O custo de cruzar os braços
23 de junho de 2010 11:50 pmPotências e vizinhos do Quirguistão têm ignorado crise e podem se arrepender disso
INTERNATIONAL CRISIS GROUP
A Ásia Central está vivendo uma crise muito grave, mas grande parte do mundo prefere não pensar nisso. O Quirguistão perdeu o controle de parte significativa do país.
Os primeiros atos de violência na região asiática deixaram centenas de mortos e mais de 400 mil refugiados. Os dados são aterradores, especialmente levando-se em conta que se trata de uma população de 5 milhões de habitantes. A calma que se instaurou na zona é simplesmente uma fadiga temporária pelos dias de combate. O novo governo provisório do Quirguistão está demonstrando cada vez mais que é incapaz de tomar medidas para restaurar casas, meios de subsistência ou a confiança dos cidadãos. Esta administração mal consegue impor a ordem. Mas o foco dos líderes mundiais está em outro lugar.
Os EUA estão obcecados com o Afeganistão e, embora tenham uma grande base aérea no Quirguistão, demonstram claramente que não estão interessados em se envolver com as questões policiais e militares do Quirguistão.
A Rússia encara a Ásia Central como seu quintal, mas não tem interesse em se ocupar desse pedaço em particular da região. Moscou não está entusiasmado que o governo provisório fale da construção de uma democracia multipartidária. O Quirguistão não tem a abundância de recursos naturais que fazem de seus vizinhos tão atraentes ou “estratégicos” para o restante do mundo. Finalmente, líderes em Moscou não querem criar um precedente. Ou seja, eles não querem intervir na crise do Quirguistão para que a comunidade internacional não sugira em algum momento que eles têm o direito de ajudar na busca da paz, digamos, para o sangrento Cáucaso do Norte, um conflito ainda sem resolução para a Rússia.
Com raras e nobres exceções - como é o caso, entre outros, da Cruz Vermelha, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e a Agência da ONU para os Refugiados (Acnur) - a posição de muitas organizações internacionais foi novamente decepcionante.
Mas não adianta apenas esperar que a crise desapareça. Muitas atrocidades foram cometidas nos últimos dias no Quirguistão, e há muitas pessoas enfurecidas e armadas na região. Cedo ou tarde, a cólera voltará a aparecer.
A crise enfraqueceu o governo quase ao ponto do colapso. Talvez muitos acreditem que um vácuo de poder em um país que poucas pessoas poderiam nem sequer encontrar no mapa não seja grande coisa. É um grande erro. Ainda que se ignorem os últimos dias de violência vividos no Quirguistão, deveria se ter em conta dois assuntos que poderiam se desenvolver na provável lacuna administrativa. O Quirguistão é um ponto estratégico para o tráfico de drogas provenientes do Afeganistão. De fato, a probabilidade é que os narcotraficantes tenham participado de forma ativa na violência. A maior parte das drogas que circulam pela região já tem destino certo: Rússia, que enfrenta uma explosão de casos de aids pelo uso de drogas injetáveis, e China, que está caminhando para a mesma situação.
O sul do Quirguistão também é, além disso, rota de passagem para outra “mercadoria” que o Ocidente teme: os combatentes islâmicos. Eles circulam pela região tendo como origem ou destino o Afeganistão, ao longo de seu caminho para o Usbequistão, mas também indo em direção à Europa Ocidental. Então, um país sem governo propiciará um ambiente ainda mais favorável para sua presença e livre atuação.
Se queremos evitar que isso aconteça, se queremos evitar uma crise humana crescente e prevenir anos de instabilidade política e de insegurança, a comunidade internacional deve parar de ficar de braços cruzados. Esta é uma situação extremamente delicada e difícil, que está se tornando insustentável a cada dia. Mas com um pouco de vontade política, há certas medidas que poderiam ser tomadas rapidamente, como separar imediatamente os usbeques e quirguizes no sul do Quirguistão.
*DIRETOR DO PROJETO DA ÁSIA CENTRAL DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP
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