A Fiesp levou à página que mantém na web um estudo feito pelo seu Departamento de Competitividade e Tecnologia. Chama-se “Corrupção: custos econômicos e propostas de combate”.

No pedaço em que estima o preço dos malfeitos, o documento traça dois cenários. Um, mais realista, aproxima o Brasil de países que combatem a corrupção com rigor. Outro, utópico, considera um quadro em que a corrupção tenderia a zero.

Na primeira cena, o país deixaria de gastar em subornos e propinas R$ 41,5 bilhões por ano. Coisa de 1,38% do PIB. Na segunda, seriam poupados R$ 69,1 bilhões. Ou 2,3% do PIB.

Como corrupção zero é coisa que só existe em estudo e em sonho, o documento concentra-se no cenário possível, aquele em que a corrupção despeja no ralo dos descaminhos R$ 41,5 bilhões. A Fiesp esmiúça a cifra.

Informa que equivale a 60,2% de todo o dinheiro que o setor público (excluindo-se as estatais) aplicou em investimentos no ano de 2008. Representa 27% do gasto anual com educação…

…Corresponde a cerca de 40% do orçamento da saúde pública. Mais: os R$ 41,5 bilhões da corrupção superam tudo o que a União e os Estados gastaram com segurança pública no ano de 2008: R$ 39,52 bilhões.

Detalhista, o estudo relaciona o custo das propinas a providências que o governo deixa de adotar. Anota, por exemplo, que o PAC destinou à rubrica “habitação” R$ 55,9 bilhões. Com esse dinheiro, o governo espera prover moradia a 3,96 famílias.

Diz o estudo: “Utilizando o custo médio anual da corrupção (R$ 41,5 bilhões) para construção das habitações, temos que 2,94 milhões de famílias poderiam ser atendidas, ou seja, 74% das famílias previstas pelo PAC”.

Noutro exemplo, o documento da Fiesp escreve que o PAC destinou R$ 33,4 bilhões à construção de 45,3 mil quilômetros de rodovias. E conclui: aplicando-se o dinheiro da corrupção em asfalto, “seria possível construir 56,3 mil quilômetros, isto é, todos os projetos do PAC e ainda sobrariam mais 11 mil quilômetros”.

O documento também afirma que, no período entre 1990 e 2008, a média do PIB per capita do País era de US$ 7.954.

E anota que, se o Brasil estivesse entre os países menos corruptos, esse valor subiria para US$ 9.184. Um aumento de 15,5% na média do período -1,36% ao ano.

Na Educação, diz a Fiesp, o dinheiro da corrupção daria para bancar a elevação do número matrículas na rede pública de ensino fundamental de 34,5 milhões para 51 milhões de alunos. Iriam aos bancos escolares mais 16 milhões de jovens.

Na saúde, a grana dos malfeitos seria suficiente para aumentar o número de leitos para internação no SUS em 89% – 327.012 camas hospitalares a mais. Em saneamento, os recursos desviados levariam esgoto a 23,3 milhões de casas –acréscimo de 103,8% em relação ao que está previsto no PAC.

Em infraestrutura, livrando-se dos desvios, o Brasil teria 13.230 quilômetros adicionais de ferrovias. Ou 184 novos portos. Ou 277 novos aeroportos.

No pedaço do documento dedicado às “propostas de combate à corrupção”, a Fiesp oferece uma agenda dividida em dois tópicos: reformas institucionais e reformas econômicas.

No rol de providências institucionais, inclui: reforma política, reforma do sistema judiciário e reforma administrativa (eliminação de cargos de confiança, reduzindo o espaço para barganhas e pedidos de propinas).

Na lista de medidas econômicas, relaciona: reforma fiscal, reforma tributária e reformas microeconômicas (entre elas o fortalecimento das agências reguladoras, dotando-as de independência e autonomia real).

Beleza. Mas o estudo da Fiesp sonega à platéia o essencial. Deixa de mencionar o papel do empresariado no jogo da corrupção. Não é novidade que, em Brasília, tudo está à venda.

Excetuando-se a mãe, que não tem valor de mercado, vende-se de emendas ao Orçamento à honra pessoal.

Quem desce a Esplanada, rumo à Praça dos Três Poderes, ouve o tilintar de verbas. Se há o balcão, existe demanda. Os compradores de facilidades são, porém, invisíveis. E não há quem queira identificá-los. Muito menos a Fiesp.

Só de raro em raro, numa ação fortuita do Ministério Público e da Polícia Federal, joga-se um facho de luz sobre um ou outro corruptor. O empresariado reclama do chamado “custo Brasil”. Queixa-se dos portos ineficientes, das estradas esburacadas, da burocracia governamental, disso e daquilo.

Mas cultiva um estrepitoso silêncio em relação ao “custo pilhagem”, que inclui, além de propinas e de financiamentos eleitorais obscuros, a sonegação descarada de impostos.

Sustenta-se há décadas o conveniente discurso de que o Estado é o grande vilão do descaminho do empreendimento brasileiro. O que a Fiesp se exime de dizer é que, do outro lado do balcão de malfeitorias, encontra-se a mão do empresariado. Sem ela, não haveria corrupção.

- Serviço: Aqui, a íntegra do estudo da Fiesp.

- Em tempo: Ilustração via sítio Miran Cartum.

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