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Após demissões, falta mão de obra na China

28 de fevereiro de 2010 9:49 am

china-trabalho

Por Keith Bradsher

Um ano depois de demitir milhões de trabalhadores nas fábricas, a China está enfrentando uma escassez de mão de obra cada vez mais aguda.

Enquanto os trabalhadores americanos enfrentam um índice de desemprego de quase dois dígitos, operários pouco qualificados aqui no coração industrial da China têm recebido ofertas de emprego com bonificações.

Nas fábricas, os salários aumentaram em até 20% nos últimos meses. Operadores de telemarketing estão recusando potenciais fregueses porque os supervisores os designaram para a função de telefonar para as pessoas oferecendo-lhes empregos.

Alguns fabricantes, já com as encomendas atrasadas em muitas semanas por causa da dificuldade de encontrar funcionários em número suficiente, estão fechando linhas de montagem e considerando uma elevação nos preços. Tais aumentos provavelmente incidiriam também sobre o preço pago pelos consumidores americanos para comprar todo tipo de artigos fabricados na China.

Um aumento nos salários pode também levar a uma maior inflação na China. No passado, a inflação semeou o descontentamento social.

A causa imediata da escassez é o fato de milhões de trabalhadores migrantes terem voltado para casa para passar o Ano-Novo chinês no início do mês, sem retornar à costa. Graças a um programa governamental de estímulo avaliado em meio trilhão de dólares, postos de trabalho vêm sendo criados no interior do país.

Mas muitos economistas dizem que o recente declínio econômico mundial também ocultou uma tendência de prazo mais dilatado: a China esgotou suas antes vastas reservas de trabalhadores desempregados nas áreas rurais e está ficando sem novos funcionários para suas fábricas.

Já que a China não costuma divulgar estatísticas regulares e confiáveis sobre a situação do emprego no país, os salários são considerados o melhor indicador de uma escassez de mão de obra. E as agências de empregos temporários aqui em Guangzhou elevaram o salário dos funcionários das fábricas para US$ 1,17 a hora, um aumento em relação aos US$ 0,95 pagos antes do feriado do Ano Novo.

Dois anos atrás, o salário era de US$ 0,80 por hora, mas a crise financeira global deprimiu os salários e a demanda.

O retorno dos migrantes disparou esta semana uma busca desesperada para recrutar os poucos trabalhadores que desembarcavam de longas viagens de ônibus e trem, vindos do interior.

Num centro de empregos administrado pelo governo na região central de Guangzhou, o número de empregadores superava o de candidatos na tarde de quinta feira.

Do lado de fora, Liang Huoqiao, funcionário da indústria plástica de 22 anos, juntou-se a um pequeno grupo de homens e mulheres que estudava uma imensa lista de empresas que estavam contratando. “Pode-se ir a qualquer fábrica para receber um emprego”, disse ele.

O jornal oficial China Daily disse na quinta feira que as pesquisas realizadas com empregadores mostravam que um em cada 12 trabalhadores migrantes não deveria retornar à província de Guangdong. Cidades mais ao norte na costa chinesa também estão ficando sem trabalhadores; somente em Wenzhou é anunciada a falta de até um milhão de trabalhadores. Funcionários do governo da província de Guangdong anunciaram na quarta-feira que estavam avaliando a possibilidade de um aumento no salário mínimo, que varia entre US$ 113 e US$ 146 mensais de uma cidade para a outra.

Salários mais altos podem aliviar a escassez de mão de obra ao levar as fábricas a reduzir o seu número de funcionários.

Mas muitas fábricas já oferecem salários bem acima do mínimo. Elas temem novos aumentos salariais porque não estão certas de que poderão repassar o aumento aos consumidores - em especial para os importadores americanos e europeus, em dificuldades econômicas.

Um aumento nos salários sugere o ressurgimento de uma escassez de trabalhadores que já começava a se tornar aparente mesmo antes da crise financeira. Uma pesquisa realizada pelo governo três anos atrás em 2.749 vilarejos de 17 províncias descobriu que, em 74% delas, não restava mais ninguém suficientemente saudável para ir trabalhar nas fábricas das cidades - o pool de trabalhadores tinha se esgotado.

No fim de 2008 e início de 2009, demissões em massa decorrentes da crise financeira mundial mascararam temporariamente a crescente escassez de trabalhadores industriais. Mas duas poderosas tendências agiam para reduzir a oferta de jovens que se encaminhavam para as fábricas.

Uma delas é o fato de o governo chinês ter promovido uma rápida expansão na educação superior. Universidades e outras instituições do ensino superior receberam 6,4 milhões de matrículas no ano passado, em comparação às 5,7 milhões registradas em 2007 e às apenas 2,2 milhões registradas em 2000. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade chinesa tem recuado constantemente desde a implementação da política de “filho único” em 1977.

Hoje, a oferta de empregos no interior do país é muito maior. Isso porque projetos governamentais, como estradas de ferro e a construção de outras vias de transporte, absorveram milhões de trabalhadores, principalmente depois que Pequim destinou quase US$ 600 bilhões em estímulo econômico para os gastos em 2009 e 2010.

Tradução de Augusto Calil

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