuisson.
Aqui se realizam entregas de drogas; à noite chegam picapes com prostitutas, e o álcool e a cocaína correm soltos. A segurança vira festa para homens casados, armados e em plena febre anticomunista.
O dono da casa quase nunca está. Roberto “Bobby” Daglio, homem de negócios e piloto aviador, passa a maior parte do tempo em Miami, na Flórida.
Abrir sua casa a grupos de ultradireita é apenas uma das muitas maneiras de apoiar a luta anticomunista à distância.
Segundo o Departamento de Estado dos EUA, Daglio passou os primeiros anos da década de 1980 reunindo-se em Miami com outros empresários ultradireitistas em um grupo chamado “Miami Six”, que financiava operações ilegais do grupo de D’Aubuisson.
Esse grupo se dedicava ao terrorismo: encomendava assassinatos, sequestros e a colocação de artefatos explosivos, financiava esquadrões da morte e tinha como objetivo destruir qualquer tentativa de reforma em El Salvador e acabar com todos os comunistas.
Entre outros integrantes desse grupo, havia o proprietário do “El Diario de Hoy” (identificado em documentos como “Viera Altamirano”, em outros como “Enrique Viera Altamirano” e ainda simplesmente como Enrique Altamirano, que é diretor do “El Diario de Hoy” [O Diário de Hoje], jornal da extrema direita salvadorenha).
Em 24 de março de 1980, na casa de Daglio, em San Salvador, Saravia coordena a entrega do automóvel de onde o arcebispo será alvejado. É um Passat vermelho, de quatro portas. Saravia também tem que localizar Amado Garay, seu motorista, para que conduza o carro.
Às 16h30, no estacionamento da casa de Daglio, Amado Garay espera, paciente, as instruções de seu chefe. Poucos minutos depois, Saravia lhe manda dirigir o Passat até o estacionamento do hotel Camino Real.
Mas, antes de Garay entrar no carro, entra na casa um homem forte, baixo e de voz rouca. É amigo de Sagrera, mas chegou para receber a ordem de um serviço a fazer.
Esse é provavelmente o momento mais estúpido na vida de Gabriel Montenegro. O momento mais errado, no lugar mais errado e com o vício mais errado. É uma burrada que irá lamentar pelo resto da vida.
Aqui intervém seu amigo Fernando Sagrera. Pede que os leve para entregar o carro. E os três vão atrás de Garay, no estacionamento do Camino Real.
O capitão Saravia e “El Negro” Sagrera descem para encontrar cinco homens que já estão ali, em uma caminhonete branca. Um homem alto, magro e barbudo sobe no assento traseiro do Passat. Leva um fuzil.
- Eles o colocaram no carro, e eu disse: “Bem, tire o motorista, porque não sou eu quem vai levar o motorista”. Não, mas é que não temos, é que você precisa dirigir, porque foram vocês quem pediram o carro, e não sei mais o quê. Então, como sempre, “El Negro” Sagrera se meteu nessa merda. “Vamos lá, homens, vocês já estão metidos nisto e não podem falhar neste assunto.” Por último, lá fui eu me meter de novo! Ao ver que tudo ia dar errado… Então vamos logo! Então Garay chega e se vai. Eles vão para a igreja.”
- E o senhor, fica ali?
- Não. Saímos para procurar a igreja. Porque nem eu nem El Negro nem El Bibi sabíamos onde ela ficava.
- Quem vai procurar a igreja?
- Nós três, que estávamos no carro. Encontramos a igreja, depois de algum tempo, e estacionamos na frente dela.
- E ainda não o tinham matado.
- Não. Estávamos estacionados ali, não tínhamos passado nem cinco minutos ali, quando se ouviu o disparo. Eles já foram chegando e matando.
- Ou seja, o senhor estava na frente da igreja quando o mataram!
- Sim, estávamos.
- E o senhor enxergava?
- Não, não, não. Só dava para ver a entrada. E o carro estava estacionado, aquele Volkswagen. O carro saiu para baixo e dobrou para onde nós estávamos. Dali, se perdeu, e dissemos “vamos embora”.
- Por que decidiram ir embora?
- Bem, fugimos… Talvez isso pareça até imbecil. Para saber, por curiosidade, para ir ver. É ridículo, não? Ridículo.

O fascista
Ele se apresenta como fascista. Traja uma boina com os dizeres “KGB. We are still watching you” [KGB. Ainda estamos observando você].
Usa bigode branco e espesso. Gabriel Montenegro, um homem que há quase 30 anos vive na América do Norte, comparece à entrevista sem saber exatamente do que vamos falar. “Não sou nazista -sou fascista, o que é diferente”, diz, abrindo o encontro.
Quando lhe digo que sei onde estava no dia 24 de março de 1980, sua primeira reação é negar. “É mentira”, diz.
Ele começa a olhar à sua volta, nervoso, com uma paranoia contagiante.
Montenegro acende seu terceiro cigarro em 15 minutos, e começo a ler para ele o depoimento de Saravia.
Quando termino, o sangue lhe subiu à cabeça, e ele dá a impressão de que vai explodir a qualquer momento. “Estou fugindo deste dia há 30 anos”, diz.
Nesse ponto, se parece com o capitão Saravia. “Nem minha família sabe que estive aqui. Mas não vou dar declarações.”
No dia seguinte, Bibi Montenegro chega ao mesmo café, mas disposto a me contar sua versão do 24 de março de 1980.
“Cheguei ali para buscar algumas coisas para meu consumo; eles me pediram uma carona, e eu dei a eles. Disse a eles que era preciso esperar essa pessoa; me disseram “não se preocupe, já temos um pouco aqui, venha, nos dê carona”.”
Bibi Montenegro dirige sua caminhonete Dodge Lancer branca até o estacionamento do Camino Real. Anda armado com uma Colt 45 e equipado com seu remédio.
A seu lado está Fernando Sagrera. Ele trouxe uma arma automática, uma submetralhadora Hechler & Koch MP 5. Atrás vai um homem do qual Bibi Montenegro tinha ouvido contar muitas histórias, mas que estava vendo pela primeira vez: Álvaro “o Loiro” Saravia.
Quando chegam ao estacionamento do hotel, Montenegro estaciona sua caminhonete muito perto do Volkswagen Passat dirigido por Amado Garay, e seus dois acompanhantes descem para conversar com outros homens.
Bibi fica no carro, inspecionando seu remédio. Ele consegue ver um homem alto e barbudo, com um fuzil, entrando no Passat, e, quando Saravia e Sagrera retornam, o Passat arranca e vai embora. Montenegro e seus acompanhantes decidem ir também à Igreja da Divina Providência.
- Achei que ia dar merda com algum militar ou algum filho da puta de quem cuidavam.
Partiram para a colônia Miramonte e pararam duas vezes no caminho para perguntar onde ficava a igreja. Quando a encontraram, estacionaram a uns 50 metros da entrada, na rua.
- Eles me olhavam muito nervosos, e eu lhes dizia: “Merda, a polícia pode nos pegar aqui com estas coisas e vai ser um problema!”.
Saravia e Sagrera voltaram a descer do carro. Não chegaram até a porta da igreja. A quase uma quadra de distância, esperaram apenas alguns segundos até que se ouviu o disparo que matou o monsenhor Romero.
Um só. Um estalido que Gabriel “Bibi” Montenegro não conseguiu ouvir. Ele continuava dentro do carro.
Saravia e Sagrera subiram, e o Dodge Lancer branco, com Gabriel Montenegro na direção, partiu de volta à casa de Roberto Daglio. O motorista não se recorda da conversa no carro. “Eu estava tão fora de mim, porque tinha tomado meu remédio, que não ia prestar atenção nisso. Eu estava prestando atenção para ver se não haveria algum carro de polícia. Mas perguntei: “O que aconteceu?”. “Nada. Vá logo, nos deixe lá.” “E a pessoa vai estar ali?”. “Sim, cara”.”

Oito cirurgias
Três décadas e oito cirurgias cardíacas depois, Gabriel Montenegro acende outro cigarro. Suspira, e seus olhos se umedecem. O cigarro parece estar seguro por uma mão com Parkinson. Diz que tem raiva dos que mudaram sua vida naquele dia.
“Se eu soubesse o que íamos fazer, isso talvez não tivesse acontecido. Talvez os dois mortos tivessem sido outros.”
Fernando Sagrera e Álvaro Rafael Saravia eram inseparáveis. É assim que se recorda deles Marissa d’Aubuisson, irmã de Roberto e criadora da Fundação Romero. “Eles iam a todo lugar juntos, e eu sempre os via com Roberto”, diz ela.
Naquela época, os dois eram gordos. O Loiro e o Negro. “É que Roberto não podia dar um passo sem que aqueles dois viessem atrás.”
Fernando Sagrera sempre foi homem de chegar cedo em casa, às 7 ou 8 da noite. Não sabe o que seus amigos faziam depois dessa hora, mas ele, afirma, nunca se meteu em nada. Por isso, ele estranha que três pessoas diferentes -Amado Garay, o capitão Saravia e Bibi Montenegro- o envolvam com os fatos. “Não tenho nada a ver com isso.”

“Não me lembro” Acha isso tão estranho, afirma, como quando o interrogaram na Comissão da Verdade por esse mesmo crime, e ele esclareceu à Comissão que não tinha tido nada a ver com ele, mas, mesmo assim, o mencionaram em seu relatório.
Ou tão estranho como o fato de tomar conhecimento, agora, de que também é citado no relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Onde, então, estava Sagrera em 24 de março de 1980? “Não me lembro. Para mim, foi um dia comum, como outro qualquer. Como posso me lembrar do que aconteceu?”
De Saravia ele nunca foi amigo, “porque era louco. Esse é um alcoólatra demente.” Foi, isso sim, amigo de Roberto d’Aubuisson. Muito amigo.
“Esse é meu pecado. Eu só via Saravia quando me davam carona para algum lugar.”
Ele tampouco matou alguém, nem participou de operações clandestinas. “Fui bêbado e arruaceiro, isso sim. Arruaceiro daqueles de criar confusão.
Mas nada mais.”
Ele tem o corpo marcado pelas cicatrizes de uma queimadura. Tiveram que levá-lo aos EUA, a um hospital militar, para tratá-lo, apesar de ele não ser americano e nem sequer ter visto de entrada nesse país.
Enquanto estava acamado, vieram interrogá-lo alguns homens que, acredita, eram da CIA. “Mais que tudo, estavam atrás das armas que entraram aqui em El Salvador -achavam que eu as trazia e financiava.”
Diante da pressão dos interrogatórios, diz, fugiu do hospital. “Fiz amizade com um gringo, que me levou para sua casa.
E me obrigaram a voltar clandestinamente.”
Sagrera foi, segundo o capitão Saravia, “a única baixa que tivemos durante toda a guerra”.
Sobre o assassinato do monsenhor, Sagrera não se lembra de muita coisa.
De Bibi Montenegro, ele tampouco foi amigo. Digo a ele que sei que no dia 24 de março ele estava em uma Dodge Lancer branca, a caminho da igreja da Divina Providência.
- Isso para mim não bate.
Não me lembro, não tenho…
não sei.
- Havia uma terceira pessoa nesse carro, um amigo seu. O senhor se lembra dele?
- Não.
- Bibi Montenegro.
- Esse Montenegro de quais Montenegros?
- Bibi Montenegro, seu amigo.
- Olha, eu negaria… Mas acaba de me dar um clique, sabe como? Eu o conheço, sim, mas não somos amigos nem nada.
Eu o vi umas cinco vezes na vida, talvez quatro.

O Passat vermelho
Elías Hasbún se recorda com muito entusiasmo dos dias dos “Really Rotten”, na pista de corrida de El Jabalí. Ele e Sagrera, correndo juntos, e o terceiro amigo dando apoio: Gabriel “Bibi” Montenegro.
“Como éramos muito amigos, ele sempre chegava a todas as corridas com sua mulher. Bibi era como um fã da equipe.
Depois saíamos todos juntos.”
Conhecido como “Urly” no mundo dos automóveis, Hasbún ainda corre e também mantém uma pequena oficina mecânica especializada em carros de corrida.
Em 1980, a oficina Voglione ocupava um lugar alugado na colônia La Rápida de San Salvador, a uma quadra da engarrafadora Canada Dry. Foi para lá, assegura o capitão Saravia, que levaram o Passat vermelho de quatro portas a partir de onde monsenhor Romero foi assassinado: “A missão foi confiada ao “Negro” Sagrera -jogar fora ou queimar esse carro filho da puta. Atrás da Canada Dry há uma rua. Nessa rua há uma oficina.
O Negro Sagrera disse que foi para lá que levou o Passat. Que foi a essa pessoa de lá que o levou para que o destruísse”.
Hasbún afirma que não se recorda de quem levou esse carro.
“Sim, me lembro de ter visto o carro ali, um Passat vermelho. Novinho. Depois fiquei sabendo que estava envolvido no caso do monsenhor Romero, mas não perguntei mais porque naquela época era perigoso andar perguntando coisas.”
O carro, diz Hasbún, passou quase um mês nessa oficina, até que um dia desapareceu e ele não soube mais nada.

Guerreiros e mafiosos
Dois ou três dias após o assassinato do monsenhor Romero, o grupo de D’Aubuisson faz uma reunião na casa de Eduardo Lemus O’Byrne.
Saravia toma conhecimento dessa reunião porque ele mesmo, saindo dali, foi pagar o homem que disparou contra o monsenhor Romero.
“Eu não conhecia o atirador.
Eu o vi naquele dia no carro, entrando no carro, barbado. E depois fui lhe entregar pessoalmente os mil colones que lhe foram entregues, que D’Aubuisson pediu emprestados a Eduardo Lemus O’Byrne.”
Eduardo Lemus O’Byrne é um conhecido empresário salvadorenho. Foi presidente da Associação Nacional da Empresa Privada, proprietário de granjas avícolas e homem muito conhecido nos círculos empresariais centro-americanos. Foi inimigo acirrado da reforma agrária, desde os tempos do coronel Molina, e se aproximou do grupo de D’Aubuisson de maneira quase natural.
Sobre Saravia e Sagrera, ele diz: “Eram uns açougueiros.
Nunca tive nada a ver com eles.
Eu defendo princípios, mas aqueles ali tinham virado guerreiros e mafiosos.”
Ele assegura que nunca, nunca, deu dinheiro a D’Aubuisson e que, se este lhe tivesse pedido mil colones para pagar o assassino de Romero, ele sem dúvida se recordaria do fato. “Não, não me lembro dessa reunião. Essa reunião nunca aconteceu.”
Lemus O’Byrne se distanciou de D’Aubuisson e dos fundadores do Arena pouco depois. Em 14 de setembro de 1982, seu cunhado, Julio Vega, piloto aviador, desapareceu em uma pista de pouso na Guatemala.
“Acredito que o eliminaram porque ele andava traficando armas para o FAN”, diz Lemus.
O FAN era a Frente Ampla Nacional, um movimento paramilitar dirigido por D’Aubuisson e que deitou as bases do Arena.
A viúva de Vega se casou pouco depois com D’Aubuisson, e Eduardo Lemus O’Byrne não descarta a possibilidade de haver alguma relação entre o homicídio e a relação amorosa. O capitão Saravia insiste que o dinheiro foi dado por Lemus O’Byrne. “Ele deu os mil pesitos. Eu mesmo fui entregá-los.”

Movimentos certos
Ele foi entregar o dinheiro no estacionamento de um centro comercial no oeste de San Salvador, chamado Balam Quitzé.
O atirador o aguardava ali, já sem barba, acompanhado de Walter “Musa” Álvarez, um homem estranho que morreu assassinado pouco depois.
“Ele deu os mil pesitos, eu fui deixá-los e lhe disse o seguinte: “Dali, eu jamais! Ali comecei a ver este, como se chama, o, o…
ele chegava aos escritórios de Daglio e a coisa acontecia assim. E (Jorge) “O Bode” Velado já era um homem de idade, andava com ele se exibindo. O cara na rua, e ele dirigindo. Não fui apenas eu quem o viu. Ele deve ter dito às pessoas “foi este quem o matou”. Ele sabe dos movimentos certos dele.”
Jorge Velado já é um homem mais velho. Foi fundador do Arena e trabalhou ao lado de Roberto d’Aubuisson por muitos anos. Mas isso, diz Velado, nada tem a ver com o assassinato do monsenhor Romero.
“Não conheci esse Saravia e nunca andei passeando com ninguém.”

Ícone anticomunista
Marissa d”Aubuisson se recorda de outra cena: alguns dias depois da morte do monsenhor Romero, começaram a circular rumores de que Roberto d”Aubuisson tinha ordenado o assassinato.
Sua irmã mais velha decidiu averiguar e confrontou seu irmão paramilitar. O major D’Aubuisson respondeu: “Olha, se você não sabe de nada, é melhor ficar calada, porque vão erguer um monumento a quem matou esse filho da puta”.
O assassinato e os rumores sobre o envolvimento de D’Aubuisson nos esquadrões da morte ajudaram a consolidar sua liderança entre as fileiras da extrema direita salvadorenha e o converteram em ícone da luta anticomunista.
Alguns anos depois de participar do assassinato do monsenhor Romero, D’Aubuisson se tornou candidato presidencial, presidente da Assembleia Constituinte de 1985 e figura mítica, pai e guia da direita salvadorenha.
O partido que fundou, o Arena, governou El Salvador durante 20 anos, até ser derrotado nas urnas, em março de 2009, pelo ex-grupo guerrilheiro FMLN.
Transtornado com a reviravolta em sua vida e com seu contato direto com a pobreza e a marginalidade, Saravia também mudou sua maneira de ver o mundo. Agora ele gostaria de fuzilar o homem a quem entregou os mil colones.
“Que o fuzilem! Porque não existe pena de morte em El Salvador, mas ele merece a morte.
Eu gostaria de confrontá-lo.
Porque ele sabe.”
O padre Jesús Delgado, biógrafo do monsenhor Romero e que vem há anos prometendo que algum dia irá revelar em um livro quem ordenou o assassinato do arcebispo, assegura que o major Roberto d’Aubuisson foi apenas uma peça operativa, não o autor intelectual do assassinato.
“D’Aubuisson participou, sim, mas não foi quem ordenou.”
Eu e o capitão Saravia combinamos um novo encontro em um café do povoado. Quando chegou, me encontrou sentado a uma mesa debaixo de um quadro que representava a Última Ceia. Ele se deteve ao vê-lo.
- Por que o senhor veio sentar aqui?
- Era a única mesa que estava livre, capitão.
- Veja só, o senhor veio se sentar debaixo da Última Ceia.
Isso deve ser um sinal.
Ele me disse que queria uma foto debaixo da Última Ceia, e eu a fiz com um celular. Resolvi abusar e lhe pedi que posasse diante do cartaz de “Procura-se” em que aparecia sua foto, e ele concordou.
Como já tinha chegado tão longe, eu lhe disse que, da vez seguinte, viria com um fotógrafo, e ele aceitou, também.

Disparo
Da última vez em que nos reunimos, ele tinha acabado de fazer um trabalho agrícola que lhe dera algum dinheiro. O encontramos barbeado, com o cabelo recém-cortado e óculos novos. “Agora sim, façam as fotos que quiserem comigo.”
Aproveito para fazê-lo ouvir a gravação da última missa do monsenhor Romero. O capitão franze o cenho e ouve atento.
O monsenhor profere suas últimas palavras: “Que este corpo imolado e este sangue sacrificado pelos homens nos alimentem também para darmos nosso corpo e nosso sangue ao sofrimento e à dor, como Cristo, não para ele, mas para dar conceitos de justiça e de paz a nosso povo. Unamo-nos intimamente, pois, na fé e na esperança, a este momento de oração por dona Sarita e por nós.”
Ouve-se uma explosão e o capitão Saravia estremece. Dá um pequeno pulo na cadeira. Ele me olha fixamente, sem dizer nada, por alguns segundos.
Respira fundo.
- É esse o disparo?
- Sim, capitão. É esse o disparo.

Tradução de Clara Allain

Estado pede perdão pela morte de monsenhor

Nos 30 anos de morte do arcebispo Óscar Romero (1917-80), o presidente de El Salvador, Mauricio Funes, pediu, em nome do Estado, perdão pelo assassinato.
Entre 1980, ano da morte de monsenhor Romero, e 1992, o país esteve em guerra civil. O conflito, que deixou mais de 70 mil mortos, foi polarizado entre o governo de direita (Arena) e a guerrilha esquerdista, centrada na FLMN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), do atual presidente do país.
Os EUA apoiaram o governo no período, com dinheiro, armas e treinamento militar.

Ver mais sobre Dom Oscar Romero aqui.

Reflexões de um presidente acidental

11:18 am

Democracia, liberalismo, esquerdas, fortuna e virtù na visão de FHC, o intelectual que não quer para si o silêncio dos monastérios

SÃO PAULO - “Esqueçam o que escrevi.” A frase, atribuída ao então presidente Fernando Henrique Cardoso - que ele nega ter pronunciado -, serviu de mote para o bem-humorado título de seu novo livro. Editado pela Civilização Brasileira com organização de Miguel Darcy de Oliveira, Relembrando o que Escrevi: da Reconquista da Democracia aos Desafios Globais reúne artigos e entrevistas do sociólogo, político e intelectual público que ocupou o Planalto por dois mandatos consecutivos, de 1995 a 2002. Dividido em cinco grandes temas - liberdade e democracia, esquerda e política, sociedade e Estado, desenvolvimento e globalização, esperança e futuro -, o livro mapeia reflexões e questionamentos ao longo de três décadas, precisamente de 1972 a 2006. Segundo o próprio Fernando Henrique, o mundo mudou, ele mudou, mas a orientação geral de suas ideias, até que não: “Se houve aggiornamento foi mais na forma do que no conteúdo”, escreve na apresentação do livro.

No mesmo dia em que sua ausência se fez sentir até por uma cadeira vazia na cerimônia de desligamento do governador paulista José Serra, no Palácio dos Bandeirantes - e quando Dilma Rousseff também deixava seu gabinete em Brasília rumo à campanha presidencial -, FHC aceitou o convite do caderno Aliás para conversar e debater, por mais de duas horas, com três renomados intelectuais: o sociólogo José de Souza Martins, o filósofo Renato Janine Ribeiro e o cientista político Renato Lessa.

O encontro, aberto ao público, ocorreu no Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, no antigo salão nobre da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde FHC defendeu sua tese de doutorado, em 1961. A seguir, uma síntese da sabatina que enfrentou ao responder às perguntas de Martins, Janine Ribeiro e Lessa.

Burguesia de Estado

José de Souza Martins: Seu livro provoca discussão do que não tem sido discutido. Sobretudo nos textos relativos ao período da luta contra a ditadura, há destaque para a relevância dos movimentos sociais na construção da nova realidade política do País, realidade pós-ditatorial. A sociedade civil concorreu vigorosamente para o fim do regime militar. No entanto, temos nos deparado hoje com advertências em torno das ameaças representadas pelo autoritarismo popular. Boa parte desse autoritarismo se expressa justamente por meio de movimentos sociais. Como fica o ideal da democracia radical?

FHC: Quando voltei do Chile, da França, a preeminência da sociedade civil nos movimentos sociais chamava a atenção. A literatura sociológica mostrava, nos anos 60, sobretudo nos anos 70, as discussões de novas formas de poder. O conceito de sociedade civil reaparecia de uma forma diferente daquela que existia no passado. A sociedade civil era a sociedade não militar. Nela, contava muito mais a presença e a participação do que a estrutura. Tanto faz se as pessoas estivessem organizadas socialmente, hierarquicamente, classe média, classe não sei o quê, empresariado e tal. A questão era estar participando, juntos, daquilo - estar no movimento da sociedade civil, “do lado bom”. Na época isso se confundiu com movimentação dos trabalhadores. Mas era tudo contra o regime. Eu, que naquela altura já havia escrito uns artigos soltos sobre o tema, disse: “Cuidado, de repente vamos ver uma relação se formar entre o líder do governo e a burocracia”. Parecia não haver mais a dinâmica de poder forte, no sentido anterior, de grandes estruturas de classe, de dominação. Depois do regime autoritário, fiz um trabalho sobre os anéis burocráticos apontando que a política, nesse momento no Brasil, não passava pelas estruturas tradicionais, porque havia vínculos entre setores empresariais e setores da burocracia, constituindo esses anéis. Isso, ao contrário de uma sociedade com participação mais ativa, poderia levar a uma manipulação através dos grupos de poder. É a briga pelo poder. Foi até onde cheguei naquele momento, rico do ponto de vista intelectual, mas uma tragédia do ponto de vista político. Porque nós, intelectuais, tínhamos que reagir contra. E quando os intelectuais não têm como reagir, quando o sistema está fechado, eles vão para o monastério. O Cebrap era um monastério. Uma outra discussão que ganha pertinência nos dias de hoje é o que chamo de “burguesia de Estado”. Tem que tomar cuidado: vivemos num sistema democrático, as empresas estatais estão crescendo, mas o que se presencia é a formação de uma burguesia de Estado. Olha a contradição dos termos… Mais tarde, (o sociólogo) Chico de Oliveira veio com uma crítica ainda mais radical sobre o funcionamento dos fundos sociais e fundos de pensão. Em síntese, mesmo em plena democracia, as forças reais de decisão no Brasil estão se constituindo num bloco de poder que une setores do Estado com setores empresariais e os fundos. Isso é algo que é preciso discutir.

A crítica às esquerdas

Renato Janine Ribeiro: Presidente, em seu livro, sua posição favorável à privatização não aparece. E o sr. já falava de uma esquerda arcaica, tradicional, em textos dos anos 70. Ocorre que, de lá para cá, a esquerda - que o sr. preza a ponto de dialogar com ela - mudou. Vejo uma mudança grande do PT dos anos 80 para o PT do governo, não sei se para melhor ou pior. Minha pergunta é: que mudanças ocorreram entre a esquerda dos anos 70 e a de hoje?

FHC: Excelente questão. De fato, lá atrás não estava colocada a questão da privatização. Ela só apareceu nos anos 80, no governo Sarney, e depois sob Collor e Itamar. Porque o mundo era outro, isso não se cogitava. Ao contrário, era preciso que o governo investisse em interesses do setor privado para garantir o desenvolvimento. Getúlio, quando fez Volta Redonda, tinha a ideia de que fosse uma empresa privada. Só que não houve interesse por parte do setor privado, houve até uma recusa formal. Daí o Estado entrou. Depois, isso foi mudando e veio a incapacidade do setor estatal em garantir recursos e tecnologia. Para mim, privatização não é ideal nem objetivo, é uma coisa pragmática. Também acho que transformar o monopólio público em monopólio privado não é progresso, porque o importante é haver competição. Com relação a sua pergunta sobre como vejo as esquerdas, nos anos 50, 60, o eixo fundamental que se tinha era a União Soviética. Esse era o paradigma. Havia ali uma transformação grande do pensamento original marxista para a ideia do partido que toma conta do Estado e socializa os bens de produção. Democracia não se discutia, não era tema. E passou esses anos todos sem ser discutida. Claro, houve uma crise da Europa, antes do final do regime soviético, introduzindo certa abertura para a ideia de democracia como valor, sobretudo entre os italianos. Tanto na Europa como aqui, líamos e falávamos em Gramsci, embora não fosse a linha dominante. Já no final dos anos 80 vem a queda da União Soviética e, antes mesmo disso, nos 70, a globalização já estava em marcha, com seus saltos tecnológicos, a comunicação, a internet, etc. Naquele momento, vi a formação do PT. Estava-se fazendo um partido de trabalhadores no sentido proletário, o que não se sustentava, pois a concepção de que aquela classe iria transformar a história estava desaparecendo. Por ter feito essa crítica, à época, me chamavam de “policlassista”. A verdade é que o PT nasceu de três vertentes: a católica, que vinha dos movimentos sociais de base, a guerrilheira/ideológica e a dos sindicalistas. Hoje, prevalece a dos sindicalistas. A vertente católica foi se esvaecendo e a ideológica perdeu peso também. Na prática, o PT vira um partido social-democrata no governo, absorvendo as transformações do mundo. Mas por que mantenho a minha crítica? Porque permanece essa luta contra a ideia de globalização e contra o que se chama de “neoliberalismo”. Hoje, o governo do PT se orgulha das multinacionais brasileiras que se globalizaram e até dá dinheiro para isso. Só que, na teoria, a coisa é diferente: os documentos do partido mantêm até hoje a mesma visão antiga. O fato é que o Brasil ganhou com a globalização. Virou Bric. O que precisa agora é haver uma crítica da própria elite da esquerda, uma crítica teórica, porque, na prática, essa esquerda no poder já está fazendo até demais (risos). Há também essa defesa da “democracia plebiscitária” do Chávez, essa ideia de que se você tiver o consenso da massa tudo se justifica. É risco para a democracia.

Visões da democracia

Renato Lessa: Vejo no livro uma contribuição importante para o debate sobre a teoria democrática. Traz expressões que caíram em desuso e acabaram voltando a nossa reflexão, como ‘democratização fundamental’ e ‘democracia substantiva’ - a ideia de que é possível pensar a democracia além da obrigatória adesão às dimensões formais. O sr. teria trocado uma perspectiva mais sociológica do fenômeno democrático por uma mais institucionalista? Penso que seria fundamental se nós ‘ressociologizássemos’ nossa percepção da política, para que ela não ficasse restrita ao jogo formal das instituições.

FHC: Como levar daqui para frente a democracia - essa é uma reflexão fundamental. Fiz recentemente uma conferência sobre Joaquim Nabuco, na Academia Brasileira de Letras, e me ocorreu levantar questões sobre a República, a organização política, as instituições e o processo social. Nós sempre tendemos a dissociar liberalismo e democracia em qualquer discussão. Por razão histórica há uma reação muito grande ao liberalismo no Brasil, tanto que quando alguém quer me xingar, me chama de neoliberal (risos), o que é um absurdo. Porque tomam o liberalismo como laissez-faire, simplesmente liberdade de mercado. Ora, não é isso. Hoje ninguém aqui é contra o capitalismo e sim contra o liberalismo. Mas não se pode recusar o liberalismo político, até porque a democracia substantiva não foi criada para isso. Não foi para dizer “democracia formal não vale, a representação não tem mais sentido”. Não era uma volta a Rousseau. Há uma questão central: conseguiremos ou não certa convergência entre o pensamento democrático tradicional e as formas de participação direta no processo decisório? O equilíbrio é difícil. Em sociedades de massa como a nossa, e Nabuco e Tocqueville já tinham percebido isso lá nos Estados Unidos, há [PODE HAVER]o risco da demagogia. Nabuco temia que nos EUA, dada a forma republicana presidencialista, houvesse uma delegação total ao tutor, o presidente da república: “Parece que os americanos ficam felizes porque elegem o próprio tutor”, disse, ironicamente. Hoje, em lugar de procurarmos combinar representação clássica com participação, corremos o risco de substituir tudo isso pela figura do tutor. É um perigo. Daniel Bell (professor de filosofia na Universidade Tsinghua, de Pequim) escreveu um artigo dizendo que os chineses têm uma ideia diferente dos ocidentais: com a generalização do voto e o desejo da massa de contar com uma figura simbólica, eles têm medo de não eleger os mais capazes e sim os de maior poder de comunicação. Por isso tendem a preservar os mecanismos meritocráticos do Partido Comunista. No Ocidente, onde se conseguiu fazer parlamentarismo houve maior possibilidade de equilíbrio institucional. Onde há presidencialismo, há risco maior de cesarismo. Vamos ter que pensar: na democracia, como compatibilizar o respeito às ideias de delegação com as de participação? Temos que voltar a discutir também o que é liberalismo político, não econômico. Ser contra o liberalismo político é estar a um passo de cair no lado autoritário.

Além do possível

Martins: Forte e insistente no livro é o tema do possível. Há uma frase dizendo que ‘o intelectual tem de estar na fronteira do possível’. Eu já fui malhado, falando nesse possível, por pessoas ligadas aos movimentos populares e da Igreja. ‘Não, nós temos que ir além do possível’, diziam. Mas esse possível não tem a ver necessariamente com o viável, é mais do que o viável. O possível ainda está no horizonte do governante? E na atual realidade brasileira? Segundo sua interpretação, por lidar com o possível, o intelectual é incômodo. Mas acho que os intelectuais deixaram de ser incômodos. Seria um retrocesso?

FHC: Sempre dizem que a política é a arte do possível. Não. Política é a arte de tornar possível o necessário, o desejável. Se não você não muda, é conservadorismo puro. Você tem que construir essa possibilidade. Não é qualquer coisa que é possível. Você tem que ter essa capacidade de construir os mecanismos que levem você à possibilidade de se aproximar de seu ideal. Não acredito que exista uma política forte sem alguma utopia. Recentemente, o (historiador inglês) Tony Judt deu uma entrevista dizendo: “Olha, o problema fundamental para o futuro é saber quais são nossos valores. Porque a economia vai andar sozinha”. As economias são muito fortes. De vez em quando um país dá uma trombada, entra numa crise e tal, depois se recupera. É preciso voltar à questão clássica grega: qual é a boa sociedade? É uma questão de valores. O que queremos fazer na sociedade? Isso justamente implica alargar o limite do possível. Não é voluntarismo, basta querer que acontece. Quando dizem “falta vontade política” me dá um arrepio. (É como se dissessem) “a culpa é dele, está lá em cima e não faz”. Como se a vontade fosse o decisivo na história. Ela não é decisiva! Tem que ter alguma vontade e ser competente para tornar possível seu ideal. Acho que estamos muito viciados no economicismo do pensamento. Pensamos tudo em termos do que é possível na economia. A gente só se preocupa com “cresceu o PIB”. Eu vou repetir o que disse há poucos dias a um repórter americano do Miami Herald. Ele me perguntou: “O senhor acha que o Brasil vai ser mesmo a quinta potência do mundo?” Eu disse: “Pode ser, mas o que você chama de potência? Produto interno bruto? Então talvez seja”. Mas não é essa a pergunta correta. Tem que perguntar: “O senhor acha que o Brasil vai ser uma sociedade mais decente, mais digna, mais solidária, mais coesa, melhor para o seu povo, com mais igualdade?” Aí eu tenho dúvidas. Do ponto de vista econômico o Brasil vai continuar crescendo. Haverá seus ciclos, depende um pouco do governo, mas não só dele, depende de conjuntura… Mas nós já temos nos motores da nossa economia máquinas muito poderosas. Vamos levantar voo. O resto eu tenho muita dúvida. O possível para mim é você deslocar dessa fixação meramente economicista para um pensamento de valores. Como é que vamos ter realmente uma sociedade decente? Como vamos fazer para dar uma educação que permita ao Brasil avançar mais? Há muitos anos eu digo que no dia em que o País tiver telefonista ou empregada doméstica capazes de anotar um recado, então terá se desenvolvido. Não só aprendemos a voar como a fazer avião. Mas como é difícil desembarcar no Brasil! Difícil chegar à porta do avião. Se vier do exterior, passar pela aduana é uma coisa dificílima. Não se faz a fila direito. Essas coisas contam. Como é que você vai tornar o comportamento do dia a dia compatível com o comportamento que já podemos ter? Eu disse há muitos anos que o Brasil não é mais um país subdesenvolvido, é um país injusto. Fui criticado. Hoje digo que, economicamente, o Brasil já teve um desenvolvimento que lhe permitiria ser um país mais justo. Mas continua sendo um país que não avançou suficientemente nos termos fundamentais de igualdade, justiça, equidade. Aqueles que vão liderar o Brasil daqui para frente terão de colocar ênfase nesse tipo de questão. Não é só fazer políticas sociais que mitiguem a desigualdade. É muito mais. Nem conseguimos ainda fazer com que todos acreditemos que somos iguais perante a lei, por exemplo. E não somos. Como é que se faz democracia onde você não tem igualdade perante a lei? Joaquim Nabuco dizia que a Inglaterra era o único país do mundo onde o duque de Westminster e seu mordomo, se fossem chamados pelo juiz, teriam o mesmo temor, e o juiz decidiria independentemente da condição social deles. Aqui não acontece isso. Não é por causa do juiz. É por causa da legislação e é por nossa causa. A sociedade brasileira aceita a desigualdade. E é indulgente com a corrupção.

Um intelectual popular

Janine Ribeiro: Seu livro é o relato de um intelectual que se tornou governante, o que é extremamente raro. Na história do País, talvez o único intelectual de seu porte que tenha chegado ao poder seja José Bonifácio - e em curto espaço de tempo, por um capricho do imperador. Mas a figura do intelectual não é propriamente popular no País. Em compensação, no Big Brother Brasil, acaba de vencer a disputa um rapaz que havia dito que ‘homem que é homem não pega aids’, o que levou a Justiça a intervir no programa. No dia seguinte, esse indivíduo teve 60% de votos. Como foi possível para o sr. converter o gap que há entre o intelectual e a sociedade, de modo a transformar a possível impopularidade em liderança?

FHC: O título de um livro que escrevi e só saiu em inglês é The Accidental President of Brazil. Porque foi um acidente, de certa maneira. Uma pessoa com a minha biografia e carreira não tinha como ter voto e ser presidente da República. Ganhei do Lula duas vezes no primeiro turno, o que não é fácil, já não era. Claro que no meu caso teve uma coisa específica: o Real. Se não fosse o Plano Real eu não teria sido presidente. Podia continuar ministro, senador. Talvez nem isso. Percebi que iria ser eleito em Santa Maria da Vitória, na Bahia, no dia 11 ou 12 de junho. Cheguei por lá num avião monomotor vagabundo e pousamos na pista de terra. Estávamos atrasados e o Antônio Carlos (Magalhães), que era o dono da Bahia na época, nos esperava irritado. Quando chegamos na praça, a população tinha notas de Real na mão e gritava, feliz da vida: “Vale mais que o dólar! Vale mais que o dólar!” Vi que seria eleito. E o que fiz? Falei. Muitos se esquecem, mas eu falava todo dia. Quando houve a decisão final do plano, em fevereiro, passei horas na televisão explicando o que era e o que iria acontecer com a vida das pessoas. Então, não cheguei à Presidência porque sou intelectual, mas porque fui ministro, fiz o Real e não sou, nem nunca fui, complicado para falar. Eu me lembro que quando entrei na política, vários amigos diziam: “Ah, não vai ter voto. É intelectual”. Não vou entrar em detalhes, mas figuras importantes afirmavam que eu sabia falar melhor o francês do que o português… Falo francês mal e porcamente! Diziam: “Nunca viu um pobre, só nas ruas de Paris”. Isso foi dito por um grande milionário de São Paulo. Esqueceram que eu me formei aqui e, aos 29 anos, defendi tese sobre negros. Pesquisei nas favelas e cortiços do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Nunca tive dificuldade em falar com o povo. E, em política, o desempenho é fundamental. Quando numa eleição os candidatos não são bons de conversa, vêm os marqueteiros e projetam imagens. Mas em alguma hora aparece a pessoa. E se ela não é capaz de falar de modo que os outros entendam, não tem caminho na política. Pode ser eleito primeiro-ministro num regime parlamentarista, mas não chefe de Estado num presidencialismo de massas. Isso não ocorre só no Brasil. Eu estava em Brown, nos Estados Unidos, no ano anterior às primárias da última corrida presidencial, e telefonei para o Bill Clinton. Na conversa, disse: “Aqui me parece que a Hillary está bem”. Ele respondeu: “Não só aí, no país inteiro”. Isso foi em outubro. Quando voltei para dar aula em fevereiro, todo o mundo era Obama. A Hillary teve a máquina do Partido Democrata, era conhecida, competente, mulher, mas Obama desempenhou melhor. Obama pode não ser grande intelectual, mas tem formação sólida. Mais sólida, talvez, do que a Hillary. E desempenhou melhor.

Olhares fragmentados

Lessa: Quero falar ainda do intelectual público. Tenho a impressão de que vivemos um tempo de profunda desativação de hábitos do pensamento. Conversando com um jovem colega sobre política, fiquei perplexo ao ver com que convicção defendia o ‘bicameralismo com voto distrital misto’. Na minha época éramos de esquerda, de direita ou de centro, brigávamos por isso, e hoje esse sujeito está disposto a bater nas pessoas pelo bicameralismo. Seu livro convida a um debate mais universalizado, a se pensar a política como atividade humana. Como evitar a fragmentação e reagir à perda do hábito do pensamento?

FHC: Um bom exemplo disso é a universidade. Aqui nesta sala, quando eu era representante dos alunos e depois dos doutores, se discutiam coisas de interesse da cidade e do País. Havia uma ligação direta entre estar na universidade e estar dialogando com o governo, com o poder e a sociedade. Depois, a universidade foi ficando mais ensimesmada e a vida, mais fragmentada. A qualidade do ensino não foi perdida, ao contrário, melhorou, houve mais especialização. Só que perde-se a ideia de intelectual público, de alguém que se apresenta perante a sociedade e a nação para debater ideias. Isso foi encolhendo, desaparecendo. E sobra a briga interna, que é isso mesmo: sou favorável ao bicameralismo ou não (risos). Acho que a grande força da universidade americana é exatamente o oposto disso. Ela é tão forte e se sente tão segura que não tem medo de chegar perto nem das empresas, nem do governo. No Brasil evita-se o governo por medo da cooptação. E as empresas, por medo da privatização. Às vezes recebo estudantes lá no instituto e um deles me provocou: “O que o sr. acha da privatização das universidades públicas?” Ora, alguém compra uma universidade pública? É inviável, isso é uma bobagem. A universidade tem que ser pública e vai continuar assim. Mas é preciso perder o temor do mercado. E considerar que o Estado também gera pensamento - o Ipea gera pensamento, a Petrobrás gera pensamento técnico, mas há outros setores do Estado que avançaram muito sem qualquer conexão com a universidade. Mas voltando ao intelectual público, hoje ele certamente precisa da mídia para exercer um papel e ter relevância. É uma maneira de sair do casulo e manter uma relação com a sociedade. Problema: a mídia escolhe seus interlocutores. É preciso aumentar essas escolhas, abrindo espaço para um número maior de intelectuais, para incrementar o debate público. A função do intelectual não é só resolver, mas provocar, criar caso. Por que eu brigo tanto com a esquerda? Porque eu a levo a sério - e provoco. Temos que ampliar os nossos canais de fala. Não adianta querer penetrar por dentro dos partidos, porque eles são surdos a esse tipo de debate. E nem pensar que de uma campanha eleitoral vá surgir a luz.

Candomblé com Descartes

Martins: Hoje os dois principais candidatos à Presidência da República se desincompatibilizaram. Estão abertamente na campanha. A minha tendência é ver em José Serra a personificação do Iluminismo e a reafirmação dos valores da Renascença. E vejo em Dilma Rousseff a personificação das tensões do Romantismo. Nessa eleição vamos nos defrontar com a dicotomia esquerda-direita por meio dessa modalidade de polarização?

FHC: Dá para ver que foi meu aluno e hoje me encosta na parede… (risos). Eu fiquei muito impactado com o que aconteceu na União Soviética. E muito com Gorbachev, especialmente. Porque, sendo chefe do Partido Comunista da URSS, ele recolocou a questão da humanidade. Quando disse que não dava para continuar daquele jeito, que a bomba atômica levaria à morte dos dois lados, disse coisas além da classe e do Estado. Humanidade era a grande discussão filosófica do Hegel. E lá vinha Marx criticando, dizendo que só poderia ver o universal concreto, só o proletariado, sem falar de humanidade. Gorbachev disse “cuidado, já avançamos tanto no campo tecnológico e na guerra que não dá para falar só dos extremos, nem só de classe e Estado-nação”. Essa é a grande confusão que está aí até hoje. Tem classe, tem Estado-nação e tem a globalização que nos leva a um pensamento mais universal. Estamos podendo ver o homem de uma maneira mais ampla sob todas suas dimensões. De fato, somos herdeiros do Renascimento, do Iluminismo. Até Marx dizia isso. No entanto, com o pós-modernismo tudo ficou mais complicado. A fragmentação dificultou muito. Daí esse retorno do Romantismo, uma espécie de angústia de não saber como se juntam as peças. Pelo menos o Serra acha que sabe juntar as peças. E a Dilma poderá perder-se porque vem de uma tradição na qual não se misturam as peças, terá que aprender. De fato, a Dilma pode ter uma visão menos racional e mais romântica sobre as coisas. E o Serra vai numa tradição mais racional. No fundo é isso: quem vai valorizar mais o elemento da razão ou da emoção no futuro. Digo valorizar mais porque não há vida ou política sem emoção. Espero que o Serra entenda um pouco mais de candomblé. E a Dilma leia um pouco mais de Descartes.

Bazófias de ACM

Janine Ribeiro: Não posso esquecer que, conforme suas palavras, o sr. foi um presidente acidental, um presidente improvável. Então, agora, penso nos termos de Maquiavel: fortuna e virtù. Se fôssemos utilizar esses termos, diríamos que o sr. foi levado à Presidência pela fortuna. Foi ministro da Fazenda, fez o Plano Real e, portanto, se elegeu. Agora, conquistar o poder pelas armas alheias, como diz Maquiavel, coloca um problema sério, que é o de a pessoa conseguir depois enfeixar o poder nas mãos. Lembro Maria Conceição Tavares, num debate na televisão, em que dizia do senhor: ‘Ele acha que vai conseguir dominar Antônio Carlos Magalhães?’ No entanto, antes do final do seu primeiro mandato as cartas tinham mudado por completo, o sr. havia controlado as circunstâncias. Como foi essa passagem de uma situação de fortuna para uma de virtù?

FHC: Ninguém se mantém no poder sem virtù, sem capacidade política. Claro que estamos falando na democracia. No sistema fechado é diferente. Que eu saiba, o grande líder brasileiro, Getúlio Vargas, não era de falar. Ele apenas lia o discurso: “Boa noite, trabalhadores do Brasil”. A democracia requer mais do que isso. Requer um convencimento quase diário. É o que o Lula faz. O líder tem que estar o tempo todo tratando de exercer sua liderança, porque ter obtido voto não garante a legitimidade de sua ação depois. Garante legitimidade formal, mas não apoio. No dia seguinte você não tem mais voto nenhum. Você tem que ganhar de novo. No caso do Real, eu tive virtù antes, senão nem chagaríamos ao plano. O Antônio Carlos nunca teve assento em nenhuma decisão do meu governo. Friso: nenhuma. Ele tinha poder na Câmara e no Senado. E isso fascina, dá a impressão que vai comandar tudo. Não era assim. Nunca imaginou que eu fosse mexer com ele. Antônio Carlos foi para Miami e disse na televisão umas bobagens de que não gostei. Pois eu mesmo escrevi as cartas de demissão dos dois ministros ligados a ele. Tem que ter coragem. Ninguém governa sem ela. Mas essa coragem não deve ser bazófia. Tem que ser coragem moral. E outra coisa; as decisões mais importantes são solitárias. Se eu fosse perguntar aos meus amigos e partidários se deveria demitir ou não os ministros ligados ao Antônio Carlos eles iam dizer que não, porque aquilo criaria uma crise no Senado. Então você tem que ir lá dentro de você, sozinho, tomar a decisão e atuar. Líder precisa ter a capacidade de se isolar e de ouvir o outro. Muitos perguntavam como é que eu recebia certos políticos, mas tem que receber. Mesmo os que são abandidados, até para compreender o jogo deles. Eu sempre procurei manter o olhar do sociólogo, dar espaço. Então o sujeito saía de lá feliz: “Conquistei o presidente”. Conquistou coisa nenhuma. Você deu elementos para o presidente, depois, no isolamento, julgar o que dá para fazer e o que não dá para fazer. Esse exercício é permanente. Maquiavel tem absoluta razão. Tem que ter sorte, mas não basta. Tem que ter virtù. E a virtù não é um dom, você a desenvolve. Veja o Lula e eu em 1970. Você acha que nós já éramos o que somos hoje? Não. Fomos desenvolvendo certas habilidades. O mais difícil é lidar com os que estão próximos. Como é que você controla os seus? Questão que vai se colocar se a Dilma se eleger. O Lula a controla. Ele é maior, e sabe como controlar. A pressão maior que o presidente sofre é dos que estão com ele, não é dos que são contra. Dos que são contra ele lê no jornal.

Utopias regressivas

Lessa: Os movimentos sociais aparecem nos seus textos em chave dupla: uma delas é o reconhecimento de que eles limitam os autoritarismos. Outra, de que são a expressão de identidades parciais e fragmentadas. Para além de um debate sobre dois gerentes na campanha presidencial, acho que há outro tema, da maior gravidade, subjacente à democratização brasileira: a reestruturação do espaço público. Temos um Poder Executivo forte, um problema de representação no Legislativo e o hiperativismo do Judiciário. Ocorre que todos se ajustaram à situação. Sabem procurar o juiz, mas não conhecem o caminho dos partidos e da representação. Como resolver isso?

FHC: Para te dizer em termos não abstratos, mas práticos: o que fazer com o MST, por exemplo? Houve momentos, em 1997, que dava a impressão de que ou se fazia a reforma agrária ou o Brasil estava perdido. Ninguém percebia, na época, a grande transformação que estava havendo no agrobusiness. Todo o foco era o MST. Em 1997 houve uma imensa mobilização em Brasília. E repleta de palavras de ordem inacreditáveis, como se estivéssemos próximos de fazer a Revolução Soviética. Como criar um espaço público que permitisse um diálogo democrático? Eu recebi o MST várias vezes. Algumas estão gravadas até. Estive com o João Pedro Stédile. Com o José Rainha, nem se fale: esse ia à noite ao Palácio da Alvorada. Mas era difícil a relação, pela razão de que os valores deles são inegociáveis. É uma negociação falsa: eles não vão para discutir a política pública, vão para botar o presidente, ou o ministro, contra a parede. Aqui em São Paulo, hoje, está havendo uma manifestação (de professores) para botar o governador contra a parede. Não há pauta de negociação. É só pressão. Não existe em um movimento como o MST a ideia de passar pelos canais institucionalizados, partidos, etc. Existe é pressão. E valores impossíveis, arcaicos, que chamo de “utopias regressivas”. Como se fosse possível ao Brasil voltar à Idade Média. Com o tempo esses movimentos vão esquecendo a utopia, e querendo pequenas vantagens, o que é mais triste ainda. Realmente, a fragmentação é enorme. A teoria democrática no Brasil vai ter que absorver isso e discutir como incorporá-los ampliando o espaço público. Quando falo do risco de um subperonismo no Brasil é a isso que me refiro. Como não há canais públicos de integração e de aceitação - e alguns acham que sua razão é a única, o que é um fundamentalismo -, isso acaba facilitando um certo cesarismo, aquela ideia de que há alguém capaz de resolver tudo. Temos problemas com a democracia no Brasil, mas não é que vá haver outro golpe militar ou fraude nas eleições. É uma coisa mais substantiva mesmo. São problemas nossos, da sociedade, não só dos partidos.

Veja também:

video ‘Sem emoção ninguém ganha a eleição’

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CARDOSO, Fernando Henrique. Relembrando o que escrevi: da reconquista da democracia aos desafios globais. São Paulo: Civilização Brasileira, 2010.

Leia trecho:

Apresentação

Fernando Henrique Cardoso

É difícil avaliar e selecionar o que alguém disse em entrevistas ou escreveu em textos de jornal publicados décadas atrás. As matérias em geral respondem a questões muito contextualizadas.

Tive a sorte de encontrar em Miguel Darcy a disposição de fazer a seleção dos textos com a sensibilidade, a amplitude de visão e a objetividade que eu dificilmente teria. A junção dos textos de maneira a dar-lhes significado que isoladamente talvez não tivessem foi proeza de Miguel, não minha. Tampouco haveria acesso a revistas, jornais e livros que publicaram essas entrevistas e artigos não fossem o critério, a dedicação e a persistência de Danielle Ardaillon que há cerca de trinta anos cuida de meus arquivos. A publicação não se concretizaria, por sua vez, se a Record e em especial Sergio Machado e Luciana Villas-Boas não me tivessem estimulado a remexer papéis desgastados pelo tempo e dar-lhes vida nova. Este livro é, portanto, tanto meu quanto deles, embora eu seja o único responsável por seu conteúdo.

Relendo o que disse nessas entrevistas e textos, que abrangem mais de trinta anos, de 1972 a 2006, confesso que me surpreendi.

É certo que muita coisa mudou e também eu mudei minha apreciação sobre algumas coisas. Mas as orientações gerais são as mesmas, os valores fundamentais continuam a ser os antigos. Se houve aggiornamento foi mais na forma do que no conteúdo, quando não na discussão de questões que a própria história foi colocando em novas bases.

Na década de 1970 e mesmo no começo dos anos 1980 o desafio era a redemocratização. Pode mesmo parecer de menor significação para quem não viveu no período a importânCia cia de dizer certas palavras: falar de tortura e de arbítrio, por exemplo. Hoje é fácil. Naquele tempo a menção poderia ter um custo imediato. Era preciso, embora temendo, arriscar-se. Sem riscos equivalentes, pois neste caso a discussão se dava no campo dos que se opunham à ditadura, tampouco era fácil pregar a necessidade de apoiar o MDB e propugnar por um amplo movimento da sociedade civil como forma de combate ao regime autoritário. Na época a esquerda que se julgava “verdadeira” empunhava armas e a intelectualidade progressista, mesmo sem sair de casa, torcia por ela e desconfiava de roteiros democráticos. Hoje somos todos democráticos, abominamos a violência e nos horrorizamos com os desmandos dos que comandaram

o país no passado. Tanto assim que antigos apoiadores do regime militar são agora — sem que eu reprove suas mudanças de opinião nem os desqualifique — até mais entusiastas dos governos democráticos do que antigos militantes da esquerda.

Já as discussões sobre o relacionamento entre Estado e sociedade, sobre os movimentos sociais ou sobre o papel do Estado na economia são questões mais analíticas e às vezes instrumentais do que valorativas. Sujeitam-se, portanto, mais a nuances e mesmo mudanças de apreciação. Não obstante, relendo o que disse e escrevi, acho que modificaria muito pouca coisa hoje. Note-se que, sobretudo nas entrevistas, as opiniões aparecem despidas de academicismo e menos cuidadas do que em livros ou publicações científicas. Há, portanto, maiores possibilidades de imprecisão e deslizes intelectuais. Mesmo assim, não vejo necessidade, em geral, de dizer que hoje pensaria ou diria de outro modo.

Não quero escrever uma apresentação para justificar ou modificar as opiniões recolhidas neste livro. O que disse e escrevi, mesmo sendo marcado pelo momento histórico, expressa meu modo de ser, pouco preocupado com a permanência das coisas e, como Miguel Darcy notou, mais interessado em vislumbrar o “novo”, ainda que as torres que tento construir para vê-lo estejam em andaimes. Não sinto necessidade de esquecer nada do que escrevi. A maioria dos que gostariam que eu tivesse querido esquecer o que pensava nunca ouviu ou leu o que disse ou escrevi. Este livro permite que quem esteja interessado em tais julgamentos verifique com mais acuidade se mudei muito, pouco ou nada, embora a última alternativa me condene a ser um intelectual propenso ao dogmatismo, o que espero não ser.

Para finalizar, quero dizer que fiquei surpreso com o que escrevi antes da crise do ano passado sobre o “capitalismo dos derivativos”, sobre os riscos que ele acarretaria e sobre as medidas necessárias para regulá-lo. Escrevendo ou falando nos anos 1990 ou no início deste século parecia estar comentando a crise atual. Perspicácia de análise? Provavelmente nem tanto: é que as uvas já não estavam verdes havia muito tempo, mas apodrecidas. Como tantos outros não preguei no deserto, mas na floresta de interesses dos que estavam ganhando e não teriam vantagem em ouvir, e nada mudou. Desde suas origens é assim que funciona o sistema capitalista. Contém sempre um elemento de especulação e de irracionalidade, sem o qual talvez se estiole. Em dado momento parece que o cassino ocupa a cena principal do mercado e promove a felicidade geral até que… Bem, até que as bolhas estourem, ocorram as perdas, a recessão, o desemprego. Mas convém evitar ilusões de que as crises trazem por si modificações estruturais. Passado o susto, tudo volta à “normalidade”, com ganhadores e perdedores, dando a impressão do eterno retorno. A cada reviravolta, contudo, a sociedade, o mercado e seu modo de se entrelaçar e de funcionar ganham novos contornos. Não fosse assim a História, que é quase sempre inesperada, perderia a graça e as pessoas perderiam as necessárias ilusões e motivações para construir um mundo melhor.

Posso ter estado certo ou errado na tomada de posições políticas ou na análise de situações. Embora pudesse estar iludido, minha motivação sempre foi a de que é possível lutar por um mundo melhor para as pessoas e as instituições. Mesmo quando parece que estamos dando murros em ponta de faca, como nos anos de chumbo do autoritarismo ou quando parece que estamos perdendo a onda do crescimento econômico, é preciso não perder as esperanças. Diga-se o mesmo sobre os dias que correm quando nova maré corporativista, novo horror a iniciativas que não sejam controladas pelo governo e novos estímulos à corrupção inerente a essas situações parecem avolumar-se. Se lutarmos, também esta onda passará.

FHC chama Aécio à responsabilidade e indica a diferança central entre os dois projetos de poder oponentes

9:27 am

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Hora de união

Por Fernando Henrique Cardoso*

A visão de futuro mostra quem é verdadeiramente líder. No auge das lutas pela volta às eleições diretas e pelo fim do autoritarismo, três personagens, cada qual à sua maneira, foram decisivos para que conseguíssemos mudar o rumo do País. Não foram os únicos. Muita gente se empenhou desde a campanha das Diretas-Já com o mesmo propósito. Nem se deve esquecer do papel desempenhado pelas grandes greves do ABC e por seus líderes. Mas, a partir da derrota da emenda Dante de Oliveira, quando se colocou a possibilidade de derrotar o candidato do Sistema utilizando-se o próprio Colégio Eleitoral, a condução do processo passou a depender de Ulysses Guimarães, Franco Montoro e Tancredo Neves.

Houve hesitação sobre o que fazer. Fiz um discurso no Senado trocando o lema Diretas-Já por Mudanças-Já, com a convicção de que poderíamos derrotar os donos do poder. Foi difícil para Ulysses Guimarães tragar a dose e aceitar as eleições indiretas, ele que fora o anticandidato em 1974 e cujo nome se identificava com as eleições diretas. Foi mais difícil ainda, uma vez deslanchado o processo de conquista de votos no Congresso, unir a oposição em torno de um nome.

Ulysses até aquele momento fora o condutor indiscutido das oposições democráticas. Entretanto, pela dureza das posições que assumira na crítica ao regime autoritário, teria dificuldades em granjear votos entre os que, diante do desgaste do poder, da crítica de uma imprensa mais livre, dos movimentos de protesto em massa e das dificuldades econômicas, se predispunham a mudar de posição. Sem o apoio desses, a derrota era garantida. Na época presidente do MDB de São Paulo e muito próximo a Ulysses Guimarães, disse-lhe com muito pesar, pela enorme admiração e respeito que nutria por ele, que a vez seria de outro.

Roberto Gusmão, chefe da Casa Civil do governo Montoro, havia declarado nas páginas amarelas da Veja que São Paulo se uniria a Tancredo Neves para a conquista da Presidência. Ulysses fez questão de ouvir a decisão da voz do governador de São Paulo. Acompanhei-o ao Palácio dos Bandeirantes num encontro com o governador Montoro e com Roberto Gusmão. Montoro poderia pretender legitimamente a candidatura à Presidência: ganhara as eleições diretas em São Paulo com votação consagradora. Percebeu, entretanto, que no caso das eleições indiretas Tancredo teria melhores oportunidades. Reafirmou esse ponto de vista a Ulysses. Mais do que os méritos e as ambições de cada um, contava o momento histórico. Ou nos uníamos e ampliávamos a frente contra o autoritarismo ou este permaneceria por mais tempo, esmaecido que fosse, com a eleição de Paulo Maluf, candidato da Arena. A visão de futuro e o interesse nacional contavam mais do que as biografias. Tiveram grandeza. São Paulo se uniu a Minas para que o Brasil avançasse e Ulysses chefiou a campanha pela eleição de Tancredo.

Passados 25 anos, nos encontramos frente a circunstâncias históricas que novamente requerem grandeza dos líderes e unidade de todos. Não está em jogo o admirar ou não o presidente Lula, nem mesmo as qualidades de liderança (ou a falta delas) de sua candidata Dilma Rousseff. Por trás das duas candidaturas polares há um embate maior. A tendência que vem marcando os últimos 18 meses do atual governo nos levará, pouco a pouco, para um modelo de sociedade que se baseia na predominância de uma forma de capitalismo na qual governo e algumas grandes corporações, especialmente públicas, unem-se sob a tutela de uma burocracia permeada por interesses corporativos e partidários. Especialmente de um partido cujo programa recente se descola da tradição democrática brasileira para dizer o mínimo. Cada vez mais nos aproximamos de uma forma de organização política inspirada num capitalismo com forte influência burocrática e predomínio de um partido. Tudo sob uma liderança habilidosa que ajeita interesses contraditórios e camufla a reorganização política que se está esboçando.

Agora, com as eleições presidenciais se aproximando, as alianças são feitas sem preocupação com a coerência político-ideológica: o que conta é ganhar as eleições. Depois, a força do Executivo se encarregará de diluir eventuais resistências de governadores e parlamentares que se opuserem à marcha do processo em curso, e transformará os aliados em vassalos. Mais recentemente tem surgido a dúvida: será que a candidata petista, sem ser Lula, terá força para arbitrar entre os interesses do partido, os dos aliados e os da sociedade? Não sei avaliar, mas o resultado será o mesmo: pouco a pouco, o “pensamento único”, agora sim, esmagará os anseios dos que sustentam uma visão aberta da sociedade e se opõem ao capitalismo de Estado controlado por forças partidárias quase únicas infiltradas na burocracia do Estado.

Os líderes oposicionistas atuais terão a visão de grandeza dos que os antecederam e perceberão que está em jogo a própria concepção do que seja democracia? Há quem defenda um outro estilo de sociedade. Há quem acredite que certo autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro pode favorecer o crescimento econômico. A China está aí para demonstrar que isso é possível. Mas é isso o que queremos para nós? A força governista ignora os limites da lei e tudo que decorre dessa atitude, desde a leniência com a corrupção até a arrogância do poder e o abuso publicitário antes do início legal das campanhas. É imperativo, pois, que as oposições se unam. A aliança entre Minas e São Paulo - que se pode dar de forma variada - salvou-nos do autoritarismo no passado. Uma candidatura que fale a todo o País, que represente a união das oposições e busque o consenso na sociedade é o melhor caminho para assegurar a vitória. José Serra e Aécio Neves estiveram ao lado dos que permitiram derrotar o regime autoritário. Cabe-lhes agora conduzir-nos para uma vitória que nos dê esperança de dias melhores. Tenho certeza de que não nos decepcionarão.

*SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Ver mais sobre o debate eleitoral aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A história no cinema e as histórias do cinema

3 de abril de 2010 10:43 am

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ROSENSTONE, Robert. A. A história nos filmes: os filmes na história. Tradução de Marcello Lino, São Paulo: Paz e Terra, 2010.

A história no cinema…

Por Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

O que queremos do passado? Esta pergunta - tão grave como singela - está por trás do projeto de A História nos Filmes/Os Filmes na História, livro de Robert A. Rosenstone (Paz e Terra, 263 págs., R$ 35, tradução de Marcello Lino). Na verdade, um tipo particular de passado - aquele trazido pelo cinema, a arte mais popular do século 20 na definição de Lenin, e que não parece ter perdido seu prestígio no século 21. Ao contrário. O nosso é o mundo do audiovisual, o universo das imagens em todos os suportes, da tela grande à telinha do celular, de modo que temas os mais variados, inclusive a interpretação do passado, têm sido cada vez mais abordados por este meio de expressão.

Rosenstone joga em duas posições. Como historiador, e autor de vários livros em sua especialidade, enfrenta colegas mais tradicionalistas - os que entendem serem os documentos a única fonte de pesquisa segura do passado. Ele, pelo contrário, confia numa história “pós-moderna”, que se vale de fontes alternativas como a cultura, o folclore e os depoimentos, a chamada história oral. Além do mais, é habitué do mundo do cinema, por uma razão muito simples: seu livro Romantic Revolutionary: a Biography of John Reed (1975) serviu como fonte para o épico hollywoodiano Reds, dirigido e interpretado por Warren Beatty.

Reds (1981) conta a história de John Reed, o americano bem-nascido que cobriu como jornalista as revoluções do México e da Rússia, e nelas se envolveu mais do que exigiria sua patente de repórter. Conheceu Pancho Villa e Zapata, Trotski e Lenin. Foi um dos fundadores do Partido Comunista americano e, depois de muitas peripécias, morreu de tifo na União Soviética, com 33 anos, sendo enterrado na Muralha do Kremlin como herói nacional. Vida romântica de um jovem que conviveu com as ideias revolucionárias no Greenwich Village no início do século e viajou em busca da revolução - a grande aventura da esquerda do século 20. Um personagem e tanto, encarnado por Warren Beatty, que escalou Diane Keaton para o papel do grande amor de Reed, Louise Bryant. No elenco há também Jack Nicholson como Eugene O”Neill, que foi amante de Louise, e Maureen Stapleton, como Emma Goldman, anarquista que se decepciona com a revolução bolchevique.

A familiaridade de Rosenstone com o projeto de Reds vai além do fato de assinar o livro que serviu de ponto de partida à produção. Trabalhou como consultor histórico nos sete anos de pré-produção e fez parte da folha de pagamento nas filmagens. Participou intimamente de todo o projeto e sua realização. O que o coloca não apenas em posição de analisar o filme de Beatty, mas de compará-lo com as outras duas versões sobre a vida do personagem - Reed, México Insurgente (1973), do mexicano Paul Leduc, e Krasnye Kolokola (1982), do soviético Sergei Bondarchuk.

São três maneiras de “interpretar” (pois é disso que se trata) o mesmo personagem, bem como o pano de fundo histórico no qual ele se move. Reed seria mais bem considerado como narrativa de formação, aquela na qual o personagem encontra seu destino e vocação. Os dois episódios de Krasnye Kolokola formam um épico, no qual o indivíduo fica em segundo plano diante dos grandes acontecimentos dos quais participa. E Reds seria uma história de amor com o fragor da revolução como pano de fundo, na qual Louise Bryant teria papel quase tão relevante quanto Reed. São recortes feitos na apreensão de uma vida, recurso inevitável tanto na “superficialidade” de um épico hollywoodiano quanto numa extensa biografia em livro, pesquisada até a exaustão. Vidas são complexas e contraditórias em excesso para serem evocadas em narrativas que exigem um mínimo de coerência em sua forma. Esse é o grande desafio biográfico, na tela ou na letra de forma.

Nessa empreitada de interpretação histórica e biográfica, o cinema tem sido considerado “menor”, preconceito no qual o próprio Rosenstone incorre ao escrever um artigo sobre Reds, na época do lançamento, no qual critica certas liberdades tomadas pelo filme. Vinte anos depois, ele pode reavaliar sua crítica e constatar, de forma meridiana, que, “Reds não fala por intermédio da linguagem literária, mas no idioma cinematográfico. Esse é o ponto. Em sua análise, que inclui filmes do soviético Sergei Eisenstein sobre a Revolução Russa (Outubro, O Encouraçado Potemkin) ao norte-americano Oliver Stone sobre a Guerra do Vietnã (Nascido em 4 de Julho, Platoon), Rosenstone defende o discurso cinematográfico sobre a história como tão digno quanto a pesquisa histórica. O filme pode ser visto como “nova forma de pensamento histórico”, ou, como queria Marc Ferro, historiador francês, como criador de um “contradiscurso sobre o passado”. Uma nova maneira de vê-lo e revitalizá-lo. Longe de ser arte menor, o filme histórico pode ser “capaz de meditar a respeito do passado, interrogá-lo, ou explorar o que foi reprimido por histórias oficiais”.

O tema é complexo, mas obras como JFK (Oliver Stone), A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo), entre outros, nos permitem de fato revisitar fatos históricos marcantes, como o assassinato de um presidente ou a guerra de libertação de um país. Não o fazem da mesma maneira que os livros da história, mas se mostram capazes de criar imagens, sequências e metáforas visuais ricas que nos ajudam a ver e pensar sobre o que existiu.

Vale dizer: evocam a história para que melhor nos situemos no tempo contemporâneo. Pois é exatamente isso que desejamos do passado.

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GRAYDON, Carter. Os bastidores de hollywood na vanity fair. Tradução de Clóvis Marques, São Paulo: Agir, 2010.

E as histórias do cinema

Por Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo

A cerimônia de entrega do Oscar é habitualmente marcada por discursos de agradecimento, com os vitoriosos jurando que não estariam ali, com a estatueta em mãos, não fosse a valiosa colaboração de seus pares. Terminada a leitura de Os Bastidores de Hollywood na Vanity Fair (Agir, 320 págs., R$ 49,90, tradução de Clóvis Marques), no entanto, o leitor passa a duvidar de qualquer adjetivo elogioso pronunciado especialmente por atores, diretores, produtores e roteiristas.

Organizado por Graydon Carter, editor da revista desde 1992, o livro traz uma seleção de reportagens sobre os bastidores da filmagem de longas que, ou se tornaram clássicos (como A Malvada, A Embriaguez do Sucesso e Juventude Transviada) ou ganharam notoriedade com o tempo (Cleópatra, A Primeira Noite de um Homem e Os Embalos de Sábado à Noite). No total, são dez filmes cuja produção recheada de intrigas, brigas e discussões foi detalhada por repórteres da Vanity Fair, considerada “a bíblia mensal do jet set”.

É bom lembrar que os textos foram escritos no final da década de 1990, com os repórteres recuperando detalhes a partir da lembrança dos profissionais que ainda estavam vivos. E, quando encontravam os protagonistas, tanto melhor.

Foi o caso de Elizabeth Taylor, que apresentou valiosas confidências sobre a acidentada produção de Cleópatra (1963), considerado o filme mais caro já produzido por Hollywood (44 milhões de dólares na época, um absurdo quando uma megaprodução não passava dos US$ 15 milhões, como Ben Hur). Na verdade, o longa acumulou problemas em um grau inédito até então, além do estouro no orçamento (provocado por dois elencos diferentes e dois anos e meio de filmagens em quatro países), o longa dirigido por Joseph L. Mankiewicz quase levou a Twentieth Century Fox à falência e, néctar para revistas de fofocas, evidenciou o adultério da atriz Elizabeth Taylor que, apesar de casada com Eddie Fischer, iniciou um tórrido romance com Richard Burton.

“Aquela foi provavelmente a época mais caótica da minha vida. E até hoje não mudou nada”, disse Liz, cujo affair, além de ocupar espaços mais generosos na imprensa que o feito de John Glenn (primeiro astronauta americano a entrar na órbita da Terra), motivou também a divulgação de uma “carta aberta” do Vaticano, condenando a atriz por “volubilidade erótica”, afinal, quando assinou contrato para estrelar o filme (por US$ 1 mi, aliás, outro feito para a época), Liz já tinha sido quatro vezes noiva, uma vez viúva e outra, supostamente, destruidora de um lar.

Apesar de uma exposição tão maciça na imprensa, a atriz não foi à noite de estreia nos Estados Unidos, assistindo a Cleópatra dias depois, em uma sessão particular, em Londres. E, segundo disse à Vanity Fair em 1998, dela saiu rapidamente para o hotel, onde vomitou.

A tensão é um ingrediente habitual de qualquer trabalho artístico, mas, em certos casos, chega a atingir níveis exagerados. Em A Malvada (1950), clássico também dirigido por Mankiewicz, o grau de rivalidade entre a veterana Bette Davis e sua colega Anne Baxter extrapolava o suportável, como atestou um dos atores do filme, George Sanders, vencedor do Oscar de coadjuvante por esse trabalho. “Davis tratava o tempo todo de roubar a cena de Anne Baxter, levando-a ao desespero”, contou, anos depois. “Ela interpretava uma mulher de 40 anos enciumada de uma outra muito mais jovem como se tudo aquilo estivesse acontecendo diretamente com ela. Anne sentia a tensão e a perversidade por trás de tudo, e acreditava que isso até mesmo a estimulou a atuar ainda melhor do que se estivesse na companhia de uma coestrela amigável.”

Na guerra de egos, nem uma belíssima novata chamada Marilyn Monroe escapou ? já irritando a equipe com um defeito que marcaria os filmes que faria a seguir (chegar atrasada ao set), Marilyn incomodava também Bette Davis, para quem “essa vagabunda loura pensa que sabe atuar e que basta sacudir o traseiro e sair arrulhando para roubar a cena”. Anos depois, veio o troco, quando Marilyn a chamou de “velha má”.

Todos atores, entretanto, confiavam no diretor Mankiewicz. O mesmo não se pode dizer de James Dean e o cineasta Nicholas Ray, que o dirigiu em Juventude Transviada (1955). O filme marcou a carreira do ator, que morreu dias antes da estreia, vítima de um acidente de carro. Mas, antes do início das filmagens, Dean simplesmente desapareceu, desconfiado da capacidade de Ray. Isso quase fez os produtores da Warner o demitirem do filme, o que não aconteceu por interferência do diretor. Decisão que, involuntariamente, tornou o ator em mito.

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O que Hollywood nunca contou

Reportagens da revista americana “Vanity Fair” revelam bastidores e intrigas que cercaram grandes filmes

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IMPROVISO
Dustin Hoffman e Jon Voight em “Perdidos na Noite”: conversas gravadas e enviadas ao roteirista

Por Ivan Claudio

Ao ser escalado para protagonizar o filme “Juventude Transviada”, o ator James Dean ainda não era uma estrela. Dias antes de se iniciarem as filmagens, desapareceu e deixou os produtores enlouquecidos. Quase foi trocado por outro colega. Seria o caso de especular o que teria se dado se isso tivesse realmente acontecido. A verdade é que Dean não estava se afinando com o diretor Nicholas Ray e temia se envolver demais com o personagem, mais tarde imitado por jovens do mundo todo. Acabou se envolvendo tanto que espatifou o seu carro pouco antes de o longa-metragem estrear. Situação parecida, mas não tão trágica, aconteceu com o estreante Dustin Hoffman ao fazer um teste para outro clássico: “A Primeira Noite de um Homem”. Descendente de judeus russos e integrante da cena alternativa do teatro de Nova York, Hoffman não conseguiu fechar os olhos no voo noturno que fez até Los Angeles e, na entrevista com o diretor Mike Nichols, quase desistiu de tudo. “Não tenho nada a ver com cinema. Eu devia estar na minha praia: um ator étnico num espetáculo étnico off-Broadway”, teria dito. Histórias como essas foram resgatadas no livro “Os Bastidores de Hollywood na Vanity Fair” (Agir), que compila reportagens sobre o mundo do cinema publicadas nessa revista americana. A obra não se destina apenas a cinéfilos e evita deliberadamente o linguajar técnico.

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DANÇA
John Travolta exigiu ser visto de corpo inteiro

Na maior parte do tempo, inclusive, é a intriga que ganha relevo, provando que, numa atividade movida a grandes orçamentos e intensa vaidade como o cinema, muitas vezes o destino de uma produção é decidido por um misto de capricho e pavor do fracasso. Veja o caso do citado “Juventude Transviada”. Descrente de que um enredo sobre gangues juvenis gerasse algum interesse, o produtor estava a ponto de interromper as filmagens. Não via com bons olhos os métodos de Ray, que havia dado um papel para um arruaceiro de verdade – ele ensinaria a James Dean como dar sopapos e lutar com facas. Depois da exibição das primeiras cenas rodadas, o executivo decidiu ouvir o projecionista. “Para ser franco, acho que é o único filme que vale alguma coisa aqui, no momento”, disse o homem. O produtor não apenas deu sinal verde a Ray como resolveu rodar tudo em cores e em tela larga, luxos que a produção nem tinha no início. Na reportagem sobre “Os Embalos de Sábado à Noite” fica-se sabendo que o diretor do filme, John Badham, havia editado a famosa cena em que John Travolta dança de terno branco mostrando apenas o seu rosto e os movimentos dos seus braços. Travolta ficou furioso: ia parecer que ele não sabia dançar. Era essencial que fosse mostrado de corpo inteiro. Ele então ligou para o produtor Robert Stigwood e exigiu que a sequência fosse remontada.

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BRIGA
James Dean aprendeu a lutar com uma gangue real

Conseguiu. Mas foi obrigado a colar um pôster da “pantera” Farrah Fawcett Majors no quarto de seu personagem. Sem esse detalhe, todo mundo ia achar que ele era gay, segundo o estúdio. Ao resgatar os bastidores de produções realizadas entre as décadas de 50, 60 e 70, o livro mostra uma mudança fundamental na indústria cinematográfica: a passagem da antiga para a nova Hollywood. Hoje pode parecer ridículo, mas naquela época era quase impossível conseguir dinheiro para rodar uma trama sobre uma mulher casada que seduz o seu genro, como acontece em “A Primeira Noite de um Homem”. Atriz para o papel, então, foi uma dificuldade. O marido de Doris Day nem a deixou ler o roteiro: achou tudo muito “sujo”. Ava Gardner foi logo dizendo: não tiro a roupa. Anne Bancroft, por fim aceitou, mas pressionada pelo marido, Mel Brooks. Foi indicada ao Oscar, ao lado de Hoffman.

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SEXO
Hoffman assumiu o risco de uma trama madura, vista como pornô soft

O ator é lembrado também na reportagem sobre “Perdidos na Noite”, no qual vive o semteto Ratso. Para simular o andar manco do personagem, ele colocou uma pedrinha no sapato: “Ela faz com que você manque sem pensar. Ninguém pode dizer que não é interpretação.” Hoffman contracenou com Jon Voight, o pai de Angelina Jolie, que interpretava um garoto de programa de mulheres ricas e entediadas. O agente de Elvis Presley chegou a batalhar o papel para o cantor: “Se vocês dessem uma limpada no roteiro…”, sugeriu. O longa foi um dos primeiros a mostrar nudez masculina no cinema americano, rendeu US$ 200 milhões e ganhou o Oscar de melhor filme. Hollywood já não era mais a mesma. Agora, parece que encaretou.

Leia trecho:

Os embalos de sábado à noite

No calor das baladas

Robert Stigwood, o empresário australiano de 42 anos conhecido como “o Darryl Zanuck do pop”, tinha perdido o juízo. Pelo menos era o que se comentava em Hollywood, como lembra Bill Oakes, no dia 25 de setembro de 1976, quando seu chefe convocou uma ostentosa coletiva de imprensa no Beverly Hills Hotel para anunciar que a Robert Sitgwood Organisation (RSO) acabava de assinar um contrato de um milhão de dólares com John Travolta para três filmes. Então com vinte e poucos anos, Oakes tinha trabalhado para os Beatles e também como assistente de Paul McCartney. Nessa época, dirigia a RSO Records, que se orgulhava de ter entre suas estrelas Eric Clapton e os Bee Gees. “Todo mundo achou que era loucura”, comenta Oakes, “pois até então ninguém nunca tinha feito a passagem da televisão para o estrelato no cinema. Muita gente achava que pagar um milhão de dólares por Vinnie Barbarino [o personagem de Travolta na sitcom televisiva Welcome Back, Kotter] iria nos expor ao ridículo.”

Stigwood queria que Travolta estrelasse a versão cinematográfica de Grease, o musical da Broadway que vinha fazendo uma longa temporada (do qual Tra¬volta já tinha participado no papel de Doody, um dos membros da gangue T-Bird, durante uma turnê). Cinco anos antes, Stigwood tinha feito um teste com o ator — então com apenas 17 anos — para Jesus Cristo Superstar (Jesus Christ Superstar, 1973) e, embora o papel tivesse ficado com Ted Neeley, Stigwood anotara num bloquinho amarelo: “Esse garoto vai ser um grande astro.”
Mas o contrato de aquisição dos direitos de Grease assinado por Stigwood estipulava que a produção não poderia começar antes da primavera de 1978, pois o musical ainda estava fazendo uma bela carreira. Enquanto esperavam, Stigwood e assessores começaram a buscar um novo projeto.

Alguns meses antes, um crítico de rock inglês chamado Nik Cohn havia publicado um artigo intitulado “Tribal Rites of the New Saturday Night” [Ritos tribais da nova noite de sábado] na edição de 7 de junho de 1976 da revista New York. O artigo descrevia os rituais observados nas noites de sábado por um grupo de trabalhadores ítalo-americanos de Bay Ridge, no Brooklyn, que tinham empregos provisórios mas viviam para as noites de dança numa dis¬coteca local chamada 2001 Odyssey. O preferido de Cohn, Vincent, era um sujeito durão e violento, mas um dançarino talentoso, louco por uma chance de brilhar e de se livrar das ruas decadentes do Brooklyn.

Numa gélida noite de inverno de 1975, Cohn fez sua primeira visita a Bay Ridge na companhia de Tu Sweet, um dançarino de discoteca que lhe serviria como guia. “Segundo Tu Sweet”, Cohn escreveria mais tarde, “aquela mania [das discotecas] tinha começado em clubes gays negros, passando depois pelos heterossexuais negros e gays brancos, para em seguida chegar ao consumo de massa — latinos no Bronx, imigrantes das Índias Ocidentais de Staten Island e também, claro, italianos no Brooklin.” Em 1975, dançarinos negros como Tu Sweet não eram bem-vindos nos clubes italianos; apesar disso, ele gostava dos dançarinos de lá, pelo jeito apaixonado de seus movimentos. “Esses caras às vezes não têm vida”, diria ele a Cohn. “Tudo o que têm é a dança.”

Estava rolando uma briga quando eles chegaram à 2001 Odyssey. Um dos envolvidos se jogou contra o táxi de Cohn e vomitou em sua calça. Com uma recepção dessas, os dois deram meia-volta em direção a Manhattan, mas Cohn teve tempo de vislumbrar uma figura vestindo “uma reluzente calça vermelha e um corpete preto”, que observava os acontecimentos da entrada do clube. “Ele tinha certo estilo, uma força interior, uma fome e a consciência do que tinha de especial. Ele parecia um astro”, recorda Cohn, que acabava de encontrar o seu Vincent, o protagonista de seu artigo no estilo new jornalism.*

* Gênero jornalístico que se caracteriza pela mistura de narrativa jornalística e literária. Surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960, e teve como principais expoentes Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer, entre outros. (N. do T.)

Cohn voltaria à discoteca com o pintor James McMullan, cujas ilustrações para o artigo ajudaram a convencer o nada entusiasmado editor-chefe de Cohn, Clay Felker, a publicá-lo. O título, que seria “Another Saturday Night” [Outra noite de sábado], foi substituído por “Tribal Rites of the New Saturday Night”, com uma nota informando que “tudo que é relatado neste artigo é factual”.

Na década de 1970 quase não se ouvia falar de casos de compra de um artigo de revista para servir de base ao argumento de um filme, mas “Tribal Rites” atraiu tanta atenção que o produtor de Funny Girl — A garota genial (Funny Girl, 1968), Ray Stark, e alguns outros fizeram ofertas. Cohn tinha conhecido Stigwood em Londres, e gostava dele. Stigwood vinha de uma família humilde de agricultores de Adelaide, na Austrália. Tinha chegado a Londres no início da década de 1960 e acabou gerenciando a organização dos Beatles para Brian Epstein.

Afastado na luta de poder que se seguiu à morte de Epstein, Stigwood abriu a RSO Records, e em 1968 enveredou pelo ramo do teatro, montando no West End londrino as produções de Jesus Cristo Superstar, Hair e Grease. Sua carreira de produtor de cinema começou cinco anos depois, com a versão cinematográfica de Jesus Cristo Superstar, seguida de Tommy, o musical escrito para a banda de rock The Who e dirigido pelo flamejante Ken Russell, que se transformou num dos filmes de maior sucesso de 1975.

O trato então estava feito, e Cohn recebeu 90 mil dólares pelos direitos.

Era preciso, então, encontrar um diretor.

Em Los Angeles, o assistente de Stigwood, Kevin McCormick, um brilhante jovem de 23 anos vindo de Nova Jersey, começou a busca batendo de porta em porta. “Garoto, os meus diretores fazem filmes, e não artigos de revista”, um agente foi logo dizendo. Mas quando McCormick já estava fazendo as malas para voltar a Nova York, o telefone tocou e era o agente, dizendo: “Garoto, você está com sorte. Meu cliente chegou aqui, deu uma olhada na proposta e ficou interessado. Mas primeiro você terá que ver o filme dele.”

“Foi assim que vimos Rocky, o lutador (Rocky, 1976) na segunda-feira, e chegamos a um acordo”, lembra-se McCormick, atualmente presidente de pro¬dução da Warner Bros. O cliente era o diretor John Avildsen, que trazia consigo o roteirista Norman Wexler, que acabava de receber sua primeira indicação ao Oscar pelo roteiro de Joe — Das drogas à morte (Joe), o popular filme de 1970 sobre um intolerante operário da construção civil, interpretado por Peter Boyle.(A título de curiosidade, o filme deu a Susan Sarandon seu primeiro papel no cinema.) Wexler também tinha participado da adaptação de Serpico (1973), de Peter Maas, para a telona (que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar). O que parecia combinar perfeitamente, pois Al Pacino era uma es¬pécie de santo protetor do artigo de Cohn, assim como do filme — na história, Vincent fica lisonjeado quando é confundido com Pacino, e no filme vemos o pôster de Serpico no quarto de Tony Manero em Bay Ridge, bem na frente de um famoso cartaz de Farrah Fawcett.

Alto, quase sempre metido numa capa de chuva, Wexler tragava tantos Tarytons que parecia andar envolto em fumaça. McCormick o achava “uma espécie de figura trágica, mas muito simpático”. Maníaco-depressivo, Wexler estava sempre tomando remédios e interrompendo a medicação; e quando isso acontecia era um inferno. Karen Lynn Gorney, que interpretava Stephanie Mangano, a garota por quem Tony se interessa no filme, relembra: “Ele entrava no escritório do seu agente ou tentava jogar um roteiro para alguém, e come¬çava a distribuir calcinhas e chocolates às secretárias.” Às vezes podia ficar vio¬lento, e todos sabiam que carregava uma pistola calibre .32. Uma vez, no auge de um surto maníaco, ele mordeu o braço de uma aeromoça; durante um outro voo, anunciou um plano para assassinar o presidente Nixon. “Já ouviram falar de teatro de rua?”, berrou, segurando uma foto do presidente. “Muito bem, pois aqui temos teatro de avião!” Foi detido e retirado do avião.

Mas McCormick gostou de ler o roteiro. Com 149 páginas, “era longo de¬mais, mas maravilhoso. Na minha opinião, Norman fez muito bem em criar uma situação familiar autêntica, um olhar sincero sobre a relação entre os ho¬mens e as mulheres daquele tempo, de um jeito que nunca seria possível hoje em dia”. Wexler transformou Vincent em Tony Manero e deu a ele uma irmã mais nova e um irmão mais velho preferido da mamãe, mas que lhe parte o coração ao desistir de ser padre. Durante uma briga à mesa do jantar, Tony ex¬plode com a mãe porque ela se recusa a aceitar que o filho mais velho abra mão da batina: “Você só tem três filhos que não prestam para nada!”, grita ele. A mãe — interpretada pela consagrada atriz de teatro Julie Bovasso, também autora de peças off-Broadway — começa a chorar, e Tony é corroído pelo remorso.

Antes de se transformar em ídolo dos adolescentes, John Travolta era dan¬çarino. “Acho que comecei a me interessar pela dança quando vi James Cagney em A canção da vitória (Yankee Doodle Dandy, 1942), quando tinha 5 ou 6 anos”, recorda Travolta numa pausa das filmagens da versão cinematográfica do musi¬cal Hairspray, de John Waters, em Toronto. “Eu costumava imitá-lo na frente da televisão.

Gostava mais das danças negras que das brancas. Assistia à série de TV Soul Train, e o que eu queria reproduzir em Os embalos de sábado à noite (Satur¬day Night Fever, 1977) era aquele clima de Soul Train.” Estaria ele se referindo ao seu famoso passo de dança ao som de “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees, na cena de abertura? “Era o passo do sujeito que está na sua. Eu estudei numa escola com 50% de negros, e era assim que os garotos negros caminhavam pelo corredor.”

“Ninguém me obrigou a entrar para o show business”, conta Travolta. “Eu é que queria isso feito um louco.” Nascido em 1954 em Englewood, Nova Jer¬sey, ele tinha cinco irmãos — quatro dos quais, como ele, fizeram carreira no meio artístico. Sua mãe, Helen, era uma atriz que ensinava artes cênicas para o ensino médio e que havia quebrado o recorde de natação no rio Hudson. Seu pai, Salvatore (conhecido como Sam), chegou a jogar futebol americano em regime semiprofissional, sendo coproprietário da Borracharia Travolta. Os pais permitiram que ele abandonasse o Colégio Dwight Morrow em Englewood aos 16 anos, durante um ano, para tentar carreira no teatro.
Ele nunca retomou os estudos. Pouco depois, em 1970, Travolta chamou a atenção do agente Bob LeMond quando interpretava Hugo Peabody numa produção de Bye Bye Birdie [Até logo, Birdie] no Club Benet, em Morgan, Nova York. LeMond logo lhe conseguiu trabalho em dezenas de comerciais de televisão, incluindo um para a Mutual de Nova York, no qual Travolta representava o papel de um adolescente chorando a morte do pai.

Travolta mudou-se para Los Angeles em 1974 e fez um teste para A últi¬ma missão (The Last Detail, 1973), mas perdeu o papel para Randy Quaid. Conseguiu uma ponta como o sádico namorado de Nancy Allen em Carrie, a estranha (Carrie, 1976), de Brian De Palma, pouco antes de fazer um teste para Welcome Back, Kotter, a sitcom da ABC sobre um grupo de estudantes rebeldes do Brooklyn chamado “Sweathog” e seu professor, interpretado pelo criador do programa, Gabe Kaplan.

Depois de assinar contrato para interpretar o garoto italiano meio burrinho mas sexy, Vinnie Barbarino (que alucinava as garotas com o sorriso pateta, o topete ondulado e os meneios de quadril), Travolta conseguiu o papel princi¬pal em Cinzas no paraíso (Days of Heaven, 1978), de Terrence Malick. Só que a ABC não o liberou da produção de Welcome Back, Kotter, e Richard Gere acabou tomando o seu lugar. “Eu fiquei pensando: mas o que está acontecendo? Será que algum dia eu vou conseguir meu grande momento?”, lembra o ator.

O que ele não sabia é que já havia chegado seu grande momento. A rede recebia dez mil cartas de fãs por semana — só para ele. Logo haveria pôsteres de Vinnie Barbarino por toda parte: o queixo rachado, os olhos celestiais. Quando ele aparecia em público, era sempre cercado de multidões. Quando seu álbum de estreia foi lançado em 1976, milhares de admiradoras invadi¬ram a seção de discos da E. J. Korvette em Hicksville, Long Island, e cerca de trinta mil fãs apareceram naquele que era na época o maior shopping fechado do mundo, em Schaumburg, Illinois. No lançamento de Carrie, a estranha, o nome de Travolta aparecia acima do título em algumas marquises.

A ABC propôs a ele um programa inspirado no personagem de Barbarino, mas Travolta recusou, preocupado que isso o impedisse de algum dia conse¬guir um papel importante no cinema. E então Robert Stigwood telefonou.

Embora continuasse a participar de Welcome Back, Kotter, Travolta tinha feito o protagonista de um filme da ABC intitulado The Boy in the Plastic Bubble [O garoto na bolha de plástico], a história real de um adolescente nascido sem sistema imunológico. O filme foi ao ar no dia 12 de novembro de 1976, coestre¬lado por Diana Hyland, que interpretava sua mãe. Hyland — que costumava ser considerada “um tipo Grace Kelly” — havia contracenado com Paul Newman na Broadway, em Doce pássaro da juventude, mas era mais conhecida como Susan, a esposa alcoólatra da série de TV Peyton Place. O romance que surgiu então entre Travolta, de 22 anos, e Hyland, de 40, deixou espantados muitos conhecidos do ator, e foi mais ou menos abafado para não dar muito o que falar na imprensa nem alienar seu fã-clube de adolescentes.

Foi Diana que convenceu Travolta a aceitar o papel de Tony Manero. “Eu recebi o roteiro e o li na mesma noite”, relembra ele. “Fiquei me perguntando se seria capaz de dar dimensão ao papel. Diana o levou para o outro quarto, e mais ou menos uma hora depois voltou entusiasmada. ‘Meu bem, você vai ficar sensacional nisto! É sensacional! Esse Tony é um personagem muito rico! Para começar, está com raiva de alguma coisa. Ele detesta aquela armadilha do empreguinho medíocre no Brooklyn. Enxerga lá fora um mundo de glamour à sua espera, e só é capaz de senti-lo quando dança. E consegue crescer, sair do Brooklyn.’” Travolta se lembra de ter respondido: “Ele também é o rei da disco¬teca, e eu não sou um bom dançarino.” “Você vai aprender!”, disse ela.

Stigwood “simplesmente tinha aquela certeza meio cega de que o filme ia sair”, relata McCormick. “Mas não tinha um patrocinador. Ele mesmo estava bancando o filme, com seus novos sócios, com 2,5 milhões de dólares. Eu sabia que o orçamento já chegava a no mínimo 2,8 [milhões]. Tinha dor de estô¬mago todos os dias. Estávamos fazendo um filme de orçamento baixo no 135 Central Park West — literalmente montamos a trilha sonora na sala de estar de Stigwood.

E era preciso correr: Travolta e Stigwood estavam comprometidos para logo depois com a filmagem de Grease — Nos tempos da brilhantina (Grease, 1978). Aquilo ali não passava de um filminho que tinha que ser encerrado logo.

Depois de seis meses de preparativos, surgiu um enorme problema: o di¬retor não era a pessoa certa para o filme. McCormick notou que o trato com Avildsen ficava cada vez mais difícil. “Para começar, não conseguia imaginar quem poderia ser o coreógrafo. Tivemos infindáveis reuniões com Jacques D’Amboise [principal bailarino do New York City Ballet]. Conversamos bas¬tante com Judith Jamison [estrela do Balé Alvin Ailey]. A coisa chegou a um ponto em que Avildsen queria se ver livre daquela tortura. Para piorar, ele ainda provocava. ‘Travolta está muito gordo. Não sabe dançar, não pode fazer o papel, não pode.’”

Avildsen convocou o treinador e ex-boxeador Jimmy Gambina, que trabalhou com Sylvester Stallone em Rocky, o lutador, para deixar Travolta em forma, “o que foi excelente”, comenta McCormick, “pois Travolta tem uma tendência a se largar, um pouco carente de energia, e Gambina o treinou como se fosse um lutador”. Mas Avildsen ainda não estava satisfeito, e começou a perguntar se não seria melhor que o personagem de Travolta, “em vez de ser dançarino, fosse talvez um pintor. Foi muito estranho. Estava virando Clifford Odets”, relembra McCormick. No fim das contas, Travolta tampouco estava satisfeito com Avildsen; achava que o diretor queria aparar as arestas de Tony, transformando-o num sujeito bonzinho que carrega sacolas para senhoras de idade na vizinhança — um outro Rocky Balboa.

Semanas antes do início das filmagens, Stigwood convocou Avildsen para uma reunião urgente. Soube naquela manhã que Avildsen tinha sido indicado para o Oscar por Rocky, o lutador. “Robert entrou e disse: ‘John, tenho boas e más notícias. A boa é que você acaba de ser indicado para o prêmio da Acade¬mia. Parabéns. A má notícia é que está demitido’”, conta McCormick. Avildsen ganhou o Oscar.

— E agora, que fazemos? — perguntou McCormick a Stigwood.

— Contratamos outro diretor.

Foi assim que John Badham entrou em cena três semanas antes do início das filmagens. Badham nascera na Inglaterra e tinha sido criado no Alabama, formando-se pela Yale School of Drama. Como Travolta, sua família era do meio teatral. A mãe era atriz e sua irmã, Mary, havia interpretado Scout, a filha de Atticus Finch, em O sol é para todos (To Kill a Mockingbird, 1962). Sua ligação com Gregory Peck foi responsável por abrir as portas da indústria para o irmão: para ser mais preciso, a porta da sala de seleção de correspondência da Warner Bros. Aos 34 anos, Badham ainda não tinha aparecido em mui-tos créditos — apenas alguns filmes para televisão e um de baseball em que estrelaram Billy Dee Williams, Richard Pryor e James Earl Jones (The Bingo Long Traveling All-Stars & Motor Kings, 1976). Acabava de deixar — ou de ser induzido a deixar — a direção de O mágico inesquecível (The Wiz, 1978), pois discordava da contratação de Diana Ross, então com 33 anos, para o papel de Dorothy.* McCormick mandou-lhe o roteiro de Os embalos de sábado à noite e logo tratou de botá-lo num avião para Nova York.

Ao ser apresentado a Badham, Travolta ficou surpreso de ver que seu novo diretor conhecia tão pouco de Nova York. O ator resolveu mostrar Manhattan e o Brooklyn a ele. “Eu lhe propus me tornar seu guia: ‘Quero levá-lo para conhe¬cer Nova York e os arredores — a verdadeira Nova York. Eu conheço esta cida¬de.’” E ele aprendia rápido, conta McCormick. “Badham, que era o sujeito menos musical do mundo, arranjou o coreógrafo, que era fantástico” — Lester Wilson. Travolta já vinha trabalhando com Deney Terio, um dançarino de discoteca que mais tarde apresentaria na TV um concurso intitulado Dance Fever, mas foi Wil¬son, segundo acreditam muitos membros da equipe, que deu vida ao filme.

Wilson era um coreógrafo negro que tinha trabalhado com Sammy Davis Jr. como dançarino solista em Golden Boys [Meninos de ouro], na Broadway e em Londres. De mito nas discotecas gays, ele ganhou um Emmy pela coreo¬grafia dos especiais de TV de Lola Falana. “Deney Terio realmente mostrou os movimentos a John, e deve ter seu valor reconhecido. Mas não creio que Lester Wilson tenha recebido o crédito que merecia. O filme era o Lester”, conta Paul Pape, que interpretava Double J., o membro mais agressivo da turma de Tony Manero.

Travolta refere-se a Wilson como “um cara interessante. Ele me ensinou o que chamava de ‘tempo de espera’. Acendia um cigarro para saudar o dia e introduziu ritmos afro-americanos no meu estilo de dançar. Sou o tipo de cara que precisa de ideias para construir a dança. Preciso de um enredo. Lester bo¬tava uma música para tocar e dizia: ‘Mexa-se comigo, seu babaca. Mexa-se!’”

* A menina Dorothy, nessa nova adaptação cinematográfica de O mágico de Oz. (N. do T.)

Antes de começar a filmar, eles precisavam encontrar o set ideal. Lloyd Kaufman, cofundador da Troma Entertainment e encarregado das locações na produção, conta: “Visitamos todas as discotecas de Manhattan, do Brooklyn e do Queens, e chegamos até a considerar a hipótese de adaptar um loft às nossas necessidades, até nos decidirmos pela 2001 Odyssey, em Bay Ridge. Era nossa primeira escolha desde o início, já que foi onde a história tinha acontecido de verdade.” Fora dois dias de filmagens no West Side de Manhattan e as cenas da ponte Verrazano-Narrows, o filme foi inteiramente rodado em Bay Ridge.

Filmar no Brooklyn trouxe novos desafios. Era um bairro violento, e a pro¬dução começou a ter problemas com a vizinhança. Uma bomba foi jogada na discoteca, mas não causou muitos danos. McCormick perguntou a John Nico¬lella, gerente de produção nas filmagens de forte temperamento italiano: “‘Mas que porra é essa?’ E ele respondeu: ‘Bom, é coisa dos moradores. Eles querem que a gente contrate a garotada daqui.’ Até que dois sujeitos apareceram no set e me chamaram. ‘Vocês estão perturbando a vizinhança. Talvez precisem de segurança. E se quiserem instalar luminárias na pista de boliche do outro lado da rua, o Black Stan está precisando de 7 mil paus.’” Eles pagaram.

Tom Priestley, operador de câmera em seu primeiro filme, lembra: “Nós todos crescemos em locações de Nova York, pois todos os estúdios estavam em Hollywood. Tínhamos um ou dois palcos de filmagem decentes. Mas quase sempre trabalhávamos na rua. Não tínhamos toda aquela parafernália hollywoodiana. E foi, em minha opinião, o que nos tornou resistentes e flexí¬veis. Você entende que, se consegue trabalhar em Nova York, consegue traba¬lhar em qualquer lugar.”

Para aprofundar o personagem, Travolta começou a frequentar a 2001 Odyssey com Wexler. Tinha conquistado tanta popularidade como Vinnie Barbarino que precisava se disfarçar com óculos escuros e um chapéu. Antes de ser iden¬tificado, ficava observando os Faces, os dançarinos frios e agressivos nos quais Cohn tinha baseado seu artigo, concentrando-se em cada detalhe de seu com¬portamento.

Quando era reconhecido — “Ei, cara! Ei, é o Travolta!” —, o ator notava que os machos descolados da discoteca mantinham suas garotas bem na mira. “As garotas chegavam e eles diziam: ‘Olha só, fica longe dele, não vai zoar o Travolta’, e tratavam de mantê-las na rédea. Encontrei todo aquele machismo do Tony Manero observando esses caras nas discotecas”, conta o ator.

Priestley se lembra também: “Eu achava que os caras de verdade [no Brooklyn] não iam gostar de um filme assim, como se estivéssemos curtindo com a cara deles ou algo parecido, mas eles adoraram. Havia uma dupla de irmão e irmã que era muito boa. É preciso lembrar que todas aquelas pessoas são figurantes. Eles aparecem dançando ao lado de Travolta e Donna Pescow [que interpretava Annette]. Eram excelentes dançarinos.”

Não havia efeitos especiais em Os embalos de sábado à noite, exceto a fuma¬ça que subia da pista de dança. Bill Ward, o único iluminador do filme, explica que não se tratava de gelo seco ou alguma máquina de fazer fumaça: era “uma mistura tóxica de alcatrão e pneus queimados, encontrados numa alameda de Bay Ridge”. Produzia tanto calor e fumaça que a certa altura foi necessário trazer oxigênio para Travolta. Os realizadores também tiveram muito trabalho e despesas — 15 mil dólares — para instalar lâmpadas na pista que pulsariam com a música. As paredes foram cobertas com folhas de alumínio e lâmpadas de Natal. Quando o dono da discoteca viu as primeiras cenas, comentou: “Ca¬ramba, vocês fizeram o meu clube ficar lindo!”

As filmagens começaram em 14 de março de 1977. “O primeiro dia de locações foi do lado de fora do estúdio de dança”, lembra-se McCormick. “O gerente de produção me ligou, dizendo: ‘Está o maior caos!’ Eu fui lá fora e dei com dez mil garotos na rua, e só tínhamos quatro seguranças. Tivemos então que parar umas duas horas enquanto nos reorganizávamos, tentando encon¬trar uma maneira de fazer a coisa funcionar. Pela primeira vez tivemos noção do que John representava.” No fim do primeiro dia, foi necessário suspender as filmagens e voltar para casa, pois “não tinha como mover a câmera para qualquer direção sem dar com pelo menos quinze mil pessoas. Teríamos de divulgar listas falsas de convocação dos atores e ir para lá às 5:30h da manhã” para evitar a avalanche de fãs.

Nascida no Brooklyn, a atriz Donna Pescow, que emociona no papel de Annette, a garota bobinha que quase se destrói de tanta adoração por Tony, estava no trailer de maquiagem com Travolta quando foram cercados por fãs que começaram a sacudir o trailer. “Foi apavorante”, lembra-se ela. “Eles então foram falar com os chefões do bairro, que mandaram parar com aquilo. Estávamos praticamente comprando proteção. Era uma situação muito esqui¬sita.” Mas Karen Lynn Gorney achava que a energia liberada por milhares de admiradoras de Travolta gritando “Barbarino!” contribuía para o clima no set. “Ajudou o filme”, diz ela. “Tantos hormônios femininos circulando — era um bom sinal. As mulheres não estão acostumadas a expressar sua sexualidade, e o que vemos é isso, toda essa gritaria e choradeira, pois elas estão com as gônadas presas.”

Entretanto, Travolta passava por uma tragédia pessoal: a luta de Diana Hyland contra o câncer de mama. Quando ele começou a se preparar para interpretar Tony Manero, ela estava morrendo. Travolta fez muitas viagens de Nova York a Los Angeles para ficar com ela, e por isso estava constantemente estressado e sofrendo de jet lag. Duas semanas depois do início das filmagens, ele pegou um avião para a Costa Oeste, para estar ao lado de Diana uma última vez. “Quando se apaixonou, ele não sabia que Diana já estava doente”, contaria mais tarde a mãe de Travolta, Helen, à revista McCall, “mas ficou ao lado dela ao descobrir”. No dia 27 de março de 1977, Hyland morreu em seus braços.

Andy Warhol estava no voo em que Travolta voltou para Nova York. Mais tarde, escreveria em seu diário: “John Travolta ia toda hora ao banheiro e voltava com os olhos vermelhos, tomava suco de laranja e bebidas alcoólicas num copo de papel, até que deitou a cabeça no travesseiro e começou a cho¬rar. Também o vi lendo um roteiro, e achei que estivesse atuando, parecendo muito gracioso e sensível. (…) Ele tem mesmo um quê de magia. Perguntei à aeromoça por que ele estava chorando, e ela respondeu ‘morte na família’. Fiquei pensando ser a mãe ou o pai, até chegar em casa e ler no jornal que se tratava de Diana Hyland, a estrela de novelas que era a namorada dele e tinha morrido de câncer aos 41 anos.”

Karen Lynn Gorney diria mais tarde que chegava a sentir o espírito de Diana no set, “protegendo-o, pois ele estava mergulhado em profunda dor e precisava superar. Se se entregasse àquela dor, ele não conseguiria dar a volta por cima. Mas era muito profissional. Lembro a cena na ponte de Verrazano, quando eu me inclino para beijá-lo. O pobrezinho estava sofrendo tanto, e aquele beijo era completamente espontâneo. Não eram Tony e Stephanie que estavam ali: aquilo aconteceu porque eu realmente percebi que ele estava muito triste”.

Há outra cena linda entre Travolta e Gorney, quando Stephanie concorda em ir com Tony a um restaurante do Brooklyn. “Queríamos ver até onde era possível filmar com uma tomada só”, conta Badham referindo-se à cena filmada através das janelas do restaurante, de tal maneira que eles são vistos num des¬lumbrante reflexo onírico dos arranha-céus da cidade — “mágico e distante”. Os dois tentam impressionar um ao outro, querendo se mostrar muito expe¬rientes, mas na verdade chegam a ser cômicos em sua ingenuidade. (Stephanie diz a Tony que os nova-iorquinos sofisticados bebem chá com limão.) “Os dois tentam parecer muito mais sofisticados do que realmente são”, comenta Badham. À medida que a cena se desenvolve, a luz vai sutilmente mudando, o fim de tarde dando lugar à chegada da noite.

Badham e Travolta entraram em confronto algumas vezes. Quando Travolta viu pela primeira vez o copião da cena inicial, na qual um ator substituto — filmado do joelho para baixo — dá a famosa caminhada pela 86th Street, na Broadway, ao som de “Stayin’ Alive”, insistiu que o personagem não anda¬ria daquele jeito. Fez com que Badham gravasse de novo a cena, dessa vez o próprio Travolta descia a avenida.

Mais tarde, ao ver como seu grande solo de dança havia sido montado, Travolta ficou furioso. “Comecei a chorar e fiquei muito irritado com a maneira como o principal número de dança foi filmado. Eu sabia como tudo precisava aparecer na tela, e a cena não foi rodada como devia. Não dava nem para ver os meus pés!” A sequência tinha sido montada de maneira a destacar os primeiros planos, por isso todo o seu incrível trabalho — as quedas em cima do joelho, as pernas abertas em compasso, todo o solo no qual havia trabalhado durante nove meses — estava cortado do joelho para baixo. Travolta sabia que, para a cena funcionar realmente, ele tinha que ser visto da cabeça aos pés, assim ninguém ficaria pensando que outra pessoa havia dançado em seu lugar. Um dos mais famosos números de dança da história do cinema quase não chegou às telas.

“Telefonei a Stigwood”, conta Travolta, “chorando e furioso, e disse: ‘Robert, vou deixar o filme. Não quero mais me envolver com isso.’”
Stigwood o autorizou a remontar a cena, contra a vontade de Badham. Aos 23 anos, Travolta sabia o que queria e o que era capaz de fazer, e tratava de proteger o personagem e sua incrível expressão corporal.

“No início os Bee Gees nem sequer participavam do filme”, relata Travolta. “Eu dançava ao som de Stevie Wonder e Boz Scaggs.” Mas quando eles chegaram, tudo mudou.

Stigwood viria a considerar os Bee Gees como cocriadores do filme. “Aque¬las cinco primeiras canções”, diz Bill Oakes, “que eu botei no primeiro lado do álbum duplo da trilha sonora — ‘Stayin’ Alive’, ‘How Deep Is Your Love’, ‘Night Fever’, ‘More than a Woman’ e ‘If I Can’t Have You’ [composta pelos irmãos Gibb mas cantada pela mulher de Oakes na época, Yvonne Elliman] — são exatamente as músicas que a gente não conseguia parar de ouvir”. Mas em 1976, antes que Stigwood comprasse os direitos do artigo de Cohn, “os Bee Gees estavam quebrados”, lembra-se McCormick. “Faziam turnês pela Malásia e pela Venezuela, os dois países onde ainda eram populares. Estavam muito mal. Todo mundo [no grupo] tinha lá o seu drama.” Mas Stigwood “ainda tinha essa capacidade inata de detectar uma tendência, como se tivesse implantado no cérebro um giroscópio pop”, acrescenta.

Os Bee Gees são formados por três irmãos — Barry, Robin e Maurice Gibb — nascidos na ilha de Man, no Reino Unido, e criados na Austrália, e cujo primeiro grande sucesso, “New York Mining Disaster 1941”, fez muita gente pensar que tinha sido gravado secretamente pelos Beatles sob pseudônimo. Logo depois viriam mais dois outros sucessos: “To Love Somebody” e “How Can You Mend a Broken Heart”. A rápida chegada da fama e do dinheiro representou uma enorme pressão para o grupo: eles se separaram, tentaram carreiras solo, voltaram a se juntar e na época de Os embalos de sábado à noite eram considerados uma banda dos anos 1960 datada, mergulhada em drogas, álcool e problemas jurídicos. Ainda assim, Stigwood os contratou para sua gravadora e mandou “Jive Talkin’” para as estações de rádio anonimamente, pois ninguém mais queria saber deles. Oakes lembra que, no início da década de 1970, “já era difícil conseguir botar os Bee Gees de novo no rádio, pois eles praticamente haviam entrado para uma lista negra”. Mas quando “Jive Talkin’” estourou as pessoas se surpreenderam ao saber que “aqueles carinhas cantando música de discoteca em falsete eram na verdade os bons e velhos Bee Gees — mais uma vez, a genialidade de Stigwood”. A canção e o álbum do qual fazia parte, Main Course, foram um enorme sucesso. Embora eles não fossem na verdade uma banda disco — não frequentavam pistas de dança, nem sequer dançavam! —, Stigwood achava que tinham “a batida da pista no sangue”, comenta Oakes.

Quando Stigwood falou sobre o artigo de Cohn e pediu que compusessem canções para o filme, os irmãos haviam voltado para a ilha de Man, por motivos fiscais. Barry Gibb sugeriu alguns títulos, entre eles “Stayin’ Alive” e “Night Fever”, mas só quando eles se reuniram no estúdio do Chateau D’Heuroville, na França, para fazer a mixagem de um álbum gravado ao vivo, intitulado Here at Last Live, é que eles completaram as canções — tendo-as escrito praticamente num fim de semana.

Stigwood e Oakes apareceram em Heuroville, e os Bee Gees mostraram o que tinham: “How Deep Is Your Love”, “Stayin’ Alive”, “Night Fever”, “More than a Woman”. “Eles ficaram muito entusiasmados e disseram que era genial. Nós ainda não tínhamos a menor ideia do que era o filme, a não ser por um esboço de roteiro que eles traziam”, relata Barry Gibb. “É importante lembrar que, em 1975, nós estávamos completamente estagnados, o som dos Bee Gees já estava esgotado. A gente precisava de alguma coisa nova. Não emplacávamos um disco de sucesso havia três anos. Sentimos que tinha chegado o fim. Cumprimos nosso ciclo de vida, como a maioria dos grupos no fim da década de 1960. Então, precisávamos encontrar alguma coisa. Não sabíamos o que ia acontecer.”

Oakes fez a mixagem da trilha sonora no estúdio da Paramount. Os executivos da companhia o interpelavam no refeitório, perguntando: “‘Como é que vai seu filminho de discoteca, Billy?’ Achavam que era uma bobagem, que a época da discoteca já tinha passado. Hoje em dia, costuma-se achar que Os embalos é que disparou o fenômeno das discotecas, mas não foi bem assim. A verdade é que o filme infundiu nova vida num gênero que estava morrendo.”

A música mexeu profundamente com o elenco e a equipe toda. Recorda-se Priestley: “Todos achavam que tínhamos entrado na maior fria, e de repente ouvimos aquela música. Ela mudava tudo. Só ouvimos a trilha sonora depois de já estarmos filmando há cerca de três semanas. Mas quando ouvimos, todo mundo exclamou: ‘Uau!’ Ela vinha envolta numa aura. Quero dizer que não sou nenhum fã de disco music, mas aquela música transcendia isso.” Pela primeira vez, todo mundo ousava imaginar que o filme podia ser um fenômeno. Gorney, que era filha de Jay Gorney, autor de canções de sucesso como “Brother, Can You Spare a Dime” e “You’re My Thrill”, teve a mesma reação: “Na primeira vez que ouvi a música eu disse: ‘Vai ser um sucesso de arrasar.’”

“Qual foi o alcance de Os embalos?”, vem a pergunta retórica de Karen Lynn Gorney. “Três meses, trinta anos, e a coisa ainda não acabou. Parecia que eu estava sempre trabalhando no filme, por causa da dança. Fisicamente, eu não estava bem quando comecei. Estava apavorada, pois, a primeira vez que dancei com John, ele já estava trabalhando naquilo havia seis meses. Parecia que eu estava tentando dançar com um garanhão selvagem, tão bom ele era.”

Atriz e dançarina, muito conhecida na época como a Tara Martin Tyler Brent Jefferson da interminável novela da ABC All My Children [Todas as minhas crianças], Gorney conseguiu o papel depois de dividir um táxi com o sobrinho de Stigwood. Como ele começou a falar do filme, ela perguntou: “E eu estou nele?” Foi testada por Stigwood em seu apartamento no San Remo, no Central Park West. “Lembro a enorme tela de seda chinesa pendurada na parede, con¬tando toda a história da China. Diante dela, fiz a melhor interpretação da minha vida.” Ela ficou com o papel de Stephanie, a ambiciosa jovem do Brooklyn que já havia conseguido chegar “à cidade” e só pensava em aprender e se aperfeiçoar, fazendo cursos e bebendo chá com limão. Tony a lembra do bairro de que está tentando fugir. É um papel tocante e cômico — a certa altura, tentando mostrar toda a sua erudição com seu sotaque do Brooklyn, ela insiste que Romeu e Julieta foi escrito por Zeffirelli. “A personagem ficava tentando se convencer de ficar longe de Tony”, diz ela, “porque ele não poderia levá-la a lugar algum. Vozes dentro de sua cabeça diziam ‘Mas ele é jovem demais, não tem classe’.”

Houve algumas reclamações a respeito de Gorney quando as filmagens começaram. Certos membros da equipe a consideravam velha para o papel, e também que não dançava tanto assim. (Ela sofrera graves ferimentos num aci¬dente de moto alguns anos antes.) Entretanto, em sua crítica do filme, Pauline Kael considerou seu desempenho comovente: “Gorney nos conquista tanto com seu rosto pequeno e a expressão intensa e preocupada como pela maneira como diz suas falas, às vezes milagrosamente tensa e ardente. A decidida e inquieta Stephanie (…) é uma versão atualizada das moças independentes que Ginger Rogers costumava interpretar.” Sua firmeza, sua ambição e até mesmo sua cômica inocência contribuem para a autenticidade do filme. Assim como seu sotaque, tão carregado que precisa de legendas.

O outro personagem feminino importante é Annette, interpretada por Donna Pescow. Ela fez seis testes para o papel, três com Avildsen e três com Badham. Quando afinal o conseguiu, aos 22 anos, disse que seria o primeiro Natal em muitos anos no qual não teria de trabalhar como vendedora de arti¬gos de decoração na Bloomingdale’s. Ela havia passado dois anos na Academia Americana de Artes Dramáticas, em Nova York, tentando livrar-se do sotaque do Brooklyn, mas quando finalmente conseguiu o papel precisou resgatá-lo. A lendária diretora de elenco Shirley Rich aconselhou-a: “Donna, volte para casa, fique com seus pais. Desse jeito, parece que você não tem raízes.”

“Eu cresci sem usar a palavra ‘Manhattan’, era sempre ‘a cidade’ — ‘Hoje vamos à cidade’”, lembra-se Pescow. “Morava com alguns amigos porque era perto do set, e eu não dirigia. Os caminhoneiros costumavam me apanhar. Na minha primeira noite de filmagem, meu avô, Jack Goldress, me levou para o set em Bay Ridge. Ele tinha trabalhado como iluminador em teatros de vaudeville e depois como projecionista de cinema no RKO Albee, por isso o mundo do cinema não era nenhum bicho-papão para ele. Ele estava mais preocupado em encontrar um lugar para estacionar.”

Badham ensaiou Pescow e os Faces durante algumas semanas, “só para nos integrarmos. Nós frequentávamos juntos as discotecas. Travolta não podia ir porque seria facilmente reconhecido, mas os outros iam. Eu nunca tinha entra¬do numa discoteca antes”.
Uma das primeiras cenas filmadas com Donna foi a do estupro coletivo, até hoje assustadora. Um preparador da Academia Americana lhe disse certa vez: “Se tiver que interpretar uma vítima, está perdida”, e ela parece ter levado a sério a advertência. Embora fiquemos escandalizados com a maneira como seu personagem sofre abusos, vemos perfeitamente sua força e sua capacidade de resistência. No esforço de se tornar o tipo de mulher que atrairia Tony, ela se deixa abusar pelos rapazes com os quais provavelmente cresceu, foi à escola, dançou. Seu personagem é o que tem a mais clara percepção de como vinha mudando o papel das mulheres. Tony lhe pergunta, cheio de desprezo: “Mas o que você é afinal? Uma boa menina ou uma boa boceta?”, e ela retruca: “Não sei… As duas coisas?”
“John Badham e eu discordávamos o tempo todo sobre essa cena”, relembra Pescow. “Eu dizia: ‘Ela é virgem.’ E ele: ‘Não, não é.’ Por isso é que eu não inter¬pretava o papel como se ela realmente tivesse sido estuprada — pois não foi —, ela estava muito longe dali, em seu mundinho”, oferecendo sua virgindade, por caminhos transversos, a Tony Manero.

Pape reconhece que foi muito difícil filmar a cena. “Donna teve ali um momento incrível como atriz. Nós realmente temíamos que aquilo pudesse afetar nossa amizade. Conversamos muito antes de fazer a cena. Tínhamos que entrar naquela situação coreográfica, em que você violenta uma amiga sem levar em conta seus sentimentos. Tínhamos de ir a um lugar onde nenhuma proteção lhe fosse possível. Ela estava disposta a se entregar ao cara errado. E o que que¬ria realmente? Ela só queria ser amada.”

Todos no set pareciam impressionados com a vulnerabilidade de Pescow. Relata Priestley: “A equipe a adorava. Ela era fabulosa. Mas todo mundo sentia pena dela. Tem aquela sequência maravilhosa em que ela vai até Tony e per¬gunta: ‘Não vai me convidar para sentar?’ E ele: ‘Não’, e ela diz: ‘Mas me convi¬daria para deitar…’ Ela estava perfeita — aquilo não podia ser mais Brooklyn. E o vestidinho com jaqueta de pele branca… Faz a gente se sentir culpado pelas garotas que maltratamos.”

A turma de Tony Manero — os Faces —, que o acompanha e protege, admi¬rando sua dança, impedindo que as garotas o incomodem e criando caso com os porto-riquenhos, era interpretada com pathos e humor por Pape (Double J.), Barry Miller (Bobby C.) e Joseph Cali (Joey). “Pacino era o máximo como ator, o mais quente do momento. Era uma espécie de alma do filme. Quando Tony sai do quarto de cueca e sua avó italiana faz o sinal da cruz, ele grita: ‘Attica! Attica!’ — uma fala de Um dia de cão (Dog Day Afternoon, 1975)”, conta Pape, que conseguiu esse seu primeiro papel no cinema logo no primeiro teste — algo praticamente inédito —, e cujo personagem era uma espécie de “assessor prin¬cipal que poderia facilmente ter sido o líder. Mas ele tinha um problema: um temperamento difícil. Por isso é que estava na segunda posição”.

Como seus companheiros, Cali, ator de formação teatral, acabaria sendo confinado num nicho pelo papel de Joey. “As pessoas achavam que eu era mesmo aquele moleque de rua. Eu tinha que ser o Joey”, diria ele mais tarde. No papel do infeliz Bobby C., Miller protagoniza o momento mais chocante do filme, quando cai — ou pula — para a morte da ponte de Verrazano. Ele estava deprimido porque a namorada estava grávida e teria que casar com ela, acabando com aquela vida despreocupada na turma de Tony.

Os atores ensaiaram por algumas semanas em Manhattan, nas imediações da Eighth Street e da Broadway. “Nós só jogávamos basquete e fazíamos a cena em que curtimos com a cara dos gays”, conta Pape. “Estávamos todos começando na vida, novinhos em folha: era exatamente aquilo com que sonhávamos, a chance de mostrar nosso valor. E improvisávamos muito bem juntos.” (Travolta, na verdade, era um inspirado improvisador. Manero é esbofeteado pelo pai dominador durante uma discussão à mesa do jantar. Travolta improvisou: “Quer pelo menos tomar cuidado com o cabelo? Poxa, eu fico um tempão cui-dando do cabelo e você faz isso! Ele acertou no meu cabelo!”)

Preparando-se para os respectivos papéis, os integrantes do Faces foram a Times Square com a figurinista, Patrizia von Brandenstein (que viria a ganhar um Oscar pela direção de arte de Amadeus, em 1984). As roupas foram compradas em lojas, contribuindo para a autenticidade do filme. “Compramos um monte de roupas de poliéster, muita bijuteria. Ela tinha uma sensibilidade incrível para a coisa”, diz Pape. Von Brandenstein encontrou o famoso terno branco de Travolta numa butique de Bay Ridge, bem embaixo do elevado. “Era 1977”, lembra Priestley. “Todo mundo queria aparecer com um brilho, ouro em volta do pescoço, os sapatos pontudos… E não podia faltar o terno. Era o efeito ‘Hollywood está chamando’.”

Pape inspirou-se no assédio dos fãs de Barbarino durante as filmagens. “Eles não estavam ali apenas para ver Travolta”, diz. “Quando conseguiam se aproximar da gente, eles queriam ser tratados com respeito. Não queriam saber daquelas histórias de Hollywood isso, Hollywood aquilo. Era uma gente que frequentava as discotecas nos fins de semana, e que trabalhava em lojas de tin¬tas, em empregos provisórios. Aquilo era importante para eles. Não era só uma questão de chegar perto dos artistas de cinema. Eles pensavam mais ou menos assim: ‘Tudo bem, vocês são bem-vindos por aqui, mas tratem de mostrar res¬peito. É assim que nós vivemos, este é o nosso mundo. Um dos caras disse certa vez: ‘Podem tocar, mas não cuspir.’”

A presença da ponte Verrazano-Narrows em Os embalos de sábado à noite é quase mítica. Batizada em homenagem ao explorador quinhentista italiano Giovanni da Verrazano, é motivo de orgulho para os ítalo-americanos. Ao ser inaugurada, em 21 de novembro de 1964, era a mais longa ponte suspensa do mundo, ligando o Brooklyn a Staten Island. Realização americana com um nome italiano, ela simboliza a concretização de sonhos impossíveis. Tony conhece bem a ponte, e numa das cenas conta afetuosamente sua história, falando de suas dimensões, de sua grandeza. É nela que os garotos da sua turma — bêbados e cheios de uma energia selvagem — se penduram nas vigas e desafiam uns aos outros a subir mais alto. A equipe passou três desgastantes noites filmando na ponte, e foi um verdadeiro pesadelo, pois naquele mês de março o clima oscilava entre o congelado e 32 graus. Os ventos fortes ainda represen¬tavam uma ameaça adicional para as equipes e os dublês nas cenas arriscadas. Acumulando as funções de dublê de Travolta e usando os sapatos e as calças de Tony Manero, Priestley, o operador de câmera dessa cena, subiu na viga principal da ponte com uma câmera na mão e filmou a si mesmo, tendo apenas o chefe dos maquinistas a segurá-lo pela cintura. “Eu era jovem. Nessa idade, a gente não está nem aí para o perigo. Mas estávamos a 180 metros da água. Peguei a câmera e simplesmente filmamos. Queríamos mostrar a Hollywood que éramos capazes de fazer grandes filmes.”

“Eles estavam falando de nos prender a fios”, relembra Pape, “mas eu disse ‘não’ e simplesmente saltei num dos cabos para mostrar que sabia muito bem rodopiar. Não havia rede de segurança. Eu estava dezenas de metros acima da água. Foi tudo improvisado, sem qualquer planejamento. Dei um salto lá para cima e avisei: ‘Vamos em frente, vamos acabar logo com isso.’”

O elenco e a equipe achavam que a Paramount não estava dando a menor importância a Os embalos de sábado à noite. “Reservaram para nós no estúdio um escritório do tamanho de uma despensa”, diz Oakes. “Eles não acreditavam no filme. Só Stigwood sabia que ia ser sensacional. Para o estúdio, não passava de um ‘filminho de discoteca’ — era a frase que não saía da minha cabeça.”

Na verdade, Michael Eisner, recém-nomeado diretor de produção da Paramount, ouvia boatos de que o filme era muito vulgar. Em pré-estreias em Cincinnati e Columbus, metade do público tinha se retirado por causa da linguagem e das cenas de sexo. McCormick lembra-se de ter sido chamado no aeroporto JFK: “Atendo o telefone e é o Eisner, que começa a gritar comigo porque só tínhamos tirado dois ‘foda-se’ do filme. A coisa evoluiu para uma daquelas discussões ridículas nas quais eles diziam: ‘Tirem dois ‘foda-se’ em troca de um ‘cucaracho’.” Stigwood finalmente concordou em tirá-los, e pronto — disso ele não passava. Mas eles resolveram deixar “boquete”, o que, segundo alguns, representava a primeira vez que a palavra era pronunciada num filme de longa-metragem. (As tentativas de contatar Eisner foram infrutíferas até a primeira publicação deste artigo.)

Não era apenas uma questão de linguagem. Alguns dos engravatados da Paramount não gostaram de como Travolta tinha sido filmado numa das cenas — ajeitando-se diante do espelho de cueca, com uma corrente de ouro caindo sobre o peito cabeludo — pelo diretor de fotografia Rald D. Bode. “Sofremos todo tipo de pressão”, lembra-se Badham. “Estávamos filmando o cara de roupa íntima, mostrando o corpo.” A imagem do esbelto Travolta, com toda sua carga erótica, era tão homoerótica que o desenhista de produção, Charles Bailey, resolveu colocar em seu quarto o famoso pôster de Farrah Fawcett só para acalmar o clima.

A Paramount ainda enfrentaria outro probleminha antes da distribuição do filme. Hairspray — Em busca da fama (Hairspray, 2007) não foi a primeira vez em que John Travolta apareceu travestido. Para descontrair no fim das filma¬gens, Travolta e alguns membros da equipe filmaram um “casamento” na disco¬teca — só para se divertir —, no qual John aparecia vestido de noiva e um dos maquinistas, no papel do noivo. “Eles queriam fundir a cuca de todo mundo na Paramount”, conta Bill Ward. Mas quando os executivos do estúdio chegaram, segundo Tom Priestley, “não acharam a menor graça. Mandaram alguém para assumir o controle do filme, e tenho certeza de que pisaram no freio”.

Stigwood lançou a trilha musical antes do filme, numa estratégia que não só funcionou como mudou as regras do jogo. “Ele praticamente inventou um novo modo de negociar a distribuição de filmes, discos, peças e programas de televisão”, pondera Oakes. “Acho que o fato de ele ser australiano influiu muito, com aquele tipo de empreendedorismo meio aventureiro. Não creio que tivesse tido tanto êxito se fosse inglês.”

Eisner estava esquiando em Vail duas semanas antes da estreia do filme, em 7 de dezembro de 1977. “Ouvi ‘Stayin’ Alive’ no elevador, no térreo, e começamos a subir até o último andar, no restaurante, e lá também estava tocando a música. Resolvi telefonar para Barry Diller, o presidente da Paramount, e perguntei: ‘Quem diz que não teremos um sucesso daqueles?’ Então, o filme estreou”, prossegue Eisner, e Travolta “era o maior sucesso já visto”. Quando o filme foi lançado, no Grauman’s Chinese Theatre, foi um fenômeno. Nos 11 primeiros dias, arrecadou mais de 11 milhões de dólares — e chegaria a 285 milhões; a trilha musical seria a mais bem-sucedida de todos os tempos — até O guarda-costas (The Bodyguard), com Whitney Houston, em 1992.

Travolta, que achava que estavam fazendo apenas “um filminho de arte no Brooklyn”, ficou pasmo. Não apenas deu nova vida à disco music como mudou o visual dos jovens americanos. “De uma hora para outra, milhares de jovens de cabelo desgrenhado que vestiam jeans começaram a usar ternos e paletós, penteando o cabelo e aprendendo a dançar”, escreveu a Newsweek. A loja de departamentos Abraham & Straus, no Brooklyn, abriu uma butique de roupa masculina a la “Night Fever”. Os concursos de sósias de John Travolta formavam filas dando volta no quarteirão. Admiradores do calibre de Jane Fonda e Gene Siskel, crítico de cinema do Chicago Tribune que viu Os embalos de sábado à noite nada menos que vinte vezes, fizeram lances pelo terno de Travolta quando foi oferecido num leilão beneficente em 1979. Siskel levou a melhor sobre ela, por 2 mil dólares. (O traje hoje está avaliado em 100 mil, e se encon¬tra na Smithsonian Institution.)

Pape e Pescow foram ver o filme num cinema do Brooklyn. “Era a primeira vez que o via com as pessoas que havíamos retratado”, lembra-se Pape. “Foi incrível. Eles dialogavam com a tela, gritavam, e quando saímos do cinema, fomos agarrados. Mas não era um assédio ruim, pois eles estavam dizendo: ‘Vocês acertaram na mosca! De que parte do Brooklyn vocês são?’ Era um assédio positivo.”
No fim das contas, pondera Karen Lynn Gorney, o filme era tão autêntico que mais parecia um documentário. “Nós improvisamos durante duas semanas, e, quando começamos a filmar, Badham limitou-se a rodar o que estava acontecendo. Era como se não estivéssemos representando.”

Para os Bee Gees, com o sucesso da música, a vida virou um pandemônio. “Os embalos estavam em primeiro lugar toda semana”, lembra-se Barry Gibb. “Não era um álbum de sucesso como outro qualquer. Era o número 1 toda santa semana, durante 25 semanas. Foi uma época muito louca, inacreditável. Lembro que nem podia atender o telefone, e que tinha gente tentando escalar o meu prédio. Fiquei muito feliz quando acabou aquilo. Era irreal demais. A longo prazo, dá para viver melhor quando as coisas não são assim o tempo todo, por mais legal que fosse.”

Quando começaram a sair as críticas, Travolta viu seu agente, Bob LeMond, chorando discretamente na Palm Court do Plaza Hotel. Ele estava lendo a crítica de Pauline Kael publicada na edição de 26 de dezembro de 1977 da New Yorker. Até hoje Travolta guarda com carinho as palavras de Kael: “[Ele] atua como quem realmente adora dançar. E, mais que tudo, atua como quem realmente adora representar. (…) Expressa nuanças emocionais que não cons¬tam nos roteiros e sabe nos mostrar a integridade e a inteligência por trás da rudeza de Tony (…) ele não é apenas um bom ator, mas um ator de coração generoso.”

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas indicou Travolta para o Oscar de melhor ator, ao lado de Richard Dreyfuss, Woody Allen, Richard Burton e Marcello Mastroianni — o prêmio foi para Dreyfuss, por A garota do adeus (The Goodbye Girl, 1977). Mas os Bee Gees foram esnobados. Stigwood ameaçou entrar na justiça e McCormick protestou em sua casa, em Los Ange¬les, com uma “festa anti-Oscar”. Entre os convidados estavam Marisa Berenson, Tony e Berry Perkins, Lily Tomlin e o escritor Christopher Isherwood — até Ava Gardner apareceu. “Foi o último lance envolvendo Os embalos de sábado à noite” para McCormick. “Depois disso, acabou para mim.”

O filme mudou a vida de John Travolta. Ele havia se tornado, para os anos 1970, o que Brando e Dean tinham sido para os 1950. Travolta considera que Os embalos de sábado à noite conferiu uma identidade à década. Pape acha que era simplesmente o destino de Travolta: “Às vezes chega aquele momento que é mes¬mo o seu. Era como se tivesse que acontecer na vida do John, e todo mundo tinha que sair da frente.” Quando o estrelato chegou para Travolta, era como se não tivesse para mais ninguém em sua estratosfera. “Só dava eu”, lembra ele. “Alguns anos depois, viriam Tom Cruise, Tom Hanks e Mel Gibson, mas durante muito tempo não havia mais ninguém. Era mais ou menos como a popularidade do Valentino, uma fama quase inconcebível. Não que eu quisesse concorrência, eu só queria companhia.”

Para Pape, o filme era algo como “ser amarrado a um foguete. Eu quase me tornei vítima de meu próprio sucesso. Todo o meu treinamento de palco, tudo o que eu havia feito começava a funcionar contra mim, pois só me ofereciam papéis semelhantes. Aquilo que nos tornava famosos é que servia para nos aprisionar”. Pescow, que recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante do Círculo de Críticos
Cinematográficos de Nova York por sua participação no filme, seria muito elogiada posteriormente no papel de uma garçonete num seriado de televisão, Angie, que não durou muito. Depois disso, passou “anos esperan¬do por um papel no cinema. E como não acontecesse, percebi que minha vida tinha se transformado numa sala de espera. E isso eu não podia aceitar”. Atual¬mente, Pape é muito requisitado como narrador na televisão e no cinema, além de presidir sua produtora, a Red Wall Productions. E o retorno profissional de Pescow não passou despercebido. Como se quisesse estabelecer um vínculo entre Tony Manero e Tony Soprano, ela participou do polêmico episódio final de Família Soprano.

No fim da década de 1990, Joseph Cali aparecia eventualmente na televisão, em programas como SOS Malibu e Melrose, mas atualmente se dedica sobretudo à venda de equipamentos de home theater da Cello Music & Film Systems, empresa que fundou há seis anos. Gorney participou de dezenas de filmes independentes desde Os embalos de sábado à noite. Pode ter sido responsável pelo início de uma vertente de heroínas duronas com sotaque do Brooklyn, personificadas por atrizes como Marisa Tomei, Debbie Mazar e Lorraine Bracco.
McCormick afirma que trabalhar em Os embalos “foi o momento mais empolgante da minha vida. Eu nunca acordei tão cedo e mal podia esperar para ver as tomadas à noite. Passei de um período sombrio a uma fase gloriosa. E no fim a gente nem sabia como a coisa ia funcionar. Eu só ficava rezando para que o filme fizesse bastante sucesso e eu conseguisse trabalhar num outro”. Suas preces foram atendidas. Na Warner Bros., McCormick supervisionou filmes como Syriana (2005), A fantástica fábrica de chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005), Mar em fúria (The Perfect Storm, 2000), Divinos segredos (Divine Secrets of the Ya-Ya Sisterhood, 2002), Clube da luta (Fight Club, 1999) e Diamante de sangue (Blood Diamond, 2006).

O cometa de Stigwood também continuou a brilhar — por algum tempo. Os embalos foi seguido de Grease — Nos tempos da brilhantina, cuja arrecadação foi ainda melhor. Mas, talvez inevitavelmente, Stigwood e os Bee Gees se desentenderam. A banda moveu contra ele uma ação judicial pedindo 120 milhões de dólares, mas o caso seria resolvido fora dos tribunais. A RSO fechou em 1981. “Pensei que estivesse trabalhando para um mago, um alquimista”, diz McCormick, mas depois de Os embalos de sábado à noite “não era mais possível fazê-lo se interessar por nada. Ele não se empenhava para valer. Queria se sentir seguro. E aquele dinheiro todo foi parar nas Bermudas”, onde Stigwood manteve uma propriedade senhorial durante alguns anos. Comenta Oakes: “Ele se distanciou da vida cotidiana, quase como Howard Hughes. Literalmente vivia no seu iate, ou em alguma suíte. Conseguir que ele saísse era um verdadeiro acontecimento.”

Travolta considera que “a grande diferença entre Stigwood e eu era que, quando se consegue algo grande assim, as pessoas preferem se abster se não for para repetir aquele sucesso incrível. Ele tirou o time de campo, transferiu-se para as Bermudas, decidiu pendurar as chuteiras”. No caso de Travolta, a coisa foi diferente.

“Nunca foi apenas uma questão de dinheiro. A vida inteira eu quis ser ator de cinema. Já para Stigwood, se não fosse para estar sempre no auge, ele preferia partir para outra.”

Depois do sucesso de Grease — Nos tempos da brilhantina, Travolta também amargou um período de vacas magras. Seu terceiro filme para a RSO, Vivendo cada momento (Moment by Moment, 1978), com Lily Tomlin, foi uma decep¬ção tanto de crítica quanto de público. Em 1983, Stigwood coproduziu uma continuação de Os embalos de sábado à noite intitulada Os embalos de sábado continuam (Staying Alive), cujo autor-diretor era Sylvester Stallone. Embora o roteiro tivesse a participação de Norman Wexler, o filme foi um desastre. “O filme era mais curto, cinco vezes mais caro e nada bom”, lembra-se Oakes, que se afastou de Hollywood logo depois. “Foi quando eu decidi: ‘Vou parar por aqui.’” Depois de escrever um filme para Arnold Schwarzenegger — Jogo bruto (Raw Deal, 1986) —, Wexler começou a recusar trabalho. “Fui demitido pelo meu agente”, comunicou ele todo satisfeito aos amigos, para em seguida voltar a escrever peças. A última, em 1996, foi uma comédia, Forgive Me, Forgive Me Not [Me perdoe, não me perdoe]. Ele morreria três anos depois.

A carreira de Travolta obteve certo impulso com duas comédias, Olha quem está falando (Look Who’s Talking, 1989) e Olha quem está falando também (Look Who’s Talking Too, 1990), mas em 1994, ao chamar a atenção de um jovem cineasta cheio de ideias que acabava de chegar a Hollywood, o preço de seu cachê tinha caído para 150 mil dólares. Quentin Tarantino era um grande fã de Travolta, e lhe deu o papel de Vincent Vega, um assassino de aluguel com talento para a dança, em Pulp Fiction — Tempo de violência (Pulp Fiction). Depois da série Welcome Back, Kotter e de Os embalos de sábado à noite, era a terceira vez que um personagem chamado Vincent transformava a carreira de Travolta.

Quanto a Nik Cohn, ele reconhece que, “nos Estados Unidos eu sempre fui e continuarei a ser aquele cara de Os embalos de sábado à noite”. Vinte anos depois do lançamento, ele publicou na revista New York um artigo explicando como tinha criado o personagem de Vincent, juntando todos os Faces com que esbarrara em suas idas e vindas pelo mundo da cultura pop no Reino Unido e nos Estados Unidos. Não existia um Tony Manero de verdade, apenas aquele que havia se transformado em carne e osso graças ao roteiro de Wexler e ao desempenho de Travolta. Para Cohn, “o fenômeno todo se resumia a Travolta, pois o seu dom especial é a simpatia. Existe algo de especial naqueles olhos de cãozinho de estimação e no sorriso que desarma. Os outros ingredientes — o meu personagem, a música dos Bee Gees, o roteiro de Wexler — tinham cada um a sua função. Mas o filme não teria sido um marco, não teria funcionado com qualquer outra pessoa. Ninguém mais poderia tê-lo feito”.

No início da década de 1980, o furor das discotecas acabou de repente, seguido de um retrocesso do qual os Bee Gees nunca mais se recuperariam. Aqueles canhestros ternos brancos e os sapatos de plataforma foram para o fundo do armário ou acabaram sendo vendidos no eBay, e o som da disco music evoluiu para a batida característica das divas club, como Madonna, e de artistas hip-hop, como Wyclef Jean (que transformou “Stayin’ Alive” em “We Trying to Stay Alive”). Em 2005, uma empresa de souvenirs chamada Profiles in History leiloou a pista de dança da 2001 Odyssey, mas a tentativa acabou em processo judicial. A boate continuou em funcionamento, pelo menos por algum tempo, no número 802 da 64th Street, no Brooklyn, com um novo nome — Spectrum —, e acabou como boate gay e black.

Mas os personagens de Os embalos de sábado à noite continuam vivos na imaginação coletiva. Lembro que, quase dez anos depois do lançamento do filme, o poeta Allen Ginsberg perguntou a Joe Strummer, do Clash, se ele acreditava em reencarnação, e Strummer nem esperou o fim da pergunta, respondendo que gostaria de voltar como “Tony Manero, aquele cara de Os embalos de sábado à noite — com aquela cabeleira inacreditável”. Era a atração irresistível de Bay Ridge!

Vanity Fair’s Movies Rock, outono de 2007

Magia da imigração

27 de março de 2010 10:48 am

imigra

Um modesto concurso de ciências para jovens demonstra o quanto importante é a reforma migratória para os EUA

Por THOMAS L. FRIEDMAN*
The New York Times

Na semana passada, fui a um grande jantar em Washington no estilo salão enorme, black-ties, vestidos longos. Mas não era um evento comum.

Havia 40 convidados de honra com nomes como Linda Zhou, Alice Wei Zhao, Lori Ying, John Vincenzo Capodilupo e Namrata Anand. Não, não era um jantar da Liga da Amizade China-Índia. Todos esses jovens são estudantes americanos de segundo grau. Eles foram a maioria entre os 40 finalistas da Caça aos Talentos de Ciências da Intel 2010, que, por meio de um concurso nacional, identifica e homenageia estudantes que mais se destacaram em matemática e ciências nos EUA, de acordo com as soluções por eles encontradas para problemas científicos.

O jantar para a entrega dos prêmios foi na terça-feira, e - como vocês podem ver pela lista acima - a maioria dos finalistas pertence a famílias de imigrantes, em grande parte asiáticos. Se precisarem de um argumento ainda mais convincente sobre as virtudes da imigração, assistam às finais do concurso da Intel.

Eu sou um fanático defensor da imigração. Estou convencido de que permitir um fluxo constante de imigrantes legais no nosso país, em macacões de operários ou com jalecos de laboratório, é imprescindível para nos mantermos à frente da China. Quando unimos todas essas pessoas repletas de energia e dotadas de grandes aspirações a um sistema democrático e ao livre mercado, acontece uma espécie de mágica. Se quisermos conservá-la, precisaremos de uma reforma da imigração que garanta que continuaremos atraindo e mantendo sempre, de maneira ordenada, os escolhidos do primeiro time mundial, com suas aspirações e intelecto.

Não é tão complicado. No mundo conectado de hoje, a competição mais importante não se dá entre países ou empresas, mas entre você e sua imaginação. Porque o que seus filhos imaginam, agora podem executar. Hoje, praticamente tudo está se tornando uma mercadoria, com exceção da imaginação.

Se eu tenho uma ideia brilhante, agora, posso chamar um artista de Taiwan para que a transforme num projeto. Posso pegar uma fábrica na China para produzir um protótipo. Posso pegar uma fábrica no Vietnã para a produção em massa. Posso usar o site Amazon.com para distribuir o produto. Uso o freelancer.com para encontrar alguém que faça meu logo e para cuidar da parte administrativa. E posso fazer tudo isso a preços incrivelmente baixos. A única coisa que não é uma mercadoria, e nunca será, é o que torna essa ideia luminosa. O jantar da Intel destinava-se justamente aos jovens que têm as melhores ideias.

Antes do início do jantar, cada concorrente explicou seu projeto específico. Namrata Anand, de 17 anos, falou pacientemente sobre sua pesquisa, na qual usou a análise espectrográfica e outros dados para expor as informações sobre a história do enriquecimento químico da “Galáxia de Andrômeda”. Não entendi uma palavra do que disse, mas percebi o brilho dos seus olhos.

Mas a conversa mais interessante foi com Amanda Alonzo, uma professora de biologia da Lynbrook High School de San José, Califórnia. Ela deu aula a dois dos finalistas. Quando perguntei qual era o segredo, respondeu que foram os pais que deram apoio aos filhos e uma bolsa que a permitiu dedicar parte do dia preparando estudantes. Depois contou: as imobiliárias de San José estão publicando anúncios na China e Índia dizendo aos imigrantes em potencial que “comprem uma casa” no distrito escolar de Lynbrook, porque produziu “dois ganhadores do prêmio de ciências da Intel”.

Devo dizer que foi a noite mais inspiradora que já tive na capital nos últimos 20 anos. O evento me fez pensar: “Se conseguíssemos que algumas coisas dessem certo - imigração, educação, política fiscal - talvez pudéssemos ser felizes.” E acreditar que a menina escolhida pelos finalistas para ser a oradora da turma estivesse certa ao dizer: “Não fiquem ansiosos com os problemas que a nossa geração terá de enfrentar. Acreditem, nosso futuro está em boas mãos.” Desde que não fechemos as portas. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

*É JORNALISTA E ANALISTA POLÍTICO

Manual prático para gestão de crises

25 de março de 2010 4:48 pm

crise

Terremotos, acidentes aéreos, recall de veículos, imagens públicas. Tudo requer gerenciamento de conflitos e irá envolver a comunicação interna e externa da sua empresa e dos seus funcionários. Comece por aqui.

Por Pedro Bramont

O mundo ainda está em choque pelos desastres no Chile e no Haiti. Consumidores ainda se perguntam o que houve com a Toyota. Nestes momentos difíceis, técnicas específicas de gestão e comunicação devem ser aplicadas.

Comecemos com as quatro etapas pelas quais qualquer crise passa.

  • Descoberta – a primeira reação;
  • Divulgação – falar o quê?;
  • Medidas reativas – o quê fazer e quando fazer;
  • Estabilização – volta à normalidade.

Descoberta -  a primeira reação

Imagine-se diretor de marketing de um laboratório farmacêutico que acaba de lançar a revolucionária pomada analgésica Bramont. Produto nas lojas, merchandising no BBB, propaganda com algum som irritante e bolinhas coloridas simulando a cura de sua dor, enfim, tudo anda bem.

De repente, você recebe uma ligação de uma pessoa que perdeu o dedão do pé depois de ter usado sua pomada. Será um caso isolado? Contamos ao mercado? Tentamos abafar?

A primeira e principal dica é: aja de forma transparente e não tente esconder o problema.

Adotando essa postura proativa, você terá a chance de se antecipar a boatos, suposições e aproveitadores de plantão. Poderá “pautar” a imprensa, influenciar (quem sabe?) o teor das matérias a respeito e terá a chance de preparar seus canais de comunicação (centrais de teleatendimento, equipe de relações públicas, canais alternativos) para fazer ecoar a mensagem desejada.

Se, no exemplo da pomada, sua empresa se fingir de morta, é grande o risco de a informação vazar e se disseminar com o apoio das mídias sociais e da internet. Aí, depois de a história espalhar pelo mundo, será tarde e caro demais: anúncios, informes publicitários e comunicados públicos.

Assim que descobrir alguma crise ou alguma potencial crise, aja rapidamente, antecipe a divulgação e paute a imprensa com a mensagem que você deseja transmitir.

Divulgação – falar o quê?

No terremoto recente no Chile, a Marinha chilena recebeu um alerta norte-americano sobre potenciais ondas enormes e não o transmitiu com a oficialidade e cuidado que o caso requeria.

Resultado? Quase uma centena de mortos por conta da demora no atendimento às vítimas que estavam em cidades costeiras e ilhas.

Para ser didático, vou dividir as comunicações em:

a) Internas (público: dentro da organização)

b) Externas (para a população, clientes etc)

Já deve ter sido montada uma “sala de guerra” (também chamada de gabinete de crise, QG etc.), na qual devem estar à disposição meios de comunicação (televisão, telefone, internet e fax) e reunidas pessoas-chave que tomarão as decisões necessárias. Mantê-las no mesmo espaço reduz a demora na retransmissão de informações e agiliza o processo decisório.

2.1 – COMUNICAÇÃO INTERNA

As comunicações internas devem ser rápidas, simples, precisas e oficiais. A experiência que tive com comunicados dessa natureza mostrou-me:

a)      Criar um “boletim” é indispensável, que terá duas categorias: ordinário (envio freqüente e sistematizado) e extraordinário (quando algo anormal acontecer);

b)      Cada boletim deve ser numerado e escrito em uma 1 página (atitude que evita erros em transmissão de fax ou quebra de textos);

c)       A comunicação deve ser dividida em blocos:

a. Fatos/problemas que ocorreram;

b. O que já foi feito e resultados;

c. Projeções;

d. Possíveis causas;

e. Sugestão de próximos passos;

f. Data/hora da coleta de dados;

g. Responsável pela informação.

Os itens d e e, por necessitarem de mais tempo para análise e prognóstico, podem ser enviados posteriormente, se sua elaboração for atrasar a divulgação da mensagem.

2.1.1 – Fatos/problemas ocorridos

Devem ser comunicados em ordem cronológica, sem referências externas ou equações. Quem ler deve conseguir repassar o recado de forma instantânea, sem a necessidade de interpretá-lo ou elaborar cálculos.

Veja um exemplo inadequado de mensagem e, depois, um mais interessante:

Exemplo inadequado: Às 8 horas do dia 06/03/2010, ocorreu um terremoto (mais forte que o no Haiti) nas cidades costeiras de Salas. Estima-se que 50% da população está desabrigada e que 10% morreu.

Exemplo adequado: Hoje, sábado, às 8 horas (4 horas atrás), ocorreu um terremoto de 9,1 pontos na escala Ritcher (escala que vai de 2 a 10)  nas cidades de Cochabamba, Burritos, Cabrón e Velasquéz, localizadas no estado de Salas. Estimam-se 25 mil desabrigados e 5 mil mortos.

Falar do dia em número (”06/03/2010″) obrigará o leitor do comunicado a olhar o calendário, além de facilitar eventual erro na digitação.

Mencionar apenas a hora absoluta (”8 horas”) não dá a noção de obsolescência da mensagem. Não explicitar as cidades atingidas (”cidades costeiras de Salas”) também obriga o leitor a procurar algum mapa e, mesmo assim, poderá causar dúvidas de interpretação.

Por fim, mencionar percentuais pode levar a interpretações diferentes, pois emissor e receptor da mensagem podem pesquisar o mesmo dado (população total) em bases de dados diferentes.

2.1.2 – Ações adotadas e resultados obtidos

As ações adotadas devem vir desprovidas de adjetivos e priorizar os aspectos técnicos (quem fez, quem autorizou, quando fez, resultados concretos obtidos, objetivo, quanto tempo vai durar etc.) das ações.

Exemplo adequado: Foram enviados hoje, sábado, às 9 horas (3 horas atrás), 01 mil soldados e 01 mil bombeiros para as cidades citadas acima, conforme autorização do Ministério da Defesa. Os soldados terão a função de conter eventuais atos de violência e ajudar bombeiros na remoção de escombros. Estão equipados com fuzis com balas de borracha. Os bombeiros terão a função de resgatar pessoas. Estão equipados com material próprio para remoção, escalada e itens para primeiros socorros e imobilização. A chegada dos soldados e bombeiros está prevista para 14 horas de hoje, sábado (daqui a 1 hora). Assim que chegarem ao local, será enviada uma nova mensagem.

2.1.3 – Projeções

As projeções devem ser acompanhadas da fonte e, em alguns casos, de uma explicação resumida do método utilizado para que o decisor possa responder caso indagado.

Uma vez citada uma projeção, ela deve ser mencionada até não ser mais necessária, indicando se houve mudança ou não na estimativa.

Os dados mais importantes (no exemplo, número de mortos, desabrigados, reabrigados, previsão de novos terremotos e cidades atingidas) devem ser inseridos num quadro à parte, o qual será atualizado constantemente.

Exemplo adequadoNão há previsão de novos terremotos (fonte: Ministério do Meio Ambiente, 12h15, 1 hora atrás). Há previsão de chuva leve, que prejudicará um pouco o resgate mas não deve provocar novas mortes (fonte: Ministério da Defesa, 12h15, 1 hora atrás). Mantêm-se as estimativas de mortos – 5 mil – mas elevaram-se as estimativas de desabrigados – de 25 para 30 mil (fonte: Ministério da Defesa, mediante estudo de outros terremotos e pela analise da densidade populacional das cidades atingidas).

Os demais itens (possíveis causas, sugestão de próximos passos, data/hora da mensagem e responsável pela informação) são de elaboração intuitiva e dispensarei comentários mais detalhados.

2.2 – COMUNICAÇÃO EXTERNA

A comunicação externa deve ficar centralizada em uma única pessoa, que participará do gabinete de crise, deve ser treinada em relacionamento com a imprensa e, de preferência, ter a imagem identificada com a organização/pessoa que estiver passando pelo momento de crise. Dessa forma, evitam-se contradições e consolida-se a coerência na mensagem, no tom e na abordagem.

Em entrevistas, o porta-voz da empresa deve priorizar frases curtas, que facilitem compreensão e repetição pela imprensa. Se não houver novidades e a pressão por novas informações aumentar, o porta-voz pode se valer de uma técnica: repetir cronologicamente o que aconteceu, falar o que está sendo feito e falar estatísticas atualizadas.

A comunicação deve ser sempre sóbria e tranquila. Deve-se ter muito cuidado para não gerar trocadilhos infelizes – exemplo: num terremoto, dizer que “a situação está agitada” e com entrevistas “em off”.

Dependendo da abrangência da crise, os canais de comunicação devem ser adaptados para facilitar o acesso à informação e contato com afetados e parentes dos afetados.

Linhas exclusivas de telefone gratuitas devem ser ativadas, com scripts simples e diretos.

À medida em que novas perguntas forem chegando, pode-se montar um FAQ (perguntas mais frequentes) e disponibilizá-lo no site da organização. Mensagens internas não devem ser divulgadas externamente: o estilo racional e direto desses comunicados pode, aos olhos de terceiros, parecer descaso ou falta de compaixão.

Por motivos óbvios, deve ser cancelado qualquer evento social, promocional ou publicitário que envolva a organização ou seus representantes.

No próximo artigo, falarei sobre as primeiras ações de gestão e estabilização de uma crise, ou seja, as medidas reativas (3) e a estabilização (4).

Sobre o autor

Pedro BramontPedro Bramont (bramont@gmail.com) é assessor sênior do Banco do Brasil (fusões e aquisições), mantém o blog Movimento Browniano e faz mestrado em Gestão do Conhecimento e TI.

Depois do Twitter, a geolocalização

24 de março de 2010 5:00 pm

Colaboração de Ulisses Cabral Bispo Ferreira (acadêmico de Direito da PUCPR)

foursquare_logo

Serviços como o Foursquare, que informam a localização do usuário, têm o potencial de alterar a relação entre empresas e consumidores

Por Breno Baldrati

Depois que o Twitter popularizou a questão “o que você está fazendo agora?”, uma outra pergunta está motivando o surgimento de novas empresas de internet: “onde você está agora?”. A ideia pode não agradar a todos, especialmente àqueles mais preocupados com a privacidade, mas os serviços de geolocalização que permitem responder à essa pergunta são apontados como o próximo grande passo das redes sociais.

Quem saiu na frente nesse mercado foi um programa chamado Foursquare, mistura de jogo, rede de contatos e guia de dicas da cidade. A ideia que move o Foursquare é simples: informar a seus amigos a sua localização. Cada vez que o usuário chega fisicamente a um estabelecimento – um restaurante, um bar ou uma faculdade – ele também pode fazer um “check-in” virtual pelo seu smartphone. Auto­maticamente, a lista de contatos dele no Foursquare é atualizada sobre a sua localização.

O diferencial do Foursquare em relação a outros serviços do gênero – Gowalla, Loopt, Google Latitude – é que ele foi além de apenas informar a localização dos usuários. O serviço criou um jogo que incentiva o aumento do número de “check-ins”. A pessoa que mais faz “check-in” num determinado local, por exemplo, torna-se “prefeito” daquele estabelecimento. O usuário também recebe distintivos (“badges”) de acordo com as características dos “check-ins”.

Carlos Wavel Chaves Filho, engenheiro de produtos de uma indústria de informática e um dos poucos usuários do Foursquare em Curitiba, já possui dez distintivos – entre eles o de “Super User”, por ter feito mais de 30 “check-ins” em um mês, e o “Local”, por ter feito três “check-ins” em um único estabelecimento dentro do período de uma semana. “Eu achei muito divertido quando, em um feriado municipal, ganhei um badge “School Night” me dando os parabéns por fazer o ‘check-in’ em um lugar depois das 3 da manhã, num dia de semana que seria letivo (de acordo com o calendário americano)”, diz ele.

Além de incentivar os usuários a sair de
casa e a conhecer lugares novos, serviços como o Foursquare podem se tornar uma arma importante para as empresas. “O conceito de negócio aqui é que os usuários estão partilhando publicamente recomendações dos lugares que freqüentam”, escreveu a revista Inc. Nos EUA, várias empresas fecharam acordos com o Foursquare. Quando alguém faz um “check-in” em algum local próximo de uma unidade da sorveteria Tasti D-Lite, por exemplo, ela recebe um alerta com uma oferta especial para que vá até o estabelecimento.

“O serviço pode ser um grande mapa de tendência de consumo dos usuários do site. Você consegue mapear os hábitos das pessoas, os locais mais badalados, os piores locais, os que têm o melhor serviço ou melhor comida. Hoje em dia, eu considero este tipo de informação uma das mais valiosas”, afirma Wavel.

No Brasil, poucos usuários

Enquanto em todo o mundo o Foursquare já conta com 500 mil usuários e 15,5 milhões de “check-ins”, no Brasil o número de pessoas que usam o serviço ainda é bem pequeno. Um levantamento não oficial feito pelo empresário Maurício Maia, um dos fundadores da BuzzVolume, mostra que nas duas primeiras semanas de março foram contabilizados apenas 641 “check-ins” no país.

A cidade com o maior número de “check-ins” foi São Paulo, com 55% do total. Curitiba é a sétima com mais acesso, atrás também de Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Campo Grande e Brasília.

O uso do serviço ainda esbarra no acesso aos smartphones (celulares mais potentes) e às redes 3G.

“Foursquare é mais ego do que serviço tecnológico”

Por Rafael Siqueira

No Brasil, um novo serviço de geolocalização deve ser lançado dentro de um mês e meio. Chamado de OndeEstou, ele já chegou a entrar no ar, mas no momento passa por um processo de reformulação. Agora, a ideia do OndeEstou é se distanciar um pouco do modelo do Foursquare e focar mais na interação dos usuários e na produção de conteúdo local, conta Rafael Siqueira, CTO (Chief Technology Officer, o chefe do setor de tecnologia) do Apon­tador.com, empresa dona do serviço. Veja os principais trechos da conversa com Siqueira, feita por telefone:

Como vai funcionar o novo “OndeEstou”?

O Foursquare é o que o OndeEs­tou queria ser há um ano e meio, mas foi um serviço que nasceu um pouco antes da hora. A ideia agora é seguir uma tendência lançada pelo Yelp nos Estados Unidos, um modelo que acredita mais na interação dos usuários contribuindo com conteúdos. O Foursquare é muito mais ego do que serviço. A pessoa se torna “prefeito”, mas não há muito mais do que isso. É uma informação estática. Quem sabe seja um modelo de negócio que dê certo, vamos ver até quando o buzz em torno dele vai durar, mas nós estamos apostando em outra direção. No nosso serviço o prefeito não será quem fizer mais “check-ins”, mas sim aquele que mais contribuir com informações sobre um local – por exemplo, aquele que mais faz resenhas sobre um estabelecimento.

Como as empresas devem se preparar para atuar nessas redes?

O poder dos consumidor do Yelp nos EUA, por exemplo, é enorme. Chega a destruir a reputação de um local, atrapalhando todo o movimento dele. Então não adianta apenas pegar essas informações, essas resenhas, e analisar. O empresário tem de encontrar uma maneira de responder, de interagir. Mas as redes sociais baseadas em geolocalização são mais do que isso, porque também são uma oportunidade de colocar as empresas locais no mesmo patamar das grandes redes. As pessoas buscam coisas ao redor delas. Por que alguém iria a uma grande loja construção que está a 15 km dela, se há uma outra, mesmo que menor, a apenas duas quadras? Se essas empresas menores não estiverem num site de conteúdo local, o consumidor final nunca saberá da sua existência. No caso do nosso serviço, a gente dá uma oportunidade para esses players locais. É a oportunidade do David brigar com o Golias. E o que vai contar é a reputação delas perante o consumidor.

Foursquare - O que é? Como usar? Dicas e truques

Por @interney

O Foursquare é um serviço de geolocalização, não confundir com a igreja quadrangular (foursquare church) ou com a marca de roupas (foursquare outerwear).

Basicamente ele permite que você indique aonde está através de um aplicativo no seu celular. Você abre o aplicativo e aparece uma lista de lugares:

Você indica o lugar em que você chegou, escolhe se vai avisar seus amigos ou não e se quer que esse check-in (esse é o nome que o Foursquare dá para a ação que você executa no aplicativo para dizer que chegou em algum lugar) apareça no twitter e facebook:

Ao efetuar o check-in você ganha pontos:

Mas qual a graça disso? Seguem alguns motivos:

Encontre seus amigos

O Foursquare permite que você crie uma rede de amigos, com quem você pode compartilhar seus check-ins. Dessa forma você pode fazer um esforço para encontrá-los caso você esteja por perto, aliás sugiro telefonar para a pessoa avisando que está por perto, aparecer de surpresa pode gerar situações embaraçosas e desencontros (a pessoa pode fazer check-in quando sair do lugar ao invés de fazê-lo quando chega).

Nas configurações da sua conta você pode escolher avisar seus amigos pelo twitter e facebook quando fizer um check-in. Quando seus amigos fazem check-in você acompanha na tela do aplicativo, ou também pode escolher receber um e-mail avisando sobre os check-ins deles.

Conheça lugares bacanas

Está sem idéias de onde ir? Preguiça de ir longe? Consulte dicas sobre os locais perto de onde você está:

Essas dicas (Tips) foram deixadas por outros usuários, você pode consultar as dicas de um estabelecimento antes de decidir visitá-lo (as dicas também estão disponíveis no site do foursquare):

Você também pode adicionar suas próprias dicas e facilitar a vidas das próximas pessoas que passarem por ali:

E se gostar muito de algum dica você pode adicioná-la numa lista (To Do):

Quando estiver sem idéias a lista de To Dos do foursquare pode te animar a sair:

Participe do jogo, ganhe pontos, suba no ranking, conquiste badges (buttons)

Cada vez que você chega em algum lugar no foursquare você ganha pontos, esses pontos criam um ranking entre você e os seus amigos e outro ranking entre todos na mesma cidade.

Se você é o usuário que mais vezes esteve em algum lugar você se torna mayor (prefeito) daquele local, isso lhe dá direito de cuidar do lugar no site do foursquare, você pode editar o endereço, o local no mapa, adicionar uma categoria no lugar, etc.

Conforme você se torna um usuário mais ativo você coleciona badges de acordo com os seus hábitos e frequência, são como pequenos troféus do jogo.

Pra quem gosta de games e competição o foursquare cria um clima saudável de disputa entre você e seus amigos, numa época que tantos reclamam de sedentarismo o foursquare incentiva as pessoas a saírem e conhecerem os lugares. Como o ranking é zerado toda semana você tem de estar em constante movimento para aparecer em destaque. A sua coleção de badges é pra sempre, então também serve pra impressionar mostrando o que você conseguiu coletar nas semanas passadas.

Quantos badges existem, como conquisto novos badges?

Existem muitos badges que são específicos de cidades e eventos, você pode encontrar uma lista bem grande aqui e aqui. Veja quais são aqueles possíveis de se ganhar no Brasil:

Newbie - Você ganha no seu primeiro check-in.
Adventurer - Faça check-ins em 10 lugares diferentes.
Explorer - Faça check-ins em 25 lugares diferentes.
Superstar - Faça check-ins em 50 lugares diferentes.
Bender - Faça check-ins em 4 dias consecutivos após às 18:00.
Crunked - Faça 4 check-ins em uma única noite, Parece que das 18:00 até as 10:00 do outro dia é considerado noite para o Foursquare, alguns usuários afirmam que precisa ser entre às 20:00 e 00:00, de qualquer maneira se você gosta de peregrinar pela madrugada vai ganhar esse badge sem muito esforço : ) 
Local - Faça check-in no mesmo lugar 3 vezes na mesma semana.
Superuser - Faça 30 check-ins em um mês.
School Night - Faça check-in depois das 3:00 da manhã num dia semana.
Photogenic - Faça check-ins em 3 lugares marcados com a tag “photobooth”.
Animal House - Faça check-ins 3 lugares marcados com a tag “frat boys”.
Overshare - Faça 10 check-ins em 12 horas.
Ziggy’s Wagon - Faça check-ins em 3 lugares marcados com a tag “food truck”.
Don’t Stop Believin’ - Faça 3 check-ins em dias diferentes em lugares marcado com a tag “karaoke”.
Gym Rat - Faça 10 check-ins em dias diferentes em lugares marcados com a tag “gym”.
Road Warrior - Faça 3 check-ins em lugares diferentes usando o aplicativo Waze
JetSetter - Faça check-ins em 3 lugares marcados com a tag “airport”.
16 Candles - Você tem que colocar “happy birthday” junto com 5 check-ins, provavelmente os check-ins tem de ser em dias e/ou locais diferentes pois colocando os 5 em seguida eu testei e não funcionou. : ) 
Zoetrope - Faça 10 check-ins em dias diferentes em lugares marcados com a tag “movie theater”.
Pizzaiolo - Faça 10 check-ins em lugares diferentes marcados com a tag “pizza”.
Warhol - Faça 10 check-ins em lugares diferentes marcados com a tag “gallery”.
Babysitter - Faça 10 check-ins em dias diferentes em lugares marcados com a tag “playground”.
Swarm - Faça check-in em um lugar com 50 usuários de foursquare presentes.
Super Mayor - Seja mayor de 10 lugares simultaneamente.
I’m on a boat! - Faça check-in num lugar marcado com a tag “boat”.
Barista - Faça 5 check-ins em diferentes lojas do Starbucks.

Vocês devem ter percebido que muitos badges dependem do local estar com as tags corretas, colabore com o Foursquare adicionando as tags corretas aos lugares que você frequenta. No site do Foursquare eles falam um pouco mais sobre isso.

Como crio minha conta e atualizo o Foursquare?

Você cria sua conta aqui e instala o aplicativo no seu celular, tem versão para iPhone, BlackBerry, Android e Palm, para outros aparelhos, como Nokia por exemplo, você pode acessar a versão mobile do Foursquare no seu celular.

Sou uma empresa, como posso usar o foursquare?

Atualmente o Foursquare tem mais de 600 mil usuários ao redor do mundo que fazem 400 mil checkins por dia não é um número muito grande mas são usuários engajados (principalmente em função do game) e early adopters, se eles gostam de novidades tecnológicas podem gostar de novidades no seu estabelecimento comercial também.

No Brasil 55% dos checkins ainda acontecem em São Paulo, as próximas cidades no ranking são Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Campo Grande, Brasília, Curitiba, Fortaleza e Niterói.

Você pode consultar no Foursquare para saber se o seu local já está cadastrado, basta fazer uma busca (tem uma caixa de pesquisa bem no canto superior direito da tela). Em caso negativo você pode adicionar o seu local:

Na verdade qualquer usuário pode adicionar um local, não precisa ser o dono ou responsável, inclusive o usuário pode inventar locais como o Cassano conta nesse post. Se por acaso você decidir adicionar sua casa, não coloque o endereço exato e marque o local como não público.

Se no momento do cadastro você não preencher o endereço e a categoria corretamente esses dados podem ser adicionados / corrigidos posteriormente pela web. Vale lembrar que apenas quem incluiu ou o mayor (prefeito) do lugar podem alterar esses dados, a não ser que você seja um Superusuário (ter o badge Superuser não significa que você seja um superusuário com poderes de edição de dados). Outras coisas que apenas um Superusuário pode fazer é juntar locais repetidos.

Se é o mayor quem cuida dos dados do seu lugar no foursquare então é bom tratá-lo bem : )  . Alguns locais nos Estados Unidos oferecem promoções para os mayors ou outra pessoa que já fez um determinado número de check-ins no local. No site do deles tem uma série de exemplos de promoções que os estabelecimentos podem fazer no Foursquare. Se você quiser oferecer promoções oficialmente pode preencher esse formulário, quando um usuário fizer check-in próximo do seu estabelecimento ele será avisado de que tem uma promoção ali pertinho! : ) 

Algumas empresas fazem promoções maiores para estimular a visitação em suas lojas ou evento, como a Starbucks e a Intel que oferecem badges exclusivos. Ou ações de branding em páginas muito visitadas, como o ranking de Nova Iorque patrocinado pela Pepsi.

Se você não é um estabelecimento, mas uma personalidade, também pode se aproveitar do novo modo do Foursquare, o Celebrity Mode, basicamente você pode fazer checkin num local e avisar se quer avisar só seus amigos mais próximos ou todo os seus fãs. Não são todas as contas que tem fãs, esse é justamente a diferença do Celebrity Mode. A primeira cobaia é o DJ Paulo D.

Sou desenvolvedor, o que posso fazer com o Foursquare

O Foursquare tem uma API, você pode baixar a documentação aqui e participar do grupo de discussão aqui.

Na página de desenvolvimento tem exemplos de várias aplicações e mashups desenvolvidos com a API, algumas com o código fonte disponível.

Algumas aplicações interessantes:
CheckoutCheckins - Mostra os lugares que você frequenta no mapa da cidade.
FourWhere - Você clica no mapa e ele mostra todos os estabelecimentos (venues) e dicas próximas daquele local.
Social Great - Mostra os lugares mais populares em diversas cidades, infelizmente não tem cidades brasileiras ainda.
Please Rob Me - Baseado nas informações do Foursquare mostra casas vazias para serem roubadas. O aplicativo foi feito para chamar a atenção das pessoas que colocavam seu endereço completos ao criar sua casa como local no Foursquare.

Espero que esse guia lhe ajude a explorar o máximo do foursquare, se você quiser me adicionar meu usuário é interney.

Apple trabalha em plataforma de mídia social para o iphone – o “igroups”

22 de março de 2010 11:42 am

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A Apple apresentou documentos aos United States Patent and Trademark Office, que mostram que a empresa de Cupertino está trabalhando em um aplicativo de mídia social para o iPhone chamado “iGroups.”

Trata-se do quarto pedido de patente da Apple relacionado à mídias sociais que se tornou público este ano, de acordo com Patently Apple, um site que segue os pedidos de patente da Apple.

Os documentos mostram que a Apple está trabalhando em uma tecnologia que permitirá que os usuários do iPhone que estiverem em uma mesma reunião ou evento formem um grupo através de uma rede segura e nela permaneçam conectados.

“Durante os eventos privados ou públicos (por exemplo, concertos, feiras, reuniões empresariais, casamentos, comícios), um indivíduo típico pode ter muitos contatos breves com pessoas nas  quais gostaria de ter contato pós-evento “, de acordo com o arquivamento.

“Nas redes sociais convencionais, o indivíduo teria que recolher informações pessoais a partir de contatos, manualmente criar uma rede na Internet no site de rede social e convidar os contatos a aderir”.

Isso quer dizer que a aplicação pretende resolver os entraves das redes sociais tradicionais, como o Facebook, que os usuários necessitam de serem membros antes de poderem participar. Em vez disso, o iGroups cria uma rede virtual social baseada na proximidade.

A ideia de uma rede baseada em proximidade é intrigante considerando as tecnologias construídas para dispositivos móveis que podem ajudar a facilitar esse processo. Bluetooth e Wi-Fi, por exemplo, ambas permitem a descoberta de novos dispositivos que estão dentro do alcance. Mas o problema surge quando um usuário sai. Se eles estão fora do alcance, eles são excluídos da rede.

Para tentar resolver essa questão o igroups  pode igualar ou correlacionar sinais para determinar os grupos e seus membros. Quando me aproximo e meu aparelho troca sinais com outros aparelhos, a tecnologia permite identificar as fontes seguras e saber a qual grupo de similaridade eu pertenço. Este processo permite que a rede cresça, permitindo que seus usuários infiram outros usuários através deste processo em cadeia.

Se os usuários interagem uns com os outros em um evento ou subsequentemente, o processo de inferir descrito anteriormente recria a rede evitando a perda de todo o aspecto de uma rede social.

Os motivos para aprovar a reforma

21 de março de 2010 12:21 pm

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Entre eles, estão os casos de seguradoras de saúde que vêm revogando as apólices de seus segurados quando estes ficam doentes

Por Paul Krugman

The New York Times

Seja qual for a decisão tomada, o destino da reforma do sistema de saúde será definido nos próximos dias. Se a liderança democrata na Câmara dos Estados Unidos conseguir 216 votos, a reforma se tornará quase imediatamente lei imposta pelas autoridades. Caso contrário, a reforma da saúde pode ser adiada em muitos anos - talvez uma década ou mais. Assim sendo, este parece ser um bom momento para relembrar os motivos pelos quais precisamos desta reforma, por mais imperfeita que seja.

A agência de notícias Reuters publicou esta semana uma reportagem investigativa que ilustra de maneira poderosa as vilanias do sistema atual. A reportagem trata do caso da seguradora Fortis, agora parte da Assurant Health, que sistematicamente revoga as apólices de seus assegurados quando estes ficam doentes.

Segundo a reportagem da Reuters, a empresa teve como alvo cada um dos assegurados que contraiu o vírus do HIV, procurando por uma desculpa para o cancelamento, por mais esfarrapada que fosse. No caso que trouxe tudo isto à luz, a Assurant Health usou um bilhete obviamente equivocado escrito à mão por uma enfermeira, que teria assinalado “2001″ em vez de “2002″, para alegar que a infecção era uma condição pré-existente o assegurado não tinha divulgado, revogando, assim, a apólice.

Tratou-se de um procedimento ilegal, e a Assurant Health sabia disso: depois de sustentar uma decisão garantindo uma ampla indenização ao assegurado prejudicado, a Suprema Corte da Carolina do Sul concluiu que a empresa seguradora estivera mascarando sistematicamente seus movimentos quando cancelava a cobertura, não apenas neste caso, mas em relação a todas as apólices.

Mas esta questão vai muito além do respeito à lei. Para começar, trata-se de um exemplo que deve ser levado em consideração por aqueles que castigam o presidente Barack Obama por “demonizar” as seguradoras.

A verdade, amplamente documentada, é que há um motivo simples para a adoção generalizada de um comportamento como o da Assurant Health: ele compensa.

Uma comissão da Câmara dos Representantes estimou que entre 2003 e 2007 a Assurant lucrou US$ 150 milhões com o cancelamento das apólices de pessoas que pensaram estar asseguradas, soma muito superior à multa imposta pelo tribunal neste caso específico. Descrever o que as seguradoras realmente fazem não é demonizá-las.

Cobertura. Além disso, esta é uma história que só poderia ocorrer nos Estados Unidos. Em todos os demais países desenvolvidos, a cobertura do seguro está disponível a todos, independentemente de seu histórico médico. Nosso sistema é único em sua crueldade.

Mais uma coisa: o seguro de saúde com base no emprego, que já é regulamentado de maneira a praticamente evitar esse tipo de abuso, está se desenredando. Menos da metade dos funcionários de pequenas empresas possuía cobertura, uma redução em relação aos 58% registrados há dez anos. Isto significa que, na ausência de uma reforma, um número cada vez maior de americanos estará nas mãos de empresas como a Assurant Health.

Apoio. Qual é a resposta, então? A grande maioria dos americanos é favorável à garantia de cobertura para aqueles com problemas de saúde preexistentes, mas isso só pode ser feito por meio da adoção de uma reforma ampla. Para que o seguro saúde se torne acessível, é preciso que todas as pessoas atualmente saudáveis sejam mantidas no convênio, o que significa exigir que todos ou quase todos adquiram seguro. É impossível fazê-lo sem oferecer auxílio financeiro aos americanos de baixa renda para que possam pagar as tarifas. Assim, chegamos a uma medida tripartite: a eliminação da discriminação médica, a cobertura gerenciada, e os subsídios às tarifas.

Dito de outra forma, o resultado é algo parecido com o plano de atendimento médico introduzido por Mitt Romney no Estado de Massachusetts em 2006, ou também o plano muito semelhante que a Câmara pode aprovar - ou não - nos próximos dias. Uma reforma ampla é a única maneira de avançar.

Déficit. Será que podemos arcar com este custo? Sim, diz o Gabinete Orçamentário do Congresso, que concluiu na quinta-feira que a legislação proposta reduziria o déficit em US$ 138 bilhões em sua primeira década, e em 0,5% do PIB na década seguinte, o que corresponde a US$ 1,2 trilhão.

Mas será que não deveríamos nos concentrar mais no controle de custos em vez da extensão da cobertura? Na verdade, a reforma proposta faz mais para controlar os custos do sistema de saúde do que qualquer outra legislação anterior, pagando pela cobertura estendida por meio da redução da proporção de crescimento dos custos do Medicare, e com isso melhorando substancialmente o financiamento de longo prazo do programa Medicare. E esta combinação de cobertura mais ampla e controle de custos não é acidental: faz tempo que os especialistas em medidas de saúde sabem que estas preocupações caminham juntas. Os Estados Unidos são o único país desenvolvido desprovido de atendimento médico universal, e possuem também o sistema de saúde mais caro de todos, por uma grande margem de diferença.

É possível imaginar uma reforma melhor? Claro. Se o presidente americano Harry Truman (1945-1953) tivesse acrescentado o atendimento médico ao sistema previdenciário em 1947, teríamos um sistema mais barato e mais eficiente do que aquele cujo destino está agora em jogo. Mas um plano ideal não está entre as opções atuais. E o que figura entre tais opções, pronta para a adoção, é uma legislação fiscalmente responsável, que avança no sentido de conter o aumento do custo do sistema de saúde, e faria do nosso país um lugar melhor, mais justo e mais decente.

Para que isto aconteça, é preciso apenas que um punhado de congressistas indecisos faça a coisa certa. Vamos torcer por isto.

Tradução de Augusto Calil

EUA estão se tornando uma sociedade dividida

Confluência de crises produziu um surto de libertarismo; as pessoas estão insatisfeitas com Washington e o Tea Party protesta contra governo e a classe dirigente em geral

Por David Brooks*
The New York Times
Os Estados Unidos estão se tornando uma sociedade fragmentada. O público despreza a classe política. A dívida pública está se acumulando num ritmo espantoso e incansável. Os salários da classe média estagnaram. O desemprego permanecerá alto. Serão necessários anos para uma recuperação plena da crise financeira. Essa confluência de crises produziu um surto de veemente libertarismo.

As pessoas estão insatisfeitas com Washington. O movimento Tea Party protesta contra governo grande, empresa grande e a classe dirigente em geral. Mesmo fora de suas fileiras, existe um cinismo corrosivo ante a atividade pública.

Mas há uma outra maneira de responder a esses problemas que é mais comunitária e menos libertária. Essa alternativa tem sido mais plenamente explorada pelo escritor britânico Phillip Blond.

Ele cresceu na Liverpool operária. “Eu vivi na cidade quando ela estava sendo eviscerada”, disse ele a The New Statesman. “Era uma bela cidade, uma das poucas na Grã-Bretanha a ter uma cultura genuinamente indígena. E todo esse modo de vida foi destruído.” A indústria morreu. O poder político foi centralizado em Londres.

Blond argumenta que, na última geração, testemunhamos duas revoluções, que libertaram o indivíduo e dizimaram associações locais.

Primeiro, houve uma revolução da esquerda: uma revolução cultural que desalojou modos e costumes tradicionais; uma revolução legal que enfatizou direitos individuais em vez de responsabilidades; uma revolução no bem-estar social em que trabalhadores assistenciais substituíram as sociedades de ajuda mútua e associações auto-organizadas.

Depois, houve a revolução do mercado de direita. Na era da desregulação, cadeias gigantes como Walmart dizimaram os lojistas locais. Os mercados financeiros globais assumiram o controle de pequenos bancos, de tal forma que o conhecimento local do banqueiro da cidade foi substituído por uma horda maníaca de traders a milhares de quilômetros de distância. Os sindicatos minguaram.

Centralização. As duas revoluções falavam a linguagem da liberdade individual, mas elas perversamente acabaram criando uma maior centralização. Elas criaram uma sociedade atomizada, segmentada, e depois o Estado teve de entrar e tentar reparar os danos.

A revolução do livre mercado não criou uma economia descentralizada pluralista. Criou uma monocultura financeira centralizada que requer um governo gigantesco para fiscalizar suas atividades. O esforço para libertar indivíduos das limitações sociais opressivas não produziu um florescimento da liberdade, ele enfraqueceu famílias, aumentou os nascimentos fora do casamento e transformou vizinhos em estranhos. Na Grã-Bretanha, temos um país com a criminalidade em ascensão e, por conseguinte, 4 milhões de câmeras de segurança.

Em um ensaio muito discutido na revista Prospect de fevereiro de 2009, Blond escreveu: “Vejam a sociedade em que nos tornamos: somos uma nação bipolar, um Estado burocrático, centralizado, que preside de maneira disfuncional uma cidadania crescentemente fragmentada, isolada e desprovida de poder.” Num ensaio separado, ele acrescentou: “O Estado de bem-estar e o Estado de mercado são agora dois fracassos defuntos e mutuamente respaldados.”

A tarefa hoje, ele argumentou numa palestra recente, é reviver o setor que as duas revoluções mutuamente dizimaram: “O projeto de conservadorismo transformador radical é nada menos que a restauração e criação da associação humana, e a elevação da sociedade e do povo que a forma a sua devida posição central e soberana.”

Reforma. Economicamente, Blond expõe três grandes áreas de reforma: remoralizar o mercado, relocalizar a economia e recapitalizar os pobres. Isso significaria aprovar uma legislação de zoneamento para dar aos pequenos lojistas uma chance contra as gigantes de varejo, reduzir barreiras à entrada de novas empresas, revitalizar bancos locais, encorajar a divisão da propriedade com empregados, criar fundos de capital locais para que associações comunitárias possam investir em empresas locais, premiar poupanças, eliminar regulamentos que socializam o risco e privatizam o lucro, e reduzir os subsídios que fluem de governos grandes e empresas grandes.

Para criar um Estado civil, Blond reduziria o poder dos altos escalões do governo e ampliaria o arbítrio dos funcionários públicos da linha de frente, as pessoas que realmente trabalham nas vizinhanças. Ele descentralizaria o poder, dando mais autoridade orçamentária às menores unidades do governo. Ele canalizaria mais serviços por instituições de caridade. Ele aumentaria os investimentos em infraestrutura, para que mais lugares pudessem ser centros vibrantes de irradiação econômica.

Ele reconstruiria o “village college” (sistema de escolas britânicas para garotos de 11 a 16 anos com atividades de educação e lazer para adultos fora dos horários de aula) para que as universidades fossem mais conectadas às cidades que as cercam.

Basicamente, Blond tomaria uma cultura política que foi orientada em torno da escolha individual e a substituiria por uma orientada para relacionamentos e associações. Suas ideias causaram um grande furor na Grã-Bretanha no ano passado. Seu centro de estudos, ResPublica, é influente no Partido Conservador. Seu livro, Red Tory, vai sair em breve. Ele está fazendo uma curta viagem de palestras aos Estados Unidos, com presença no Tocqueville Forum em Georgetown na sexta-feira e na Universidade de Villanova amanhã.

A Grã-Bretanha sempre será mais hospitaleira a políticas comunitárias que os mais libertários Estados Unidos. Mas as pessoas são criaturas sociais aqui também. Este país também precisa de um vento político fresco. Os EUA também estão sofrendo uma devastadora crise de autoridade. A única maneira de restaurar a confiança é da comunidade local para cima.

Tradução de Celso M. Paciornik

*É COMENTARISTA POLÍTICO E ESCRITOR

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