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	<title>BLOG CELLA &#187; Literatura</title>
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	<description>Blog de José Renato Gaziero Cella</description>
	<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 21:17:10 +0000</pubDate>
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		<title>Gênio investigado</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 02:13:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Livros, mulheres, fama, contradições - uma recente biografia de Charles Dickens, assinada por Michael Slater, dialoga com textos anteriores na tentativa de compreender o escritor, que morreu há 140 anos
Por Robert Gottlieb*
THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS
Existem autores cujas  vidas e personalidades são de tamanha grandeza, tamanho fascínio, que é  impossível escrever uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_23290" class="wp-caption alignnone" style="width: 483px"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/charles-dickens-caricature.jpg"><img class="size-full wp-image-23290" title="charles-dickens-caricature" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/charles-dickens-caricature.jpg" alt="Charles Dickens" width="473" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Charles Dickens</p></div>
<p><strong>Livros, mulheres, fama, contradições - uma recente biografia de Charles Dickens, assinada por Michael Slater, dialoga com textos anteriores na tentativa de compreender o escritor, que morreu há 140 anos</strong></p>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por Robert Gottlieb<strong>*</strong></div>
<p>THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS</p>
<p>Existem autores cujas  vidas e personalidades são de tamanha grandeza, tamanho fascínio, que é  impossível escrever uma biografia monótona a seu respeito. Um deles é  Charles Dickens. Sua turbulenta vida emocional, as violentas  contradições de sua natureza e a incrível história de sua ascensão  instantânea ao mais elevado patamar da fama literária e da popularidade  podem ser recontadas infinitas vezes, e de fato foram relatadas num  sem-número de obras. Dickens nasceu em 1812 e morreu em 1870, produzindo  15 romances. Foi certamente o homem mais conhecido da Inglaterra em  meados do século 19. Sua popularidade e influência chegavam também até  os EUA, França, Rússia. Quando morreu, a comoção foi universal.</p>
<p>Meses após a morte de Dickens, as primeiras biografias começaram a  aparecer e, em 1871, foi publicado o primeiro volume daquela que seria a  mais influente das obras da indústria biográfica de Dickens: The Life  of Charles Dickens, de John Forster, o mais íntimo e mais digno de  confiança dentre os amigos do autor. Forster contou ao mundo muito  daquilo de que não sabíamos, em especial a história de como, aos 12  anos, Dickens foi trabalhar na degradante (para o autor) fábrica de  graxa para sapatos, condenado a tal emprego pela situação de quase  miséria em que vivia sua família. Em seu livro, Forster também publicou  diversas cartas particulares escritas por Dickens que acompanham sua  vida e, até certo ponto, revelam seus sentimentos. Com a perspectiva  diferenciada de testemunha ocular e sua perspicaz interpretação da  natureza de Dickens, a obra de Forster é um documento essencial para  todos os biógrafos do escritor que se seguiram, entre eles Michael  Slater, autor do recente Charles Dickens (Yale Press).</p>
<p>O Dickens que o mundo pensava conhecer era um defensor de todas as  virtudes vitorianas, mesmo que seus romances expusessem a violência,  hipocrisia, ganância e crueldade do período. Ainda assim, sua filha  Katey escreveu a George Bernard Shaw: &#8220;Se o senhor pudesse fazer com que  o público compreendesse que meu pai não era um homem alegre e jocoso  que caminhava pelo mundo com uma porção de pudim de ameixa e uma tigela  de ponche nas mãos, ficaria muito agradecida.&#8221; Num certo sentido, a  história das biografias de Dickens tem sido uma tentativa cada vez mais  intensa de se fazer justamente o que a filha pedira.</p>
<p>Primeiro tivemos a numerosa leva de memórias escritas por aqueles que  o conheceram. E foram muitas as interpretações críticas mais agudas,  como por exemplo as de George Gissing e G. K. Chesterton, além da  variedade de comentários públicos e particulares feitos pelo próprio  Shaw. Quanto às biografias posteriores à guerra, foi em 1952 que Edgar  Johnson publicou os dois volumes de seu Charles Dickens: His Tragedy and  Triumph (Simon &amp; Schuster), recebido pelos críticos como primeira  versão definitiva da vida do autor. O livro de Johnson ainda é uma  leitura interessante. Seu defeito mais grave, comentado por Slater, é  sua parcialidade em favor de Dickens na questão do relacionamento com  Catherine, sua mulher.</p>
<p>Desarranjo. O tratamento dispensado por Dickens a Catherine pode ser  visto hoje como falha imperdoável em seu caráter, sendo também um  indício do poderoso desarranjo psíquico que o acometeu na fase  intermediária da vida. Os dois se casaram ainda jovens, depois de o  autor cortejar, sem sucesso, a bela e sedutora Maria Beadnell, que o  atraiu e depois o recusou, demonstrando obviamente não ter se encantado  profundamente com o jovem de boa aparência que começava a encontrar seu  espaço como repórter da corte, mas sem perspectivas reais.</p>
<p>Hoje, é fácil perceber que o amor deles era uma paixão juvenil, mas o  sentimento era intenso e levou a grandes humilhações. E o autor logo se  voltou para Catherine Hogarth, jovem vinda de uma família de certa  distinção. Ela era plácida, admiradora do marido, e a atração que  Dickens sentia por ela nada tinha de ardente. Após a turbulência  emocional vivida com Maria, o que ele procurava era uma cônjuge em vez  de uma amante; formar a própria família e se firmar num relacionamento  estável. A triste verdade é que a modesta inteligência e a timidez de  Catherine significaram que ela não pôde partilhar com ele a vida de  autor ou sua vida interior. Conforme ganhava notoriedade, Dickens  começou a expressar sua insatisfação em cartas a Forster. Sua mais  profunda infelicidade estava na crescente sensação de estar perdendo  aquilo que a vida teria de mais importante: a realização num  relacionamento com uma mulher.</p>
<p>A história de Dickens com Catherine é apenas um dos relacionamentos  com mulheres que definem seu histórico particular e sua trajetória  emocional. Todas as crianças abandonadas ou rejeitadas da ficção de  Dickens, de Oliver Twist e Pequena Nell a Florence Dombey e David  Copperfield, passando por Jo, de Casa Soturna, e Pip e Estella, de  Grandes Esperanças, são claramente centrais para a percepção que o  autor tinha de si. Seus pais, mortos ou dotados de um narcisismo  destrutivo, são projeções implacáveis da arquitetura emocional do  próprio autor. Por outro lado, as filhas e irmãs carinhosas, igualmente  onipresentes, e as garotas quase indistintas que são objeto do amor em  obras como Nicholas Nickleby e Barnaby Rudge não passam de fantasias sem  vida. É fácil identificar seu principal protótipo. Pouco depois do  casamento e da mudança para uma nova residência, uma das irmãs mais  novas de Catherine, Mary, veio visitá-los, e acabou morando com o casal.  Ela ajudava com as tarefas do lar, ajudava com os bebês e consistia  numa figura idealizada da feminilidade virginal. Em seu livro, Slater  mostra que Mary foi especialmente brilhante e encantadora, mas, para  Dickens, ela era muito mais do que isso. Esta figura idealizada se  projeta em boa parte de suas obras. Ele disse a Forster que, enquanto  escrevia Oliver Twist, evocava a lembrança de Mary para manter as  emoções &#8220;num estado de elevação&#8221;. O que Peter Ackroyd chama em seu  Dickens (HarperCollins, 1990) de &#8220;estranha concatenação de fascínio,  obsessão e reprovação da sexualidade&#8221; o perseguiria por toda a vida, e  também assombraria sua ficção.</p>
<p>Dentre as mulheres de Dickens, a mais amada foi a atriz Ellen Ternan.  Tinha 18 anos, era bonita, inteligente. A natureza do relacionamento  entre os dois é o aspecto mais questionado da vida particular de  Dickens. Apenas no século 20 que a história de Ellen veio à tona por  inteiro. Logo foi aceito que durante os 13 anos que antecederam a morte  do autor, os dois mantiveram um relacionamento íntimo. Entretanto, ainda  se discute se o relacionamento teria se tornado sexual. Fred Kaplan, em  Dickens: A Biography (Morrow, 1988), argumenta que, &#8220;depois de manter  relações sexuais durante a maior parte de sua vida, parece improvável  que ele renunciasse a elas quando se viu profundamente apaixonado por  uma jovem atraente. Ele não tinha impulsos ascéticos. Suas preocupações  eram terrenas, e os valores em que ele acreditava e sua própria  personalidade afirmavam a naturalidade do sexo entre amantes&#8221;. Mas  Ackroyd insiste na crença de que o relacionamento entre os dois jamais  se tornou sexual.</p>
<p>Carreira. Concentrar-se no relacionamento de Dickens com as mulheres e  em sua tumultuada vida interior é apenas uma das muitas maneiras  possíveis de se analisar tanto a vida quanto a obra do autor. Não é  necessário dizer que há muitas outras formas, e uma delas é voltar a  atenção para o trabalho que desempenhou como editor de duas revistas de  grande sucesso, Household Words e All the Year Round. Ele era  responsável por tudo, mantendo intensa correspondência com os  escritores, aperfeiçoando o texto de repórteres, planejando todos os  aspectos de edição. A tarefa de editor era para ele uma segunda carreira  em tempo integral. É sobre este último e menos compreendido aspecto da  vida profissional de Dickens que Michael Slater faz sua contribuição  mais original. Até certo ponto, ele dá vida ao sofrimento da criança, ao  jovem precoce que seduzia a todos, ao dândi, ao marido e pai  desapontado, ao amigo terno, ao inimigo implacável, ao ardente  reformista desprovido de filosofia política e ao fiel sincero que não  tinha religião pessoal. Ele também compreende a genialidade da obra do  autor e a transmite a nós. Entretanto, a questão mais importante é se  ele foi capaz de &#8220;entender&#8221; Dickens. Mas esta é uma pergunta injusta e  irreal. Afinal, quem poderia entendê-lo? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL</p>
<p><strong>*</strong>FOI EDITOR-CHEFE DA SIMON &amp; SCHUSTER E DA REVISTA NEW YORKER. É BIÓGRAFO DE GEORGE  BALANCHINE E EDITOU AS ANTOLOGIAS READING DANCE E READING JAZZ; É  CRÍTICO DE DANÇA DO NEW YORK OBSERVER</p>
<p><strong>Leia artigo sobre Charles Dickens no &#8220;Suplemento Literário&#8221;</strong></p>
<p><strong>Artigos do &#8220;Times Saturday Review&#8221; e &#8220;The Spectator&#8221; na seção Revista das Revistas de 07.mar.1970</strong></p>
<p>SÃO PAULO - Este ano do centenario da morte de Charles Dickens é  ocasião de ser discutida a grande figura. Ainda no Natal passado foram  publicados mais um volume da correspondencia do romancista e, em edição  de dois tomos, ineditos de Dickens (&#8221;Household Words, 1850-59&#8243;). Sôbre  as cartas agora publicadas (1840-1841), o sr. Richard Holmes em The  Times Saturday Review (29 novembro) escreve um vivo comentario. Ao gosto  da crítica mais moderna será Dickens um maniqueista que se realiza na  variedade, ou um secreto simbolista, ou ainda um existencialista  aborrecido? Ainda há os que pensam freudianamente que o sexo em Dickens  está em tudo, apenas disfarçado em necessidade de comer. Refere-se o sr.  Holmes ao &#8220;Dickens&#8221; de George Wing, de publicação recente como  repositorio e critica de todas essas opiniões. E pondera que os criticos  como todos os idolatras tendem a refazer os velhos deuses à imagem e  semelhança da nova sociedade. O que não deixa de ser uma observação  válida de crítico.</p>
<p>Mas, ainda assim, o que conclui o sr. Holmes da leitura da  correspondencia de Dickens é mesmo que se trata de um esquizofrenico. O  sr. Holmes cita uma carta do escritor a um velho amigo, contando que  naquela mesma manhã, teve uma crise de choro e a presença da mulher só  piorava a situação. E textualmente: &#8220;Desprezo os meus país. Detesto a  minha casa&#8221;. Vai mais longe, no seu delírio de autodestruição,  confessando ao amigo pensamentos que vão de atirar-se num canal vizinho  ou às patas dos cavalos dos carros que pensam ou, à botica que fornece  veneno. Será a verificação do diagnóstico, essa carta a John Forster?  Infelizmente não, escreve o sr. Holmes com humor macabro, pois nessa  mesma carta confessa Dickens uma paixão incoercivel pela Rainha  Victoria, o que se poderia hoje ter como sinal de loucura. Mas os  editores da correspondencia de Dickens, depois de ter ocultado  cuidadosamente durante muitos anos a carta delirante, publicaram-na  visto que descobriram haver o grande homem dirigido cartas semelhantes a  outros dois amigos. Dickens brincava apenas, concluiram os entendidos  em Dickens.</p>
<p>O sr. Holmes, no entanto, não se desarma por tão pouco e descobre  outros sinais alarmantes: caprichos que raiam ao absurdo e ao mesmo  tempo, um insaciavel bom humor, grande sentimentalismo, feroz  profissionalismo na colheita de material novelesco, absoluta falta de  convencimento pessoal mesmo quando foi aclamado aos 29 anos como um novo  Shakespeare. Mas, como tudo isso, Dickens estava longe de ser um  introvertido, como se êle nunca se tivesse posto ao espelho, exceto,  pretende ao ser. Holmes, para testar a sua habilidade de mimo.</p>
<p>A tendencia à extroversão no paciente Dickens é mais social e  literariamente explicada pelo sr. John Holloway em artigo do Spectator  de 29 de novembro, sobre os livros de Natal, entre os quais &#8220;The  Uncollected Writings of C.D.&#8221; Dickens participa estritamente falando, do  frenesi de produtividade característico do seu tempo. O critico explica  que os Victorianos estavam obsecados com a coisa, o objeto: era a sua  idiosincrasia. O ambiente, eles o provoavam, individualizavam-no  mediante os objetos: variados, dotados de colorido particular,  encrustados em protuberancia nos moveis da época, assumida tal  fetichismo quase feição de religião. Mas não era ainda o puro objeto dos  modernos e sim uma forma cristalizada de trabalho, uma manifestação de  energia: objeto e atividade eram complementares de um todo.</p>
<p>A esse respeito, são características as atividades de Dickens como  jornalista, que o foi, nas suas aventuras: &#8220;Household Words&#8221; e &#8220;All The  Year Round&#8221;. Muita coisa era escrita por seus colaboradores (já naquele  tempo era tal o uso), mas Dickens infatigavelmente alongava, encurtava,  assumia-lhes a responsabilidade, e as vezes reescrevia o texto proposto.  Enfim era um verdadeiro editor.</p>
<p>Voltando ao comentário do sr. Holmes verifica-se que Dickens foi um  grande jornalista. Em 1850, no auge da sua carreira literária, dirigiu o  seu segundo semanário que foi &#8220;Household Words&#8221;, o qual circulou  durante nove anos e revelou 350 escritores de Mrs. Gaskell a Michael  Faraday, atingindo a uma circulação de 40.000 exemplares  aproximadamente. Sem falar nos seus proprios romances que, à moda do  tempo, eram produzidos e publicados em série, tal como hoje os felizes  autores de novelas da TV.</p>
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		<title>Vidas às margens de uma história</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 02:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Dicas]]></category>

		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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LI, Yiyun. Os excluídos. Tradução de Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
Por Raquel Cozer
O Estado de São Paulo
Yiyun Li passou a infância orientada a nunca confiar em  ninguém fora de casa. A recomendação, comum a crianças em qualquer lugar  do mundo, era algo mais complexa na China do final dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/excluidos.jpg"><img class="size-full wp-image-23285 aligncenter" title="excluidos" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/excluidos.jpg" alt="excluidos" width="300" height="441" /></a></p>
<p>LI, Yiyun. <strong>Os excluídos</strong>. Tradução de Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.</p>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por Raquel Cozer</div>
<div class="bb-md-noticia-autor">O Estado de São Paulo</div>
<p>Yiyun Li passou a infância orientada a nunca confiar em  ninguém fora de casa. A recomendação, comum a crianças em qualquer lugar  do mundo, era algo mais complexa na China do final dos anos 70. Com a  morte do líder comunista Mao Tsé-tung (1893-1976), o país viveu uma  breve fase de liberalização política, a Primavera de Pequim, para em  seguida entrar num período nebuloso que culminaria com o massacre de  estudantes na Praça da Paz Celestial, em 1989.</p>
<p>Li, hoje com 37 anos, deixou a capital chinesa em 1996 para estudar  nos Estados Unidos, mas os reflexos daqueles tempos, prova de que não  era simples o que seus pais lhe pediam, permaneceram. &#8220;Só entendi  totalmente depois que saí do país e me tornei escritora&#8221;, diz, por  e-mail, ao Estado, a autora que acaba de ter publicado por aqui seu  primeiro romance, Os Excluídos (2009), cuja trama se inscreve no  ambiente de desconfiança e medo em que vivia a população de um vilarejo  fictício em 1979. A história se desenvolve em torno da condenação à  morte da personagem Gu Shan, de 28 anos, por ideias anticomunistas. Em  21 de março, quando começa o romance, os moradores são convocados à  cerimônia pública na qual ela será exposta, ao som de hinos, antes da  execução.</p>
<p>Poucos deles saberão que, antes de morrer, a jovem teve seus rins  retirados para um transplante não autorizado e as cordas vocais cortadas  para não se manifestar na cerimônia. Enquanto esses fatos se fazem  revelar, a autora apresenta personagens como Tong, menino de 7 anos que  aprende a delatar em troca de segurança; Nini, garota deficiente de 12  anos tratada como escrava na casa dos pais; Bashi, o idiota da vila, que  desenterra o corpo de Shan e descobre que o cadáver foi violado; sr. e  sra. Hua, casal de catadores que criou sete meninas abandonadas no lixo  até elas lhe serem tiradas pelo governo. Logo o leitor se dará conta de  que há muito pouco de inocência nessa história, aos 14 anos, antes de  se voltar contra o comunismo, Shan, então integrante da Guarda Vermelha  de Mao, chutou durante um confronto a barriga da mãe grávida de Nini,  causando a deformidade da menina.</p>
<p>O tom realista e duro da narrativa de Yiyun Li já tinha chamado a  atenção da crítica internacional em sua estreia como escritora, em 2005,  com o livro A Thousand Years of Good Prayers, na época, foi eleita  pela revista literária Granta uma das melhores jovens autoras dos EUA. O  volume recebeu prêmios como o PEN/Hemingway Award e o Guardian First  Book Award, e dois de seus contos foram adaptados para o cinema por  Wayne Wang em 2007, Mil Anos de Orações e A Princesa de Nebraska. Há  poucos dias, Li foi listada pela prestigiosa revista New Yorker entre os  20 escritores de menos de 40 anos que merecem atenção, uma seleção  que, em outros tempos, incluiu nomes como Martin Amis e Ian McEwan. Uma  trajetória peculiar para uma jovem que, quando chegou aos EUA, com 24  anos, pretendia apenas se tornar imunologista, chegou a fazer o curso  em Iowa, mas abandonou a especialização. Casada e mãe de dois filhos,  ela hoje mora em Oakland, na Califórnia. Veja a seguir os principais  trechos da entrevista.</p>
<p>Ao longo do romance, vários personagens tomam atitudes questionáveis  para receber em troca algum benefício, como o rapaz que entrega as  cartas da namorada às autoridades para conquistar um posto no Exército.  Traições como essas, ou até crimes, eram comuns na China pós-Revolução  Cultural?</p>
<p>Em momentos de turbulência política como os retratados no romance, ou  mesmo como os 30 anos anteriores aos acontecimentos ali narrados, é  comum as pessoas entrarem em pânico no que diz respeito à própria  segurança. E, quando isso acontece, tendem a trair umas às outras sem  pensar que poderiam fortalecer a própria sobrevivência se juntassem  forças aos vizinhos ou amigos. Naquele momento, na China, muitas pessoas  acreditavam que, quanto mais gente ao redor fosse derrubada, menor  seria a punição que caberia a elas próprias. Com certeza não era a única  maneira de reagir ao que acontecia ali, mas talvez tenha acontecido com  mais frequência do que deveria acontecer. Não era algo inaceitável pela  lógica daquele momento.</p>
<p>E como era confiar em alguém num ambiente como aquele? É possível  dizer que as experiências daquele período ajudaram a definir as  características da atual sociedade chinesa?</p>
<p>As pessoas, de fato, desconfiavam muito umas das outras naquele  ambiente. A orientação que eu mesma recebia em casa era a de nunca  confiar em ninguém que fosse de fora. Pensando como algo coletivo, é  possível dizer que a sociedade tenha sido, de uma maneira ou de outra,  moldada em parte pela desconfiança e por outros resultados emocionais de  experiências políticas como aquela.</p>
<p>Você cresceu em Pequim, enquanto os acontecimentos do romance se  passam em um vilarejo muito pequeno, fictício. E, no entanto, há ali um  realismo social muito forte. A situação era similar nesses dois  cenários? Como você, que tinha 7 anos naquela época, percebia a  realidade desses &#8220;excluídos&#8221;?</p>
<p>No final dos anos 70, Pequim era muito parecida com uma pequena  cidade de província. O realismo social a respeito do qual você fala é  uma reprodução da minha vida e da minha geração crescendo. O que fiz foi  apenas descrever vidas que me eram muito familiares. Agora, de fato,  uma coisa que eu não conseguia entender direito era a realidade dos  excluídos. Mas, como criança, quando você está confuso (e quando ninguém  dá explicações nem ajuda a entender o mundo), você absorve os detalhes  da realidade como uma esponja. Comecei a compreender tudo aquilo quando  entrei na adolescência. Agora, entender totalmente&#8230; Isso só aconteceu  depois que deixei o país e me tornei escritora.</p>
<p>O New York Times descreveu seu romance como &#8220;nada fácil ou agradável  de ler&#8221;. Você concorda? Foi trabalhoso escrever uma história tão densa?</p>
<p>Não achei difícil escrever o romance, mas, na revisão, me dei conta  de como a história é dura. Ainda assim, diria que &#8220;agradável&#8221; não é uma  qualidade que eu me empenhe em alcançar. Minha resenha favorita foi a de  um jornal local, que disse que o meu livro &#8220;não foi feito para os  covardes&#8221;. Quando li isso, gargalhei.</p>
<p>Você foi para os Estados Unidos em 1996 para estudar imunologia e  lançou o primeiro livro quase dez anos depois. Como aconteceu essa  passagem da ciência para a literatura?</p>
<p>Comecei escrevendo um pouco quando ainda estudava imunologia, mas em  2000 desisti do curso. Trabalhei por algum tempo em um hospital e entrei  num curso de escrita criativa em Iowa, e foi então que comecei a levar a  sério a escrita. Acho que me ocorreu que nunca amei a ciência como amo a  literatura. Queria ser escritora e fazer algo que eu amasse.</p>
<p>E é fácil para você escrever em inglês? Nunca é fácil escrever, em  idioma nenhum. Mas, pelo que posso avaliar, não é mais difícil para mim  escrever em inglês do que qualquer outro nativo. Acho até mais fácil  escrever em inglês do que em chinês. Aliás, para mim, a ideia de  escrever um livro em chinês é praticamente impossível.</p>
<p>Escritores mais jovens são quase sempre comparados a outros como  forma de referência. Com quem de fato se identifica?</p>
<p>Ah, todas as comparações são bem-vindas para mim, porque sei que não  sou tão boa quanto ninguém com quem sou comparada. Minha preferida é  Tolstoi, Chekhov e George Orwell em uma única resenha. Foi uma grande  honra, mas não quero ser comparada a Orwell, e sei que nunca seria tão  boa quanto Tolstoi e Chekhov! William Trevor, o contista e romancista  irlandês, é provavelmente a maior influência literária na minha  carreira.</p>
<p>Por falar em idade, ficou surpresa em ver o seu nome entre os 20  autores com menos de 40 anos que merecem atenção, segundo a revista New  Yorker?</p>
<p>O que me surpreendeu foi ser chamada de jovem! Eu não sou mais tão  jovem assim, mas é reconfortante saber que escolhi uma profissão na qual  a juventude dura um pouco mais do que na maior parte das outras  profissões.</p>
<p>O que achou de ver os seus contos transformados em filmes por Wayne  Wang?</p>
<p>Quando ele me falou que queria transformar meus contos em filme,  disse a ele que seria impossível, porque minhas histórias são muito  internas e muito silenciosas para o cinema. Fiquei feliz quando ele me  provou que eu estava errada.</p>
<p>E há alguma chance de vermos Os Excluídos no cinema?</p>
<p>Não acho que o romance tenha chance de ser transformado em filme,  pela óbvia razão de que é muito político e sombrio, e as autoridades na  China não permitiriam que as filmagens fossem realizadas no país.  Diferentemente dos contos que Wang adaptou, a história de Os Excluídos  teria de ser filmada na China.</p>
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		<title>Barreira intransponível</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 01:50:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[
Criação combina vidro, ferro e som
Por Marcelo Rubens Paiva
Um quiosque vermelho, patrocinado por uma marca de cerveja. Mesinha  de plástico sem guarda-sol. Poucas pessoas. Carioca não vai à praia  quando os termômetros estão abaixo dos 20.
O paulistano lia um jornal da sua cidade, bebia um coco. Na mesa ao  lado, ela se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/aliancas.jpg"><img class="size-full wp-image-23279 aligncenter" title="aliancas" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/aliancas.jpg" alt="aliancas" width="425" height="335" /></a></p>
<p><strong>Criação combina vidro, ferro e som</strong></p>
<p>Por Marcelo Rubens Paiva</p>
<p>Um quiosque vermelho, patrocinado por uma marca de cerveja. Mesinha  de plástico sem guarda-sol. Poucas pessoas. Carioca não vai à praia  quando os termômetros estão abaixo dos 20.</p>
<p>O paulistano lia um jornal da sua cidade, bebia um coco. Na mesa ao  lado, ela se sentou, pediu caipirinha. Depois, pediu emprestado os  cadernos já lidos. Era paranaense, mas assinava jornais paulistas. São  melhores, justificou.</p>
<p>A primeira afinidade entre eles. A segunda? Ambos na cidade praiana,  hospedados em hotéis em frente da orla; duas torres vizinhas. Fugiram do  inverno e da rotina de suas cidades. Fora de temporada. Nem era  feriado.</p>
<p>No papo, as diferenças. Ele, recém-separado. Ela, casada há 15 anos,  sem filhos, cujo marido ficara em Curitiba. Ele descrente das relações  duradouras dos dias de hoje. Ela era a prova de que, sim, há esperança.</p>
<p>Ele enumerou suas separações. E como há sempre uma barreira  intransponível, que bloqueia a felicidade de um casal, defeitos que  aprisionam o amor. Ela discordou, mas escutou.</p>
<p>Citou a ex-alcoólatra com quem foi casado. Tudo era perfeito, mas  tinha essa doença presente. Impossível lidar com a vodca no café da  manhã e as posteriores.</p>
<p>Depois, citou a relação cujo tesão acabara em dois anos. Como manter  um casamento com a frieza e o sintoma de uma dúbia amizade?</p>
<p>Citou o casamento com a ciumenta obsessiva. Ciúmes de amigos,  família, vizinhos, controladora desesperada, que invadia e-mails,  extratos bancários, revistava carteiras, sempre à procura de pistas. Não  deu.</p>
<p>E lembrou a bipolar, que acordava de um jeito, tomava café da manhã  de outro, e não se sabia como chegaria em casa depois do expediente.</p>
<p>Concluiu. Sempre haverá um ponto-limite. Qual o segredo, perguntou,  para que um casamento não tenha uma barreira intransponível, como o seu?</p>
<p>Ela não soube responder. Nem formular a receita. Pois a vida toda  esteve casada apenas com um cara, que amava acima de tudo.</p>
<p>Conversavam como amigos de longa data. Riram das trapalhadas amorosas  dele. Trocaram celulares, pois, sozinhos na cidade, combinariam  programas, um teatro quem sabe&#8230;</p>
<p>Almoçaram no restaurante do hotel dela, com vista para o mar. Subiram  até o quarto dela, também com vista para o mar. Ele queria checar se  era melhor que o dele, para na próxima vez se hospedar lá.</p>
<p>À noite, foram juntos ao teatro a três quadras. Uma comédia sobre  mulheres neuróticas. Rasa, mas engraçada.</p>
<p>Embebedaram-se no botequim da esquina. Ambos pediram a mesma  caipirinha de lima com vodca sem açúcar. Ambos se deliciaram com os  petiscos tão famosos dos bares cariocas.</p>
<p>Aquela amizade inesperada empolgou. Que sorte, o encontro casual.</p>
<p>Ela ria da vida amorosa confusa e instável dele. Ele via nela a  chance de desabafar, realizar um balanço. E de entender os espinhos do  amor.</p>
<p>&#8220;Como faziam nossos avós?&#8221;, perguntou. &#8220;Toleravam a alcoólatra, a  ciumenta, a bipolar, a frígida, tiveram netos, foram mais felizes do que  a gente?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ou não&#8221;, ela respondeu, e riram.</p>
<p>Ele a deixou no hotel e foi para o seu.</p>
<p>Chuva e frio no dia seguinte, paisagem desanimadora. Trocaram  mensagens pelo celular. Combinaram um almoço. Num tailandês.</p>
<p>Outra tarde voou. Mais caipirinha sem açúcar. Mais histórias  divertidas: a da namorada que chorava toda vez que gozava; a que gritava  muito, o que o levou a comprar um aparelho de som e instalar no quarto;  a que pedia para ele morder com força; a contorcionista que era uma  pedra na cama.</p>
<p>Na volta, ela o convidou para subir para o quarto dela, para matar  uma garrafa de champanhe. Serviu assim que entraram. Viram juntos a  paisagem invernal, a ressaca violenta do mar, a ventania arrastando os  poucos esportistas.</p>
<p>Ele se confundiu. Mas percebia que, quando se aproximava dela, ela se  afastava. Quando se sentaram na cama, ela colocou travesseiros entre  eles. E decidiu. Na despedida, tentaria algo.</p>
<p>Se levantou, preciso ir, estou bêbado, preciso me deitar, dormir um  pouco. Ela o acompanhou até a porta. Então, ele passou o braço ao redor  dela e tentou beijá-la.</p>
<p>Ela disse não. Ele sorriu. Se desculpou. Ela disse que nunca traiu o  marido. Ele se surpreendeu, nunca? Que lindo&#8230;</p>
<p>Caminhou até o hotel invejando aquele marido. Entrou no seu quarto,  quando o primeiro torpedo chegou: &#8220;Vc vai deitar por mto tempo?&#8221; Ele não  soube o que responder. Tomou um banho, se deitou. Chegou o segundo  torpedo: &#8220;Vamos tomar um vinho antes de dormir, please.&#8221;</p>
<p>Ele respondeu que ia visitar um amigo. &#8220;Tá ventando mto pra vc sair.&#8221;  Ele respondeu: &#8220;Olha, vc viu que as mulheres me confundem, vc está me  confundindo. Mudou de opinião? Só pra eu entender&#8230;&#8221; Ela respondeu: &#8220;É  que fiquei meio mal e me sentiria melhor se pudesse falar. Esperar até  amanhã? É tortura.&#8221; Ele respondeu: &#8220;Tá tudo bem, eu que não devia ter  feito aquilo. Mas te ligo.&#8221;</p>
<p>Não ligou. Ela não escreveu mais. Ele, idem.</p>
<p>Domingo. Ela sabia que ele partiria naquela noite. E finalmente  mandou, no começo da tarde: &#8220;Vai embora sem se despedir?&#8221;</p>
<p>Ele não respondeu, evitou cruzar a orla e a calçada em que ela  poderia estar. Almoçou num lugar fechado. Andou com cuidado pela sombra.</p>
<p>No começo da noite, entrava num táxi com a sua mala, quando ela  apareceu correndo: &#8220;Você é um filho da puta, só quis me comer?&#8221; A reação  agressiva o surpreendeu. O taxista esperando.</p>
<p>Teria sido a aventura perfeita de um romântico fim de semana, que não  seria esquecida, mas abandonada. Ele respondeu apenas: &#8220;Adorei te  conhecer.&#8221;</p>
<p>Nunca mais se viram. Nem se falaram. Nem se escreveram. E ela,  atormentada pelo não ocorrido.</p>
<p>No fundo, ele não quis manchar um relacionamento ideal. Existe?</p>
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		<title>Santo, ladrão e mártir</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 01:33:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Antonio Gonçalves Filho

O Estado de  São Paulo
O centenário de nascimento do escritor Jean Genet (1910-  1986) é comemorado na França junto ao do dramaturgo Jean Anouilh  (1910-1987) e do ator e diretor Jean-Louis Barrault (1910-1994), outros  dois monumentos da cultura do país. Não é uma coincidência, mas uma  provocação. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_23266" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/genet.jpg"><img class="size-full wp-image-23266 " title="genet" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/genet.jpg" alt="Jean Genet" width="480" height="379" /></a><p class="wp-caption-text">Jean Genet</p></div>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por Antonio Gonçalves Filho</div>
<div class="bb-md-noticia-autor"></div>
<div class="bb-md-noticia-autor">O Estado de  São Paulo</div>
<p>O centenário de nascimento do escritor Jean Genet (1910-  1986) é comemorado na França junto ao do dramaturgo Jean Anouilh  (1910-1987) e do ator e diretor Jean-Louis Barrault (1910-1994), outros  dois monumentos da cultura do país. Não é uma coincidência, mas uma  provocação. Genet enterrou o formalismo clássico de Anouilh e o drama  burguês da Comédie Française com peças revolucionárias como O Balcão  (1956), montada aqui em 1969 com direção do argentino Victor Garcia e  produção de Ruth Escobar. O Balcão é até hoje um soco no estômago das  instituições. Ambientada num prostíbulo, por onde circulam falsas  rainhas e falsos bispos enquanto uma revolução acontece fora dele, a  peça tem como protagonista a dona de um bordel, amante do chefe de  polícia, que leva à morte um líder rebelde, assumindo o poder com seus  clientes.</p>
<p>Genet falava por metáforas, porém acabou criando novo gênero nos anos  1940 ao escrever livros autobiográficos como Nossa Senhora das Flores, O  Milagre da Rosa, Querelle e o mais conhecido de todos, Diário de Um  Ladrão, em que conta suas desventuras nas prisões francesas. Abandonado  pela mãe solteira num orfanato com apenas 1 ano, nascera em 19 de  dezembro de 1910, Jean Genet passou por diversas penitenciárias, quase  sempre por roubo de lenços, cortes de tecidos, camisas e livros. Sua  primeira passagem pela Patronage de l&#8221;Enfance, a Febem francesa, foi aos  15 anos, condenado por conduta fraudulenta, gastou num parque de  diversões o dinheiro do compositor cego René de Buxeuil, que o abrigara  em sua casa.</p>
<p>Sua sorte só começou a mudar em 1943 ao ser apresentado ao poeta e  cineasta Jean Cocteau que, mesmo chocado com Nossa Senhora das Flores,  se propôs a encontrar um editor para o livro. Outro intelectual que o  ajudou foi o filósofo Jean-Paul Sartre, autor do prefácio do primeiro  volume de suas obras completas, Saint Genet, Ator e Mártir (1951). Ambos  se conheceram em 1944. Quatro anos depois, Sartre e Cocteau fizeram uma  petição para livrar definitivamente Genet, que passou os anos 50 em  intensa atividade criativa.</p>
<p>Homossexual, sempre foi assombrado &#8220;pela impressão de uma existência  quase póstuma&#8221;, segundo o biógrafo Edmund White. Por vezes voltava-se  contra si. Tentou o suicídio em várias oportunidades. Ressurgiu da  última vez como ativista político, defendendo os direitos dos  trabalhadores imigrantes e dos palestinos. Por ser persona non grata na  França, rodou o mundo em busca de seus semelhantes, tornando-se amigo  dos escritores americanos da geração beat e de árabes como Tahan Ben  Jelloun. Identificado com a cultura marroquina, teve como último amante  Mohammed El Hatrani, homem casado, para quem construiu uma casa ? ele  que vagou pelas ruas e morreu num hotel, em 15 de abril de 1986.</p>
<p><strong>Jardin des TUILERIES</strong></p>
<p>O conto a seguir, de <strong>Manoela Sawitzki</strong>*, tem como protagonista o dramaturgo francês Jean Genet, nascido há um século; o texto estará na coletânea Escritores Escritos, que sai em julho pela Flaneur:</p>
<p>&#8220;Minha vida visível não foi senão disfarces bem mascarados.&#8221;</p>
<p>Senhora!</p>
<p>- Sim?</p>
<p>- A senhora deixou cair.</p>
<p>- Não, isso não é  meu.</p>
<p>- Eu tive a impressão de que caía enquanto a senhora passava&#8230;</p>
<p>-  Desculpe, mas realmente&#8230;</p>
<p>- Então encontramos juntos!</p>
<p>- Não,  eu&#8230;</p>
<p>- Por favor, senhora, fique com ele!</p>
<p>- Eu não poderia, quem  achou foi&#8230;</p>
<p>- Porque eu olhava para o chão enquanto a senhora se  distraía com a paisagem. O que importa é que eu tenho fome e a senhora,  mãos muito bonitas. Vamos, experimente!</p>
<p>- Mas&#8230;</p>
<p>- Me permite?  Veja, ficou perfeito!</p>
<p>- Não é possível, ele é seu por direito.</p>
<p>- E  deve ser seu. Nota-se que é uma boa mulher e terá a imensa generosidade  de me oferecer um bom prato de comida em troca dessa joia. Não pude  comer nada o dia inteiro. De qualquer forma, o que um homem como eu  faria com um anel valioso como esse? Dirão que o roubei ou coisa pior.</p>
<p>Ninguém  mais passa por esta alameda do Jardin des Tuileries às cinco da tarde  deste 15 de abril. Contudo, perto dali, um pequeno grupo de crianças  brinca no parque, dois colegas de classe fumam seus primeiros cigarros,  carros se ultrapassam, e um jovem belga de 24 anos chamado Thomas vê o  amigo de infância atravessar a Pont Royal, e grita-lhe o nome com o  coração disparado.</p>
<p>Embora sorria, o velho tem olhos sombrios, ela  pensa. O corpo lhe parece frágil e, por isso, inofensivo. De certa  forma, lembra-lhe o pai: o mesmo olhar turvo, a cabeça grisalha e calva  como um campo devastado pelo inverno, a voz rouca, esmaecida. Em geral,  desconfia dos homens, mas não consegue fugir de uma piedade instantânea  diante dos velhos. Ou talvez seja apenas horror à ideia da própria  velhice - nunca lhe ocorria investigar demasiado o que, por natureza, a  embaraçava. Assim como nunca fora capaz de sentir pelo pai aquilo que  dizem ser o amor de um filho.</p>
<p>Informara-se a respeito (conhecia  descrições, nuances), então sempre que se fazia necessário se expressar  como ente amoroso, podia (minimamente) convencer. Dava-lhe menos  trabalho a imitação. Somente a velhice do pai os aproxima.</p>
<p>Leva em  conta a idade do homem e o fato de ele carregar um livro no bolso do  casaco, quando calcula os riscos de estreitar aquele contato às cinco  horas da tarde, numa alameda deserta do Jardin des Tuileries. Em  seguida, também calcula o que carrega na bolsa enquanto mais uma vez  verifica que o encaixe do anel em seu anular é exato.</p>
<p>Quanto ao  homem, se quisesse roubá-la, já o teria feito. Embora não espere, de  forma alguma, ser assaltada por um francês. Deve ser honesto, conclui.  Ainda que pobre. E ela não é o tipo de pessoa que acredita que todo  pobre padece de alguma deformidade moral. Sobretudo sendo francês. Ainda  que cheire mal. E, enquanto ele lhe sorri com turva humildade, ela  encerra os cálculos ciente de que possui setenta e oito francos para  passar o resto do dia, e se pergunta se dez serão suficientes para  satisfazer a fome do pobre velho francês.</p>
<p>- O senhor gosta de ler&#8230;</p>
<p>-  A senhora parece surpresa.</p>
<p>- Como se chama?</p>
<p>- Jean.</p>
<p>- Prazer,  sou Mercedes.</p>
<p>Os dois se medem em silêncio. Ele já não sorri.</p>
<p>- E o  senhor faz o quê?</p>
<p>- Eu? Divirto o mundo com meu passado.</p>
<p>- Não  entendo&#8230;</p>
<p>- Conhece Jean-Paul Sartre, senhora?</p>
<p>- O filósofo?  Evidentemente.</p>
<p>- Ele diz que sou santo.</p>
<p>Está louco, ela pensa,  enquanto abre a bolsa, retira as moedas da carteira, tomando cuidado  para não revelar demais ao estranho, e estende-lhe a mão, a mesma que  traz agora, perfeitamente encaixado, o anel que a sorte lhe alcançou em  seu último passeio por Paris.</p>
<p>- O que é isso?</p>
<p>- Dinheiro para o  seu jantar.</p>
<p>- Desculpe, deve haver algum engano.</p>
<p>- Sei que é  pouco, mas é tudo que tenho, senhor.</p>
<p>- Dez francos?</p>
<p>- Dez francos.</p>
<p>-  Por um anel de ouro?</p>
<p>- Sinto muito.</p>
<p>- Para um homem que lhe disse  ter fome?</p>
<p>- O senhor pode ficar com o anel.</p>
<p>- A senhora realmente  não entende.</p>
<p>- Realmente eu&#8230;</p>
<p>- Seria mais digno lhe tomar a  carteira.</p>
<p>- O que o senhor está dizendo?!</p>
<p>- Que seria mais digno  abrir sua barriga e levar sua carteira, senhora.</p>
<p>- É uma ameaça?!</p>
<p>-  Uma constatação.</p>
<p>- Eu não pedi para ficar com isso.</p>
<p>- E eu não  lhe pedi uma esmola, senhora. Não preciso do seu dinheiro, sugeri que me  convidasse para o jantar.</p>
<p>- O senhor e eu?</p>
<p>- Em um bom  restaurante.</p>
<p>- Não acho que seja possível.</p>
<p>Ela torna a abrir bolsa  e carteira. Nervosamente. A mão logo exibe 30 francos para os quais  Jean olha com indiferença.</p>
<p>- Para o seu jantar. Em um bom  restaurante. Aceite. Agora é tudo.</p>
<p>Ele, impassível, pega o dinheiro,  guarda-o no bolso da calça e se afasta. Perto dali, Thomas caminha lado a  lado com o amigo de infância até o Café Very. Minutos antes, ao  abraçá-lo depois de cinco anos, descobre que o ama. De outro bolso, Jean  retira um anel dourado e sorri contido ao lançá-lo aos pés de uma jovem  holandesa que se distrai com a paisagem numa alameda do Jardin des  Tuileries.<br />
<strong>*</strong>Manoela Sawitzki (1978), nascida em Santo Ângelo  (RS), tem como principais obras &#8220;Nuvens de Magalhães&#8221; (Mercado Aberto,  2002) e &#8220;Suíte Dama da Noite&#8221; (Record, 2009), ambos romances.</p>
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		<title>Palco de expiações</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 01:21:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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VOVELLE, Michel. As almas do purgatório ou o trabalho de luto. Tradução de Aline Meyer e Roberto Cattani, São Paulo: UNESP, 2010.
Historiador francês Michel Vovelle usa obras artísticas para trazer de volta à cena a reflexão sobre o purgatório
Por J. C. ISMAEL*

O Estado de São Paulo
Se pensar sobre a morte pode virar uma obsessão, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/purgatorio.jpg"><img class="size-full wp-image-23262 aligncenter" title="purgatorio" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/purgatorio.jpg" alt="purgatorio" width="400" height="400" /></a></p>
<p>VOVELLE, Michel. <strong>As almas do purgatório ou o trabalho de luto</strong>. Tradução de Aline Meyer e Roberto Cattani, São Paulo: UNESP, 2010.</p>
<p><strong>Historiador francês Michel Vovelle usa obras artísticas para trazer de volta à cena a reflexão sobre o purgatório</strong></p>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por J. C. ISMAEL<strong>*</strong></div>
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<div class="bb-md-noticia-autor">O Estado de São Paulo</div>
<p>Se pensar sobre a morte pode virar uma obsessão, a  atitude que costuma predominar é a de negá-la. Aliás, negá-la faz parte  do pensamento ocidental desde os seus primórdios. É de Epicuro, por  exemplo, o conhecido grito de descrença: &#8220;Enquanto eu sou, a morte não  é, e desde que ela seja, não sou mais.&#8221;</p>
<p>Quando, em fins de 1982, Michel Vovelle lançou na França La Mort et  l&#8221;Occident: De 1300 à Nos Jours, era difícil imaginar que ele que ele  voltaria ao assunto, pelo menos num texto de grande envergadura como  este As Almas do Purgatório ou O Trabalho de Luto (embora em Ideologias e  Mentalidades, de 1985, tenha transcrito trechos de seminários sobre a  morte e o morrer). Professor e historiador, especializado na Revolução  Francesa, Vovelle, de 77 anos, mantém uma relação atribulada com o PC  francês, acusado de preocupar-se demais em unificar a história das  mentalidades coletivas, sem defender a ideologia socialista &#8220;pura&#8221;; além  disso, põe-se a refletir sobre temas pouco &#8220;engajados&#8221;, como este ? a  morte.</p>
<p>As Almas do Purgatório&#8230; constitui-se, em sua maior parte, de  minuciosas digressões e interpretações históricas das mais de uma  centena de ilustrações que o acompanham: iluminuras medievais, afrescos,  retábulos barrocos, imagens populares, xilos, documentos, vitrais,  pinturas e até cartazes de filmes recentes. Não se espere, no entanto,  que o autor se porte como um crítico de arte se perdendo em prazeres  estéticos. Vovelle reafirma-se como o instigante pensador que elegeu a  morte e o luto, um trabalho &#8220;ao qual os (sobre)viventes não saberiam  subtrair-se&#8221;, como temas de uma reflexão que ocupa lugar de destaque na  história das mentalidades do Ocidente. Isto, sem fugir da pergunta  necessária: &#8220;Quem hoje em dia pode ter interesse pelas pobres almas do  purgatório?&#8221; Parece que esse interesse diminuiu em relação ao passado,  mas como, no Ocidente cristão (área sobre a qual o autor se debruça), é  assunto intimamente ligado à reflexão sobre a morte, está com certeza  longe de desaparecer.</p>
<p>Desde os primórdios do cristianismo, os padres da Igreja  preocupavam-se em &#8220;criar&#8221; um terceiro local (inexistente na Bíblia) para  as almas, pois parecia injusto privar as que não fossem &#8220;inteiramente  más&#8221; de um cárcere transitório. O problema foi descrever esse local &#8220;de  temor e de esperança&#8221;, como o define Vovelle. Diante da impossibilidade  de se chegar a uma definição pacífica, o Concílio de Trento decretou  que, sendo o purgatório um estado de expiação (e jamais de  arrependimento), a questão do local se afiguraria irrelevante.</p>
<p>Vovelle lembra que foi Santo Agostinho quem definiu as penas  purgatórias, as quais só poderiam ser aliviadas pelos sufrágios dos  vivos. Mas as discussões para se estabelecer o local (e suas  características) onde as almas penadas aguardam sua libertação começaram  muito antes do bispo de Hipona. E se arrefecem de tempos em tempos,  continuam latentes, passando por toda forma de descrição: ora fosso de  água, ora de fogo mais ameno que o infernal. E, por que a própria Terra  não pode servir de terceiro local destinado à purga dos pecadores? Pode,  explica Vovelle, com a ressalva de que suas almas, purificadas, só  repousarão no Paraíso no dia do Juízo Final.</p>
<p>Outra questão sobre a qual as divergências são antigas, comenta o  autor, é a duração da sentença que as almas têm que cumprir. A Igreja,  tentando encerrar as discussões sobre o assunto, vem procurando datar o  fim dos tempos como o fim do próprio purgatório, e a consequente  libertação dos seus cativos. Enfim, as &#8220;teorias&#8221; sobre o purgatório são  muitas e, independentemente da crença do leitor na sua existência,  aceite o convite de Vovelle e faça a viagem por essa perturbadora  figuração pictórica, cujo percurso pode ser usufruído sem nenhum tipo de  crença religiosa.</p>
<p><strong>*</strong>AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE INICIAÇÃO AO MISTICISMO  CRISTÃO (NOVA ERA/RECORD), O MÉDICO E O PACIENTE (MG EDITORES) E  SÓCRATES E A ARTE DE VIVER (ÁGORA/SUMMUS)</p>
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