ANZUATEGUI, Sabina. Calcinha no varal. Companhia das Letras: São Paulo, 2005.
A sugestão de leitura para este início de período letivo é Calcinha no Varal, da autora curitibana Sabina Anzuategui que, nascida em 1974, mudou-se para São Paulo em 1993 para cursar cinema, na Universidade de São Paulo - USP. Escreveu o roteiro do filme Desmundo, de Alain Fresnot, adaptação do romance de Ana Miranda, além de alguns documentários. Atualmente é coordenadora do curso de Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero.
Guardadas as diferenças de geração, e talvez justamente por causa dessas diferenças, Calcinha no Varal poderia ser comparado ao livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva (que equivale, como marco, ao Apanhador no Campo de Centeio de minha geração dos anos 1970, e também de Sabina Anzuategui).
Mas a proximidade de estilo — narração em primeira pessoa num tom coloquial e ao mesmo tempo ácido e sincero — ressalta principalmente o quanto mudaram o país e a juventude nos vinte anos que separam os dois livros.
Por meio da protagonista e narradora Juliana, a trama do livro se desenrola pelos ritos de passagem da adolescência para a vida adulta, em que se descreve com sutileza, bom humor e linguagem simples a vida de uma menina que, aos dezoito anos, ingressa na faculdade e para quem a última coisa que interessa é comparecer às aulas.
A protagonista vivencia várias estréias — o primeiro namorado, a vida nas repúblicas de estudantes, a maconha e as cervejas, a camisinha e o aborto. A trajetória de Juliana é construída por sua visão pessoal ao mesmo tempo delicada e crua, mas sintetiza também a experiência coletiva de uma geração que cresce com a sexualidade liberada pelas mudanças culturais, porém restrita pela Aids.
Enfim, a autora retrata, em textos curtos, caracterizados pela sutileza e pelo bom humor, a descoberta da sexualidade de uma jovem, num relato que começa leve, quase pueril, mas que ganha densidade à medida que avança.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó
Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d’água
Que até a vista se atrapáia, ai…
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?