Cofrinho governamental
31 de janeiro de 2010 10:05 amPetrobrás se expande em várias áreas e já movimenta 10% do PIB
Valor de mercado da empresa cresceu 10 vezes, de US$ 18 bi em janeiro de 2002 para US$ 200 bi em dezembro de 2009
Por Raquel Landim

SUPERMALHA - Obra de gasoduto da Petrobrás: estatal tem hoje 5.416 km, ante 2.762 km em 2002
Às vésperas do Natal, a Petrobrás comprou sua primeira usina de etanol. Um mês antes, adquiriu metade de uma fábrica de biodiesel. No início do ano, aumentou sua participação na Braskem, empresa que acaba de adquirir a Quattor e formar uma das maiores petroquímicas do mundo. Esses são os lances mais recentes da estratégia de crescimento da Petrobrás, traçada pelo governo Lula, que inclui também compras de redes de postos de combustíveis, usinas termoelétricas e construção de pelo menos uma fábrica de fertilizantes.
Com aquisições e investimentos maciços, a Petrobrás aumentou seu peso na economia do País, com ramificações em várias áreas. O valor do que a estatal produz e o impacto de seus investimentos e gastos na economia já representam 10% do Produto Interno Bruto (PIB), quase o dobro de 2002. Com a ajuda da alta dos preços, do aumento da produção e do refino do petróleo, o valor de mercado da Petrobrás cresceu dez vezes, de US$ 18 bilhões em janeiro de 2003 para US$ 200 bilhões em dezembro de 2009. Segundo a consultoria PFC Energy, a estatal é hoje a quarta empresa de petróleo do mundo.
E não vai parar por aqui. A Petrobrás deve ser beneficiada como a única operadora dos campos do pré-sal e vai receber uma capitalização da União equivalente a 5 bilhões de barris de petróleo - o valor da capitalização ainda não está claro, mas deve chegar a dezenas de bilhões de reais. As megarreservas do pré-sal e investimentos que superam US$ 170 bilhões até 2014 devem ampliar a participação da Petrobrás no PIB para 20%, estimam analistas.
ESTRATÉGIA
Por trás da estratégia do governo de “agigantar” a Petrobrás, existem motivações empresariais , econômicas e políticas. Segundo o diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, os objetivos são aumentar a escala, para reduzir custos e concorrer internacionalmente, e diversificar as operações, para se proteger de crises e variações abruptas de preços. “A lógica é ser uma empresa de energia.”
Para o governo, a estatal também funcionaria como um braço de política econômica, reduzindo a importação de insumos do País. Elevar a competitividade da cadeia de petróleo é uma alternativa para concorrer com a China e aliviar o déficit em transações correntes. A expansão da Petrobrás também tem viés ideológico. O governo defende maior participação do Estado na economia e a utilização da estatal como instrumento de política industrial.
PROTESTOS
A estratégia de transformar a Petrobrás em campeã nacional também gera efeitos indesejáveis e protestos. Única fornecedora de matérias-primas como gás natural e nafta, a estatal vive em pé de guerra com os clientes, que reclamam dos preços. Segundo analistas, a verticalização inibe o setor privado e sobrevivem apenas as parceiras da estatal. “Ou você trabalha com a Petrobrás ou não tem oportunidade. É uma estatização”, diz o consultor Wagner Freire. Outro problema é que os setores em que a companhia está envolvida ficam sujeitos a alterações de rumo ao sabor das mudanças de governo.
Segundo um empresário que foi cliente da Petrobrás, a estatal “não entra em nenhum negócio para ser coadjuvante”. Apesar da quebra do monopólio em 1997, praticamente só a estatal produz e refina petróleo no Brasil. O investimento em refino saltou de US$ 200 milhões em 2003 para US$ 6,5 bilhões em 2009 e mais cinco refinarias devem ser construídas.
A estatal também cresceu na distribuição de combustíveis. Após a compra da Agip e das operações da Ipiranga no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a participação da Petrobrás Distribuidora subiu de 30,2% em 2002 para 38,6% em 2009, com quase 1.700 postos a mais. Segundo fontes do mercado, a estatal teria tentado comprar a Esso, que acabou com a Cosan. “Não dá para entender por que a Petrobrás compra posto de gasolina. As petroleiras estão se desfazendo deles”, diz o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires.
Segundo o presidente da Petrobrás Distribuidora, José Lima Neto, a desistência dos grupos internacionais coincidiu com a decisão da BR de consolidar a operação no País. Ele diz que o objetivo da compra da Agip era incorporar a Liquigás e entrar no mercado de gás de cozinha. Hoje a Petrobrás tem a maior rede de venda e distribuição do produto no País, com participação de 22,8%.
Também na área de logística, a Transpetro vai dobrar sua frota até 2014, chegando a 100 embarcações. As encomendas são feitas no Brasil, para revigorar a indústria de estaleiros, e já representam a quinta maior carteira de pedidos de navios petroleiros do mundo. “Ter navio significa soberania, porque o que agrega valor é a logística”, disse o presidente da Transpetro, Sérgio Machado.
A estatal quase dobrou sua malha de gasodutos. Hoje são 5.416 quilômetros, comparado com 2.762 quilômetros de 2002. A capacidade de processamento de gás natural da Petrobrás saiu de 4,1 milhões de metros cúbicos por dia em 2002 para 23,3 milhões hoje - alta de 468%.
BRIGA DO GÁS
Uma das maiores brigas da estatal é com os clientes do gás. As distribuidoras reclamam que os preços não refletem só o mercado externo, mas também a necessidade de caixa da Petrobrás para financiar investimentos em dutos. E que a falta de garantia no fornecimento atrapalha seus planos. A prioridade do governo no gás é atender as termoelétricas, outro setor que a Petrobrás hoje joga pesado.
O apagão de energia de 2001 provocou um boom de investimentos privados no setor, mas uma mudança da lei no ano seguinte permitiu que estatal fosse às compras. Em 2002, ela tinha três termoelétricas. Hoje possui 14 térmicas a gás natural e 12 a óleo. Algumas das usinas ganharam nomes de ícones da esquerda, como Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola. Somando as 14 pequenas centrais hidrelétricas e uma usina eólica, a Petrobrás tem a oitava maior capacidade de produção de energia elétrica do País.
O aumento do poder na petroquímica é o passo mais novo. A estatal também vai dobrar a capacidade de produzir fertilizantes com uma nova fábrica. Ela já foi dona da Fosfértil, que funcionava como uma política agrícola, pois garantia insumo barato aos produtores, mesmo quando os preços subiam lá fora. Antes da quebra do monopólio, a estatal era chamada de “Petrossauro” pelo economista Roberto Campos. Será que dessa vez vai funcionar?
Petrobrás quer construir alcoolduto
Usineiros temem que monopólio da estatal no transporte do combustível encareça custos
“Acredito que só tem espaço para um duto, mas estamos conversando muito com o setor”, disse o diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa. Ele diz que a estatal “está aberta a novos sócios”.
Existem dois projetos paralelos para a construção do alcoolduto. Um deles é feito pela Uniduto, empresa criada com esse objetivo que possui como sócias 88 usinas de cana-de-açúcar. O outro é da PMCC, formada por Petrobrás, Mitsui e Camargo Correa.
O investimento previsto em cada um é de cerca de R$ 2 bilhões. O trajeto da Uniduto privilegia a captação de álcool no interior de São Paulo. A PMCC captaria álcool no Estado, mas também no Triângulo Mineiro e no Centro-Oeste.
“No curto prazo não existe um ambiente propício para a fusão das duas empresas. Mas poderíamos ter uma otimização dos custos com tubos interligados”, disse o presidente da Uniduto, Sérgio Van Klaveren.
Os usineiros estão preocupados que um monopólio da Petrobrás no alcoolduto signifique custo de transporte mais caro. Com os tubos interligados, as tarifas da Uniduto e da estatal tenderiam a se igualar.
A Petrobrás argumenta que o temor não faz sentido, porque as tarifas são definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Há muito tempo no papel, o projeto do alcoolduto ganhou relevância com o aumento do consumo interno de etanol e a esperança do setor de derrubar a tarifa de importação dos Estados Unidos.
A Petrobrás ingressou na produção de etanol só em 22 de dezembro do ano passado, ao adquirir 40,4% da Total Agroindústria Canavieira, que possui uma usina em Bambuí (MG). A estatal chega atrasada em relação a outras petroleiras, que já investem na produção de etanol no Brasil.
Costa explica que a ideia inicial era desenvolver os projetos do zero, mas a empresa não tem expertise na produção de cana de açúcar. Por isso, mudou a estratégia e decidiu fazer parcerias. Mas nem por isso terá um papel reduzido. A previsão da Petrobrás é responder por 10% do etanol brasileiro em 2013.
No biodiesel, a estatal, por meio de sua subsidiária Petrobrás Biocombustíveis, já opera três usinas e responde por 29% da produção brasileira. No fim de 2009, comprou participação em outra unidade.”A empresa atual muito no Nordeste e tem o papel de envolver a agricultura familiar”, disse o coordenador do programa federal de biodiesel, Arnoldo de Campos.
A Petrobrás também funciona como uma espécie de “reguladora” do mercado. A estatal compra os biocombustíveis das usinas por meio de leilões e repassa para as distribuidoras. Como é a única produtora de diesel do País, consegue controlar se os 5% de biodiesel exigidos pelo governo na mistura com o diesel é cumprido.
Categories: Política















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