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Archive for março, 2010

Mudança saudita

21 de março de 2010 12:59 pm

arabe

Aos poucos, país mais conservador do mundo árabe está se abrindo, com mulheres e jovens à frente do processo

Por Ian Bremmer*
International Herald Tribune

A Arábia Saudita continua sendo uma sociedade profundamente conservadora, mas as rachaduras começam a aparecer. O Rei Abdullah poderá ser lembrado um dia como o homem que introduziu uma verdadeira transformação.

Quando o passageiro cochila num voo para a Arábia Saudita, descobre ao acordar que as mulheres sauditas, vestidas à maneira ocidental no início da viagem, puseram seus trajes tradicionais preparando-se para desembarcar. Constatei numa recente visita. Antes da viagem, pedi ao governo que iria me hospedar um encontro com empresárias sauditas. Fiquei agradavelmente surpreso quando meu pedido foi rapidamente aprovado, mas ainda mais intrigado pelo encontro em si.

O que me surpreendeu não foi a clareza, a perspicácia e a energia com as quais estas empresárias sauditas falaram, havia visto isto antes, mas a facilidade e informalidade com que externavam suas opiniões, às vezes de modo provocante, em um local público de Riad.

Perguntei a uma jovem empresária saudita o que ela achava do clima de negócios em seu país. Como a maioria do grupo, ela pareceu bem mais relaxada numa conversação cara a cara com um homem do que já havia observado anteriormente no reino. Seus comentários revelaram opiniões fortes e um malicioso senso de humor. Entre outras coisas, ela me confiou que se sentia mais à vontade do que de costume em roupas formais porque estava usando uma calça de ginástica por baixo.

Na realidade, muitas coisas estão ocorrendo por baixo da superfície da sociedade saudita. O Rei Abdullah ainda governa um país profundamente conservador. Mas tanto a sociedade quanto a economia do reino revelam drásticas transformações nos quatro anos e meio desde que ele assumiu o poder.

Em primeiro lugar, há uma evolução substancial em relação à geração passada nos costumes sociais e nas atitudes em relação à economia que agora separam os jovens sauditas dos seus pais.

As implicações desse incipiente hiato de gerações se manifestam em muitos aspectos da sociedade saudita. Vi uma mistura muito maior de jovens em público nesta visita do que me pareceu evidente há dois anos - e ouvi mais perguntas deles sobre os padrões sociais de outros países (particularmente nos regimes mais liberais do Golfo).

As atitudes em relação ao casamento também mudaram. No passado, as noivas e os noivos em casamentos arranjados frequentemente se encontravam pela primeira vez no dia do noivado. O casamento acontecia logo depois. Hoje, muitos casais nos centros urbanos se encontram várias vezes - na presença da família, evidentemente - antes de assumir o compromisso, e têm encontros a sós antes do casamento.

Mas a principal mudança para estas jovens ambiciosas é a ampliação das oportunidades no campo da educação. Em setembro de 2009, foi inaugurada a Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na qual, pela primeira vez, estudantes sauditas de ambos os sexos poderiam assistir às aulas juntos. A polícia religiosa não é permitida no campus. Agora, as mulheres também podem dirigir. Para um ocidental, essas reformas podem parecer estranhas. Para a Arábia Saudita, são notáveis.

Atualmente, as mulheres ingressam nas universidades sauditas em números recordes, embora as filhas da elite muito provavelmente devam estudar no exterior. Há um esforço concentrado do governo para suprir o déficit de mão de obra levando um número maior de mulheres para o mercado de trabalho - e não apenas em funções tradicionais como professoras ou enfermeiras. Este ano, as faculdades de Direito sauditas formarão pela primeira vez grandes números de mulheres. E ao mesmo tempo há uma quantidade surpreendente de empresas em operação, criadas recentemente por mulheres.

Não surpreenderá se o Rei Abdullah for lembrado um dia como o homem que introduziu a verdadeira transformação em um país que necessitava enormemente transformar-se. E não surpreenderá se as mulheres sauditas forem quem mais aproveitará das novas oportunidades.

Tradução de Anna Capovilla
*IAN BREMMER É PRESIDENTE DA CONSULTORIA EURASIA GROUP

China aposta no renascimento do confucionismo

12:52 pm

confucio

O comunismo perdeu a capacidade de inspirar os chineses e os ideais de Confúcio são alternativa à ideologia de Estado da nova China

Por Daniel Bell*
The New York Times
Há quarenta anos, seria suicídio falar bem de Confúcio em Pequim. Ele era considerado o inimigo reacionário e todos os chineses eram instados a combatê-lo. O próprio presidente Mao Tsé-tung foi fotografado na capa de um jornal revolucionário que anunciava a profanação da tumba de Confúcio em Qufu. Minha universidade era um reduto de esquerdismo radical.

Os tempos mudaram. Hoje, o Partido Comunista Chinês aprova um filme sobre Confúcio, interpretado por Chow Yun-Fat, galã do cinema chinês. O mestre é representado como um astuto comandante militar que também ensina valores humanos e progressistas, com uma queda pela beleza feminina. O que tem isso a ver com o futuro político da China? Confúcio foi um enorme sucesso de bilheteria e muitos começaram a achar que o renascimento do confucionismo seguirá o mesmo caminho das campanhas contra Confúcio durante a Revolução Cultural.

Mas talvez não passe de um filme ruim. Confúcio recebeu o beijo da morte quando empatou com Avatar nas bilheterias. Um voto para Confúcio foi considerado um voto contra as heroicas criaturas azuis do espaço exterior. Mas, no longo prazo, é possível que partidários do renascimento de Confúcio estejam do lado certo da história.

Na Revolução Cultural, a palavra Confúcio muitas vezes foi apenas usada como rótulo para atacar os inimigos políticos. Hoje, o confucionismo exerce uma função política mais legítima e poderá contribuir para criar um novo alicerce moral das normas políticas na China. O comunismo perdeu a capacidade de inspirar os chineses, e eles estão cada vez mais convencidos de que o que ocupará o seu lugar deverá ter como base as autênticas tradições da China.

Enquanto tradição política dominante no país, o confucionismo é a alternativa óbvia.

Partido “confucionista”. O partido ainda não se definiu como Partido Confucionista Chinês, mas está muito perto de abraçar oficialmente o confucionismo. A Olimpíada de 2008 enfatizou temas do pensador e reduziu toda referência à experiência chinesa com o comunismo. Os responsáveis pela escola do Partido Comunista, construída recentemente em Xangai, explicam com orgulho que o edifício foi projetado segundo um pensador confucionista. Ao mesmo tempo, o governo promove simbolicamente o confucionismo no exterior por meio do Instituto Confúcio, um centro de língua e cultura chinesas.

Evidentemente, a resistência não desapareceu. Os quadros mais velhos do partido, ainda influenciados pela antipatia maoista pela tradição, condenam as iniciativas que procuram promover ideologias estranhas à rígida estrutura maoista. Mas os mais jovens, entre 40 e 50 anos, em geral apoiam essas iniciativas, e o tempo está do lado deles. É fácil esquecer que o Partido Comunista Chinês, com 76 milhões de inscritos, é uma organização enorme e diversificada. O partido em si está se tornando mais meritocrata - agora, encoraja os melhores estudantes a se inscrever - e o aumento da ênfase nos quadros de nível superior deverá criar mais simpatia pelos valores confucionistas.

Mas o renascimento do confucionismo não é promovido apenas pelo governo. Ao contrário, o governo também reage a desdobramentos que escapam a seu controle. Tem havido um renascimento do interesse no confucionismo entre os acadêmicos e no equivalente chinês da sociedade civil. Este renovado interesse é movido em parte por preocupações normativas.

Milhares de experiências no campo da educação em todo o país promovem o ensino dos clássicos confucionistas às criancinhas, tendo como pressuposto o fato de que uma educação melhor nas áreas humanas melhora a virtude daquele que aprende. Mais controvertido - porque a discussão aberta dessas questões é ainda um ponto sensível na China - é o fato de os pensadores confucionistas apresentarem propostas de reforma constitucional com a finalidade de humanizar o sistema político chinês.

Mas o problema não é apenas o governo chinês. Será talvez uma luta árdua convencer as pessoas no Ocidente de que o confucionismo pode oferecer um caminho progressista e humano para a reforma política na China. Por que o renascimento do confucionismo preocupa tanto os ocidentais? Um dos motivos é talvez um tipo de narcisismo. Durante a maior parte do século 20, liberais e marxistas chineses aderiram a uma crítica total de sua herança cultural e buscaram inspiração no Ocidente. Talvez os ocidentais tenham se sentido envaidecidos, mas a simpatia é bem menor agora que os chineses estão se orgulhando de suas tradições e refletindo sobre a reforma social e política. Uma compreensão maior e um espírito mais aberto poderão ajudar a resolver este problema.

Outro motivo é talvez o fato de que o renascimento do confucionismo é muitas vezes relacionado ao renascimento do “fundamentalismo” islâmico e suas tendências contrárias ao Ocidente. E além disso, é possível que haja também uma associação com o renascimento de um “fundamentalismo” cristão míope e intolerante. Mas o renascimento do confucionismo na China não se opõe às posições sociais liberais. O que ele propõe é uma alternativa às posições políticas ocidentais, e esta pode ser a principal preocupação. Mas é uma preocupação decorrente de um erro honesto: a pressuposição de que um apoio menor à democracia de estilo ocidental implica um maior apoio ao autoritarismo. Na China, rotular o debate em termos de “democracia” em contraposição a “autoritarismo” exclui possibilidades que atraem os reformadores políticos confucionistas.

Estes, em geral, são favoráveis a uma maior liberdade de expressão na China. O que eles questionam é a democracia no sentido de eleições no estilo competitivo ocidental como mecanismo de escolha dos governantes mais fortes do país. Um problema evidente do princípio de “uma pessoa, um voto” é que a igualdade acaba onde começa a comunidade política; os que estão fora, são negligenciados.

O pressuposto é que líderes políticos democraticamente eleitos estejam preocupados com a nação; eles devem servir apenas à comunidade de votantes. Até as democracias que funcionam bem tendem a se preocupar com os interesses dos cidadãos e a negligenciar os interesses dos estrangeiros. Mas os líderes políticos, principalmente os de grandes países como a China, tomam decisões que afetam o restante do mundo (como no caso do aquecimento global), e por isso precisam levar em conta os interesses do restante do mundo.

Por conseguinte, os confucionistas reformistas apresentaram ideias políticas que supostamente funcionam melhor do que a democracia de estilo ocidental no que se refere a garantir os interesses de todos os que são afetados pela política do governo. Seu ideal não é um mundo em que todos são tratados de maneira igualitária, mas onde os interesses dos não votantes serão mais respeitados do que na maioria das democracias preocupadas com os interesses da nação.

E o valor fundamental para a realização dos ideais políticos globais é a meritocracia, no sentido de igualdade de oportunidade na educação e no governo. O princípio fundamental é que todos têm potencial para tornar-se moralmente exemplares, mas, na vida real, a capacidade de fazer julgamentos competentes e moralmente justificáveis varia segundo as pessoas, e uma tarefa importante do sistema político é identificar os que têm capacidade acima da média.

Os pensadores confucionistas avançaram propostas de um Parlamento meritocrático, em que os deputados seriam escolhidos por mecanismos como exames livres e imparciais competitivos, que teriam a finalidade de representar os interesses dos não votantes negligenciados por estrategistas escolhidos pela via democrática. Em termos políticos, a maioria das pessoas acredita que a China deveria se parecer mais com o Ocidente. Mas talvez um dia possamos esperar que o Ocidente se pareça mais com a China.

*É PROFESSOR DE FILOSOFIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE TSINGHUA, EM PEQUIM

”Quem invadiu o Iraque não tem moral para cobrar o Irã”

12:44 pm
Samuel Pinheiro Guimarães

Samuel Pinheiro Guimarães

Diante de duas cúpulas internacionais sobre a questão nuclear, ideólogo da política externa de Lula afia críticas a “potências que não cumprem TNP, mas exigem dos outros”

Por Roberto Simon
O Estadao de S.Paulo

Ex-número 2 do Itamaraty e sucessor do ministro Mangabeira Unger na Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães ataca “potências nucleares que não cumprem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP)”, mas exigem de países desarmados, como Brasil e Irã, “o estrito respeito de suas obrigações”. A dois meses de duas grandes cúpulas sobre a questão nuclear, uma em Washington, outra em Nova York, o ideólogo da política externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva questionou ao Estado a decisão brasileira de aderir ao TNP, em 1998, e afirmou que nem um compromisso dos poderosos em reduzir significativamente seus arsenais poderá fazer o Brasil assinar o chamado “protocolo adicional” do tratado. Guimarães coordena atualmente o esforço interministerial para conduzir o programa nuclear brasileiro. Tentando se esquivar de questões sobre política externa (”Não me ocupo mais disso”), o ministro deu sua opinião sobre a suposta “partidarização” do Itamaraty e negou acusações de envolvimento na crise hondurenha.

Por que o Brasil não assina o protocolo adicional do TNP?

O Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo e o conhecimento completo do ciclo de enriquecimento. Nossa Constituição obriga o uso de tecnologia nuclear somente para fins pacíficos e é preciso lembrar que o TNP, do qual somos signatários, tem duas partes. De um lado, o compromisso dos países nucleares de promover seu próprio desarmamento - e completo. De outro, países não nuclearmente armados se comprometem a não desenvolver a bomba, mas têm o direito a programas para fins pacíficos, incluindo com enriquecimento de urânio. A primeira parte do TNP não foi cumprida, mas os desenvolvidos exigem dos outros o cumprimento estrito de suas obrigações.

O presidente Barack Obama prometeu cortes drásticos nos arsenais americanos. EUA e Rússia estão prestes a concluir um acordo que substituirá o START e terá reduções significativas, e nos próximos meses haverá duas cúpulas sobre o tema. Há sinais claros de desarmamento. Isso não pode mudar a posição brasileira?

Mas existe ainda outro problema, a da redução de ogivas e de aperfeiçoamento da letalidade do armamento. Deveríamos ter um protocolo adicional para países que continuam a desenvolver armamento nuclear e não cumprem suas obrigações. Quem não cumpre o TNP não tem moral para cobrar os outros. Sem contar que há países armados dos quais não se exige nada, muitos nem signatários do TNP são.

O sr. se refere a Israel?

Tire suas conclusões.

O sr. já escreveu que o “TNP é apresentado como uma vitória pacifista e progressista”, mas na verdade trata-se de “uma violência unilateral”. O sr. mantém essa visão?

Usei essa expressão “violência unilateral”? Estranho. De todo modo, o TNP visa impedir uma guerra nuclear, não apenas a “proliferação horizontal”. Não se pode partir do princípio de que são os desarmados que ameaçam a paz internacional. Isso não é lógico.

O País aderiu ao pacto sob o governo de FHC. Foi um erro?

O Brasil, já em 1998, era um dos poucos que tinha em sua Constituição a obrigação de desenvolver atividades nucleares apenas para fins pacíficos. Só se justifica nossa participação no TNP na medida em que potências nucleares reduzam e eliminem arsenais.

Mas o sr. não se arriscaria a dizer que foi um erro assinar o tratado.

Não é que não me arriscaria. Mas é preciso observar a Constituição. E qualquer tratado em que o Brasil não esteja em igualdade de condições não corresponde ao princípio de igualdade soberana entre os Estados. O TNP é um tratado desigual.

Existe, então, a possibilidade de o Brasil denunciar o tratado?

De maneira nenhuma.

O sr. disse que quem não cumpre o TNP não tem “autoridade moral” para exigir dos outros. O presidente Lula usou uma expressão semelhante para se referir ao caso iraniano, disse que as potências “não tem superioridade moral para cobrar o Irã”.

Eu concordo com o presidente. E lhe acrescento: antes da segunda guerra do Iraque (em 2003), foi propalado em todos os países que Bagdá tinha armas de destruição em massa e, por isso, seria uma ameaça internacional. Diziam que armas iraquianas destruiriam capitais europeias em segundos. O sr. Colin Powell (então secretário de Estado dos EUA) discursou com fotos no Conselho de Segurança da ONU. O Iraque foi invadido e não foi descoberta nenhuma arma de destruição em massa. Isso dá moral a alguém?

Mas o caso do Irã é muito distinto do iraquiano. Hoje sabe-se, por exemplo, que iranianos esconderam uma usina nuclear por anos na cidade de Qom. O sr. realmente acredita que Teerã negocia de boa-fé?

Não participamos diretamente das negociações. O Brasil acredita no diálogo e defende que o uso da força é improdutivo. Não podemos partir do princípio de que há países responsáveis e outros irresponsáveis. Mas não quero falar de política externa, quem se encarrega disso é o Ministério das Relações Exteriores.

Em 2001, o então chanceler Celso Lafer o destituiu do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty depois que o sr. veio a público criticar a Alca. Como o sr. vê, hoje, esse episódio?

Cumpri o que achei que devia fazer. Julguei que se tratava de um momento de perigo à soberania brasileira. Por isso dei minha opinião.

Ao olhar para trás, o sr. acredita que essa posição foi correta?

Corretíssima. A adoção de um acordo como Alca - com tarifas a zero, impossibilidade de controle de fluxo de capitais, total abertura - teria levado, por exemplo, à privatização de todo sistema financeiro. Privatizariam o BNDES, Banco do Brasil, Petrobrás; instrumentos que foram de grande importância na crise financeira. Há muitos anos, um sociólogo brasileiro disse: “o Brasil não é mais um país subdesenvolvido, é um país injusto.” (A frase iniciava o plano de governo de FHC). Esse pensamento denota que podemos ter políticas econômicas de países desenvolvidos. Isso tem uma implicação horrível do ponto de vista de conhecimento da realidade.

A política externa está excessivamente partidarizada? Como o sr. vê, por exemplo, o fato de o chanceler Celso Amorim ter se filiado ao PT?

Outros chanceleres foram de partidos. Ou não? Nesse Ministério das Relações Exteriores, nenhum funcionário que exerceu cargos importantes em outros governos foi prejudicado. Basta ver onde estão servindo. Não houve perseguição.

Há ex-funcionários que fazem forte oposição, como o embaixador Rubens Barbosa.

Mas esses são aposentados. E têm todo direito de fazer oposição. Eu não tenho oposição à oposição (risos). Esse é um debate saudável e o fato de ele ter crescido reflete o próprio êxito da política externa. Não se discute tema desimportante.

O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda afirmou que foi o sr. quem arquitetou a volta do presidente deposto Manuel Zelaya a Honduras.

Não conheço o ex-chanceler. Nunca o vi na minha vida e não tenho a menor ideia de onde ele tirou isso. Se me lembro bem do texto, ele diz algo como “isso (a volta de Zelaya) é algo que só pode ter saído da cabeça de Pinheiro Guimarães”.

E o sr. avalia que o retorno de Zelaya foi bom para Honduras?

Não falo de política externa.

Taleban do Texas ataca ”pecadores”

12:40 pm
Grupo ultradireitista Repent Amarillo

Grupo ultradireitista Repent Amarillo

Por Patrícia Campos Mello

O Estadao de São Paulo

AMARILLO (EUA)

Eles ficaram conhecidos como o “Taleban do Texas”. O grupo extremista cristão Repent Amarillo (Arrependa-se Amarillo) vem aterrorizando essa cidade no coração do Cinturão da Bíblia no Texas. Depois de traçar um “mapa de guerrilha espiritual” com todos os estabelecimentos “anticristãos” de Amarillo - bares gay, casas de swing e strip-tease, grupos pagãos, ciganas que leem mão, igrejas que aceitam gays, shows de heavy metal - eles foram atrás dos ímpios com cruzes de madeira, cartazes, alto-falantes, e muita intimidação. Já conseguiram fechar a casa de troca de casais Route 66 e o bar de strip-tease Crystal Pistol. E sua campanha de intimidação resultou na demissão de pelo menos dois “pecadores”, denunciados pelo Repent Amarillo para seus empregadores.

O “pastor” David Grisham, que trabalha como segurança em uma fábrica de armas nucleares, é o líder do Exército de Deus Repent Amarillo. “Eu era um fornicador e adúltero”, diz Grisham. “Mas agora estou expondo todos os pecadores, vamos recuperar nossa cidade para Jesus Cristo.”

O grupo começou a atuar no final de 2008, época em que o presidente Barack Obama foi eleito. “Nosso país está se afastando de Deus, estamos nos transformando em uma sociedade devassa e Obama é sintoma disso”, diz Grisham.

Em sua cruzada contra pecadores, David é acompanhado de Tracy Grisham, sua quarta mulher, também uma “ex-adúltera confessa”, que trabalha como técnica de raio X no hospital de Amarillo. “Big” John Leinen, o terceiro da hierarquia, era de uma gangue.

O Repent Amarillo ficou famoso quando liderou uma campanha de boicote à candidata à prefeitura de Houston Annise Parker. Perderam a batalha: Annise tornou-se a primeira lésbica assumida a governar uma grande cidade americana.

Mas eles conseguiram acabar com a vida de Monica e Mac Mead, donos do clube de swing Route 66. Monica é uma avó de 47 anos, casada há 12 anos com Mac, motorista de caminhão. Ela e o marido promoviam festas de troca de casais no Route 66. Eram todos moradores de Amarillo, caminhoneiros, taxistas, professoras primárias e donas de casa de meia idade.

Russell Grisham, filho de David de 20 anos que já foi condenado por pirataria na internet, postou nomes e fotos dos participantes do clube de swing. Eles anotaram as placas dos veículos de frequentadores e começaram a ligar para o local de trabalho das pessoas e denunciá-las. “O senhor sabia que o seu funcionário participa de um grupo de troca de casais?” Dois foram despedidos.

Exposição era tudo o que os frequentadores da casa de swing não queriam nesta cidade ultraconservadora. “Aqui, todo mundo é republicano, tem armas e não se anda dois quarteirões sem ver uma igreja”, diz a advogada Cristal Robinson. Em 2008, o republicano John McCain obteve quase 80% dos votos na região onde fica Amarillo, o Texas Panhandle. Aqui, uma das principais indústrias é “venda de fianças com desconto”, todo mundo fuma em tudo quanto é lugar e não se vende remédio de resfriado sem receita médica, porque os ingredientes são usados para fabricar a droga meta-anfetamina.

“Amarillo é uma cidade conservadora?”, perguntou o Estado ao taxista Ray Cushin. “De jeito nenhum, agora está cheio de casamento interracial, um absurdo. Um monte de mulher branca casando com negros.”

Revelação. Cristal é uma das poucas pessoas da cidade a defender abertamente as vítimas do Repent Amarillo e está processando o grupo por “arruinar a empresa” de Monica e Mac. A filha de Monica ficou sabendo do “estilo de vida” da mãe após o caso aparecer no noticiário local. Ela nunca mais falou com a mãe. Monica não vê seus quatro netos há mais de seis meses. “Minha vida tornou-se muito solitária”, disse Monica. Ninguém mais aluga o Route 66 para festas e ela declarou falência.

O Repent Amarillo animou-se com o fechamento do Route 66. “Era o troféu da imoralidade em Amarillo, que foi exposto e morreu”, disse Grisham. No ano passado, eles conseguiram impedir a exibição da peça Bent, sobre perseguição de homossexuais na Alemanha nazista. Na véspera da estreia, ligaram para os bombeiros e denunciaram a falta de uma licença no estabelecimento.

Em novembro, depois de muitos protestos em frente ao bar de strip-tease Crystal Pistol, denunciaram irregularidade na licença do estabelecimento, que foi fechado.

A polícia não faz nada, argumentando que o Repent Amarillo está exercendo seu direito à livre expressão. “A Primeira Emenda está viva em Amarillo”, diz Marcus Norris, secretário de Justiça da cidade. “Já defendi casos de Primeira Emenda, mas isso não é intimidação”, diz Cristal.

Diante do impasse, alguns moradores já pensam em formar milícias para defender-se. “Todo gay de Amarillo deveria ter uma arma, para se proteger”, diz Roy Rhyne, que trabalha no hospital batista, é gay e já foi assediado pelos extremistas.

Com Obama, extrema direita ganha novo impulso

Especialistas temem que novo surto radical leve a tragédias como o atentado de Oklahoma, em 1995, que matou 168 pessoas

Os EUA vivem uma proliferação de grupos extremistas, levando especialistas a temer uma repetição do atentado de Oklahoma. O número de grupos contra o governo, chamados de “patrióticos”, passou de 149 em 2008 para 512 no final de 2009, segundo estimativa do instituto Southern Poverty Law. Os principais motivos são a crise econômica e o fato de o país ter eleito um presidente negro, diz Heidi Beirich, diretora do instituto.

Para Heidi, está havendo uma assustadora repetição dos anos 90, quando se multiplicaram os grupos radicais durante o governo Bill Clinton, como reação às políticas adotadas pelos democratas. A radicalização culminou no atentado de Oklahoma, quando o extremista branco Timothy McVeigh destruiu um edifício do governo, matando 168 pessoas. Foi o segundo maior atentado nos EUA, só atrás do 11 de Setembro.

Alguns dos integrantes de grupos terroristas domésticos dos anos 90 estão voltando à ativa agora. “Estamos muito preocupados com uma repetição do atentado de Oklahoma”, disse Heidi.

Incitadores. Esses grupos se opõem a tudo o que veem como intervenção do governo. Alimentam-se de teorias conspiratórias (como os “birthers”, que acreditam que Obama nasceu no Quênia e por isso não pode ser presidente) e estão revoltados “com tudo isso que está aí” : pacotes de estímulo, déficit crescente, reforma do sistema de saúde, resgate de Wall Street, e os atuais líderes políticos. Eles têm sido encorajados até pela grande imprensa e por políticos tradicionais. Glenn Beck, apresentador da Fox, frequentemente exorta americanos a fazerem alguma coisa contra a ampliação do papel do governo. Michele Bachman, deputada republicana de Minnesota, disse que queria “as pessoas de Minnesota armadas e perigosas” para lutar contra as propostas de legislação para reduzir o aquecimento global.

“Estamos bem no meio de uma das maiores rebeliões populistas de direita da história dos EUA”, escreveu Chip Berlet, analista que estuda a direita americana.

Franceses sucumbiram à tentação do Kremlin

12:32 pm

kremlin

Laço estratégico entre Paris e Moscou é histórico, mas venda de navios à Rússia mostra que Paris não aposta em uma “posição europeia”

Por Dominique Moïsi*
PROJECT SYNDICATE

Qual significado tem a recente venda da França para a Rússia de quatro poderosos navios de guerra classe Mistral? Será um simples negócio ou uma decisão irresponsável que contribui para uma mudança perigosa no equilíbrio de poder nos mares Báltico e Negro? Afirma-se às vezes que a Alemanha se tornou uma segunda França por sua estratégia egoísta em relação à União Europeia. Mas não será a França que está se tornando, na realidade, uma segunda Alemanha?

A França não tem a “relação natural” da Alemanha com a Rússia - um contato que tem base tanto na geografia quanto na história. Paris, porém, mantém uma relação bilateral “especial” com a Rússia, marcada por uma profunda dimensão cultural, que de algum modo transcendeu a Guerra Fria.

O general Charles de Gaulle certa vez definiu-se como um “amigo nos tempos ruins” dos EUA, implicando que, nos “bons tempos”, poderia fazer as coisas à sua maneira, abandonar o comando militar integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e comportar-se como uma espécie de ponte entre Oriente e Ocidente. A política de distensão de De Gaulle em relação à URSS concretizou o desejo da França de “existir” diplomaticamente por conta própria e maximizar sua margem de manobra com os EUA.

Os tempos mudaram. A Guerra Fria terminou. Nicolas Sarkozy não é De Gaulle, e a Rússia não é a URSS. Contudo, respira-se um inegável ar de nostalgia na atual aproximação entre as duas potências, conscientes de sua relativa decadência.

Ambas estão preocupadas em fortalecer seu respectivo status - diplomático, no caso da França, estratégico, no da Rússia. Não obstante, a realidade é mais prosaica para ambas.

O ponto culminante da recente visita do presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, a Paris, na qual foi concluída a venda de armas, foi o acordo dos dois países sobre questões pragmáticas mais que sobre visões estratégicas de longo prazo.

A França está interessada em manter sua indústria armamentista independente e em conservar aberto seu arsenal naval em Saint Nazaire, na costa ocidental. Esta legítima inquietação “mercantil” tem sido supostamente correspondida pela Rússia com “pequenos atos” no que se refere a uma política de sanções contra o Irã. Será interessante ver, dentro de algumas semanas ou meses, se o Kremlin conseguirá cumprirá o que se subentende.

Na realidade, como aconteceu em agosto de 2008, quando Sarkozy negociou com sucesso um cessar-fogo e depois um acordo de paz entre Geórgia e Rússia (em grande parte segundo as condições ditadas pela Rússia), as ações do presidente francês são música para os ouvidos da Rússia. Além disso, Sarkozy, “o americano” (como já foi chamado na França), atualmente já não acha que tenha de provar alguma coisa aos EUA. A França voltou simbolicamente ao comando militar da Otan em abril de 2009. Embora alguns funcionários americanos tenham torcido o nariz à venda de equipamento militar sofisticado da França à Rússia, ninguém se atreveu a queixar-se abertamente.

Afinal, não estão os EUA prestes a virar a página com a Rússia? Com a China no horizonte como uma força muito mais segura de si mesma e mais desafiadora do que a Rússia, até mesmo como ator fundamental no G-20, a Rússia está sendo cortejada por todas as potências mundiais. E todos parecem estar fazendo os mesmos cálculos, na esperança de alterar o equilíbrio de poder na Rússia para fortalecer a posição de Medvedev em relação ao primeiro-ministro Vladimir Putin.

A França não deveria se enganar. Não há nada de mais em vender armas à Rússia, mas fazê-lo implica cair no jogo dos esforços de Putin para fortalecer a política de dominação da Rússia sobre o “exterior próximo”.

O que está claro é que qualquer ambição de definir uma política europeia de energia e segurança voltada à Rússia está desaparecendo lentamente. Em última instância, de Berlim a Paris, e de Paris a Roma, os líderes europeus podem estar fazendo o mesmo, mas todos separadamente, como concorrentes para obter o favor da Rússia em lugar de fazê-lo como parceiros dentro da União, supostamente muito integrada.

*FRANCÊS, É PROFESSOR VISITANTE DE HARVARD

Os motivos para aprovar a reforma

12:21 pm

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Entre eles, estão os casos de seguradoras de saúde que vêm revogando as apólices de seus segurados quando estes ficam doentes

Por Paul Krugman

The New York Times

Seja qual for a decisão tomada, o destino da reforma do sistema de saúde será definido nos próximos dias. Se a liderança democrata na Câmara dos Estados Unidos conseguir 216 votos, a reforma se tornará quase imediatamente lei imposta pelas autoridades. Caso contrário, a reforma da saúde pode ser adiada em muitos anos - talvez uma década ou mais. Assim sendo, este parece ser um bom momento para relembrar os motivos pelos quais precisamos desta reforma, por mais imperfeita que seja.

A agência de notícias Reuters publicou esta semana uma reportagem investigativa que ilustra de maneira poderosa as vilanias do sistema atual. A reportagem trata do caso da seguradora Fortis, agora parte da Assurant Health, que sistematicamente revoga as apólices de seus assegurados quando estes ficam doentes.

Segundo a reportagem da Reuters, a empresa teve como alvo cada um dos assegurados que contraiu o vírus do HIV, procurando por uma desculpa para o cancelamento, por mais esfarrapada que fosse. No caso que trouxe tudo isto à luz, a Assurant Health usou um bilhete obviamente equivocado escrito à mão por uma enfermeira, que teria assinalado “2001″ em vez de “2002″, para alegar que a infecção era uma condição pré-existente o assegurado não tinha divulgado, revogando, assim, a apólice.

Tratou-se de um procedimento ilegal, e a Assurant Health sabia disso: depois de sustentar uma decisão garantindo uma ampla indenização ao assegurado prejudicado, a Suprema Corte da Carolina do Sul concluiu que a empresa seguradora estivera mascarando sistematicamente seus movimentos quando cancelava a cobertura, não apenas neste caso, mas em relação a todas as apólices.

Mas esta questão vai muito além do respeito à lei. Para começar, trata-se de um exemplo que deve ser levado em consideração por aqueles que castigam o presidente Barack Obama por “demonizar” as seguradoras.

A verdade, amplamente documentada, é que há um motivo simples para a adoção generalizada de um comportamento como o da Assurant Health: ele compensa.

Uma comissão da Câmara dos Representantes estimou que entre 2003 e 2007 a Assurant lucrou US$ 150 milhões com o cancelamento das apólices de pessoas que pensaram estar asseguradas, soma muito superior à multa imposta pelo tribunal neste caso específico. Descrever o que as seguradoras realmente fazem não é demonizá-las.

Cobertura. Além disso, esta é uma história que só poderia ocorrer nos Estados Unidos. Em todos os demais países desenvolvidos, a cobertura do seguro está disponível a todos, independentemente de seu histórico médico. Nosso sistema é único em sua crueldade.

Mais uma coisa: o seguro de saúde com base no emprego, que já é regulamentado de maneira a praticamente evitar esse tipo de abuso, está se desenredando. Menos da metade dos funcionários de pequenas empresas possuía cobertura, uma redução em relação aos 58% registrados há dez anos. Isto significa que, na ausência de uma reforma, um número cada vez maior de americanos estará nas mãos de empresas como a Assurant Health.

Apoio. Qual é a resposta, então? A grande maioria dos americanos é favorável à garantia de cobertura para aqueles com problemas de saúde preexistentes, mas isso só pode ser feito por meio da adoção de uma reforma ampla. Para que o seguro saúde se torne acessível, é preciso que todas as pessoas atualmente saudáveis sejam mantidas no convênio, o que significa exigir que todos ou quase todos adquiram seguro. É impossível fazê-lo sem oferecer auxílio financeiro aos americanos de baixa renda para que possam pagar as tarifas. Assim, chegamos a uma medida tripartite: a eliminação da discriminação médica, a cobertura gerenciada, e os subsídios às tarifas.

Dito de outra forma, o resultado é algo parecido com o plano de atendimento médico introduzido por Mitt Romney no Estado de Massachusetts em 2006, ou também o plano muito semelhante que a Câmara pode aprovar - ou não - nos próximos dias. Uma reforma ampla é a única maneira de avançar.

Déficit. Será que podemos arcar com este custo? Sim, diz o Gabinete Orçamentário do Congresso, que concluiu na quinta-feira que a legislação proposta reduziria o déficit em US$ 138 bilhões em sua primeira década, e em 0,5% do PIB na década seguinte, o que corresponde a US$ 1,2 trilhão.

Mas será que não deveríamos nos concentrar mais no controle de custos em vez da extensão da cobertura? Na verdade, a reforma proposta faz mais para controlar os custos do sistema de saúde do que qualquer outra legislação anterior, pagando pela cobertura estendida por meio da redução da proporção de crescimento dos custos do Medicare, e com isso melhorando substancialmente o financiamento de longo prazo do programa Medicare. E esta combinação de cobertura mais ampla e controle de custos não é acidental: faz tempo que os especialistas em medidas de saúde sabem que estas preocupações caminham juntas. Os Estados Unidos são o único país desenvolvido desprovido de atendimento médico universal, e possuem também o sistema de saúde mais caro de todos, por uma grande margem de diferença.

É possível imaginar uma reforma melhor? Claro. Se o presidente americano Harry Truman (1945-1953) tivesse acrescentado o atendimento médico ao sistema previdenciário em 1947, teríamos um sistema mais barato e mais eficiente do que aquele cujo destino está agora em jogo. Mas um plano ideal não está entre as opções atuais. E o que figura entre tais opções, pronta para a adoção, é uma legislação fiscalmente responsável, que avança no sentido de conter o aumento do custo do sistema de saúde, e faria do nosso país um lugar melhor, mais justo e mais decente.

Para que isto aconteça, é preciso apenas que um punhado de congressistas indecisos faça a coisa certa. Vamos torcer por isto.

Tradução de Augusto Calil

EUA estão se tornando uma sociedade dividida

Confluência de crises produziu um surto de libertarismo; as pessoas estão insatisfeitas com Washington e o Tea Party protesta contra governo e a classe dirigente em geral

Por David Brooks*
The New York Times
Os Estados Unidos estão se tornando uma sociedade fragmentada. O público despreza a classe política. A dívida pública está se acumulando num ritmo espantoso e incansável. Os salários da classe média estagnaram. O desemprego permanecerá alto. Serão necessários anos para uma recuperação plena da crise financeira. Essa confluência de crises produziu um surto de veemente libertarismo.

As pessoas estão insatisfeitas com Washington. O movimento Tea Party protesta contra governo grande, empresa grande e a classe dirigente em geral. Mesmo fora de suas fileiras, existe um cinismo corrosivo ante a atividade pública.

Mas há uma outra maneira de responder a esses problemas que é mais comunitária e menos libertária. Essa alternativa tem sido mais plenamente explorada pelo escritor britânico Phillip Blond.

Ele cresceu na Liverpool operária. “Eu vivi na cidade quando ela estava sendo eviscerada”, disse ele a The New Statesman. “Era uma bela cidade, uma das poucas na Grã-Bretanha a ter uma cultura genuinamente indígena. E todo esse modo de vida foi destruído.” A indústria morreu. O poder político foi centralizado em Londres.

Blond argumenta que, na última geração, testemunhamos duas revoluções, que libertaram o indivíduo e dizimaram associações locais.

Primeiro, houve uma revolução da esquerda: uma revolução cultural que desalojou modos e costumes tradicionais; uma revolução legal que enfatizou direitos individuais em vez de responsabilidades; uma revolução no bem-estar social em que trabalhadores assistenciais substituíram as sociedades de ajuda mútua e associações auto-organizadas.

Depois, houve a revolução do mercado de direita. Na era da desregulação, cadeias gigantes como Walmart dizimaram os lojistas locais. Os mercados financeiros globais assumiram o controle de pequenos bancos, de tal forma que o conhecimento local do banqueiro da cidade foi substituído por uma horda maníaca de traders a milhares de quilômetros de distância. Os sindicatos minguaram.

Centralização. As duas revoluções falavam a linguagem da liberdade individual, mas elas perversamente acabaram criando uma maior centralização. Elas criaram uma sociedade atomizada, segmentada, e depois o Estado teve de entrar e tentar reparar os danos.

A revolução do livre mercado não criou uma economia descentralizada pluralista. Criou uma monocultura financeira centralizada que requer um governo gigantesco para fiscalizar suas atividades. O esforço para libertar indivíduos das limitações sociais opressivas não produziu um florescimento da liberdade, ele enfraqueceu famílias, aumentou os nascimentos fora do casamento e transformou vizinhos em estranhos. Na Grã-Bretanha, temos um país com a criminalidade em ascensão e, por conseguinte, 4 milhões de câmeras de segurança.

Em um ensaio muito discutido na revista Prospect de fevereiro de 2009, Blond escreveu: “Vejam a sociedade em que nos tornamos: somos uma nação bipolar, um Estado burocrático, centralizado, que preside de maneira disfuncional uma cidadania crescentemente fragmentada, isolada e desprovida de poder.” Num ensaio separado, ele acrescentou: “O Estado de bem-estar e o Estado de mercado são agora dois fracassos defuntos e mutuamente respaldados.”

A tarefa hoje, ele argumentou numa palestra recente, é reviver o setor que as duas revoluções mutuamente dizimaram: “O projeto de conservadorismo transformador radical é nada menos que a restauração e criação da associação humana, e a elevação da sociedade e do povo que a forma a sua devida posição central e soberana.”

Reforma. Economicamente, Blond expõe três grandes áreas de reforma: remoralizar o mercado, relocalizar a economia e recapitalizar os pobres. Isso significaria aprovar uma legislação de zoneamento para dar aos pequenos lojistas uma chance contra as gigantes de varejo, reduzir barreiras à entrada de novas empresas, revitalizar bancos locais, encorajar a divisão da propriedade com empregados, criar fundos de capital locais para que associações comunitárias possam investir em empresas locais, premiar poupanças, eliminar regulamentos que socializam o risco e privatizam o lucro, e reduzir os subsídios que fluem de governos grandes e empresas grandes.

Para criar um Estado civil, Blond reduziria o poder dos altos escalões do governo e ampliaria o arbítrio dos funcionários públicos da linha de frente, as pessoas que realmente trabalham nas vizinhanças. Ele descentralizaria o poder, dando mais autoridade orçamentária às menores unidades do governo. Ele canalizaria mais serviços por instituições de caridade. Ele aumentaria os investimentos em infraestrutura, para que mais lugares pudessem ser centros vibrantes de irradiação econômica.

Ele reconstruiria o “village college” (sistema de escolas britânicas para garotos de 11 a 16 anos com atividades de educação e lazer para adultos fora dos horários de aula) para que as universidades fossem mais conectadas às cidades que as cercam.

Basicamente, Blond tomaria uma cultura política que foi orientada em torno da escolha individual e a substituiria por uma orientada para relacionamentos e associações. Suas ideias causaram um grande furor na Grã-Bretanha no ano passado. Seu centro de estudos, ResPublica, é influente no Partido Conservador. Seu livro, Red Tory, vai sair em breve. Ele está fazendo uma curta viagem de palestras aos Estados Unidos, com presença no Tocqueville Forum em Georgetown na sexta-feira e na Universidade de Villanova amanhã.

A Grã-Bretanha sempre será mais hospitaleira a políticas comunitárias que os mais libertários Estados Unidos. Mas as pessoas são criaturas sociais aqui também. Este país também precisa de um vento político fresco. Os EUA também estão sofrendo uma devastadora crise de autoridade. A única maneira de restaurar a confiança é da comunidade local para cima.

Tradução de Celso M. Paciornik

*É COMENTARISTA POLÍTICO E ESCRITOR

Ver imagens remetidas por Barack Obama via Twitter aqui.

Ver mais notícias sobre a política interna dos EUA aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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Você é um preso político cubano

12:04 pm

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Por Reinaldo Escobar

Muitos livros podem ser escritos sobre o tema das pessoas que em Cuba estiveram ou permanecem na prisão por motivos políticos. São muitos os pontos de vista e também são muitas as etapas do fenômeno, mas o termo “preso por motivos políticos” é mais do que uma definição jurídica ou uma construção gramatical.

Trata-se da situação na qual se encontram as pessoas que perderam sua liberdade porque seus propósitos políticos são considerados delitos pelas autoridades, independentemente dos métodos empregados para colocá-los em prática. Poderíamos dizer, por abstração, que um extremista que tenta impor seus ideais por meio da violência é mandado à prisão por praticar atos violentos contra as pessoas, classificado como criminoso comum ou terrorista. Mas, se ele se limita a recolher assinaturas para enviar uma proposta democrática ao Parlamento e é encarcerado por isso, então ele é, sob todos os pontos de vista, um preso político. O aspecto complicado da questão é o fato de os acontecimentos transcorrerem num contexto histórico que transcende as estreitas generalidades dos dicionários.

Fidel Castro, que no verão de 1953 organizou uma força de mais de 100 homens armados para o ataque a uma fortaleza militar em Santiago de Cuba, foi considerado um preso político, e tratado como tal, pelo brutal regime que ele pretendia derrubar pela força. O implacável tirano Fulgencio Batista permitiu que o jovem advogado recebesse jornalistas em sua cela. Em sua infinita crueldade, o ditador impediu que o líder revolucionário cumprisse a pena de 15 anos a que fora condenado, libertando-o com seus companheiros após apenas 22 meses na prisão modelo de Isla de Pinos.

Ser livre era a mais preciosa conquista proclamada por aquela revolução, que triunfou após um temerário desembarque e dois anos de luta de guerrilha, apoiada por atentados e sabotagens. A Liberdade, representada ao estilo de Delacroix, saindo exultante de barricadas com o belo peito descoberto, fez com que de início ninguém se acautelasse diante da presença de sua severa companheira: a Justiça, que não demorou em roubar-lhe o protagonismo, primeiro nos tribunais revolucionários, levando ao paredão policiais e torturadores que não conseguiram escapar e decretando o confisco de propriedades irregulares.

Logo os cubanos descobriram que aquela moça com o seio de fora não era bem-vinda na cerimônia de casamento entre o poder revolucionário e a outra dama, a inflexível que tinha lhe tomado o lugar e desde então passaria a ser chamada de “justiça social”. Em nome dela foram proclamadas leis de nacionalização que não se conformaram em intervir nas 382 grandes empresas estrangeiras, mas terminaram por despojar os engraxates de rua de suas ferramentas.

Como não havia dúvida de que os interesses americanos na ilha tinham sido afetados, qualquer arroubo de rebeldia, inconformismo ou questionamento passou a ser considerado ato contrarrevolucionário a serviço do imperialismo ianque. Nada disso era encarado como crime político, mas como traição à pátria. Seus autores só poderiam ser encarados com epítetos desprezíveis: os que fugiram para as montanhas foram chamados de bandidos; os que organizaram expedições foram tachados de invasores; os que se limitaram a organizar partidos, grupos de defesa dos direitos humanos, agências de imprensa ou bibliotecas independentes foram chamados de mercenários. Dessa coleção de inimigos, alguns foram executados, outros cumpriram ou cumprem penas prolongadas e o restante vive na angústia de ter um pé na rua e o outro no cárcere.

Há presos políticos em Cuba? O Comitê de Direitos Humanos contava 201 nomes na época conhecida como primavera negra de 2003. Naquela ocasião, 75 pessoas foram condenadas a penas de 15 a 28 anos. Dos membros desse grupo, 56 permanecem presos.

Mas as instâncias do poder em Cuba têm outra versão dos fatos. Um exemplo é a Declaração da Assembleia Nacional do Poder Popular de 11 de Março, que respondeu à resolução do Parlamento Europeu que condena o governo cubano e pede “a libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos e de consciência”. Tal documento foi emitido após a morte do preso político Orlando Zapata Tamayo, em decorrência de uma greve de fome, e expressa preocupação diante do estado do jornalista e psicólogo Guillermo Fariñas, que entrou em greve de fome até que sejam libertados todos os presos políticos que exigem atenção médica.

A primeira coisa que salta aos olhos é a interpretação segundo a qual uma condenação ao governo equivale a um ataque contra o povo cubano. A segunda é o sofisma que afirma que parlamentares da União Europeia “são desprovidos de moral para julgar um povo alvo de um brutal bloqueio”. Quem teria moral para reclamar do governo cubano? Por acaso Mobutu, ou Kim Jong-il, ou talvez Hugo Chávez? Estou convencido de que o serviço secreto cubano possui informações sujas a respeito de qualquer um que se atreva a denunciar os atropelos do governo cubano contra o povo, ou ao menos contra uma parte dele. Qual teria sido o fato podre do passado de Lula que lhe seria esfregado na cara se o presidente brasileiro tivesse ousado sugerir a Raúl Castro, mesmo num sussurro, que fosse libertado apenas um par de presos moribundos?

Pois, caso não saibam, em Cuba a discrepância política foi criminalizada e é castigada de muitas formas. Seja mandando o opositor à prisão ou impedindo que viaje para fora do país para receber um prêmio, como ocorreu tantas vezes com as Damas de Branco e com a blogueira Yoani Sánchez, a quem foi negada uma viagem ao Brasil por ocasião do lançamento de seu livro. Pensar diferente pode custar a alguém a admissão num centro de trabalho.

Assim sendo, somos todos presos políticos neste grande cárcere de 111 mil km². Mas isso não é tudo. Serão penalizados também os de fora que levantarem a voz, porque na lógica castrista o povo cubano é um único homem decidido a morrer antes de renunciar ao seu sistema, e os que pensam diferentemente só podem ser agentes do imperialismo.

Não há presos políticos em Cuba? Você é um deles, mesmo que não saiba disso.

*Jornalista cubano, é marido da blogueira Yoani Sánchez

”Sinto que fui enterrado vivo”

12:01 pm

Pablo Pacheco

Pablo Pacheco

Por Ruth Costas
HAVANA
O Estadao de S.Paulo

O jornalista Pablo Pacheco, de 40 anos, foi detido na ofensiva de 2003 de Cuba contra dissidentes e ativistas dos direitos humanos e recentemente tem sido autorizado a fazer um telefonema de 20 minutos a cada dois dias da prisão para parentes e amigos. É um privilegiado. Alguns presos só podem ligar uma vez por semana.

Na sexta-feira, ele concordou em usar esse tempo para contar sua história ao Estado.

Por que você foi preso?

Por escrever o que eu penso. Fui enquadrado na Lei 88, a “lei da mordaça”, que condena quem atenta contra a “segurança nacional”. Sou jornalista. Como em Cuba só há jornais do governo, escrevia para sites estrangeiros como o Cubanet (de exilados). Para você ter uma ideia, as provas apresentadas contra mim foram 523 artigos e reportagens, recibos da (empresa de transferência de valores) Western Union - pagamentos que recebi por esses artigos -, equipamentos de trabalho como câmera fotográfica e gravador, livros e textos, entre eles a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Eu tinha a Constituição dos EUA, imagine só. Eu também tinha a Constituição da Espanha, mas o problema foi a dos EUA.

Quais as condições da prisão em que você está?

Sinto que fui enterrado vivo. Em uma cela de uns 30 metros quadrados há 27 pessoas. O ambiente é sujo, as doenças se alastram e a comida é intragável. Além disso, a violência é constante por parte dos carcereiros. Estou nessa prisão há pouco mais de um ano - fui transferido. É uma prisão que também tem pessoas com um histórico psiquiátrico complicado. No tempo que estou aqui já ocorreram quatro suicídios.

Você tem problemas de saúde por causa dessas condições?Sim. Tenho dores de cabeça constantes, gastrite, hipertensão e problemas nas articulações.

Como é a relação com os presos comuns?

Cada preso político tem a sua história, mas eu pelo menos sinto que eles têm muito respeito por mim. Sentem que eu posso chamar atenção para um problema que também é deles - as condições das cadeias cubanas.

Tem esperança de sair?

Sim, mas acho isso difícil enquanto a comunidade internacional não tomar consciência do que está ocorrendo em Cuba. Há um ano houve negociações para uma visita de uma comissão especial da ONU sobre tortura. Ficamos esperançosos, mas a iniciativa não foi adiante. Nada vai avançar enquanto houver políticos que pensem apenas com mentalidade de empresário e sem humanidade, como o seu presidente, (Luiz Inácio) Lula (da Silva). E eu nunca pensei que iria dizer isso, porque Lula sempre foi um líder que admirei. Achava que ele era grande. Foi uma imensa decepção ouvi-lo comparar todos nós, presos políticos, com criminosos. O mundo precisa entender que o que há neste país é uma ditadura. E as ditaduras de direita e de esquerda são a mesma coisa. No extremo, elas se encontram.

Sua situação pode piorar por falar com a imprensa?

Todos têm muito medo em Cuba. Aqui, o medo é ainda maior do que a dor. É o que nos causa mais sofrimento. Mas essa é uma luta que vale a pena. Não vamos mais nos calar quando o momento exigir que gritemos. Quero um país no qual todos os cubanos possamos sentar para conversar, liberais, socialistas, todos enfim. Que possamos dialogar, acabar com o medo e o ódio.

Pablo Pacheco Ávila

PachecoPABLO PACHECO ÁVILA: Prisoner of Conscience

“The enemies of freedom could have strength but not reason, they could have laws but not justice. They could have media but not truth. They could manipulate man’s thoughts but not his conscience. They could imprison the body but not the spirit.”
Pablo Pacheco, from prison, November 2003

Whether young or old, many of Cuba’s political prisoners suffer from poor health in Fidel Castro’s gulag. It seems that every week, family members or other contacts report on the poor health of a particular prisoner of consicence, and how little their jailers are doing for them.

Last week, CubaNet reported that imprisoned journalist Pablo Pacheco Avila, 36, was in a hospital in Ciego de Ávila suffering from a variety of ailments, including gastritis and problems with his spine and kidneys.

Publicity about the prisoners’ poor health is vital since international pressure has succeeded in helping with the release of other dissidents on medical parole.

Pacheco was well familiar with Castro’s repressive ways before he was sentenced to 20 years in prison in 2003.

In 1998, he was sentenced to 3 1/2 years in prison for “enemy propaganda,” according to Payolibre.

Reporters Without Borders has more.

He was detained three times in 2002 for “unlawful association” but was released each time after a few hours. His phone line was often cut when something happened in Ciego de Ávila to prevent him from contributing a report to Radio Martí, the US government radio station that beams programmes to Cuba.

Pacheco maintained that he was not the target of systematic harassment, but his family was the victim of bureaucratic reprisals. His wife, a doctor in a clinic, was overburdened with work but their four-year-old boy was denied a place in the day-care centre. His elderly mother, who lives in the United States, was subject to extensive and humiliating searches at the airport on both arrival and departure when she made a visit in August 2002.

Pacheco, a contributor to the Ciego de Ávila Independent Journalists Cooperative (CAPI), was arrested March 18, 2003, as part of the “black spring” roundup of 75 journalists, librarians, human rights activists and other dissidents.

On April 4 — his 33rd birthday — Pacheco was convicted and sentenced to 20 years’ in prison under Law 88 which provides lengthy prison terms for those found guilty of supporting United States policy on Cuba aimed at “disrupting internal order, destabilising the country and destroying the Socialist State and the independence of Cuba,” according to Amnesty International.

Amnesty International continues:

It is believed that Pablo Pacheco’s arrest and sentencing were politically motivated, relating to his legitimate journalistic activities and peaceful exercise of his right to freedom of expression and association, and Amnesty International therefore considers Pablo Pacheco to be a prisoner of conscience.

For more about the imprisoned independent journalists in Cuba, go to Payolibre, CubaNet, Cuban Political Prisoners or Reporters Without Borders.

For more on Uncommon Sense’s March 18 Project, including profiles of other independent journalists, in and out of prison, read here.

WHAT CAN YOU DO TO HELP?

Amnesty International has information on whom in the Cuban government you can contact to urge the release of Pacheco and other prisoners of conscience in Cuba.

Also, Reporters Without Borders has an ongoing petition drive asking Castro to release independent journalists in prison. You can sign the petition here. (A technical note: Reporters Without Borders is based in Paris, so the confirmation e-mail you will receive after signing the petition will be in French. Just in case you don’t read French, the confirmation e-mail asks you click on the link to complete the petition signature process. Castro won’t receive your message until you click on the link.)

For more on the Cuban dissidents, including a chance to “adopt a dissident,” see the Cuban American National Foundation’s Web site.

Perhaps the most important thing you can do is find and read the work of independent journalists still on the island. A place to find their articles, in Spanish, English and French, is CubaNet.

Na trilha dos índios isolados

11:55 am
Por Roberto Almeida - O Estadao de S.Paulo


Integrantes da expedição da FUNAI ao Vale do Rio Javari, atravessando área encharcada para montar  acampamento em Tabatinga-AM

Às 16h30 do dia 1º de dezembro de 2009, um barco de madeira da Funai com 13 pessoas a bordo começou a escorrer lentamente pelo Rio Solimões. O motor roncava forte, constante, e uma leve brisa enfim aliviou o sol que massacrava a tripulação no porto de Tabatinga, extremo oeste do Amazonas.

O que era projeto, mapa, planilha e expectativa do indigenista Rieli Franciscato, chefe da expedição, começava a virar realidade. Cinco índios e cinco mateiros, acompanhados pela reportagem do Estado, estavam sob seu comando na mais ambiciosa jornada da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari dos últimos oito anos.


Vista do Rio Jutaí, Amazônas, a partir do Barco Kukahã


Em três grandes entradas na mata, o grupo de expedicionários tentaria encontrar indícios da existência de grupos indígenas desconhecidos, não-contactados. Prazo de retorno imprevisível. Dois meses de viagem pelo menos.

O objetivo era verificar três hipóteses. A primeira, sobre a suposta ação de indígenas na formação de uma clareira em formato de perfeita circunferência, observada em sobrevoo realizado pela Funai meses antes. A segunda, avaliar a veracidade de boatos que ligariam dois assassinatos de não-índios, parentes de madeireiros, por “índios bravos”.

E a última, uma suposta aparição na aldeia Janela, da etnia katukina, no Rio Biá, de um índio nu, pintado de urucum e com cabelos longos. Ele teria tentado raptar uma jovem, o que criou um alvoroço mítico entre os katukinas.
Jornada. Quando o barco partiu naquela tarde de dezembro, tudo parecia simples. Navegar pelos grandes rios, subir igarapés em velozes voadeiras e caminhar pela floresta com olhar atento para vestígios deixados por índios não-contactados. Para vestir, roupas leves e resistentes. Para comer, o básico arroz, farinha, feijão, carne seca e macarrão. Para dormir, rede, mosquiteiro e lona.

No entanto, os imprevistos de uma expedição de grande porte acabam estressando o não-índio, cansando o índio e deixando o indigenista com a difícil tarefa de manter os ânimos em sintonia com o trabalho duro. Especialmente porque, em duas entradas, os indícios de existência dos índios não-contactados não se comprovaram.

Ao todo, a jornada teve 63 dias, alguns de total monotonia, outros de cansaço extremo, e raros momentos de grandes descobertas. A paisagem amazônica, imagina-se, tem surpresas a cada instante, o que não é verdade. É raro encontrar animais.

Além disso, houve grande apreensão no fim de dezembro, quando ocorreu um encontro direto e inesperado com garimpeiros encapuzados, assustados com a presença do barco oficial no Rio Boia. Enquanto a equipe navegava a cerca de 10 km/h, dois deles deixaram o trabalho na balsa de extração de ouro e rasgaram o rio em uma voadeira sem identificação e fizeram gestos ameaçadores para a equipe.

“Eles não são loucos de fazer alguma coisa”, acalmava Franciscato. Não fizeram, mas a sensação de vulnerabilidade tomou conta de todos. Só esvaneceu quando ficou comprovado que eles haviam deixado a área de exploração um mês depois, já em janeiro de 2010, quando o barco retornava da terceira fase da expedição.

Fôlego. Por outro lado, quando foram encontrados vestígios dos não-contactados, logo antes do Natal passado, a equipe ganhou fôlego necessário. A área, que nunca havia sido expedicionada, era de perambulação de um grupo que teria partido de dentro da Terra Indígena Vale do Javari para caçar. Nada que confirmasse, porém, a ocupação da área. Não havia tapiris - acampamentos rudimentares -, ou sinais de uso da terra.

“Trabalhar com índio isolado é assim mesmo”, dizia em seu parco português o índio Txami Matis, mais experiente da missão. “É assim mesmo”, para ele, significa superar a impaciência e o desconforto por um bem maior, que nem sempre ocorre - a demarcação da terra e a proteção do não-contactado.

No dia 1.º de fevereiro, mais de 3 mil quilômetros percorridos depois, o barco da Funai encostou novamente em Tabatinga. A equipe, que havia operado voadeiras, motosserras e caminhado cerca de 150 quilômetros em áreas encharcadas, cruzando igarapés e igapós, não escondia a alegria de voltar para a cidade. Era um domingo de sol, o techno brega e a cumbia colombiana rolavam soltos nos bares de Tabatinga.

O único a não querer descer do barco da Funai foi o indigenista Rieli Franciscato. “Tenho nada pra fazer na cidade não”, avisou. “Se não quer apanhar, não sai de casa”, brincava o mateiro e índio ticuna Misael.

63 dias entre rios, igarapés e vestígios

Equipe desafiou a floresta, investigou boatos e viu sinais deixados por índios não-contactados

Só 12 dias depois de sair de Tabatinga é que o barco da expedição, Kukahã, conseguiu contornar a Terra Indígena Vale do Javari, deixando para trás os rios Solimões e Jutaí. O longo trajeto até a boca do Rio Boia, um afluente menor, de água preta, serviu para mostrar que o tempo na Amazônia tem outra dimensão.

Horas, minutos e segundos saem de cena. Dias, semanas e meses aparecem como referencial. O tempo se arrasta para quem não está acostumado e enclausurado em um barco de 30 m² com 13 pessoas. A paisagem homogênea - marrom na água, verde na margem, azul no céu - pouco ajuda.

No trajeto, enquanto a primeira entrada se aproximava, o indigenista Rieli Franciscato distribuía facões e equipamentos de sobrevivência. Os rifles de caça foram revisados. A ansiedade aumentava.

Na véspera, Franciscato fez a divisão do “rancho” que seria levado até o acampamento-base na mata. Foram embarcados em dois barcos de alumínio uma motosserra e um gerador de luz, farinha, arroz, sardinhas, pacotes de bolacha de água e sal e suco artificial. Soro antiofídico e testes de malária.

Ao meio-dia do dia 12 de dezembro, nove membros da expedição partiram em direção à clareira supostamente feita por índios não-contactados. Igarapé adentro, com vento no rosto, a palmeira buriti se espraiava sobre a água como um guarda-chuva verde. A bromélia vermelha contrastava, a 20 metros de altura. O sol explodia no céu azul.

Ao cair da tarde, Franciscato ordenou que o tilintar dos facões se multiplicassem na mata. A floresta na beira abria espaço para o acampamento.

Após a noite sob chuva torrencial, o igarapé estava cada vez mais bloqueado por árvores tombadas. Foram seis horas de acelera e para até chegar ao ponto de partida da entrada na mata, ainda a 15 quilômetros da clareira.

Era o começo de uma forte caminhada em terreno acidentado. Nesse pedaço, a Amazônia é de morros, com subidas escorregadias. E a proteína necessária veio da carne de macaco-aranha, abatido pelo mateiro e índio ticuna Misael.

Quando a clareira estava próxima, a menos de 5 quilômetros, o clima de decepção tomou conta. Não havia vestígios indígenas. Franciscato ficou 15 minutos em silêncio. Acendeu um longo cigarro enrolado com folha de caderno. “É, achei que a gente já estaria tomando chicha (bebida de frutas fermentadas) com os “parentes”", desabafou, brincando.

A clareira não passava de uma área em que árvores foram derrubadas por uma tempestade. “Bora voltar então”, ordenou Franciscato. Ainda faltavam duas entradas para cumprir a missão.

Segunda entrada. Dia 25 de dezembro de 2009,parado na beira do Rio Boia, rifle nas costas e suando em bicas, o mateiro e índio kanamari Wilson tirou um galho do bolso e mostrou para a equipe. “Ó a quebrada! Eu com medo de parente bravo!” Franciscato, mesmo avesso à “bagunça” das festas de fim de ano, não resistiu. “É nosso presente de Natal.”

O galho que Wilson encontrou quebrado é o vestígio que a Frente procurava, 400 quilômetros ao sul da clareira. Após o desalento da primeira fase, era o grande sinal de índios não-contactados da expedição.

A nova incursão começara no dia 21 de dezembro para confirmar relatos de ribeirinhos: a mulher de um madeireiro e a filha de outro teriam sido mortas por “índios bravos” nos últimos cinco anos.

Galhos quebrados, porém, não eram suficientes para afirmar que índios não-contactados ocupam a área. E assim se desenhou a missão mais longa da expedição. Foram sete dias no barco de alumínio, a motosserra gritava nos igarapés para poder abrir caminho. Mas não avançava cinco quilômetros por dia.

Quando finalmente a Frente chegou ao ponto de início da caminhada, após topar com picadas de cobras e escorpiões, já era 30 de dezembro, quase 2010. O trajeto a pé, de 50 quilômetros em linha reta, passou por áreas encharcadas e travessias perigosas de igarapés. Mas os vestígios desapareceram.

“Fomos longe mesmo”, suspirava o mateiro e índio marubo Tapumpa, após retornar ao acampamento-base no dia 6 de janeiro. “Não encontramos nada”, dizia um cansado Franciscato.

O caso dos assassinatos restou inconclusivo. Ficou claro, no entanto, que índios não-contactados de um grupo conhecido da Terra Indígena Vale do Javari estão fora da área demarcada, desprotegidos, e requerem monitoramento, culpa do avanço do garimpo na região.

Rapto de mulher. Dia 19 de janeiro deste ano, Franciscato decidiu investigar o suposto rapto de uma mulher da etnia katukina no Rio Biá, afluente do Rio Jutaí. Para sustentar a tese, o indigenista entrevistou katukinas de três aldeias - Boca do Biá, Janela e Bacuri.

Foram duas as palavras-chave: quebrada e varadouro. O índio katukina Carnaval disse que sabia onde estavam os vestígios e acompanhou a equipe na entrada, por cinco dias.

No entanto, ao final do trajeto de 30 quilômetros a pé, ficou claro que não passava de invenção. Os katukinas temem o “índio bravo” e uma aparição justificaria disputas por mulheres e por território, sem gerar conflito imediato entre os membros da etnia.

Ao final da expedição, índios das aldeias Janela e Bacuri se divertiram ao saber que a história tinha ultrapassado os limites das aldeias e chegado a Manaus, Brasília e São Paulo. Hora da expedição retornar a Tabatinga, com a certeza do dever cumprido: checar.

Macaco, mutum e matrinxã na panela

O baque oco do rifle calibre .20 ecoou na mata espalhando chumbo. O estampido do rifle .22 teve direção certa na penumbra cerrada. Caíram mutum, jacu, macaco-aranha, macaco-barrigudo, macaco-guariba. Tombaram veado-roxo, paca, cotia e anta.

A expedição caçou praticamente todos os dias em que esteve na selva. Proteína para misturar com a farinha, o arroz, o feijão e o macarrão.

Quando não havia caça, o jeito era a pesca. Surubins, pacus, piranhas, piaus, mandis e matrinxãs, que por vezes não vieram o suficiente, deixando barriga roncar e o ânimo de índios e mateiros lá embaixo.

Alimentar-se na selva é a tarefa mais complicada - e crucial - da expedição. Índios membros da equipe rejeitam o alimento industrializado, preferem a carne de macaco. Arrancam o “casaco”, como dizem, tratam o “bucho”, desmembram e atiram na panela.

Braços, pernas, costelas e cabeça vão cozidos na água do igarapé mais próximo, com sal, alho e cebola. No espeto que faísca na brasa, fígado e coração, partes nobres.

No prato, os miúdos vão no arroz e farinha, viram caldo proteico. “Macaco não é minha carne preferida, mas se é o que tem”, resignava-se o indigenista Rieli Franciscato.

Da cabeça do macaco, os índios roem os músculos da face. Em seguida quebram o maxilar em busca da língua. Trincam o crânio, retiram o cérebro cozido e misturam com a farinha para comer.

Com todos os animais era assim. Nenhuma parte foi desprezada. “É pela subsistência deles na mata, é cultural, é assim”, explicava Franciscato.

Peso insuportável. A expedição sobreviveu da mata em quase todos os dias, porque é impossível carregar alimento nas pesadas caminhadas. As mochilas tinham pelo menos 30 quilos cada, só em roupas, equipamentos e rancho.

Havia, além de rádio comunicador, aparelhos de localização via satélite e baterias, arroz, macarrão, feijão, sal, sardinhas e, claro, as panelas, pratos e talheres. Mais 10 quilos de carne tornariam a empreitada impossível.

Pela importância que tem para a expedição, caçar bem é símbolo de status. O mateiro e índio ticuna Misael, sempre com rifle à mão, trazia o jantar orgulhoso do que havia conseguido. “Eu gosto de mato, eu caço, eu gosto mesmo”, dizia.

Misael e os índios Wilson Kanamari e Tapumpa Marubo realizavam uma disputa nada silenciosa. Desde o momento que “entralhavam as malhadeiras” - o que pode ser traduzido como costurar suas redes de pesca -, até recolher a quantidade de peixes enredados e tratá-los para a janta.

Misael, sempre provocador e divertido, atiçava os ânimos, depois de puxar um matrinxã após o outro em cinco minutos de pesca com linha de mão, na cabeceira do Rio Boia. “Quem não sabe pescar só atrapalha”, gargalhava.

Já o mateiro matis Txami, menos adepto da caça com rifles e da pesca com redes e anzóis, carregava no pescoço um colar feito com dentes de 32 macacos, dizia ele, abatidos com zarabatana embebida em veneno natural. Macaco-aranha, guariba ou barrigudo, tanto faz. Gabava-se do feito. E vendia o item artesanal por R$ 100.

especialConfira especial sobre a expedição ao Vale do Javari

Na Trilha Dos Isolados

Ver mais relatos sobre a expedição aqui, aqui e aqui.

José Mindlin, 1914-2010

11:30 am
Celso Lafer

Celso Lafer

Por Celso Lafer*

Uma Vida entre Livros é o título da obra de cunho autobiográfico de José Mindlin. O título é revelador da importância que, nos seus reencontros com o tempo, atribuiu aos livros, ao parar para pensar o significado de sua vida. Esta, cabe apontar, caracterizou-se por atividades diversificadas.

Mindlin foi jornalista e exerceu a advocacia. Teve uma vida empresarial importante e destacou-se, seja no âmbito da Metal Leve, seja no das responsabilidades no âmbito da Fiesp, pelo pioneirismo de atribuir, numa época de economia fechada, importância à exportação de produtos manufaturados e de realçar a relevância, em parceria com a universidade, da pesquisa como ingrediente crítico da competitividade empresarial. No trato da governança corporativa, deu ênfase à responsabilidade social e cultural da empresa. Foi um incentivador e catalisador de um sem-número de iniciativas culturais. Acabou sendo, por essas razões todas, uma ponte entre o mundo corporativo, o da ciência e o da cultura, inclusive no período da sua curta, mas importante gestão como secretário de Ciência, Tecnologia e Cultura do Estado de São Paulo. Empenhou-se, na época do regime autoritário, na redemocratização do nosso país. Por todos esses motivos, exerceu uma função de figura pública de referência que alcançou ressonância nacional por obra da inteireza de seu caráter, sempre preocupado com o futuro do Brasil.

Deu, no entanto, destaque, na sua autobiografia e em outros textos, aos livros e às leituras. Com efeito, nos seus reencontros com o tempo não se deteve no muito que fez. Buscou articular o fio condutor de quem foi. São temas recorrentes das narrativas do seu percurso: a garimpagem do bibliófilo em busca de livros raros e belos; o prazer da amizade com escritores; o fascínio pela palavra, explicativa do seu interesse pelos manuscritos de romances e poesias, que testemunham o processo de criação; o gosto pela feitura de edições de qualidade, que dão corpo próprio à obra de arte. Em síntese, viveu para contar (evocando o título da autobiografia de Gabriel García Márquez) o que, para ele, representou o recado dos livros.

Um dos recados mais importantes foi o de transmitir, na qualidade da sua conversa e na apurada simplicidade dos seus escritos, a partir da perspectiva de leitor, a importância da literatura e do que ela, no pluralismo de suas vertentes, significa como fator de humanização e compreensão da complexidade. Proust e Balzac, como escreveu, dão uma boa ideia da sociedade e da natureza humana. Para ele o livro, sem o qual não podia imaginar a sua vida, era tão íntimo quanto as suas mãos e os seus olhos. Foi, assim, um homem de letras. Por isso apreciava o convívio na Academia Brasileira de Letras, que o acolheu, elegendo-o em 2006 para a cadeira n.º 29. Teve entre os seus antecessores Vicente de Carvalho, cujo Pequenino Morto gostava não só de recitar em voz alta, mas também de mostrar no manuscrito original, que possuía e está reproduzido em Uma Vida entre Livros. Foi um presente de dona Maria Rangel Pestana e pertencera a Nestor Rangel Pestana, com o qual o jovem Mindlin, no período em que trabalhou em O Estado de S. Paulo, aprendeu a exercitar a clareza e a elegante precisão que caracterizavam os seus textos.

O lema do seu ex-líbris, “Je ne fay rien sans gayeté” (”não faço coisa alguma sem alegria”) foi extraído do ensaio de Montaigne sobre os livros, no qual trata de autores e de leituras. O ex-líbris explicita as suas afinidades com essa grande figura do humanismo europeu.

No capítulo 68 de Dom Casmurro, Machado de Assis, de quem Mindlin foi leitor devoto, evoca Montaigne para dizer que seu personagem não escrevia sobre os seus gestos, mas sobre a sua essência. Nessa linha, Mindlin, à semelhança de Montaigne, teve como traços reveladores do seu modo de ser: a diversidade e a variedade de interesses, e por isso, como disse, a sua biblioteca era indisciplinada; a percepção do jogo e do papel dos acasos, que explicam a multiplicidade de atividades do que, na sua vida, empreendeu; a latitude da liberdade de apreciação; a crítica aos excessos, lastreada num otimismo temperado pelo senso de realidade; a importância atribuída à amizade; a busca do sentido das coisas com base na experiência do contato com as pessoas e no procedimento aditivo e cumulativo da leitura; a abertura para a complexidade do mundo.

Um dos conhecidos ensaios de Montaigne é o intitulado Dos Canibais. Nele relata a experiência de sua conversa em Rouen com um dos três índios tupinambás que foram recebidos pelo rei Carlos IX, em 1592. A conversa, intermediada por um tradutor, deu margem para Montaigne discutir a precariedade da dicotomia civilização-barbárie, ao refletir sobre os índios brasileiros com os quais os franceses travaram contato após a expedição de Villegaignon.

No ensaio fala da “considerável importância” da “descoberta de um país infinito”. Assim também Montaigne pode ser visto como instigador respaldo para a constituição da notável Brasiliana que Mindlin foi reunindo no correr dos anos, com grande conhecimento do nosso país e não menor empenho no seu destino e na sua cultura. Ele a doou à USP, com o alto sentido de serviço público de quem se considerava não possuidor, mas guardião de livros, e dava afetuosa importância ao vínculo de antigo aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a histórica primeira unidade da Universidade de São Paulo.

Montaigne era um humanista e empregou o vocábulo com frequência na sua obra. Propôs, examinou e discutiu ideias humanas, atento ao pluralismo da nossa condição. Foi o que José Mindlin fez e levou adiante na sua vida, com generosidade, disponibilidade para ajudar e estimular, grande abertura para com os moços e a sempre cativante simpatia do seu dom no trato das pessoas.

*PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Para índios Suruí, internet permite luta ambiental e paquera online

11:21 am

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Tribo indígena que “trocou arco e flecha por laptop” em casal de indígenas que se conheceu na rede

Os índios Surui, donos da reserva Sete de Setembro, em Cacoal (RO), estão usando a internet para promover sua valorização cultural e combater o desmatamento.

Eles estão usando o programa de mapas do Google, o Google Earth, para divulgar sua história e tradições através de um mapa cultural feito em parceria com uma ONG, ACT Brasil.

O próximo passo será usar smartphones capazes de tirar a foto do desmatamento ilegal, precisar com exatidão a localização via GPS e enviar para a rede em tempo real.

A rede não chegou ainda Lapetanha, a aldeia mais próxima da estrada que leva a Cacoal. Mas em caráter individual, muitos indígenas, especialmente os adolescentes e jovens, estão acostumados a se conectar à rede quando vão aos centros urbanos.

Para o casal Maria Leonice, a Tori, e Gasodá Surui, a internet encurtou distâncias. Ele vive em Cacoal e ela, em uma aldeia Tupari perto de Alta Floresta do Oeste, a cerca de 200 quilômetros de distância.

Ambos se conheceram pelo Orkut, flertaram pelo MSN e hoje, casados, são o centro das atenções.

Para o líder indígena dos Surui, Almir, a rede não é uma ameaça para a cultura de seu povo, mas sim uma oportunidade de fortalecimento.

Quando os Surui tiveram seu primeiro contato com o homem branco, em 1969, o efeito foi destrutivo: as doenças, o alcoolismo e outros males reduziram a população indígena de quase 5 mil pessoas para pouco mais de 250.

Quarenta anos depois, com mil e trezentos membros, os Surui dizem ter aprendido com o passado. Agora, em vez do arco e flecha, a luta deles é através do laptop.

“Não é que a gente deixou totalmente de usar o arco e flecha. Cada um tem o seu arco e flecha guardados em casa”, diz Almir.

“Mas ao mesmo tempo, hoje a gente está usando laptop, iPhone… essas são as nossas ferramentas de diálogo.” BBC Brasil

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Lula está de olho no cargo de secretário-geral da ONU, diz “The Times”

11:09 am
Lula ingressa no delírio do projeto pessoal que não é dele, mas de Marco Aurélio Garcia

Lula ingressa no delírio do projeto pessoal que não é dele, mas de Marco Aurélio Garcia

Em entrevista ao diário britânico, Marco Aurélio Garcia não nega o interesse do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria considerando a possibilidade de suceder Ban Ki-moon no cargo de secretário-geral da ONU, segundo afirma reportagem publicada neste sábado pelo diário britânico The Times.

Segundo o diário, “diplomatas dizem que Lula da Silva, que deixa o cargo em janeiro, pode buscar o posto mais alto da diplomacia mundial quando o primeiro mandato de Ban Ki-moon expirar, no fim de 2011″.

“A ideia teria sido aventada pela primeira vez pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, durante a reunião de cúpula do G20, em Pittsburgh, em setembro”, comenta o diário.

A reportagem observa que a possibilidade já vem sendo discutido pela imprensa brasileira, com sugestões de que Lula teria sido consultado por mais de uma pessoa sobre a questão.

‘Paixão pela África’

Em entrevista ao diário, o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, não negou a possibilidade.

“Ele (Lula) tem um grande interesse em questões internacionais, no processo de integração da América do Sul”, disse Garcia ao Times.

“Ele tem uma grande paixão pela África. Ele realmente quer fazer algo para ajudar a África”, afirmou.

Para o diário, o estilo pessoal do presidente brasileiro e sua capacidade para manter relações amigáveis com todos os lados - com a China e com os Estados Unidos, com o Irã e com Israel - elevou seu reconhecimento internacional.

O jornal comenta as ofertas feitas na última semana por Lula, durante sua viagem ao Oriente Médio, de servir de mediador para o conflito na região como um exemplo dessa proeminência cada vez maior do presidente no cenário internacional.

Veto

O Times observa, porém, que Lula tomou recentemente posições que desagradaram os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, ambos países que teriam o poder de veto sobre sua indicação ao cargo de secretário-geral da ONU.

O jornal cita a recepção dada em Brasília ao presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e as críticas às sanções ao Irã, e também o apoio à Argentina em sua disputa com os britânicos pelas ilhas Malvinas.

Segundo a reportagem, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, teria considerado as iniciativas de Lula pela paz no Oriente Médio como “risivelmente ingênuas”. BBC Brasil

Novo Código de Processo Penal prevê pena imediata por roubo

11:03 am

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Custos judiciais são reduzidos e acordo tem como vantagem para o acusado a pena mínima

Felipe Recondo - O Estado de S. Paulo

Uma mudança proposta anteontem pelo Senado no Código de Processo Penal permitirá que acusados de crimes com pena de até 8 anos, como lesão corporal, homicídio culposo e furto, sejam punidos de forma sumária. Para que a pena seja aplicada de forma imediata, Ministério Público e o acusado devem fechar um acordo e levá-lo ao juiz.

Para a Justiça, a proposta pode ser vantajosa porque dispensará todos os trâmites de um processo normal, como depoimento de testemunhas, produção de provas e alegações finais, procedimentos que demandam tempo para serem efetivados. Para o MP, a mudança é uma garantia de punição rápida para um criminoso. Para o acusado, a vantagem é ser condenado à pena mínima prevista para o crime, muitas vezes escapando da cadeia.

A primeira condição para que esse rito sumário seja adotado é a anuência das partes do processo - Ministério Público e acusado. Depois, o réu precisa confessar o crime. Só depois disso o acordo é celebrado diante do juiz. A homologação é considerada uma sentença condenatória. Se não houver concordância entre as partes, o processo prosseguirá normalmente e a pena só será aplicada depois do trânsito em julgado do caso.

Mudanças devem agilizar processos

Para especialistas, demora atual alimenta sensação de impunidade na sociedade

Bruno Paes Manso - O Estadao de S.Paulo

O secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, defendeu ontem, em São Paulo, a aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado tanto das medidas destinadas a acelerar o trâmite dos processos penais na Justiça como as mudanças para preservar a imagem e a integridade do acusado nos processos. “O processo penal precisa ficar mais ágil. Em alguns casos, o processo chega a tramitar por sete, oito anos e isso é terrível, simbolicamente, para as instituições. Porque passa a imagem de impunidade”, disse.

O secretário esteve no IV Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele afirmou que o uso abusivo de algemas e a exposição da imagem do acusado de crime na TV são excessos que a Constituição já coíbe. Mas acabam sendo desrespeitados. “Todos são inocentes até que se prove em contrário.”

Eficiência. Balestreri ponderou que as mudanças devem continuar a acontecer desde que os legisladores tenham um olhar sobre o que acontece no mundo. “É importante estar atento ao Código de Processo Penal de outros países, para saber o que é mais e menos eficiente.”

Já o advogado criminalista Theo Dias, professor da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas, afirmou que existe uma mistificação em torno da discussão do excesso de recursos que levariam à lentidão da Justiça. “Vai se tirar a apelação, o habeas corpus?” Ele não acha que as medidas aprovadas, como a aplicação de pena mediante requerimento das partes, ajudem a desatar o nó que torna a Justiça mais lenta. “É preciso ver onde estão esses gargalos. E os gargalos estão no Judiciário. É necessário aumentar o número de juízes, tornar os cartórios mais eficientes. As mudanças devem se centrar no Judiciário.”

Segundo Dias, o excesso de acordos permitidos em um processo pode muitas vezes criar um sistema preguiçoso, em que acordos acabam acontecendo em ocorrências que o acusado não deveria sequer ser processado. “O sistema judicial nos EUA não funcionaria sem a possibilidade dos acordos. Mas não se pode exagerar.”

Sensação de Impunidade. O ex-secretário Nacional de Segurança coronel José Vicente da Silva Filho, que ontem também participou dos debates no fórum, concordou com Balestreri no que diz respeito à importância simbólica da agilização do processo penal para diminuir a sensação de impunidade no País. Ele afirmou que existem processos que chegam a ter entre 40 e 50 recursos, o que considera excessivo. E defendeu medidas que facilitem os acordos e desobstruam o Judiciário. “O advogado hoje não precisa nem argumentar com o juiz. Ele vai citando artigos e códigos, invoca o Direito e acaba gerando uma indústria de protelação.”

Para o coronel, a qualidade da segurança pública passa tanto pelo trabalho mais eficiente da polícia como pela aceleração do processo penal. “Não adianta somente a polícia trabalhar bem, se o autor de crime vai para a rua depois de preso. Tanto o processo penal precisa ser melhorado quanto os presídios e os códigos que os regulamentam também precisam ser revisados.”

Amplo debate. O chefe de gabinete da Polícia Civil de Minas, delegado Jésus Trindade Barreto Júnior, eleito presidente do conselho do Fórum Nacional de Segurança Pública, apesar de concordar com as mudanças aprovadas ontem pela CCJ, disse que o debate sobre segurança pública precisa deixar de analisar a punição como o único tema a ser debatido quando se tenta reduzir a violência. “É preciso ter um olhar criminológico sobre o tema. Tentar descobrir a origem do crime e como atuar, antes que ele ocorra. Discutir a organização da sociedade, em educação, saúde, urbanismo. A punição é fundamental, mas não deve ser o único aspecto do debate.”

Vítima poderá saber destino de preso

Passos do processo terão de ser oficialmente comunicados; novo código reserva capítulo para os direitos de quem é afetado por crime

Felipe Recondo, Brasília - O Estadao de S.Paulo

Maior prejudicada pela prática de um crime, a vítima passa a dispor de um tratamento especial no projeto do Código de Processo Penal aprovado ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A vítima passa a dispor de uma lista de direitos relacionada em capítulo específico do novo código, intitulado “Dos direitos das vítimas”, e deixa de ser mera espectadora das investigações. Hoje, essas garantias estão espalhadas pela legislação e, em alguns casos, dependem da boa vontade das autoridades públicas.

O novo código prevê que as vítimas devem ser comunicadas da prisão ou da soltura do suposto autor do crime, da conclusão do inquérito, do arquivamento das investigações ou da condenação ou absolvição do acusado. A vítima terá o direito de ser ouvida em dia diverso do estipulado para o depoimento do autor do crime. Isso evita, por exemplo, que agredido e agressor se cruzem na delegacia de polícia. Esse eventual encontro pode constranger a vítima e deixá-la com medo de acusar o agressor. A vítima tem o direito ainda, pelo novo texto, de ser ouvida antes de eventuais testemunhas.

O código ainda estabelece a possibilidade de a vítima pedir às autoridades públicas informações sobre o andamento do processo e manifestar, oficialmente, suas opiniões sobre as investigações. O texto prevê ainda que a vítima pode obter do autor do crime a reparação pelos danos causados e intervir no processo penal como assistente do Ministério Público.

Investigados. Ao mesmo tempo em que beneficia as vítimas, a nova legislação reforça as garantias legais dos investigados. Um dos pontos principais, nesse sentido, é deixar expresso que as autoridades devem adotar todas as providências necessárias para evitar a exposição dos acusados aos meios de comunicação. “Com isso, quer-se impedir exposições que possam aviltar a dignidade das pessoas envolvidas no conflito, bem como rompantes de sensacionalismo midiáticos à custa da imagem da vítima, das testemunhas e do investigado, colocando a investigação criminal noutro patamar de civilidade”, afirma o relator do projeto, o senador Renato Casagrande (PSB-ES).

A legislação atual já prevê que cabe à autoridade que detém a custódia de determinado suspeito proteger sua integridade física e moral. Mas são comuns os exemplos em que policiais, depois de uma prisão, expõem o investigado.

Foram exemplos como esses que levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a aprovar a súmula vinculante sobre o uso de algemas. Depois da Operação Satiagraha, quando o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta foi preso e algemado em casa diante das câmeras, o STF tentou estabelecer restrições ao uso das algemas.

ONU inicia missão para retomar diálogo entre israelenses e palestinos

10:53 am
Ban Ki-Moon

Ban Ki-Moon

Viagem de Ban Ki-Moon foi estimulada por plano israelense de ampliar assentamentos em Jerusalém Oriental

O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, se encontrou neste sábado com líderes palestinos no início de uma missão para buscar a retomada das negociações com os israelenses.

A primeira parada de Ban foi a cidade de Ramallah, na Cisjordânia, onde se encontrou com o primeiro-ministro Salam Fayyad. O secretário irá se encontrar também com o presidente israelense Shimon Peres.

A viagem foi estimulada pelo controverso plano de Israel de construir mais 1,6 mil casas em Jerusalém Oriental.

A liderança palestina diz que o plano é um obstáculo para a retomada do diálogo, e a decisão israelense foi criticada também pelo Quarteto, o grupo formado pelos Estados Unidos, Rússia, ONU e União Européia.

Israel anunciou na semana passada que deu permissão para a construção de novas residências na área de Ramat Shlomo, ocupada pelo país desde 1067.

Durante a visita de Ban Ki-moon à Cisjordânia, o secretário foi levado a um posto de observação nos arredores de Ramallah de onde pode ver o assentamento judaico de Givat Zeev, que abriga 11 mil israelenses.

“O mundo condenou os planos de expansão de Israel em Jerusalém Oriental”, disse Ban.

“Sejamos claros: toda a atividade de assentamento é ilegal em qualquer território ocupado, e deve parar”, disse.

“O Quarteto reafirmou isso, essa posição. Eu também estou preocupado com ações em Hebron, Jerusalém e outros lugares”, afirmou Ban.

“Eu apelo para que todos os lados respeitem sensibilidades e promovam a calma”, disse.

Ban afirmou ainda que seu objetivo é conseguir um acordo de paz entre israelenses e palestinos - incluindo um Estado palestino - em dois anos.

Diplomacia

A última visita do secretário a Israel ocorreu logo depois da operação israelense em Gaza, há 14 meses.

Na época, Ban não escondeu suas críticas ao alto custo humano da operação.

A expectativa é de que ele volte a criticar Israel por causa da recusa em congelar a construção de assentamentos, segundo o correspondente da BBC em Jerusalém, Jonathan Head.

No domingo, o enviado americano, George Mitchell, também visitará a região para tentar estimular as negociações.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, deverá viajar para Washington para se encontrar com a secretária de Estado, Hillary Clinton e possivelmente com o presidente americano Barack Obama.

Falando à BBC, Hillary indicou que o endurecimento do tom adotado pelos Estados Unidos com Israel está funcionando.

“Eu acho que veremos a retomada da negociação, e isso significa que (o tom mais duro) está tendo resultados, porque esse é nosso objetivo.”

Ataques israelenses

Os esforços diplomáticos ocorrem quando pelo menos 11 pessoas ficaram feridas em ataques aéreos israelenses contra o aeroporto de Gaza, segundo autoridades palestinas.

O Exército israelense confirmou os ataques com mísseis perto de Rafah, no sul de Gaza e disse que os alvos eram militantes.

Os mísseis lançados por Israel na sexta-feira atingiram o aeroporto internacional palestino, que está desativado, e túneis escavados por militantes perto da fronteira.

Esta foi a segunda noite de ataques israelenses desde que um foguete lançado a partir da Faixa de Gaza matou um trabalhador em uma fazenda em Israel, na quinta-feira.

Ele foi a primeira pessoa morta por um foguete lançado contra o sul de Israel desde a incursão em Gaza.

Um porta-voz militar israelense disse que os ataques foram feitos em resposta a cinco foguetes lançados contra Israel de Gaza nos últimos dois dias. BBC Brasil

Hidrelétricas destroem cachoeiras no Jalapão

10:50 am

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João Domingos, DIANÓPOLIS (TO) - O Estadao de S.Paulo

Tornou-se um drama para o meio ambiente uma das soluções encontradas pelo governo para tentar atender à crescente demanda por energia elétrica. Por necessitarem apenas de uma queda de água e pouca vazão, as Pequenas Centrais Hidrelétricas, chamadas de PCHs, proliferam sem controle, engolem cavernas e destroem corredeiras Brasil afora.

Como não ocupam grandes espaços nem precisam de lagos gigantescos, as PCHs podem ser construídas enfileiradas umas atrás da outras. É o que está acontecendo no município de Dianópolis, que fica a 350 quilômetros a sudeste de Palmas.

A região é um dos portões de entrada do Parque Estadual do Jalapão - uma área de 150 mil hectares que mistura Cerrado e veredas cortadas por rios. A Estação Ecológica da Serra Geral e o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba são vizinhos do Jalapão.

Na região de Dianópolis foram construídas e estão em funcionamento seis PCHs, todas no Rio Palmeiras. Outras duas estão em construção no mesmo rio e deverão começar a funcionar logo - as oito PCHs ficam em um trecho de apenas 150 km, distância igual à que separa as cidades de São Paulo e Limeira.

Ao sul e ao norte do Palmeiras há outras três PCHs em funcionamento, perfazendo uma dezena de pequenas centrais em uma única região de alta sensibilidade ambiental.

Por causa da construção das PCHs em sequência, não há mais como praticar o rafting (descida nas corredeiras com boias) no Rio Palmeiras.

As obras destroem as cachoeiras porque precisam de um desnível no rio que dê à água que cai força suficiente para rodar as turbinas. Elas destroem também grutas e outros acidentes naturais.

Para a construção das PCHs de Areias e Água Branca, negociaram com o Ministério Público compensações para que seja preservada a Gruta da Vozinha - assim chamada porque o vento que passa entre as paredes faz o som de uma fina voz - e um local conhecido por Vale Encantado, com atrativos naturais.

Sem royalties. O Rio Palmeiras, tão cheio de PCHs, nasce na Serra Geral, que divide os Estados da Bahia, de Goiás e do Tocantins. Seu curso segue para oeste. Ao chegar em Dianópolis, vira para o sul. Como é característico da Bacia do Tocantins, há nele muitas quedas d”água, o que atraiu as pequenas usinas.

Suas águas correm muito rápido até chegar ao Rio Palmas, que deságua no Rio Paranã, e daí vão para o Tocantins.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), operam hoje no Brasil 359 pequenas centrais hidrelétricas, gerando 3.045 megawatts (MW), ou 2,78% da energia do País.

Outras 72 estão em construção e já foram outorgadas mais 145. As PCHs encaixam-se na categoria das usinas que geram energia limpa, com um mínimo de emissão de gases de efeito estufa, o que é bom para o País.

O problema é que, além de destruírem cachoeira, ao contrário das grandes centrais hidrelétricas, que pagam pesados royalties aos municípios - permitindo assim compensações e investimentos em preservação ambiental -, as pequenas hidrelétricas não deixam um centavo no local onde funcionam.

A lei isenta do pagamento de royalties as hidrelétricas que geram até 30 MW, o máximo de potência permitido para as usinas enquadradas como PCH. Além disso, o ICMS é pago no local de consumo da energia, e não onde é gerada.

As que ficam no portal do Jalapão vendem a energia para municípios vizinhos da Bahia. Nada vai para Dianópolis, Taguatinga e Bom Jardim, por onde passa o Rio Palmeiras.

“A legislação tem de mudar”, diz o prefeito de Dianópolis, José Salomão (PT). “Elas geram sérios problemas ambientais, pois mudam a topografia da região, desaparecem com as cachoeiras, impactam a vida dos ribeirinhos e não pagam nada por isso.”

Problemas sociais. As PCHs deixam também um rastro de problemas sociais. Durante a construção chegam pessoas de todos os lados, que pressionam principalmente os postos de saúde municipais. O prefeito conta que, depois da conclusão da obra, a maioria dos trabalhadores vai embora, mas alguns “ficam por ali perambulando”, sem trabalho. “Também costuma ficar uma penca de meninas grávidas”, afirma Salomão.

“Vou começar a jogar duro com as PCHs. Elas geram muitos danos. Desmatam, mudam cursos d”água, acabam com as cachoeiras e provocam doenças. Recentemente tivemos um surto de leishmaniose na região”, diz o promotor de Dianópolis, Rodrigo Barbosa Vargas.

A Eletrobrás, que compra toda a energia das PCHs, informou por intermédio de sua assessoria de imprensa que os projetos só podem ser aprovados quando cumprem todas as exigências legais. E os empreendedores têm de assinar documentos se comprometendo a fazer compensações ambientais.

Jalapão

Blog, ferramenta da pré-ciência

12:57 am

descartes

by Carlos Nepomuceno of Nepôsts - Rascunhos Compartilhados

A função da Ciência é explicar o mundo - Marcelo Gleise - da minha coleção de frases;

Se existe algo que vai demorar, mas vai mudar é o fazer científico.

Antes da Internet, para se publicar era preciso garantir um espaço em uma publicação (de papel) acadêmica.

O artigo era analisado pelos pares.

Aprovado,  diagramado, impresso, distribuído, lido e, quando interessante, citado em uma outra revista, que passava pelo mesmo processo.

Comentários de estranhos?

Nem pensar!

Um modelo colaborativo – de fato – mais lento e limitado.

O tempo da Ciência era um, mas está incompatível com o ritmo de um mundo turbinado por 7 bilhões de almas demandantes de soluções criativas.

Assim:

  • Antes, se editava para publicar;
  • Hoje se publica para editar;
  • E quem edita é o mesmo que lê.

Dirão os tradicionalistas?

“Com que autoridade?”.

Dos mesmos filtros humanos, que podem recomendar os mesmos artigos, porém, não mais ocultos ou rejeitados, mas todos em uma revista on-line colaborativa, a critério dos editores.

Nesse critério de filtros:

  • Doutores e pós-doutores podem ter um peso maior;
  • Mestres, outro;
  • O público leigo outro.

Lê quem quer, o que quer, quando quer, a partir do critério que escolher, seja por critérios de crítica (pares) ou de público (leigos).

A Ciência ganha em democracia, transparência e possibilita que um artigo hoje rejeitado, mesmo com problemas, possa ser lido e até revisado, no processo, pelo autor, a partir das críticas, com interesse  relevante para um grupo restrito.

A ideias de consolidação e validação mudam, pois o digital permite que os dados depositados, ganhem movimento, como um pão num lago de peixinhos.

E os blogs?

Os blogs são o espaço adequado para a publicação das intuições dos cientistas.

Hoje, uma coisa que falta, tanto pela prática de criatividade, como de compartilhamento com a sociedade de suas ideias, que ficam lacradas em um mundo “deles”.

Esse tipo de prática não é mais compatível com as necessidades humanas.

É um lugar especial para o exercício mental, no qual as ideias verdes, verdinhas vão saindo para quem quiser ler e acompanhar.

Para quem quiser ajudar e comentar.

É uma pré-ciência ao vivo e a cores.

Sem compromisso direto com o resultado final.

Uma pré-consolidação necessária.

Lê quem quer e quem precisa!!!

Se a pré-elaboração interessa a alguém no mundo?

Que esteja disponível on-line!

Quem quiser esperar pelo final, que não vá ao blog dele, que espere, mas dê o direito de quem quer ir, que vá!

Ou seja, é um espaço privilegiado para produção de “insights”, úteis para aqueles que de alguma forma se nutrem das ideias daquele determinado blogueiro acadêmico.

É Ciência?

Sim e não.

Não é por que ainda é insight.

Tem que ser vista com reserva.

Mas é, pois toda a ciência começa do insight.

O que  não se pode é parar no insight.

Ou não se ter nunca insigts.

É uma grande oportunidade para ir se validando, ganhando corpo, em processo, sendo debatida, crescendo como um bolo, com a padaria aberta aos olhos dos interessados.

É um retorno a um neo-iluminismo, da produção individual, mesmo que repleta de coletividade.

Já disse aqui e ali que os grandes cientistas do passado foram blogueiros sem blogs.

Pois quem quer chegar a verdade, não para de pensar, de refletir e nada melhor que uma página em branco, olhos e pessoas para compartilhar suas ideias.

Todos ganham.

Este é e sempre foi e deve ser o espírito da Ciência: à procura da verdade.

O resto é visão turva…e cortinas do passado.

Que dizes?

The Million Follower Fallacy: Audience Size Doesn’t Prove Influence on Twitter

12:12 am

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A group of researchers have proven something we already expected to be the case: your Twitter follower count is somewhat of a meaningless metric when it comes to determining influence. To reach this conclusion, the researchers examined the Twitter accounts of over 54 million active users, out of some 80 million accounts crawled by their servers. They then went on to measure various statistics about these accounts, including audience size, retweet influence and mention influence. The conclusion? Those with the largest number of followers may be “popular” Twitterers, but that’s not necessarily related to their influence. High follower counts don’t always mean someone is being retweeted or mentioned in any meaningful ways.

The findings from this research project have been published in an research paper available here on the project’s homepage.

How the Data Was Analyzed

The data the researchers had access to is astounding: 54,981,152 user accounts, 1,963,263,821 social (follow) links and 1,755,925,520 tweets. In order to collect this massive store of data, the researchers contacted Twitter and asked permission to crawl Twitter’s service. Twitter granted them access and white-listed the IP address range for the 58 servers that were used in the data collection. In total, the crawler was able to scan 80 million Twitter accounts during the month of August 2009. Only 54+ million of those accounts were actually in-use at the time, which, in and of itself, is an interesting finding about how many people create a Twitter account and then abandon it. Only 8% of the active accounts were set to private, so they were ignored during the data analysis. The researchers also used the Twitter API to gather additional information about a user’s social links and tweets.

The study focused on the largest part of the Twitter network - the “single disproportionately large connected component,” notes the paper, that contained 94.8% of users and 99% of all links and tweets. Within that large network of “in-use” accounts, the researchers further narrowed down the data to focus on the “active users.” These users where those who had more than 10 tweets and had a valid screen name that could be retweeted by others. (Interesting - it’s possible to have an account and not a screen name?) That left “only” 6,189,636 active users out of the initial 80 million to examine.

To measure the influence of these 6+ million users, the researchers looked at how the entire set of the 52 million users interacted with these active users.

The Three Measures of Influence

After examining the data, the researchers found that the most followed individuals spanned a wide variety of public figures and news sources and included accounts like CNN, New York Times, Barack Obama, Shaquille O’Neal, Ashton Kutcher, Britney Spears and others. However, the most retweeted users tended to be content aggregation services like TwitterTips, TweetMeme, and, interestingly enough, they counted the tech blog Mashable as an aggregation service, too. Other heavily retweeted users included Guy Kawasaki, the humor site The Onion and again, The New York Times. Meanwhile, those users with the most “mentions” - not a direct retweet including the original content of someone else’s tweet, but just a casual mention of their name - were celebs.

These three measures of influence - followers, retweets and mentions - has surprisingly little overlap when looking at the top influentials. The top 20 lists from these three categories only had two users in common: Ashton Kutcher and Puff Daddy.

The researchers also examined the ability of Twitter users to influence others. They determined that the most influential users hold significant influence over a variety of topics, as opposed to being experts in just one area.

Examining the 233 “All-Time Influentials”

Out of the 6 million active Twitter users, the researchers picked the top 100 users in each of the three categories. Due to the overlap, there were only 233 distinct users on these lists. These were dubbed the “all-time influentials.” Some of these accounts belonged to news organizations or celebs, but others were just regular users. Regarding that last group - it appears that those users who limit their tweets to a single topic are the most likely to increase their influence scores.

In the end, what the researchers found was that follower count alone is not necessarily a worthy measure of determining influence. Other factors come into play as well. Although some heavily-followed accounts are also mentioned and retweeted a lot, just looking at audience size doesn’t reveal an account’s ability to influence and impact the Twitter universe.

According to the project’s homepage, the researchers are hoping to make the data they collected available to the community at large. Before doing so, they will discuss it with Twitter in order to determine that their data sharing plan agrees with the company’s policy. They plan to have an update on this situation - possibly the data itself - by May 2010.

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11 Essential Social Media Resources You May Have Missed

12:06 am

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Do blogue Mashable

By Matt Silverman

We know you’re busy. Even with every social media, web, and RSS tool at your disposal, you can occasionally miss out on some of the week’s most insightful content.

Never fear. We’ve taken a moment to round up the best Mashable resources from this past week and present them here for your weekend enjoyment.

From in-depth how-tos, to app lists, to valuable business guides, browse below for a veritable smorgasbord of value you may have passed over.

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Hablemos de drogas

20 de março de 2010 6:57 pm

drogas

A partir de una exposición sobre el riesgo del consumo de estupefacientes cuatro estudiantes de la ESO plantean sus inquietudes

ISABEL LANDA - San Sebastián

Josu reconoce que ahora es consciente de que hay personas que necesitan consumir droga para sentirse normal. Nora cuenta la preocupación de muchos jóvenes por evitar que les echen pastillas en las copas durante las noches de fiesta. Javi cree que no te marginas porque no hagas lo mismo que otros. Y a Victoria le alarma saber que España es la puerta de entrada de la droga a Europa.

Los cuatro tienen 14 años y son estudiantes de 3º de la ESO en la Ikastola Ekintza de San Sebastián. La cita es en la puerta de la exposición Hablemos de drogas, organizada por la Fundación La Caixa en unas carpas instaladas en los jardines de Alderdi Eder hasta el 11 de abril. El objetivo: recorrer con ellos una exposición interactiva dirigida a prevenir, informar y sensibilizar sobre las drogas a los adolescentes, pero también a los padres, educadores y profesionales de la salud.

Josu, Nora, Victoria y Javi juegan con ventaja. El centro donde estudian les trajo la semana pasada junto a sus compañeros de curso a la exposición Hablemos de drogas. Así que son ellos quienes hacen de guías entre los nueve espacios modulares que conforman la muestra, y a través de los cuales se identifica y se define el problema de las drogas. Desde un juego de la ruleta rusa, que indica que entre el 15 y el 20% de los jóvenes se enganchan tras probar la droga, pasando por un simulacro de jóvenes que conducen bajos los efectos del alcohol, hasta llegar a unas imágenes de un vagón de metro donde hay que identificar al que está colocado (es difícil acertar porque el perfil del consumidor ha variado y está más camuflado en la sociedad).

La exposición muestra, con formatos interactivos atractivos y pedagógicos para los jóvenes, los diferentes caminos que recorre la droga hasta llegar al consumidor y sus efectos en el organismo. “Los contenidos de la exposición están todos contrastados científicamente. Desde que se tiene acceso a Internet, para determinadas drogas la percepción de riesgo es muy pequeña entre los jóvenes”, explica Rafael Maldonado, comisario de la exposición y catedrático de Farmacología de la Universidad Pompeu Fabra de Barcelona.

Cuando eres adolescente no tienes por qué saber que durante la combustión de un cigarrillo se originan más de 4.000 productos tóxicos diferentes. Lo que sí sabes es que los amigos empujan e influyen. “Si tus amigos beben o fuman es más probable que te entre la curiosidad”, cuenta Nora. Javi y Josu coinciden en que es “cosa de cada uno y que no siempre te margina no hacer lo mismo que los otros”.

¿Con quién habláis vuestras dudas sobre las drogas? “En casa no lo planteamos demasiado, siempre que salimos nos dicen que tengamos cuidado, pero no se me ocurre preguntarle a mi padre por la cocaína, por ejemplo”, cuenta Nora. “Lo comentamos entre nosotros, pero si lo que queremos es información, lo preguntamos en la ikastola [escuela]“, explica Virginia. Los cuatro pasaron por el taller sobre droga que se impartió el año pasado durante unos días en su centro, y donde pudieron aclarar muchas incógnitas. Todos coinciden en que es interesante recibir información contrastada científicamente.

Según una encuesta realizada a estudiantes de secundaria en 2008, disminuye la edad media de inicio en el consumo de sustancias psicoactivas. Aproximadamente 3 de cada 4 estudiantes de entre 14 y 18 años ha probado el alcohol, un 15% fuma tabaco a diario y un 5% ha consumido cocaína en más de una ocasión. Además, la droga mueve 64.000 millones de euros al año.

Llegamos frente a un mapa mundi bidimensional donde aparece el flujo del tráfico de la droga en todo el mundo. España apenas se ve porque todos los trayectos pasan por encima y sólo se ve una mancha oscura. A los chicos les sorprende mucho este dato. Pinchamos en el monitor para ver cuál es la droga más consumida en España y aparecen el cannabis y la cocaína. “¿Sabíais que el precio de la droga desde su origen hasta que llega a manos del consumidor se multiplica 25 veces?, plantea Javi. “Lo malo es que España es la puerta de entrada a Europa”, responde Josu. El futuro es incierto, pero están informados.

Contrastar en la Red

Cuando pinchas en Google cannabis, el resultado es de 12.000.000 de entradas con información relacionada sobre la droga ilegalizada más consumida en España. Desde Wikipedia, que la clasifica como una especie herbácea con propiedades psicoactivas, pasando por asociaciones en favor de la legalización, foros de debate sobre su cultivo y hasta web que plantean sus efectos terapéuticos en algunas enfermedades. Todo está en Internet. Si quieres pensar que la consumición de cannabis es algo bueno, existen argumentos en la red, pero si lo que se busca es información sobre cómo el consumo de marihuana perjudica al organismo, hay muchos frentes abiertos.

Los adolescentes de hoy disponen de un amplio espectro informativo. Para Rafael Maldonado, comisario de la exposición Hablemos de drogas, hoy más que nunca es importante que los jóvenes dispongan de información contrastada. “Los adolescentes saben más que antes de drogas, pero no siempre es una información contrastada científicamente. La información de los foros no siempre es fidedigna. Por eso, Internet es un arma de doble filo. El hecho de que los jóvenes tengan más información da como resultado que actualmente la percepción de riesgo que tienen sobre las drogas está extremadamente disminuida”, opina el catedrático de Farmacología de la Universidad Pompeu Fabra.

Ver mais sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Calderón exige la cooperación de EE UU para poner fin a la violencia

5:31 pm

portada

El presidente mexicano recuerda que el tráfico de drogas y de armas atraviesa la frontera del norte - El Ejército seguirá desplegado en Ciudad Juárez

PABLO ORDAZ - Ciudad Juárez

Que a Lesley Enríquez y a su marido los mató un mexicano nadie lo duda. Pero tampoco que ese mexicano se dedica al lucrativo negocio de exportar drogas a Estados Unidos y que compró su arma en alguna de las cientos de armerías que florecen al otro lado de la frontera. El asesinato, el pasado sábado, de la funcionaria norteamericana y de su marido cuando salían de una fiesta infantil en Ciudad Juárez ha vuelto a poner tensión entre México y Estados Unidos. Tras la declaración de Barack Obama en la que decía sentirse “indignado” por los crímenes, el presidente de México, Felipe Calderón, levantó la voz por dos veces durante su visita a Ciudad Juárez para exigir que su vecino del norte se implique de forma definitiva en la lucha contra el narcotráfico: “El crimen organizado tiene su origen en dos fenómenos que afectan a ambos países. Son el consumo y el tráfico de drogas en y hacia Estados Unidos, y el tráfico de armas provenientes de Estados Unidos”.

Calderón, que acudió a la ciudad fronteriza por tercera vez en mes y medio, no ocultó que el asesinato de tres personas relacionadas con el consulado de Estados Unidos -la pareja de norteamericanos y un mexicano casado con una empleada de la legación- añade todavía más dosis de mala fama internacional a Ciudad Juárez y a México en general. Y no se equivocó. Canadá se sumó ayer al llamamiento, cursado un día antes por Estados Unidos, para que sus ciudadanos eviten viajar a México salvo que sea “absolutamente necesario”. Un llamamiento especialmente grave para el turismo mexicano porque en estos momentos son, precisamente, canadienses y norteamericanos los que abarrotan los hoteles de Acapulco y la Riviera Maya. También, pero de manera más despectiva, desaconsejó los viajes al sur John Cook, el alcalde de El Paso: “Tal como están las cosas, no sé qué puede haber de interesante en Ciudad Juárez”.

Pero los motivos de fricción entre los dos países van más allá. El lunes, la portavoz del FBI en El Paso, Andrea Simmons, dijo que al menos siete corporaciones estadounidenses participarían en la investigación del asesinato de Lesley Enríquez y de su marido. Habló del FBI y de la DEA (la agencia antidrogas de EE UU), pero también de funcionarios de inmigración y aduanas y hasta del Departamento del Sheriff del Condado de El Paso. Senadores y congresistas mexicanos se apresuraron a advertir de que Estados Unidos no puede intervenir en las cuestiones de México, y el propio Calderón quiso dejar claro que la colaboración tiene que existir, “pero cada quien en su territorio”. También el embajador de Estados Unidos en México, Carlos Pascual, quiso calmar las aguas en una cuestión tan sensible: “Ningún oficial de agencias de la ley de Estados Unidos llevará a cabo operativos en México”.

Zanjado aparentemente el asunto, no tardó en surgir otro. Llegó de la mano de la secretaria de Seguridad Interna de Estados Unidos, Janet Napolitano. La funcionaria volvió a alabar la decisión del Gobierno mexicano de luchar contra el narcotráfico, pero por primera vez cuestionó la validez de la estrategia: “La presidencia de Felipe Calderón ha estado profundamente involucrada

[en poner paz en Ciudad Juárez], decidiendo incluso el envío de efectivos militares. Pero esto no ha ayudado en nada”. Las declaraciones de Napolitano sentaron como un tiro a Calderón, sobre todo porque sintonizan con una percepción generalizada en Ciudad Juárez: la llegada del Ejército y de los federales, lejos de mejorar, empeoró la situación. De hecho, durante la reunión de cuatro horas que mantuvo en Ciudad Juárez con representantes de diversos colectivos, Calderón sólo perdió la paciencia en un momento. Cuando uno de los participantes le preguntó: “¿Es posible ganar esta guerra así como está planteada?”, el presidente le respondió, tajante: el Ejército seguirá en Ciudad Juárez.

El presidente de la República se llevó a Ciudad Juárez a siete secretarios y al procurador general de la República. Supervisó uno a uno los compromisos de su Gobierno para sacar del desastre a una ciudad que fue un modelo para el país y que ahora es su vergüenza. Incentivos a las empresas. Ayuda a las madres para que lleven a sus hijos al colegio. Centros de salud. Escuelas. ¿Y seguridad…? Nada más despejar su avión, regresó la matanza diaria.

Cara a cara con la pobreza

El Gobierno de Calderón está trabajando duro en Ciudad Juárez. Nadie lo niega. El presidente decidió tomar cartas personales en el asunto después del asesinato, a finales de enero, de 16 muchachos que participaban en una fiesta, y posiblemente para hacerse perdonar su falta de tacto al declarar que tal vez aquellos jóvenes formaban parte de alguna banda. Pero el ímpetu del presidente deja al descubierto la ineficacia de su Gobierno y de los anteriores. Hay un ejemplo muy gráfico de esto.

El martes, Calderón tuvo un encuentro en la ciudad fronteriza con un grupo de 500 mujeres, cuidadosamente seleccionadas en las colonias más pobres y llevadas a presencia del presidente con una advertencia. “Nos han dicho”, confesaron varias de ellas, “que no se nos ocurra gritarle nada”. Después de cinco horas de espera sin probar bocado, aquellas mujeres escucharon que Calderón decía: “Estamos estudiando la ciudad palmo a palmo. Y nos hemos dado cuenta de que hay miles de madres que sólo pueden darles a sus hijos una comida al día”. La sorpresa de Calderón provocó la sonrisa de las presentes, que por lo bajini rezaban una letanía: “Y a veces ni una comida, ni luz, ni agua corriente, ni saneamiento… Así desde hace 17 años que llegamos aquí, señor presidente”.

La ciudad del horror también es la ciudad del desgobierno y la impunidad. Se calcula que más de 60.000 vehículos circulan desde hace años por la ciudad sin matrícula, muchos de ellos con cristales oscuros, sin que hasta ahora las autoridades se hayan preocupado en poner orden. En esos coches viajan los sicarios sabiendo que el crimen que cometieron ayer o están a punto de cometer quedará impune.

Ver análise sobre as políticas possíveis para a Ciudad Juárez aqui.

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