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	<title>BLOG CELLA &#187; Poemas</title>
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	<description>Blog de José Renato Gaziero Cella</description>
	<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 21:17:10 +0000</pubDate>
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		<title>O abecedário do misterioso Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2010 00:04:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
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MARTINS, Fernando Cabral. Dicionário de fernando pessoa e do modernismo. São Paulo: Leya Brasil, 2010.
Dicionário sobre o modernismo português que será lançado amanhã se baseia na vida do poeta lisboeta
Por Ubiratan Brasil

O Estado de São Paulo
Hoje são lembrados os 122 anos de nascimento do escritor  português Fernando Pessoa - e, por que não?, também [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/pessoa-01.jpg"><img class="size-full wp-image-23077 aligncenter" title="pessoa-01" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/pessoa-01.jpg" alt="pessoa-01" width="300" height="447" /></a></p>
<p>MARTINS, Fernando Cabral. <strong>Dicionário de fernando pessoa e do modernismo</strong>. São Paulo: Leya Brasil, 2010.</p>
<p><strong>Dicionário sobre o modernismo português que será lançado amanhã se baseia na vida do poeta lisboeta</strong></p>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por Ubiratan Brasil</div>
<div class="bb-md-noticia-autor"></div>
<div class="bb-md-noticia-autor">O Estado de São Paulo</div>
<p>Hoje são lembrados os 122 anos de nascimento do escritor  português Fernando Pessoa - e, por que não?, também de Alberto Caeiro,  Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, seus famosos  heterônimos, seus poetas inventados. Assim desdobrado em vários, Pessoa  conseguiu confundir a relação entre autoria e personalidade, vida e  obra, sentimento e expressão. Atento a essa complexa rede armada pelo  poeta que, à medida que experimentava na escrita também buscava a  própria voz, o pesquisador e crítico Fernando Cabral Martins organizou o  Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, portentoso  volume que a editora Leya lança amanhã.</p>
<p>São mais de 600 artigos reunidos escritos por estudiosos renomados  (como a brasileira Leyla Perrone-Moisés e o americano Richard Zenith) em  quase mil páginas que, a partir da obra do poeta, contextualizam aquele  movimento literário em Portugal, que não apenas modificou as artes mas a  sociedade como um todo. O ponto de partida é a data da primeira  aparição pública de Pessoa, 1912, e ruma até o ano de sua morte, 1935.  Nesse período, ele se relacionou com ciência, alquimia, linguística e  outras matérias.</p>
<p>O fruto dessa interação resultou em poesia, ficção, teatro, filosofia  e teoria, que revelam a descoberta de obsessões que lhe marcaram toda a  obra. E, por extensão, caracterizam com solidez o modernismo português.  &#8220;Pessoa é que tornou o dicionário viável&#8221;, disse Cabral Martins, em  entrevista à imprensa de Lisboa. &#8220;Não era possível fazer um dicionário  coerente sobre um tema demasiado vasto. Seria como, por exemplo, fazer  um dicionário sobre a verdade ou sobre o espírito humano.&#8221;</p>
<p>Amigo íntimo. Pessoa era um homem reservado, misterioso até. E, mesmo  quando confessava isso em sua escrita, pouco revelava: &#8220;Não tenho  amigos verdadeiramente íntimos, e mesmo que houvesse um amigo íntimo,  como o mundo o entende, ainda assim não seria íntimo no sentido em que  eu entendo a intimidade&#8221;, escreveu. &#8220;Um amigo íntimo é um dos meus  ideais, um dos meus sonhos, mas um amigo íntimo é algo que nunca terei.  Nenhum temperamento se adapta ao meu; não há um caráter neste mundo que  dê o mais leve indício de se aproximar do que eu sonho num amigo  íntimo.&#8221;</p>
<p>Essa atmosfera de indefinição também marca boa parte da obra de  Pessoa. No verbete &#8220;loucura&#8221; encontrado no dicionário, sua autora,  Patrícia da Silva Cardoso, identifica esse conjunto de dúvidas como uma  barreira cuja função &#8220;é sublinhar a distância que separa o gesto de  olhar o mundo da intenção de compreendê-lo, de compreender a si  próprio&#8221;.</p>
<p>Segundo ela, Pessoa via a loucura como um índice de singularidade e  de superioridade. Ele distinguia, porém, a loucura positiva, criadora,  da patológica, que serve apenas para a destruição. No livro Mensagem,  por exemplo, as várias formas de loucura positiva orientam as ações dos  homens que &#8220;ajudaram a inventar um país que foi e que voltará a ser  senhor de si mesmo quando novamente houver aquela simbiose entre a  coletividade e o grande louco&#8221;. É Dom Sebastião esse louco, o rei que,  ao desaparecer aos 24 anos de idade, em 1578, carrega consigo na sua  morte a tragédia da própria nação, que com ele termina caindo sob  domínio da Espanha.</p>
<p>Mensagem foi escrito em sua fase mais transcendental. É seu único  livro em língua portuguesa, composto durante um período de mais de 20  anos - entre 1913 e 1934. Nessa fase, Pessoa desenvolveu uma íntima  relação com a astrologia, como mostra o verbete escrito por Paulo  Cardoso. Segundo ele, o poeta via nos signos uma estrutura filosófica e  um meio de autoconhecimento. Também era uma plataforma de apoio na  planificação de sua própria obra: &#8220;Na segunda das três partes de  Mensagem, ele agrupou 12 poemas que são, no seu conjunto, e exatamente  com a mesma sequência, uma compilação das características simbólicas dos  12 signos do zodíaco.&#8221;</p>
<p>Dilemas. Figura complexa, criador de tantos &#8220;eus&#8221;, Fernando Pessoa  construiu uma obra singular, baseada na própria individualidade, seus  limites, enganos e dilemas. Também deixou poucas pistas sobre seus reais  pensamentos. &#8220;Quando alguém afirma que Pessoa acreditava,  convictamente, na astrologia, na Rosa-Cruz, na cabala, no cristianismo,  no paganismo, no espiritismo ou em qualquer outro &#8220;ismo&#8221;, é porque não  leu bem toda a sua obra&#8221;, disse Richard Zenith ao Estado em 2006, quando  do lançamento de seu Escritos Autobiográficos, Automáticos e de  Reflexão Pessoal (A Girafa).</p>
<p>&#8220;O poeta acreditava em cada uma destas doutrinas, e duvidava delas  todas. E todas, por sua vez, eram formas de Pessoa duvidar da sua opção  literária. Da mesma maneira que os heterônimos se contrapunham e  contradiziam, assim acontecia com as crenças de Pessoa, e com as suas  formas de entender e até de duvidar.&#8221;</p>
<p>Assim, apesar de volumoso e consistente, o dicionário coordenado por  Fernando Cabral Martins oferece algumas das mais importantes  perspectivas dessa trajetória excepcional. Nada, porém, de conclusões  definitivas - afinal, como dizia o próprio poeta, &#8220;todas as frases do  livro da vida, se lidas até ao fim, terminam numa interrogação&#8221;.</p>
<p><strong>TRECHO</strong><br />
&#8220;Como Fernando Pessoa, é citadino e celibatário. Mantém à  distância a sua noiva Felice pelas mesmas razões pelas quais Pessoa se  afasta de&#8230;</p>
<p>&#8230;Ofélia: para realizar o seu destino de escritor. Dedica ao mundo  exterior um interesse quase nulo, e sente a mesma dificuldade de viver.  Atingidos por uma profunda insegurança ontológica, Kafka (foto) e Pessoa  sabem ambos o que é a perda da identidade e de referências, naquela  sociedade do princípio do século posta em desassossego pela Modernidade e  pelo declínio dos valores metafísicos. À crise da Modernidade  sobrepõe-se a crise existencial de um escritor dividido por várias  línguas - Kafka está, pelo nascimento, no ponto de encontro de duas  línguas, o alemão e o checo, e, depois, familiariza-se com o iídiche e o  hebraico - sempre obcecado pelo olhar do outro.&#8221;</p>
<p><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/pessoa.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-23076" title="pessoa" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/pessoa.jpg" alt="pessoa" width="504" height="730" /></a></p>
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		<title>Pequei, Senhor&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 05:40:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Poemas]]></category>

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		<description><![CDATA[Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-nos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_22995" class="wp-caption alignnone" style="width: 489px"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/gregorio-de-mattos-guerra1.jpg"><img class="size-full wp-image-22995  " title="gregorio-de-mattos-guerra1" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/gregorio-de-mattos-guerra1.jpg" alt="O &quot;Boca do Inferno&quot;" width="479" height="637" /></a><p class="wp-caption-text">O &quot;Boca do Inferno&quot;</p></div>
<p>Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,<br />
Da vossa alta piedade me despido,<br />
Porque quanto mais tenho delinquido,<br />
Vos tenho a perdoar mais empenhado.</p>
<p>Se basta a vos irar tanto um pecado,<br />
A abrandar-nos sobeja um só gemido,<br />
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,<br />
Vos tem para o perdão lisonjeado.</p>
<p>Se uma ovelha perdida, e já cobrada<br />
Glória tal, e prazer tão repentino<br />
Vos deu, como afirmais na Sacra História:</p>
<p>Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada<br />
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,<br />
Perder na vossa ovelha a vossa glória.</p>
<p>Gregório de Matos e Guerra</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ungaretti em São Paulo</title>
		<link>http://www.cella.com.br/blog/?p=22940</link>
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		<pubDate>Sat, 05 Jun 2010 15:14:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Dicas]]></category>

		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

		<category><![CDATA[Poemas]]></category>

		<category><![CDATA[poesias]]></category>

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Artigo publicado no &#8220;Suplemento Literário&#8221; de 20 de agosto de 1966
Por Antonio Candido
SÃO PAULO - Giuseppe Ungaretti regeu a cátedra de Língua  e Literatura Italiana na Universidade de São Paulo de 1937 a 1942, mas a  sua influência foi igualmente grande fora das aulas - nas conversas,  nas reuniões, nas conferências. Quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_22941" class="wp-caption aligncenter" style="width: 350px"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/ungaretti.jpg"><img class="size-full wp-image-22941 " title="ungaretti" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/ungaretti.jpg" alt="Giuseppe Ungaretti" width="340" height="360" /></a><p class="wp-caption-text">Giuseppe Ungaretti</p></div>
<p><strong>Artigo publicado no &#8220;Suplemento Literário&#8221; de 20 de agosto de 1966</strong></p>
<div class="bb-md-noticia-autor">Por Antonio Candido</div>
<p>SÃO PAULO - Giuseppe Ungaretti regeu a cátedra de Língua  e Literatura Italiana na Universidade de São Paulo de 1937 a 1942, mas a  sua influência foi igualmente grande fora das aulas - nas conversas,  nas reuniões, nas conferências. Quando partiu foi como se tivessem  arrancado alguma coisa da cidade; alguma coisa que deixara um marco  profundo embora quase silencioso.</p>
<p>Salvo um ou dois casos, os seus amigos, aqueles que mais sentiram a  sua influência, não foram os seus alunos, no sentido escolar; mas todos  foram seus discípulos, e todos são fidelíssimos à sua lembrança. Há  mesmo uma espécie de maçonaria entre os que dele se aproximaram, feita  de alusões, experiências comuns, evocação de fatos pitorescos e  comoventes, cuja narração nos chega às vezes modificada pelo logo  percurso que cumpriram; é como um ciclo de Ungaretti, na mitologia  artística e intelectual da cidade. É o caso do conselho drástico dado a  um jovem pintor a quem sugeria maior experiência de vida antes de dar-se  à arte, ou das exclamações sufocadas diante de um quadro de Picasso, em  casa de Oswald de Andrade, ou do divertido &#8220;qui pro quo&#8221;, sempre no  mesmo lugar, a respeito de uma &#8220;gaffe&#8221; do anfitrião, ou ainda, de um  juízo negativo sôbre um célebre escritor europeu que se encontrava então  entre nós. E mais: as reflexões paradoxais a propósito de um famoso  teólogo belga; a visão boccaccesca de um leprosário; as considerações  sôbre os requisitos hormonais respectivos do escritor e do sociologo&#8230;</p>
<p>Tudo isso mantém uma presença afetuosa e viva, um culto familiar e  reverente e indica a ação do grande poeta que nos ensinou tantas coisas:  um dos poucos estrangeiros de alto nível, que tenha amado e sentido o  Brasil em profundidade.</p>
<p>Quem não recorda a sua tristeza por deixar-nos sem ter podido ver as  obras do Aleijadinho - êle que nos revelara a importancia e o  significado do Barrôco literário, desde o papagaio verde-ouro do rei Dom  Diniz, como constante portuguesa. As traduções de Mário de Andrade, que  publicou na revista &#8220;L’Approdo&#8221; e leu em São Paulo por ocasião de uma  breve visita, em 1951, revelam uma penetração, raramente alcançada, nos  arcanos da nossa poesia. Em &#8220;Semantica&#8221; (&#8221;Un grido e paesaggi&#8221;)  serpenteia uma veia amazonica e, como diria Oswald de Andrade,  tendencialmente antropófaga, que revela a mais compreensiva  identificação. Somos todos gratos a Ungaretti por essa atenção seletiva e  concentrada ao nosso País, que permite o diálogo sobre os mares. Por  outro lado, os versos de &#8220;Dolore&#8221; mostram como êle se vinculou à nossa  terra por uma agudíssima experiência vivida aqui.</p>
<p>De europeu trouxe-nos muito - na sua experiencia densa, na dramatica  vibração com que êle cria e interpreta. Mais de um, entre nós, ao  conhecê-lo transcreveu &#8220;L’allegria&#8221; e o &#8220;Sentimento del tempo&#8221;, para  sentir, naquela espécie de rito simpático, os pontos sutis de  ossificação da sua poesia misteriosa e humana. E quando a máquina de  escrever deixava no espaço branco os versos parsimoniosos, era como se o  trabalho do nosso grande amigo se tornasse mais inteligível, com as  palavras renascendo sob os dedos atentos, que na sua inexperiência  procuravam explicá-las.</p>
<p>As suas aulas e as suas conversas serviram muitas vezes de guia a  essa interrogação. Nelas sentíamos que o produto poético, depurado até  tornar difícil o fôlego da compreensão, tinha por substrato uma erudição  abundante, um atacar os problemas de todos os lados, uma dimensão  vertical que sondava em profundidade. Sentíamos que o poema despojado  tinha como base uma vitalidade mais forte e era realmente o aflorar mais  puro da poesia, &#8220;pérola de espírito&#8221;, como no verso de Alfred de Vigay.</p>
<p>Nas suas aulas, revelou o que significa o diálogo entre o pensamento e  a sensibilidade do texto. Mostrou como, nas mãos do leitor capaz,  surgem mundos ignorados, que parecem brotar materialmente das próprias  linhas, dos espaços das letras, deslizar das maiusculas às minusculas,  como se uma fermentação incessante e contida esperasse o eleito para  florecer em beleza. Quantas vezes, em lições sucessivas, recomeçou a  leitura de certo poema, corrigindo-se, superando a anterior, embora  tivesse sido tão límpida e insuperável, com outra, nova, mais genuína e  completa.</p>
<p>As suas aulas! Havia nelas uma fase tranquila de aproximação  metódica; havia uma fase de arrebatamento, cuja inspiração o atraía para  o quadro negro, giz em riste e as costas voltadas para os ouvintes,  seguindo com sons guturais da voz o curso da inspiração; havia fases de  retórno ao momento em que, a voz de nôvo calma, recolhia as conclusões  emersas de tumulto e as ordenava com a mais nítida coerência; havia,  ainda, momentos de luta contra a pasta de livros, de couro negro, com  duas longas correias e uma curiosa vareta de metal que servia para  prendê-las, a que o poeta revirava de todos os modos, reordenando sem  cessar a pilha de livros para depois abandoná-la e voltar em nôvo extase  à quixotesca contenda com o negrume impassível da lousa. Teria êle  consciência de tôdas essas manobras, pensávamos, ou vagaria com a mente  fora de tudo, de nós, da sala, da bôlsa, deslizando para o mundo da  poesia através da inquieta espiral traçada no ar pelo giz? Leopardi e o  sentido do pecado, a atuação do Cristianismo na literatura, a glória do  Renascimento, o sonho austero e humano de Manzoni, cristalizavam-se  naquelas sessões de invocação crítica, mostrando, mais de uma vez, as  sólidas bases de um mundo de emoções e de idéias. E do professor, do  poeta, do amigo, compunha-se a cada instante o quadro completo e  perfeito do homem exemplar.</p>
<p>Quando trovo</p>
<p>in questo mio silenzio</p>
<p>una perola</p>
<p>scavata è nella mia vita</p>
<p>come un abisso.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Em Curitiba, uma rave pelo sexo sem neuras</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 18:04:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Dicas]]></category>

		<category><![CDATA[Direito]]></category>

		<category><![CDATA[Opinião]]></category>

		<category><![CDATA[Poemas]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeira festa liberal do Brasil conta com a  presença de um público que quer não apenas sexo, mas liberdade
 Reportagem Marcela Varasquim, do Jornal Comunicação (UFPR)
Por fora impressiona. A casa de swing Liberty não tem nada  capaz de identificá-la. Nem faixa, nem foto, nem nome. Apenas um  letreiro grande com a inscrição [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<a href='http://www.cella.com.br/blog/?attachment_id=21309' title='pista-01materia'><img src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/pista-01materia-150x150.jpg" width="150" height="150" class="attachment-thumbnail" alt="" /></a>
<a href='http://www.cella.com.br/blog/?attachment_id=21310' title='quarto-coletivomateria'><img src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/quarto-coletivomateria-150x150.jpg" width="150" height="150" class="attachment-thumbnail" alt="" /></a>

<div class="gravata"><strong>Primeira festa liberal do Brasil conta com a  presença de um público que quer não apenas sexo, mas liberdade</strong></div>
<p><strong> </strong>Reportagem <span class="assinatura_nome">Marcela Varasquim, do <a href="http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/8119" target="_blank">Jornal Comunicação</a> (UFPR)</span></p>
<p>Por fora impressiona. A casa de <em>swing</em> Liberty não tem nada  capaz de identificá-la. Nem faixa, nem foto, nem nome. Apenas um  letreiro grande com a inscrição do número: 128. Uma parede alta e uma  porta também alta, com entrada apenas para carros, me amedrontaram à  primeira vista. Talvez as adjacências não saibam que ali, ao lado de  suas moradias, o sexo não é um ato pecaminoso; é libertação.</p>
<p>É a primeira vez que acontece, no Brasil, uma <a href="http://www.sexxday.com.br/">Rave do Sexo</a>. E era atrás daquele  muro aparentemente intransponível que se concretizaria este momento  histórico, no dia 7 de maio, sexta-feira. Na frente não havia ninguém.  Esperava ao menos uma fila, como em qualquer balada. Mas, no auge de  minha ingenuidade, havia esquecido que o evento não seria uma balada.  Seria uma festa cujo sigilo e discrição me fizeram dar um passo para  trás na minha ousadia jornalística de entrar e entrevistar quem  estivesse à frente.</p>
<p>Hesitei várias vezes na tentativa de não permitir que esta  reportagem terminasse ali, na obscuridade daquela cena pouco iluminada e  enigmática. Até que chegou um carro, talvez o primeiro a adentrar  aquela escuridão. O portão se abriu e meus olhos também. Não pude  enxergar muito, apenas uma luz verde a iluminar um pequeno canto do  local. O carro entrou e, rapidamente, o grande portão se fechou,  formando novamente a fotografia que tanto me instigava.</p>
<p><strong>Do lado de dentro do portão</strong></p>
<p>Enquanto carros entravam e o portão abria e fechava repetidas  vezes, eu ficava ali, do outro lado da rua, imóvel e receosa. Observava  com detalhes aquela rua esburacada e sem qualquer iluminação do bairro  Parolin, em Curitiba. Depois de muitas voltas na quadra para decidir o  que faria, fechei os olhos e entrei, num ímpeto de coragem e de amor à  profissão.</p>
<p>Na recepção, senti pudor e adrenalina. O organizador do evento  Nando, como gosta de ser chamado, vestia uma camiseta com a inscrição  “Faça sexo com segurança”. Aquilo me fez rejeitar as possibilidades de  que na festa o sexo seria tão livre a ponto de as DSTs terem presença  permitida, quase que obrigatória. Fiquei calma, em consideração a quem  se entregasse à orgia naquela noite. Mas quando Nando virou, vi que  atrás de sua camiseta estava escrito “Segurança”. O que antes me parecia  um apelo para que se usasse camisinha, a partir daquele momento me dei  conta de que nada mais era que uma gozação, ou um chamariz para que  fizessem sexo com ele. E minha calma já não era mais tão evidente assim.</p>
<p><strong>A Rave do Sexo</strong></p>
<p>Sem necessidade alguma de comprovar minha maioridade, entrei.  Após atravessar um pequeno corredor escuro, a primeira imagem com a qual  me deparei na Rave do Sexo foi a de uma televisão exibindo um vídeo  pornográfico e uma cama à frente. Aquele andar era todo assim: várias  camas, sofás e quartos que permitiam total visão para quem estivesse no  corredor, pois, ao invés de parede, havia vidro. Ali tudo propiciava o  sexo. A escuridão extrema quase que passava a mensagem de que, não  importa com quem seja, transe. Em frente à naturalidade com a qual a  Rave expunha o sexo, foi ali que me despi, não de roupa, mas de qualquer  moralismo que pudesse haver dentro de mim.</p>
<p>Vários degraus separavam o primeiro do segundo andar. Mas a  distância física não necessariamente representou uma divisão de temas.  Embaixo, tudo era sexo. Em cima também. Ao invés de uma banda tocando,  de um DJ ou de um DVD de algum artista do momento, um vídeo pornográfico  exibido num telão de grandes proporções. Ao invés de jovens dançando ao  ritmo do eletrônico, muitas pessoas, das mais variadas idades, bebiam,  se tocavam e se despiam em volta do pole dance. Em duplas, trios ou  quartetos, todos se divertiam à sua maneira. Algumas mulheres usavam  saias ou vestidos curtíssimos, que ressaltavam o bumbum e delineavam  todo o corpo. Nada muito diferente do que existe em bares e baladas  comuns.</p>
<p>Embora a sexualidade fosse o motivo de se estar ali, ela não era  abordada com risadas - como fazem as crianças quando frequentam as  primeiras aulas de educação sexual  -,  nem com olhares preconceituosos,  depreciativos ou curiosos. O sexo ali era tratado como algo que ele  realmente é: natural do ser humano. A sociedade, através de suas  instituições, de seus moralismos e de suas crenças arraigadas em um  conceito negativo de sexualidade, condena qualquer evento que propicie o  sexo, mesmo tendo este ato tão presente em suas vidas. Porém foi ali,  na Rave do Sexo, que minhas especulações se concretizaram, e tive a  indubitável certeza do quanto a sociedade é um verdadeiro antro de  hipocrisia.</p>
<p><strong>Os frequentadores</strong></p>
<p>No andar de cima, a presença de casais era bastante superior à  presença de solteiros. A quase ausência de conversas e de beijos entre  os pares me levou à suposição de quem fossem homens com acompanhantes.  Mas certamente também havia muitos daqueles casais que estavam ali à  procura de outros para trocar de pares entre si, apenas por uma noite.  Alguns casais ficavam sentados nas poltronas em frente às mesas, outros  dançavam de maneira apelativa, simulando movimentos sexuais. O restante  do público se dividia entre a pista e o bar, cujas bebidas, aliás, eram  caríssimas (uma lata de cerveja custava R$ 7).</p>
<p>Em um momento, um quarteto iniciou o bacanal em meio à pista.  Depois, desceram as escadas para continuar o ato no andar de baixo,  dedicado a isso. Todos usavam a pista para se conhecer, no caso dos  solteiros, ou para dar início ao que logo depois continuariam em uma das  camas, cadeiras eróticas, sofás ou cabines de sexo oral que existiam no  primeiro andar.</p>
<p>Para fomentar a entrada feminina, mulheres não pagavam, tinham o  benefício do <em>Open Bar</em> por duas horas, brindes de <em>sex shop</em> e, se fossem em grupo de cinco, ganhavam uma garrafa de champanhe. Mesmo  com todo o incentivo, a presença masculina ainda parecia predominar,  apesar de o preço do ingresso ser R$ 120 no local. Os casais, bastante  presentes na Rave, pagavam R$ 50 no local.</p>
<p><strong>Sexo sem neuras</strong></p>
<p>Condeno absolutamente a falta da exigência da carteira de  identidade na entrada, a ausência de política de prevenção (embora  houvesse camisinhas espalhadas pelo chão do primeiro andar, o que  testemunha a prevenção de alguns) e o uso de drogas em festas rave. Sou  favorável ao sexo sem neuras, que diminui a incidência de problemas  sexuais e psicológicos da parcela conservadora da sociedade.</p>
<p>Na primeira Rave liberal do Brasil, não era apenas a prática de  sexo que era livre. Havia também a liberdade de escolha. Lá não se era  julgado pelos atos, pelos pensamentos e ideias. Por mais divergentes que  fossem as idades, as personalidades e credos dos frequentadores, todos  eram iguais na prática do sexo. Ao contrário do restante da sociedade, o  público da Rave admite que o sexo é um ato comum, que, independente da  posição social, profissional ou familiar, todos fazem de maneira igual.  Não havia olhares repressores, não havia a cultura de que sexo é um  hábito ruim e de baixo calão. A Rave do Sexo foi o local mais sincero  que já fui. Apenas não achei bem feita a escolha do slogan “Uma rave que  você nunca viu igual”. Lá eles transam, se divertem, dançam, cantam,  conversam e saem à procura de um par ideal. E você, o que faz aos finais  de semana?</p>
<p>A Rave do Sexo foi uma festa liberal muito semelhante a outros eventos  de mesma proporção que preconizam o sexo livre, o que traz a suposição  de que o termo “Rave” tenha sido uma jogada de marketing para atrair  público. Portanto, a Rave do Sexo não é a primeira nem a única festa a  estimular o sexo como forma de libertinagem. No Japão, todos os anos  também ocorre uma festa de cunho sexual. Chamada <em>Kanamara Matsuri</em>,  ela acontece toda primavera e homenageia a fertilidade do pênis, que,  segundo os participantes, confere proteção à família.</p>
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		<title>Retrato de Mãe</title>
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		<pubDate>Sun, 09 May 2010 04:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Renato Cella</dc:creator>
		
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Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus;
E pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha , age com as forças todas da juventude;
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<p style="text-align: center;">
<p>Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus;</p>
<p>E pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha , age com as forças todas da juventude;</p>
<p>Quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças;</p>
<p>Pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos;</p>
<p>Forte, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto se alteia com a bravura dos leões;</p>
<p>Viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.</p>
<p>Não exijam de mim que diga o nome desta mulher se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum: porque eu a vi passar no meu caminho.</p>
<p>Quando crescerem seus filhos, leiam para eles esta página: eles lhes cobrirão de beijos a fronte; e dirão que um pobre viajante, em troca da suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria <strong><em>Mãe</em></strong>.</p>
<p><span style="font-size: 12pt; line-height: 115%; font-family: &quot;Times New Roman&quot;,&quot;serif&quot;;">(Tradução de Guilherme de Almeida)</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 115%; font-family: &quot;Times New Roman&quot;,&quot;serif&quot;;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572087_izgum.jpeg"><img class="size-full wp-image-20962 aligncenter" title="5572087_izgum" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572087_izgum.jpeg" alt="5572087_izgum" width="481" height="691" /></a><br />
</span></p>
<p><span style="font-family: Comic Sans MS,Verdana,Arial; font-size: x-small;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572086_jy7pt.jpeg"><img class="size-full wp-image-20961 aligncenter" title="5572086_jy7pt" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572086_jy7pt.jpeg" alt="5572086_jy7pt" width="486" height="314" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;" align="left"><span style="font-family: Comic Sans MS,Verdana,Arial; font-size: x-small;"><a href="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572084_ofbpr.jpeg"><img class="size-full wp-image-20960 aligncenter" title="5572084_ofbpr" src="http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/5572084_ofbpr.jpeg" alt="5572084_ofbpr" width="474" height="691" /></a><br />
</span></p>
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