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Archive for fevereiro, 2008

¿Por qué no te callas?

13 de fevereiro de 2008 7:58 pm

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Como evitar chatos em botecos

7:51 pm

Que Dupla!!!

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Em momentos lúdicos tudo o que se quer é deixar de lado a seriedade do dia-a-dia. Algo muito comum são os repiauers em botecos, quando se pode confraternizar com amigos, junto a companheiros de trabalho ou mesmo com desconhecidos, sendo que, não raro quanto a estes últimos, ao final de alguns chopes, convertem-se em amigos de infância.

Mas amiúde se depara, nesses ambientes, com verdadeiros seres inconvenientes, que convém evitar.

Tenho um guia particular para identificar chatos. Saio de perto de interlocutores que utilizam o termo mundialização em vez de globalização; ocupação em vez de invasão de terra; colaborador em vez de empregado; e por aí vai.

Essas pessoas costumam não utilizar a precedência do masculino quando a referência se dirige a pessoas de ambos os sexos: dizem “os homens e as mulheres” em vez de “os homens”. Não entendem nada de genética e na ignorância se posicionam contra alimentos transgênicos, gostam do MST, dos terroristas das FARC, de Hugo Chávez, do grinpice e de qualquer movimento que dê apoio aos denominados “excluídos”, de maneira que cortejam foras-da-lei de todas as extirpes, desde invasores de terras até seqüestradores.

São naturebas, não comem foagrá porque os gansos sofrem isso e aquilo, querem que todo mundo se converta em vegetariano; não gostam de touradas, de rinhas de galo, da farra do boi e se incomodam com quem é indiferente a essas coisas, pois todos deviam ser ativistas em favor dos animais e a indiferença é tida como um defeito moral.

Votam no PT – muitas vezes são filiados até – e têm justificativas prontas para a roubalheira e incompetência que caracteriza os integrantes desse partido. Utilizam a rima pobre “Requião tem razão” ao se referirem ao governador bucéfalo que habita o Palácio das Araucárias em Curitiba.

Têm aversão ao neoliberalismo e todos que não se alinham ao pensamento torto desses chatos imediatamente se convertem em neoliberais.

Enfim, tudo o que não quero em botecos é ouvir papo intelectualóide politicamente correto desses chatos, que sequer aceitam papos sobre mulheres – tidos como machistas – ou sobre futebol – tidos como alienados.

Newton da Costa: um Filósofo na Ilha da Fantasia

11:54 am

Depois de alguns anos o site www.cella.com.br sofreu uma reformulação em seu visual, além de ter sido atualizado com ferramentas mais modernas de navegação. Uma das novidades é a introdução do blog, cujos conteúdos versarão sobre temas da atualidade, sejam eles de caráter acadêmico, cultural, político, filosófico ou outros temas de interesse.

Como postagem inicial vai uma reportagem de Daniel Piza para o jornal O Estado de São Paulo de 10 de fevereiro de 2008, que tem por objeto o filósofo brasileiro Newton Carneiro Afonso da Costa, cuja versão em formato pdf pode ser obtida a partir do seguinte link na página www.filosofiajuridica.com.br: Newton da Costa: um Lógico na Ilha da Fantasia:

Um lógico na ilha da fantasia

Pensador brasileiro com mais reconhecimento no exterior, Newton da
Costa tem seus livros reeditados

Daniel Piza

No final dos anos 50, Newton da Costa já era formado em Engenharia e
Matemática e colaborador de publicações francesas quando procurou o
reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com uma proposta.
Queria trazer professores estrangeiros, como seu mentor Marcel
Guillaume, para ajudar a montar um centro de pesquisa de lógica e
matemática em Curitiba. O reitor vetou o projeto e justificou: “Pode
citar qualquer especialista estrangeiro em qualquer assunto, e lhe dou
o nome de alguém aqui melhor do que ele.” Newton pensou em replicar:
“Einstein?” Preferiu ficar quieto.

Em 2002, o respeitado jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung
publicou uma matéria sobre ele. Título: “Newton ist brasilianer.” Era
um trocadilho com o nome de Isaac Newton, o físico inglês: “Newton é
brasileiro.”

As duas histórias mostram uma constante na vida de Newton da Costa,
hoje aposentado, prestes a completar 79 anos, vivendo em Florianópolis
“como se vivesse numa ilha da fantasia”. Ele é o pensador brasileiro
mais respeitado mundialmente, reconhecido pelo desenvolvimento da
lógica paraconsistente, hoje utilizada em diversos sistemas
computadorizados. Mas é pouco conhecido no Brasil, onde há quem diga
que nem sequer existe um filósofo brasileiro (ou então se chama de
filósofo qualquer professor de filosofia).

Isso, no entanto, começa a mudar. Em março, a editora Hucitec lança as
reedições de três de seus livros: Introdução aos Fundamentos da
Matemática, de 1961, revisado em 1976; Ensaio sobre os Fundamentos da
Lógica, de 1979, considerado seu livro mais importante; e Lógica
Indutiva e Probabilidade, de 1990. Newton da Costa, em entrevista ao
Estado, também diz ter ficado contente com a citação de seu nome pelo
cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e engenheiro de
formação, como uma das personalidades mais influentes do Brasil em
enquete da revista Época.

O curioso é que Newton Carneiro Affonso da Costa nunca precisou deixar
o País para desenvolver uma teoria de fama mundial. Nascido em
Curitiba em 16 de setembro de 1929, ele, “mau aluno”, atribui ao
ambiente familiar sua curiosidade e independência. A mãe era
professora de literatura francesa; a tia, de literatura inglesa; outra
tia, de literatura portuguesa. Um tio, Milton Carneiro, dava aulas de
filosofia. O pai, funcionário público, gostava de matemática e do
positivista francês Auguste Comte. O irmão mais velho de Newton,
Haroldo, se tornaria geômetra.

“Na hora da refeição, só falávamos sobre esses assuntos”, lembra
Newton. “Minha mãe proibia usar a primeira pessoa, ficar falando o que
tinha feito durante o dia. Ela queria que se falasse sobre idéias,
sobre política, filosofia, literatura.” Foi numa conversa com o tio
que surgiu a dúvida que embasaria toda sua carreira: o que é o
conhecimento – em especial, o conhecimento científico? A conversa era
sobre a impossibilidade de uma pessoa provar que existe e que a
existência não passa de ilusão dos sentidos. E um livro logo daria
impulso a essas questões: Discurso do Método, de Descartes, que Newton
leu aos 15 anos. “Li, reli, li e reli de novo.”

AUTORES

Brotava ali o filósofo da lógica, um caso raro entre intelectuais
brasileiros de pensador metódico, sistemático. Ainda na adolescência,
Newton descobriu os cinco autores que até hoje diz que mais o
influenciaram: W.V. Quine, Rudolf Carnap, Karl Popper, Bertrand
Russell e Ludwig Wittgenstein. São todos da escola conhecida como
“filosofia analítica”, que nas primeiras décadas do século 20 se
dedicou a abordar questões filosóficas com auxílio da matemática. No
Brasil, poucos foram os seguidores dessa linha de pensamento. O maior
de todos é, sem dúvida, Newton da Costa, professor da Universidade de
São Paulo por 30 anos.

Mas foi para a Universidade Estadual de Campinas que ele doou quase
toda sua biblioteca de lógica e matemática, incluindo documentos
importantes de sua carreira. Num cômodo – “meu cubículo”, como chama –
de seu apartamento no centro de Florianópolis, onde vive há cinco
anos, restam apenas os livros dos autores que mais o marcaram. Lá está
o quinteto analítico, com destaque em número de volumes para Russell.
Numa prateleira, vê-se uma montagem feita por alunos de uma foto de
Newton diante de Russell – um encontro que nunca houve na realidade,
embora fosse um dos maiores sonhos do brasileiro. “Russell foi, de
longe, o autor que mais li, mesmo sem concordar com tudo. Era um gênio
e escrevia como ninguém.”

Com quem, então, mais concordou? “Com Wittgenstein, sem dúvida. O
Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus (1921), não dos outros
livros.” Isso porque o pensador austríaco vislumbrava uma lógica com
contradições, diferente da versão ortodoxa – e essa foi uma abertura
fundamental para o conceito de “paraconsistência”. Russell, quando leu
o tratado de Wittgenstein, decretou: “Ou você é um louco ou um gênio.”
Wittgenstein também teve discussões agudas com Popper, outro autor a
quem Newton deve muito, não só por uma filosofia da ciência que diz
que “nenhuma explicação é suficiente”, mas também por livros como A
Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma crítica liberal ao marxismo.

Além do quinteto, estão ali autores como Kurt Gödel, o austríaco
naturalizado americano cuja “teoria da incompletude” abalou os
alicerces da matemática clássica em 1931, ao mostrar que um sistema de
valores não pode ser consistente se se pretender completo. Sem ele,
como sem outros grandes matemáticos como Henri Poincaré e F. Enriques,
a lógica paraconsistente não existiria. As demais estantes do
escritório trazem algumas centenas de livros que tratam justamente das
idéias de Newton, além das traduções dos dez volumes que escreveu até
agora. São livros em chinês, russo, romeno, alemão… Não há
Mangabeira Unger que possa disputar com ele em termos de referência no
exterior.

COMPLEXO

Mas não são apenas livros de filosofia que Newton conserva. Edições de
Shakespeare e do Dom Quixote de Cervantes estão em destaque. A grande
literatura e a música clássica – “Sou dos três Bs, Bach, Beethoven e
Brahms” – são os prazeres culturais de Newton, que nas horas de folga
também gosta de escrever poemas com o sobrenome dinamarquês da mãe,
Eriksen. Ao lado, vê-se um livro em espanhol sobre as campanhas
militares de Napoleão. “Leio tudo sobre Napoleão desde criança”, conta
Newton. “Como toda pessoa com complexo de inferioridade, sou fã de
Napoleão. Ele foi um gênio da estratégia.”

Como assim, complexo de inferioridade? Um pensador que construiu uma
obra sólida num país periférico e ganhou reputação mundial, da qual
não hesita em demonstrar orgulho, tem complexo de inferioridade? “Pois
é, eu tenho. É como unha encravada, você tem e pronto. Uma vez
conversei com um amigo psicanalista sobre isso e perguntei a ele: ‘Se
eu não tivesse esse complexo, teria feito a minha obra?’ Ele
respondeu: ‘Isso não dá para dizer.’ Então, se é assim, não posso
fazer nada.” E tome livros sobre Napoleão.

Engenheiro formado, Newton começou a trabalhar na construtora do
sogro, que lhe disse que em dez anos ele garantiria sua independência
financeira. Newton não suportou ficar mais de um ano. “Dinheiro não
importa para mim; nunca importou.” O desprendimento material não
impediu esse professor com aparência de professor – que passa os dias
dentro de casa lendo e escrevendo e dá uma palestra por semana – de
ter uma vida confortável, de ter criado dois filhos, um economista e
uma química, e de ser um avô carinhoso, que apresenta sorridente uma
das netas, Isabela. Um pedestre que cruze por Newton da Costa numa
dessas ruas do centro de Florianópolis com nomes de matemáticos (Praça
Benjamin Constant, Rua Trompowski, etc.) não imagina que esse afável
senhor de camisa social e calça de elástico seja um dos maiores
lógicos do mundo.

O que tira Newton do sério é o atraso do Brasil, especialmente o
desprezo ao trabalho intelectual. “Hoje você liga a rádio ou a TV e só
ouve debilóides”, diz. Crítico do governo Lula, que acha que tem sorte
de acontecer num período de prosperidade mundial, ele discorda em
especial do pensamento socialista, citando Popper e economistas como
Ludwig von Mises. “Só o capitalismo permite mobilidade social. Se a
economia for impulsionada, tudo o mais se ajeita”, diz. “Mas agora o
Lula é de centro-direita…”, ironiza, declarando-se de
“centro-esquerda” e afirmando que votaria democrata nos EUA.

Em 1957, Newton se licenciou em Matemática pela UFPR; em 1960, se
doutorou. Nessa época começou a se propor o desafio de desenvolver um
sistema formal que levasse em conta as contradições, embora o nome
“paraconsistência” só fosse surgir em 1974. O termo até então era
“inconsistência”, e desde Gödel uma série de matemáticos mundo afora
tentava chegar a essa teoria. Foi quando Newton tomou contato com a
“lógica fuzzy”, também chamada de “difusa” ou “booleana”, que da mesma
forma lida com estados intermediários entre o verdadeiro e o falso.
Ela foi estruturada em 1965 por um professor da Universidade da
Califórnia, Lofti Zadeh, cujos trabalhos Newton resenhou para
publicações alemãs e brasileiras.

NOMES

“A fuzzy pode ser vista como uma versão mais específica da lógica
paraconsistente”, afirma Newton. “Eu já provei isso.” O que ele alega
é que sua teoria vai além de um modelo matemático; é um sistema
filosófico, que discute conceitos a fundo e tenta, por exemplo,
resolver problemas da dialética de Hegel. Newton também diz ter sido
inspirado pela leitura de Marx e Freud. O termo “paraconsistência” foi
sugerido por um amigo peruano, também filósofo da lógica, Francisco
Miró Quesada. Significa “ao lado da consistência”, algo como
“quase-consistência”. Na visão de Newton, a razão não pode provar
nenhuma verdade absoluta, mas pode demonstrar a existência de uma
“quase-verdade”, uma descrição mais próxima aos fatos. “Se explodir
uma bomba atômica no prédio vizinho”, exemplifica, “é muito provável
que você seja varrido para longe.”

Mas esse pragmatismo não significa que nosso conhecimento possa
determinar muitas coisas com precisão. “Nem mesmo o contorno do seu
corpo é definido. Alguém a anos-luz daqui só vê uma mancha no lugar
onde você está. Você é uma mancha de elétrons, e há elétrons escapando
de você o tempo todo.” Newton faz um gesto rápido com a mão. “Viu,
acabei de pegar um elétron seu.” E solta outra de suas risadas, tão
velozes quanto sua fala. Se você acha que um lógico deve ser uma
pessoa fria ou impassível, é porque não conheceu Newton da Costa.

A palavra “paraconsistência”, assim como “fuzzy”, começou a ganhar
vida própria de uns tempos para cá. É o destino de muitas teorias,
como a Relatividade de Einstein – não raro explicada como “tudo é
relativo”, o que o físico alemão jamais afirmou. No caso da
paraconsistência, passou a ser utilizada como uma espécie de afirmação
da irracionalidade, da rejeição ao método, da impossibilidade de
qualquer forma de conhecimento. “Uma vez recebi abraços efusivos de um
italiano, que disse que minha teoria tinha mudado a vida dele. Depois
li o livro do sujeito e aquilo não tinha nada a ver com o que penso.”

SISTEMAS

Newton da Costa, afinal, é um defensor da razão, que define como união
da faculdade lógica com o senso crítico; e diz que sua lógica
complementa a clássica. “Em situações de comportamento padrão, a
paraconsistente se reduz à lógica clássica.” É por isso que decisões –
em computadores de robôs e sistemas de controle de vôo, para citar
duas áreas que já utilizam lógica difusa e/ou paraconsistente – podem
de fato ser tomadas.

Os processadores trabalham com um sistema binário, 0 (desativado) ou 1
(ativado), mas, graças a esses modelos matemáticos mais complexos,
seguem funcionando mesmo quando recebem “inputs” opostos (“pare” e
“avance”, por exemplo). A lógica paraconsistente não elimina a opção
entre duas alternativas, mas possibilita que mais variáveis sejam
avaliadas no processo de decisão, trabalhando com o que Newton chama
de “probabilidade pragmática”. A experiência é que põe a razão à
prova.

Newton critica os que usam a palavra lógica numa acepção falsa, como
“Futebol não tem lógica” – significando que não é previsível. Para
ele, a razão trabalha com a lógica ao menos para sistematizar as
experiências. “O chato da irracionalidade é que ela não tem
critérios”, resume, acentuando que seu trabalho é voltado para o
conhecimento científico. Diz até que a indução faz parte da
racionalidade: “Sem a indução não seríamos nada. Na pré-história,
depois que o tigre-de-dente-de-sabre atacou um homem pela terceira
vez, eles concluíram: tigres-de-dente-de-sabre são perigosos. E saíram
correndo (risos). Sem isso não haveria racionalidade.”

Isso não significa que Newton não reconheça que haja eventos além da
racionalidade. Por isso, diz não ser ateu e acreditar, “como Einstein,
numa força da natureza”; e gosta de citar uma frase de Gabriel Marcel:
“Filosofar é antes participar de um mistério do que resolver um
problema.” Nem a ciência escapa. “Os resultados científicos são sempre
aproximados”, escreve no livro Lógica Indutiva e Probabilidade. “A
verdade é sempre parcial e provisória.” Mas a razão pode funcionar,
sim; o conhecimento existe. “Nem eu mesmo imaginava que a lógica
paraconsistente pudesse ter tanta aplicação no mundo real.” Hoje, nada
parece mais lógico.