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Gênio investigado

19 de junho de 2010 11:13 pm
Charles Dickens

Charles Dickens

Livros, mulheres, fama, contradições – uma recente biografia de Charles Dickens, assinada por Michael Slater, dialoga com textos anteriores na tentativa de compreender o escritor, que morreu há 140 anos

Por Robert Gottlieb*

THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS

Existem autores cujas vidas e personalidades são de tamanha grandeza, tamanho fascínio, que é impossível escrever uma biografia monótona a seu respeito. Um deles é Charles Dickens. Sua turbulenta vida emocional, as violentas contradições de sua natureza e a incrível história de sua ascensão instantânea ao mais elevado patamar da fama literária e da popularidade podem ser recontadas infinitas vezes, e de fato foram relatadas num sem-número de obras. Dickens nasceu em 1812 e morreu em 1870, produzindo 15 romances. Foi certamente o homem mais conhecido da Inglaterra em meados do século 19. Sua popularidade e influência chegavam também até os EUA, França, Rússia. Quando morreu, a comoção foi universal.

Meses após a morte de Dickens, as primeiras biografias começaram a aparecer e, em 1871, foi publicado o primeiro volume daquela que seria a mais influente das obras da indústria biográfica de Dickens: The Life of Charles Dickens, de John Forster, o mais íntimo e mais digno de confiança dentre os amigos do autor. Forster contou ao mundo muito daquilo de que não sabíamos, em especial a história de como, aos 12 anos, Dickens foi trabalhar na degradante (para o autor) fábrica de graxa para sapatos, condenado a tal emprego pela situação de quase miséria em que vivia sua família. Em seu livro, Forster também publicou diversas cartas particulares escritas por Dickens que acompanham sua vida e, até certo ponto, revelam seus sentimentos. Com a perspectiva diferenciada de testemunha ocular e sua perspicaz interpretação da natureza de Dickens, a obra de Forster é um documento essencial para todos os biógrafos do escritor que se seguiram, entre eles Michael Slater, autor do recente Charles Dickens (Yale Press).

O Dickens que o mundo pensava conhecer era um defensor de todas as virtudes vitorianas, mesmo que seus romances expusessem a violência, hipocrisia, ganância e crueldade do período. Ainda assim, sua filha Katey escreveu a George Bernard Shaw: “Se o senhor pudesse fazer com que o público compreendesse que meu pai não era um homem alegre e jocoso que caminhava pelo mundo com uma porção de pudim de ameixa e uma tigela de ponche nas mãos, ficaria muito agradecida.” Num certo sentido, a história das biografias de Dickens tem sido uma tentativa cada vez mais intensa de se fazer justamente o que a filha pedira.

Primeiro tivemos a numerosa leva de memórias escritas por aqueles que o conheceram. E foram muitas as interpretações críticas mais agudas, como por exemplo as de George Gissing e G. K. Chesterton, além da variedade de comentários públicos e particulares feitos pelo próprio Shaw. Quanto às biografias posteriores à guerra, foi em 1952 que Edgar Johnson publicou os dois volumes de seu Charles Dickens: His Tragedy and Triumph (Simon & Schuster), recebido pelos críticos como primeira versão definitiva da vida do autor. O livro de Johnson ainda é uma leitura interessante. Seu defeito mais grave, comentado por Slater, é sua parcialidade em favor de Dickens na questão do relacionamento com Catherine, sua mulher.

Desarranjo. O tratamento dispensado por Dickens a Catherine pode ser visto hoje como falha imperdoável em seu caráter, sendo também um indício do poderoso desarranjo psíquico que o acometeu na fase intermediária da vida. Os dois se casaram ainda jovens, depois de o autor cortejar, sem sucesso, a bela e sedutora Maria Beadnell, que o atraiu e depois o recusou, demonstrando obviamente não ter se encantado profundamente com o jovem de boa aparência que começava a encontrar seu espaço como repórter da corte, mas sem perspectivas reais.

Hoje, é fácil perceber que o amor deles era uma paixão juvenil, mas o sentimento era intenso e levou a grandes humilhações. E o autor logo se voltou para Catherine Hogarth, jovem vinda de uma família de certa distinção. Ela era plácida, admiradora do marido, e a atração que Dickens sentia por ela nada tinha de ardente. Após a turbulência emocional vivida com Maria, o que ele procurava era uma cônjuge em vez de uma amante; formar a própria família e se firmar num relacionamento estável. A triste verdade é que a modesta inteligência e a timidez de Catherine significaram que ela não pôde partilhar com ele a vida de autor ou sua vida interior. Conforme ganhava notoriedade, Dickens começou a expressar sua insatisfação em cartas a Forster. Sua mais profunda infelicidade estava na crescente sensação de estar perdendo aquilo que a vida teria de mais importante: a realização num relacionamento com uma mulher.

A história de Dickens com Catherine é apenas um dos relacionamentos com mulheres que definem seu histórico particular e sua trajetória emocional. Todas as crianças abandonadas ou rejeitadas da ficção de Dickens, de Oliver Twist e Pequena Nell a Florence Dombey e David Copperfield, passando por Jo, de Casa Soturna, e Pip e Estella, de Grandes Esperanças, são claramente centrais para a percepção que o autor tinha de si. Seus pais, mortos ou dotados de um narcisismo destrutivo, são projeções implacáveis da arquitetura emocional do próprio autor. Por outro lado, as filhas e irmãs carinhosas, igualmente onipresentes, e as garotas quase indistintas que são objeto do amor em obras como Nicholas Nickleby e Barnaby Rudge não passam de fantasias sem vida. É fácil identificar seu principal protótipo. Pouco depois do casamento e da mudança para uma nova residência, uma das irmãs mais novas de Catherine, Mary, veio visitá-los, e acabou morando com o casal. Ela ajudava com as tarefas do lar, ajudava com os bebês e consistia numa figura idealizada da feminilidade virginal. Em seu livro, Slater mostra que Mary foi especialmente brilhante e encantadora, mas, para Dickens, ela era muito mais do que isso. Esta figura idealizada se projeta em boa parte de suas obras. Ele disse a Forster que, enquanto escrevia Oliver Twist, evocava a lembrança de Mary para manter as emoções “num estado de elevação”. O que Peter Ackroyd chama em seu Dickens (HarperCollins, 1990) de “estranha concatenação de fascínio, obsessão e reprovação da sexualidade” o perseguiria por toda a vida, e também assombraria sua ficção.

Dentre as mulheres de Dickens, a mais amada foi a atriz Ellen Ternan. Tinha 18 anos, era bonita, inteligente. A natureza do relacionamento entre os dois é o aspecto mais questionado da vida particular de Dickens. Apenas no século 20 que a história de Ellen veio à tona por inteiro. Logo foi aceito que durante os 13 anos que antecederam a morte do autor, os dois mantiveram um relacionamento íntimo. Entretanto, ainda se discute se o relacionamento teria se tornado sexual. Fred Kaplan, em Dickens: A Biography (Morrow, 1988), argumenta que, “depois de manter relações sexuais durante a maior parte de sua vida, parece improvável que ele renunciasse a elas quando se viu profundamente apaixonado por uma jovem atraente. Ele não tinha impulsos ascéticos. Suas preocupações eram terrenas, e os valores em que ele acreditava e sua própria personalidade afirmavam a naturalidade do sexo entre amantes”. Mas Ackroyd insiste na crença de que o relacionamento entre os dois jamais se tornou sexual.

Carreira. Concentrar-se no relacionamento de Dickens com as mulheres e em sua tumultuada vida interior é apenas uma das muitas maneiras possíveis de se analisar tanto a vida quanto a obra do autor. Não é necessário dizer que há muitas outras formas, e uma delas é voltar a atenção para o trabalho que desempenhou como editor de duas revistas de grande sucesso, Household Words e All the Year Round. Ele era responsável por tudo, mantendo intensa correspondência com os escritores, aperfeiçoando o texto de repórteres, planejando todos os aspectos de edição. A tarefa de editor era para ele uma segunda carreira em tempo integral. É sobre este último e menos compreendido aspecto da vida profissional de Dickens que Michael Slater faz sua contribuição mais original. Até certo ponto, ele dá vida ao sofrimento da criança, ao jovem precoce que seduzia a todos, ao dândi, ao marido e pai desapontado, ao amigo terno, ao inimigo implacável, ao ardente reformista desprovido de filosofia política e ao fiel sincero que não tinha religião pessoal. Ele também compreende a genialidade da obra do autor e a transmite a nós. Entretanto, a questão mais importante é se ele foi capaz de “entender” Dickens. Mas esta é uma pergunta injusta e irreal. Afinal, quem poderia entendê-lo? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*FOI EDITOR-CHEFE DA SIMON & SCHUSTER E DA REVISTA NEW YORKER. É BIÓGRAFO DE GEORGE BALANCHINE E EDITOU AS ANTOLOGIAS READING DANCE E READING JAZZ; É CRÍTICO DE DANÇA DO NEW YORK OBSERVER

Leia artigo sobre Charles Dickens no “Suplemento Literário”

Artigos do “Times Saturday Review” e “The Spectator” na seção Revista das Revistas de 07.mar.1970

SÃO PAULO – Este ano do centenario da morte de Charles Dickens é ocasião de ser discutida a grande figura. Ainda no Natal passado foram publicados mais um volume da correspondencia do romancista e, em edição de dois tomos, ineditos de Dickens (“Household Words, 1850-59”). Sôbre as cartas agora publicadas (1840-1841), o sr. Richard Holmes em The Times Saturday Review (29 novembro) escreve um vivo comentario. Ao gosto da crítica mais moderna será Dickens um maniqueista que se realiza na variedade, ou um secreto simbolista, ou ainda um existencialista aborrecido? Ainda há os que pensam freudianamente que o sexo em Dickens está em tudo, apenas disfarçado em necessidade de comer. Refere-se o sr. Holmes ao “Dickens” de George Wing, de publicação recente como repositorio e critica de todas essas opiniões. E pondera que os criticos como todos os idolatras tendem a refazer os velhos deuses à imagem e semelhança da nova sociedade. O que não deixa de ser uma observação válida de crítico.

Mas, ainda assim, o que conclui o sr. Holmes da leitura da correspondencia de Dickens é mesmo que se trata de um esquizofrenico. O sr. Holmes cita uma carta do escritor a um velho amigo, contando que naquela mesma manhã, teve uma crise de choro e a presença da mulher só piorava a situação. E textualmente: “Desprezo os meus país. Detesto a minha casa”. Vai mais longe, no seu delírio de autodestruição, confessando ao amigo pensamentos que vão de atirar-se num canal vizinho ou às patas dos cavalos dos carros que pensam ou, à botica que fornece veneno. Será a verificação do diagnóstico, essa carta a John Forster? Infelizmente não, escreve o sr. Holmes com humor macabro, pois nessa mesma carta confessa Dickens uma paixão incoercivel pela Rainha Victoria, o que se poderia hoje ter como sinal de loucura. Mas os editores da correspondencia de Dickens, depois de ter ocultado cuidadosamente durante muitos anos a carta delirante, publicaram-na visto que descobriram haver o grande homem dirigido cartas semelhantes a outros dois amigos. Dickens brincava apenas, concluiram os entendidos em Dickens.

O sr. Holmes, no entanto, não se desarma por tão pouco e descobre outros sinais alarmantes: caprichos que raiam ao absurdo e ao mesmo tempo, um insaciavel bom humor, grande sentimentalismo, feroz profissionalismo na colheita de material novelesco, absoluta falta de convencimento pessoal mesmo quando foi aclamado aos 29 anos como um novo Shakespeare. Mas, como tudo isso, Dickens estava longe de ser um introvertido, como se êle nunca se tivesse posto ao espelho, exceto, pretende ao ser. Holmes, para testar a sua habilidade de mimo.

A tendencia à extroversão no paciente Dickens é mais social e literariamente explicada pelo sr. John Holloway em artigo do Spectator de 29 de novembro, sobre os livros de Natal, entre os quais “The Uncollected Writings of C.D.” Dickens participa estritamente falando, do frenesi de produtividade característico do seu tempo. O critico explica que os Victorianos estavam obsecados com a coisa, o objeto: era a sua idiosincrasia. O ambiente, eles o provoavam, individualizavam-no mediante os objetos: variados, dotados de colorido particular, encrustados em protuberancia nos moveis da época, assumida tal fetichismo quase feição de religião. Mas não era ainda o puro objeto dos modernos e sim uma forma cristalizada de trabalho, uma manifestação de energia: objeto e atividade eram complementares de um todo.

A esse respeito, são características as atividades de Dickens como jornalista, que o foi, nas suas aventuras: “Household Words” e “All The Year Round”. Muita coisa era escrita por seus colaboradores (já naquele tempo era tal o uso), mas Dickens infatigavelmente alongava, encurtava, assumia-lhes a responsabilidade, e as vezes reescrevia o texto proposto. Enfim era um verdadeiro editor.

Voltando ao comentário do sr. Holmes verifica-se que Dickens foi um grande jornalista. Em 1850, no auge da sua carreira literária, dirigiu o seu segundo semanário que foi “Household Words”, o qual circulou durante nove anos e revelou 350 escritores de Mrs. Gaskell a Michael Faraday, atingindo a uma circulação de 40.000 exemplares aproximadamente. Sem falar nos seus proprios romances que, à moda do tempo, eram produzidos e publicados em série, tal como hoje os felizes autores de novelas da TV.

Vidas às margens de uma história

11:02 pm

excluidos

LI, Yiyun. Os excluídos. Tradução de Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

Por Raquel Cozer
O Estado de São Paulo

Yiyun Li passou a infância orientada a nunca confiar em ninguém fora de casa. A recomendação, comum a crianças em qualquer lugar do mundo, era algo mais complexa na China do final dos anos 70. Com a morte do líder comunista Mao Tsé-tung (1893-1976), o país viveu uma breve fase de liberalização política, a Primavera de Pequim, para em seguida entrar num período nebuloso que culminaria com o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial, em 1989.

Li, hoje com 37 anos, deixou a capital chinesa em 1996 para estudar nos Estados Unidos, mas os reflexos daqueles tempos, prova de que não era simples o que seus pais lhe pediam, permaneceram. “Só entendi totalmente depois que saí do país e me tornei escritora”, diz, por e-mail, ao Estado, a autora que acaba de ter publicado por aqui seu primeiro romance, Os Excluídos (2009), cuja trama se inscreve no ambiente de desconfiança e medo em que vivia a população de um vilarejo fictício em 1979. A história se desenvolve em torno da condenação à morte da personagem Gu Shan, de 28 anos, por ideias anticomunistas. Em 21 de março, quando começa o romance, os moradores são convocados à cerimônia pública na qual ela será exposta, ao som de hinos, antes da execução.

Poucos deles saberão que, antes de morrer, a jovem teve seus rins retirados para um transplante não autorizado e as cordas vocais cortadas para não se manifestar na cerimônia. Enquanto esses fatos se fazem revelar, a autora apresenta personagens como Tong, menino de 7 anos que aprende a delatar em troca de segurança; Nini, garota deficiente de 12 anos tratada como escrava na casa dos pais; Bashi, o idiota da vila, que desenterra o corpo de Shan e descobre que o cadáver foi violado; sr. e sra. Hua, casal de catadores que criou sete meninas abandonadas no lixo até elas lhe serem tiradas pelo governo. Logo o leitor se dará conta de que há muito pouco de inocência nessa história, aos 14 anos, antes de se voltar contra o comunismo, Shan, então integrante da Guarda Vermelha de Mao, chutou durante um confronto a barriga da mãe grávida de Nini, causando a deformidade da menina.

O tom realista e duro da narrativa de Yiyun Li já tinha chamado a atenção da crítica internacional em sua estreia como escritora, em 2005, com o livro A Thousand Years of Good Prayers, na época, foi eleita pela revista literária Granta uma das melhores jovens autoras dos EUA. O volume recebeu prêmios como o PEN/Hemingway Award e o Guardian First Book Award, e dois de seus contos foram adaptados para o cinema por Wayne Wang em 2007, Mil Anos de Orações e A Princesa de Nebraska. Há poucos dias, Li foi listada pela prestigiosa revista New Yorker entre os 20 escritores de menos de 40 anos que merecem atenção, uma seleção que, em outros tempos, incluiu nomes como Martin Amis e Ian McEwan. Uma trajetória peculiar para uma jovem que, quando chegou aos EUA, com 24 anos, pretendia apenas se tornar imunologista, chegou a fazer o curso em Iowa, mas abandonou a especialização. Casada e mãe de dois filhos, ela hoje mora em Oakland, na Califórnia. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Ao longo do romance, vários personagens tomam atitudes questionáveis para receber em troca algum benefício, como o rapaz que entrega as cartas da namorada às autoridades para conquistar um posto no Exército. Traições como essas, ou até crimes, eram comuns na China pós-Revolução Cultural?

Em momentos de turbulência política como os retratados no romance, ou mesmo como os 30 anos anteriores aos acontecimentos ali narrados, é comum as pessoas entrarem em pânico no que diz respeito à própria segurança. E, quando isso acontece, tendem a trair umas às outras sem pensar que poderiam fortalecer a própria sobrevivência se juntassem forças aos vizinhos ou amigos. Naquele momento, na China, muitas pessoas acreditavam que, quanto mais gente ao redor fosse derrubada, menor seria a punição que caberia a elas próprias. Com certeza não era a única maneira de reagir ao que acontecia ali, mas talvez tenha acontecido com mais frequência do que deveria acontecer. Não era algo inaceitável pela lógica daquele momento.

E como era confiar em alguém num ambiente como aquele? É possível dizer que as experiências daquele período ajudaram a definir as características da atual sociedade chinesa?

As pessoas, de fato, desconfiavam muito umas das outras naquele ambiente. A orientação que eu mesma recebia em casa era a de nunca confiar em ninguém que fosse de fora. Pensando como algo coletivo, é possível dizer que a sociedade tenha sido, de uma maneira ou de outra, moldada em parte pela desconfiança e por outros resultados emocionais de experiências políticas como aquela.

Você cresceu em Pequim, enquanto os acontecimentos do romance se passam em um vilarejo muito pequeno, fictício. E, no entanto, há ali um realismo social muito forte. A situação era similar nesses dois cenários? Como você, que tinha 7 anos naquela época, percebia a realidade desses “excluídos”?

No final dos anos 70, Pequim era muito parecida com uma pequena cidade de província. O realismo social a respeito do qual você fala é uma reprodução da minha vida e da minha geração crescendo. O que fiz foi apenas descrever vidas que me eram muito familiares. Agora, de fato, uma coisa que eu não conseguia entender direito era a realidade dos excluídos. Mas, como criança, quando você está confuso (e quando ninguém dá explicações nem ajuda a entender o mundo), você absorve os detalhes da realidade como uma esponja. Comecei a compreender tudo aquilo quando entrei na adolescência. Agora, entender totalmente… Isso só aconteceu depois que deixei o país e me tornei escritora.

O New York Times descreveu seu romance como “nada fácil ou agradável de ler”. Você concorda? Foi trabalhoso escrever uma história tão densa?

Não achei difícil escrever o romance, mas, na revisão, me dei conta de como a história é dura. Ainda assim, diria que “agradável” não é uma qualidade que eu me empenhe em alcançar. Minha resenha favorita foi a de um jornal local, que disse que o meu livro “não foi feito para os covardes”. Quando li isso, gargalhei.

Você foi para os Estados Unidos em 1996 para estudar imunologia e lançou o primeiro livro quase dez anos depois. Como aconteceu essa passagem da ciência para a literatura?

Comecei escrevendo um pouco quando ainda estudava imunologia, mas em 2000 desisti do curso. Trabalhei por algum tempo em um hospital e entrei num curso de escrita criativa em Iowa, e foi então que comecei a levar a sério a escrita. Acho que me ocorreu que nunca amei a ciência como amo a literatura. Queria ser escritora e fazer algo que eu amasse.

E é fácil para você escrever em inglês? Nunca é fácil escrever, em idioma nenhum. Mas, pelo que posso avaliar, não é mais difícil para mim escrever em inglês do que qualquer outro nativo. Acho até mais fácil escrever em inglês do que em chinês. Aliás, para mim, a ideia de escrever um livro em chinês é praticamente impossível.

Escritores mais jovens são quase sempre comparados a outros como forma de referência. Com quem de fato se identifica?

Ah, todas as comparações são bem-vindas para mim, porque sei que não sou tão boa quanto ninguém com quem sou comparada. Minha preferida é Tolstoi, Chekhov e George Orwell em uma única resenha. Foi uma grande honra, mas não quero ser comparada a Orwell, e sei que nunca seria tão boa quanto Tolstoi e Chekhov! William Trevor, o contista e romancista irlandês, é provavelmente a maior influência literária na minha carreira.

Por falar em idade, ficou surpresa em ver o seu nome entre os 20 autores com menos de 40 anos que merecem atenção, segundo a revista New Yorker?

O que me surpreendeu foi ser chamada de jovem! Eu não sou mais tão jovem assim, mas é reconfortante saber que escolhi uma profissão na qual a juventude dura um pouco mais do que na maior parte das outras profissões.

O que achou de ver os seus contos transformados em filmes por Wayne Wang?

Quando ele me falou que queria transformar meus contos em filme, disse a ele que seria impossível, porque minhas histórias são muito internas e muito silenciosas para o cinema. Fiquei feliz quando ele me provou que eu estava errada.

E há alguma chance de vermos Os Excluídos no cinema?

Não acho que o romance tenha chance de ser transformado em filme, pela óbvia razão de que é muito político e sombrio, e as autoridades na China não permitiriam que as filmagens fossem realizadas no país. Diferentemente dos contos que Wang adaptou, a história de Os Excluídos teria de ser filmada na China.

Barreira intransponível

10:50 pm

aliancas

Criação combina vidro, ferro e som

Por Marcelo Rubens Paiva

Um quiosque vermelho, patrocinado por uma marca de cerveja. Mesinha de plástico sem guarda-sol. Poucas pessoas. Carioca não vai à praia quando os termômetros estão abaixo dos 20.

O paulistano lia um jornal da sua cidade, bebia um coco. Na mesa ao lado, ela se sentou, pediu caipirinha. Depois, pediu emprestado os cadernos já lidos. Era paranaense, mas assinava jornais paulistas. São melhores, justificou.

A primeira afinidade entre eles. A segunda? Ambos na cidade praiana, hospedados em hotéis em frente da orla; duas torres vizinhas. Fugiram do inverno e da rotina de suas cidades. Fora de temporada. Nem era feriado.

No papo, as diferenças. Ele, recém-separado. Ela, casada há 15 anos, sem filhos, cujo marido ficara em Curitiba. Ele descrente das relações duradouras dos dias de hoje. Ela era a prova de que, sim, há esperança.

Ele enumerou suas separações. E como há sempre uma barreira intransponível, que bloqueia a felicidade de um casal, defeitos que aprisionam o amor. Ela discordou, mas escutou.

Citou a ex-alcoólatra com quem foi casado. Tudo era perfeito, mas tinha essa doença presente. Impossível lidar com a vodca no café da manhã e as posteriores.

Depois, citou a relação cujo tesão acabara em dois anos. Como manter um casamento com a frieza e o sintoma de uma dúbia amizade?

Citou o casamento com a ciumenta obsessiva. Ciúmes de amigos, família, vizinhos, controladora desesperada, que invadia e-mails, extratos bancários, revistava carteiras, sempre à procura de pistas. Não deu.

E lembrou a bipolar, que acordava de um jeito, tomava café da manhã de outro, e não se sabia como chegaria em casa depois do expediente.

Concluiu. Sempre haverá um ponto-limite. Qual o segredo, perguntou, para que um casamento não tenha uma barreira intransponível, como o seu?

Ela não soube responder. Nem formular a receita. Pois a vida toda esteve casada apenas com um cara, que amava acima de tudo.

Conversavam como amigos de longa data. Riram das trapalhadas amorosas dele. Trocaram celulares, pois, sozinhos na cidade, combinariam programas, um teatro quem sabe…

Almoçaram no restaurante do hotel dela, com vista para o mar. Subiram até o quarto dela, também com vista para o mar. Ele queria checar se era melhor que o dele, para na próxima vez se hospedar lá.

À noite, foram juntos ao teatro a três quadras. Uma comédia sobre mulheres neuróticas. Rasa, mas engraçada.

Embebedaram-se no botequim da esquina. Ambos pediram a mesma caipirinha de lima com vodca sem açúcar. Ambos se deliciaram com os petiscos tão famosos dos bares cariocas.

Aquela amizade inesperada empolgou. Que sorte, o encontro casual.

Ela ria da vida amorosa confusa e instável dele. Ele via nela a chance de desabafar, realizar um balanço. E de entender os espinhos do amor.

“Como faziam nossos avós?”, perguntou. “Toleravam a alcoólatra, a ciumenta, a bipolar, a frígida, tiveram netos, foram mais felizes do que a gente?”

“Ou não”, ela respondeu, e riram.

Ele a deixou no hotel e foi para o seu.

Chuva e frio no dia seguinte, paisagem desanimadora. Trocaram mensagens pelo celular. Combinaram um almoço. Num tailandês.

Outra tarde voou. Mais caipirinha sem açúcar. Mais histórias divertidas: a da namorada que chorava toda vez que gozava; a que gritava muito, o que o levou a comprar um aparelho de som e instalar no quarto; a que pedia para ele morder com força; a contorcionista que era uma pedra na cama.

Na volta, ela o convidou para subir para o quarto dela, para matar uma garrafa de champanhe. Serviu assim que entraram. Viram juntos a paisagem invernal, a ressaca violenta do mar, a ventania arrastando os poucos esportistas.

Ele se confundiu. Mas percebia que, quando se aproximava dela, ela se afastava. Quando se sentaram na cama, ela colocou travesseiros entre eles. E decidiu. Na despedida, tentaria algo.

Se levantou, preciso ir, estou bêbado, preciso me deitar, dormir um pouco. Ela o acompanhou até a porta. Então, ele passou o braço ao redor dela e tentou beijá-la.

Ela disse não. Ele sorriu. Se desculpou. Ela disse que nunca traiu o marido. Ele se surpreendeu, nunca? Que lindo…

Caminhou até o hotel invejando aquele marido. Entrou no seu quarto, quando o primeiro torpedo chegou: “Vc vai deitar por mto tempo?” Ele não soube o que responder. Tomou um banho, se deitou. Chegou o segundo torpedo: “Vamos tomar um vinho antes de dormir, please.”

Ele respondeu que ia visitar um amigo. “Tá ventando mto pra vc sair.” Ele respondeu: “Olha, vc viu que as mulheres me confundem, vc está me confundindo. Mudou de opinião? Só pra eu entender…” Ela respondeu: “É que fiquei meio mal e me sentiria melhor se pudesse falar. Esperar até amanhã? É tortura.” Ele respondeu: “Tá tudo bem, eu que não devia ter feito aquilo. Mas te ligo.”

Não ligou. Ela não escreveu mais. Ele, idem.

Domingo. Ela sabia que ele partiria naquela noite. E finalmente mandou, no começo da tarde: “Vai embora sem se despedir?”

Ele não respondeu, evitou cruzar a orla e a calçada em que ela poderia estar. Almoçou num lugar fechado. Andou com cuidado pela sombra.

No começo da noite, entrava num táxi com a sua mala, quando ela apareceu correndo: “Você é um filho da puta, só quis me comer?” A reação agressiva o surpreendeu. O taxista esperando.

Teria sido a aventura perfeita de um romântico fim de semana, que não seria esquecida, mas abandonada. Ele respondeu apenas: “Adorei te conhecer.”

Nunca mais se viram. Nem se falaram. Nem se escreveram. E ela, atormentada pelo não ocorrido.

No fundo, ele não quis manchar um relacionamento ideal. Existe?

Santo, ladrão e mártir

10:33 pm
Jean Genet

Jean Genet

Por Antonio Gonçalves Filho
O Estado de São Paulo

O centenário de nascimento do escritor Jean Genet (1910- 1986) é comemorado na França junto ao do dramaturgo Jean Anouilh (1910-1987) e do ator e diretor Jean-Louis Barrault (1910-1994), outros dois monumentos da cultura do país. Não é uma coincidência, mas uma provocação. Genet enterrou o formalismo clássico de Anouilh e o drama burguês da Comédie Française com peças revolucionárias como O Balcão (1956), montada aqui em 1969 com direção do argentino Victor Garcia e produção de Ruth Escobar. O Balcão é até hoje um soco no estômago das instituições. Ambientada num prostíbulo, por onde circulam falsas rainhas e falsos bispos enquanto uma revolução acontece fora dele, a peça tem como protagonista a dona de um bordel, amante do chefe de polícia, que leva à morte um líder rebelde, assumindo o poder com seus clientes.

Genet falava por metáforas, porém acabou criando novo gênero nos anos 1940 ao escrever livros autobiográficos como Nossa Senhora das Flores, O Milagre da Rosa, Querelle e o mais conhecido de todos, Diário de Um Ladrão, em que conta suas desventuras nas prisões francesas. Abandonado pela mãe solteira num orfanato com apenas 1 ano, nascera em 19 de dezembro de 1910, Jean Genet passou por diversas penitenciárias, quase sempre por roubo de lenços, cortes de tecidos, camisas e livros. Sua primeira passagem pela Patronage de l”Enfance, a Febem francesa, foi aos 15 anos, condenado por conduta fraudulenta, gastou num parque de diversões o dinheiro do compositor cego René de Buxeuil, que o abrigara em sua casa.

Sua sorte só começou a mudar em 1943 ao ser apresentado ao poeta e cineasta Jean Cocteau que, mesmo chocado com Nossa Senhora das Flores, se propôs a encontrar um editor para o livro. Outro intelectual que o ajudou foi o filósofo Jean-Paul Sartre, autor do prefácio do primeiro volume de suas obras completas, Saint Genet, Ator e Mártir (1951). Ambos se conheceram em 1944. Quatro anos depois, Sartre e Cocteau fizeram uma petição para livrar definitivamente Genet, que passou os anos 50 em intensa atividade criativa.

Homossexual, sempre foi assombrado “pela impressão de uma existência quase póstuma”, segundo o biógrafo Edmund White. Por vezes voltava-se contra si. Tentou o suicídio em várias oportunidades. Ressurgiu da última vez como ativista político, defendendo os direitos dos trabalhadores imigrantes e dos palestinos. Por ser persona non grata na França, rodou o mundo em busca de seus semelhantes, tornando-se amigo dos escritores americanos da geração beat e de árabes como Tahan Ben Jelloun. Identificado com a cultura marroquina, teve como último amante Mohammed El Hatrani, homem casado, para quem construiu uma casa ? ele que vagou pelas ruas e morreu num hotel, em 15 de abril de 1986.

Jardin des TUILERIES

O conto a seguir, de Manoela Sawitzki*, tem como protagonista o dramaturgo francês Jean Genet, nascido há um século; o texto estará na coletânea Escritores Escritos, que sai em julho pela Flaneur:

“Minha vida visível não foi senão disfarces bem mascarados.”

Senhora!

– Sim?

– A senhora deixou cair.

– Não, isso não é meu.

– Eu tive a impressão de que caía enquanto a senhora passava…

– Desculpe, mas realmente…

– Então encontramos juntos!

– Não, eu…

– Por favor, senhora, fique com ele!

– Eu não poderia, quem achou foi…

– Porque eu olhava para o chão enquanto a senhora se distraía com a paisagem. O que importa é que eu tenho fome e a senhora, mãos muito bonitas. Vamos, experimente!

– Mas…

– Me permite? Veja, ficou perfeito!

– Não é possível, ele é seu por direito.

– E deve ser seu. Nota-se que é uma boa mulher e terá a imensa generosidade de me oferecer um bom prato de comida em troca dessa joia. Não pude comer nada o dia inteiro. De qualquer forma, o que um homem como eu faria com um anel valioso como esse? Dirão que o roubei ou coisa pior.

Ninguém mais passa por esta alameda do Jardin des Tuileries às cinco da tarde deste 15 de abril. Contudo, perto dali, um pequeno grupo de crianças brinca no parque, dois colegas de classe fumam seus primeiros cigarros, carros se ultrapassam, e um jovem belga de 24 anos chamado Thomas vê o amigo de infância atravessar a Pont Royal, e grita-lhe o nome com o coração disparado.

Embora sorria, o velho tem olhos sombrios, ela pensa. O corpo lhe parece frágil e, por isso, inofensivo. De certa forma, lembra-lhe o pai: o mesmo olhar turvo, a cabeça grisalha e calva como um campo devastado pelo inverno, a voz rouca, esmaecida. Em geral, desconfia dos homens, mas não consegue fugir de uma piedade instantânea diante dos velhos. Ou talvez seja apenas horror à ideia da própria velhice – nunca lhe ocorria investigar demasiado o que, por natureza, a embaraçava. Assim como nunca fora capaz de sentir pelo pai aquilo que dizem ser o amor de um filho.

Informara-se a respeito (conhecia descrições, nuances), então sempre que se fazia necessário se expressar como ente amoroso, podia (minimamente) convencer. Dava-lhe menos trabalho a imitação. Somente a velhice do pai os aproxima.

Leva em conta a idade do homem e o fato de ele carregar um livro no bolso do casaco, quando calcula os riscos de estreitar aquele contato às cinco horas da tarde, numa alameda deserta do Jardin des Tuileries. Em seguida, também calcula o que carrega na bolsa enquanto mais uma vez verifica que o encaixe do anel em seu anular é exato.

Quanto ao homem, se quisesse roubá-la, já o teria feito. Embora não espere, de forma alguma, ser assaltada por um francês. Deve ser honesto, conclui. Ainda que pobre. E ela não é o tipo de pessoa que acredita que todo pobre padece de alguma deformidade moral. Sobretudo sendo francês. Ainda que cheire mal. E, enquanto ele lhe sorri com turva humildade, ela encerra os cálculos ciente de que possui setenta e oito francos para passar o resto do dia, e se pergunta se dez serão suficientes para satisfazer a fome do pobre velho francês.

– O senhor gosta de ler…

– A senhora parece surpresa.

– Como se chama?

– Jean.

– Prazer, sou Mercedes.

Os dois se medem em silêncio. Ele já não sorri.

– E o senhor faz o quê?

– Eu? Divirto o mundo com meu passado.

– Não entendo…

– Conhece Jean-Paul Sartre, senhora?

– O filósofo? Evidentemente.

– Ele diz que sou santo.

Está louco, ela pensa, enquanto abre a bolsa, retira as moedas da carteira, tomando cuidado para não revelar demais ao estranho, e estende-lhe a mão, a mesma que traz agora, perfeitamente encaixado, o anel que a sorte lhe alcançou em seu último passeio por Paris.

– O que é isso?

– Dinheiro para o seu jantar.

– Desculpe, deve haver algum engano.

– Sei que é pouco, mas é tudo que tenho, senhor.

– Dez francos?

– Dez francos.

– Por um anel de ouro?

– Sinto muito.

– Para um homem que lhe disse ter fome?

– O senhor pode ficar com o anel.

– A senhora realmente não entende.

– Realmente eu…

– Seria mais digno lhe tomar a carteira.

– O que o senhor está dizendo?!

– Que seria mais digno abrir sua barriga e levar sua carteira, senhora.

– É uma ameaça?!

– Uma constatação.

– Eu não pedi para ficar com isso.

– E eu não lhe pedi uma esmola, senhora. Não preciso do seu dinheiro, sugeri que me convidasse para o jantar.

– O senhor e eu?

– Em um bom restaurante.

– Não acho que seja possível.

Ela torna a abrir bolsa e carteira. Nervosamente. A mão logo exibe 30 francos para os quais Jean olha com indiferença.

– Para o seu jantar. Em um bom restaurante. Aceite. Agora é tudo.

Ele, impassível, pega o dinheiro, guarda-o no bolso da calça e se afasta. Perto dali, Thomas caminha lado a lado com o amigo de infância até o Café Very. Minutos antes, ao abraçá-lo depois de cinco anos, descobre que o ama. De outro bolso, Jean retira um anel dourado e sorri contido ao lançá-lo aos pés de uma jovem holandesa que se distrai com a paisagem numa alameda do Jardin des Tuileries.
*Manoela Sawitzki (1978), nascida em Santo Ângelo (RS), tem como principais obras “Nuvens de Magalhães” (Mercado Aberto, 2002) e “Suíte Dama da Noite” (Record, 2009), ambos romances.

Palco de expiações

10:21 pm

purgatorio

VOVELLE, Michel. As almas do purgatório ou o trabalho de luto. Tradução de Aline Meyer e Roberto Cattani, São Paulo: UNESP, 2010.

Historiador francês Michel Vovelle usa obras artísticas para trazer de volta à cena a reflexão sobre o purgatório

Por J. C. ISMAEL*
O Estado de São Paulo

Se pensar sobre a morte pode virar uma obsessão, a atitude que costuma predominar é a de negá-la. Aliás, negá-la faz parte do pensamento ocidental desde os seus primórdios. É de Epicuro, por exemplo, o conhecido grito de descrença: “Enquanto eu sou, a morte não é, e desde que ela seja, não sou mais.”

Quando, em fins de 1982, Michel Vovelle lançou na França La Mort et l”Occident: De 1300 à Nos Jours, era difícil imaginar que ele que ele voltaria ao assunto, pelo menos num texto de grande envergadura como este As Almas do Purgatório ou O Trabalho de Luto (embora em Ideologias e Mentalidades, de 1985, tenha transcrito trechos de seminários sobre a morte e o morrer). Professor e historiador, especializado na Revolução Francesa, Vovelle, de 77 anos, mantém uma relação atribulada com o PC francês, acusado de preocupar-se demais em unificar a história das mentalidades coletivas, sem defender a ideologia socialista “pura”; além disso, põe-se a refletir sobre temas pouco “engajados”, como este ? a morte.

As Almas do Purgatório… constitui-se, em sua maior parte, de minuciosas digressões e interpretações históricas das mais de uma centena de ilustrações que o acompanham: iluminuras medievais, afrescos, retábulos barrocos, imagens populares, xilos, documentos, vitrais, pinturas e até cartazes de filmes recentes. Não se espere, no entanto, que o autor se porte como um crítico de arte se perdendo em prazeres estéticos. Vovelle reafirma-se como o instigante pensador que elegeu a morte e o luto, um trabalho “ao qual os (sobre)viventes não saberiam subtrair-se”, como temas de uma reflexão que ocupa lugar de destaque na história das mentalidades do Ocidente. Isto, sem fugir da pergunta necessária: “Quem hoje em dia pode ter interesse pelas pobres almas do purgatório?” Parece que esse interesse diminuiu em relação ao passado, mas como, no Ocidente cristão (área sobre a qual o autor se debruça), é assunto intimamente ligado à reflexão sobre a morte, está com certeza longe de desaparecer.

Desde os primórdios do cristianismo, os padres da Igreja preocupavam-se em “criar” um terceiro local (inexistente na Bíblia) para as almas, pois parecia injusto privar as que não fossem “inteiramente más” de um cárcere transitório. O problema foi descrever esse local “de temor e de esperança”, como o define Vovelle. Diante da impossibilidade de se chegar a uma definição pacífica, o Concílio de Trento decretou que, sendo o purgatório um estado de expiação (e jamais de arrependimento), a questão do local se afiguraria irrelevante.

Vovelle lembra que foi Santo Agostinho quem definiu as penas purgatórias, as quais só poderiam ser aliviadas pelos sufrágios dos vivos. Mas as discussões para se estabelecer o local (e suas características) onde as almas penadas aguardam sua libertação começaram muito antes do bispo de Hipona. E se arrefecem de tempos em tempos, continuam latentes, passando por toda forma de descrição: ora fosso de água, ora de fogo mais ameno que o infernal. E, por que a própria Terra não pode servir de terceiro local destinado à purga dos pecadores? Pode, explica Vovelle, com a ressalva de que suas almas, purificadas, só repousarão no Paraíso no dia do Juízo Final.

Outra questão sobre a qual as divergências são antigas, comenta o autor, é a duração da sentença que as almas têm que cumprir. A Igreja, tentando encerrar as discussões sobre o assunto, vem procurando datar o fim dos tempos como o fim do próprio purgatório, e a consequente libertação dos seus cativos. Enfim, as “teorias” sobre o purgatório são muitas e, independentemente da crença do leitor na sua existência, aceite o convite de Vovelle e faça a viagem por essa perturbadora figuração pictórica, cujo percurso pode ser usufruído sem nenhum tipo de crença religiosa.

*AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE INICIAÇÃO AO MISTICISMO CRISTÃO (NOVA ERA/RECORD), O MÉDICO E O PACIENTE (MG EDITORES) E SÓCRATES E A ARTE DE VIVER (ÁGORA/SUMMUS)

Saramago se foi. Ele vai fazer falta!

18 de junho de 2010 1:52 pm

A vitória e a maldade do homem imoral

14 de junho de 2010 10:14 pm

cadaveres

MELO, Patrícia. Ladrão de cadáveres. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

Em Ladrão de Cadáveres, Patrícia Melo trata de impunidade e perdas

Por Ubiratan Brasil

O Estado de São Paulo

As perdas inspiram o novo romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres, seu primeiro inédito pela editora Rocco. Na trama, o rapaz que serve de narrador troca São Paulo, onde vivia atrelado a uma rotina angustiante e competitiva, por Corumbá, cidade mais solar e tranquila. A situação muda quando ele se apodera da cocaína e do corpo de um traficante, filho de um rico fazendeiro da região, que morreu em um acidente de avião. É o suficiente para reavivar a ganância que conduz ao crime. “O que me interessa são as perdas”, conta a autora, influenciada ainda por problemas pessoais, como relata nesta entrevista.

Você diria que o mal está embutido no homem?

Essa é uma questão complicada. Pouco tempo atrás saiu uma matéria no New York Times dizendo exatamente o contrário, que a bondade humana tem causas biológicas. Não consigo acreditar que a moralidade, nosso senso de justiça, a bondade humana sejam inatos ao homem. Pelo contrário, são construções da civilização. Claro que o meio é importante, mas não determinante. Na minha opinião, o homem é um animal cruel e feroz. Um ser voltado para destruição. A civilização é uma coleira, uma gaiola, para essa nossa selvageria. De vez em quando, escapamos da coleira e aí…

Depois de deixar a violência em um segundo plano, é o mal que lhe interessa mais?

Em Ladrão de Cadáveres, sim. Mas o romance fala também sobre perdas, em diferentes aspectos: referência moral, afetos, e também da morte. Meus interesses são cambiantes. Têm a ver também com a minha vida. Os últimos anos foram de muitas perdas. Perdi minha mãe. Minha única filha entrou na faculdade e foi morar longe de mim. Perdi amigos queridos. Vivi com John (Neschling) um momento difícil, que foi a forma deselegante como ele foi mandado embora da Osesp, uma espécie de morte para ele. John ficou muito tempo de luto. Minha analista, depois que acabei o livro, me disse: “Você precisava enterrar alguns cadáveres.” No fundo, a gente escreve sobre o que precisa entender ? aceitar, pelo menos.

A luz de Corumbá contrasta com a ação sombria da narrativa.

Nós temos a ilusão de que, numa cidade pequena, onde todos se conhecem, onde a natureza é generosa, onde o ambiente é solar, a vida é melhor e o perigo, menor. Achamos que há mais fraternidade. Eu quis brincar com isso. É como se esse ambiente iluminado disfarçasse a maldade do meu personagem. Ele é íntimo, solícito, até gosta de você. No entanto, nada disso o impede de destruir a nossa vida.

Ladrão de Cadáveres, aliás, traz muita movimentação, diferente do anterior, Jonas, o Copromanta, marcado por uma violência mais mental que física.

Quando começo um livro, sempre quero experimentar, em termos de narrativa, de dicção, de composição de personagens. Jonas é meu personagem mais delirante, e eu quis escrever um livro em que a ação vertiginosa acontecia apenas dentro de sua cabeça confusa, a partir de uma realidade miserável e sem sentido, que ele recriava, de forma fantasiosa e significativa. Em Ladrão de Cadáveres, eu queria um personagem que age de modo imoral o tempo todo. E tudo dá certo para ele. Na verdade, é um pouco parecido com a situação do Brasil hoje: políticos roubam, enfiam dinheiro na cueca, na meia e, no final, todos se safam.

O abecedário do misterioso Fernando Pessoa

9:04 pm

pessoa-01

MARTINS, Fernando Cabral. Dicionário de fernando pessoa e do modernismo. São Paulo: Leya Brasil, 2010.

Dicionário sobre o modernismo português que será lançado amanhã se baseia na vida do poeta lisboeta

Por Ubiratan Brasil
O Estado de São Paulo

Hoje são lembrados os 122 anos de nascimento do escritor português Fernando Pessoa – e, por que não?, também de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, seus famosos heterônimos, seus poetas inventados. Assim desdobrado em vários, Pessoa conseguiu confundir a relação entre autoria e personalidade, vida e obra, sentimento e expressão. Atento a essa complexa rede armada pelo poeta que, à medida que experimentava na escrita também buscava a própria voz, o pesquisador e crítico Fernando Cabral Martins organizou o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, portentoso volume que a editora Leya lança amanhã.

São mais de 600 artigos reunidos escritos por estudiosos renomados (como a brasileira Leyla Perrone-Moisés e o americano Richard Zenith) em quase mil páginas que, a partir da obra do poeta, contextualizam aquele movimento literário em Portugal, que não apenas modificou as artes mas a sociedade como um todo. O ponto de partida é a data da primeira aparição pública de Pessoa, 1912, e ruma até o ano de sua morte, 1935. Nesse período, ele se relacionou com ciência, alquimia, linguística e outras matérias.

O fruto dessa interação resultou em poesia, ficção, teatro, filosofia e teoria, que revelam a descoberta de obsessões que lhe marcaram toda a obra. E, por extensão, caracterizam com solidez o modernismo português. “Pessoa é que tornou o dicionário viável”, disse Cabral Martins, em entrevista à imprensa de Lisboa. “Não era possível fazer um dicionário coerente sobre um tema demasiado vasto. Seria como, por exemplo, fazer um dicionário sobre a verdade ou sobre o espírito humano.”

Amigo íntimo. Pessoa era um homem reservado, misterioso até. E, mesmo quando confessava isso em sua escrita, pouco revelava: “Não tenho amigos verdadeiramente íntimos, e mesmo que houvesse um amigo íntimo, como o mundo o entende, ainda assim não seria íntimo no sentido em que eu entendo a intimidade”, escreveu. “Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos, mas um amigo íntimo é algo que nunca terei. Nenhum temperamento se adapta ao meu; não há um caráter neste mundo que dê o mais leve indício de se aproximar do que eu sonho num amigo íntimo.”

Essa atmosfera de indefinição também marca boa parte da obra de Pessoa. No verbete “loucura” encontrado no dicionário, sua autora, Patrícia da Silva Cardoso, identifica esse conjunto de dúvidas como uma barreira cuja função “é sublinhar a distância que separa o gesto de olhar o mundo da intenção de compreendê-lo, de compreender a si próprio”.

Segundo ela, Pessoa via a loucura como um índice de singularidade e de superioridade. Ele distinguia, porém, a loucura positiva, criadora, da patológica, que serve apenas para a destruição. No livro Mensagem, por exemplo, as várias formas de loucura positiva orientam as ações dos homens que “ajudaram a inventar um país que foi e que voltará a ser senhor de si mesmo quando novamente houver aquela simbiose entre a coletividade e o grande louco”. É Dom Sebastião esse louco, o rei que, ao desaparecer aos 24 anos de idade, em 1578, carrega consigo na sua morte a tragédia da própria nação, que com ele termina caindo sob domínio da Espanha.

Mensagem foi escrito em sua fase mais transcendental. É seu único livro em língua portuguesa, composto durante um período de mais de 20 anos – entre 1913 e 1934. Nessa fase, Pessoa desenvolveu uma íntima relação com a astrologia, como mostra o verbete escrito por Paulo Cardoso. Segundo ele, o poeta via nos signos uma estrutura filosófica e um meio de autoconhecimento. Também era uma plataforma de apoio na planificação de sua própria obra: “Na segunda das três partes de Mensagem, ele agrupou 12 poemas que são, no seu conjunto, e exatamente com a mesma sequência, uma compilação das características simbólicas dos 12 signos do zodíaco.”

Dilemas. Figura complexa, criador de tantos “eus”, Fernando Pessoa construiu uma obra singular, baseada na própria individualidade, seus limites, enganos e dilemas. Também deixou poucas pistas sobre seus reais pensamentos. “Quando alguém afirma que Pessoa acreditava, convictamente, na astrologia, na Rosa-Cruz, na cabala, no cristianismo, no paganismo, no espiritismo ou em qualquer outro “ismo”, é porque não leu bem toda a sua obra”, disse Richard Zenith ao Estado em 2006, quando do lançamento de seu Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal (A Girafa).

“O poeta acreditava em cada uma destas doutrinas, e duvidava delas todas. E todas, por sua vez, eram formas de Pessoa duvidar da sua opção literária. Da mesma maneira que os heterônimos se contrapunham e contradiziam, assim acontecia com as crenças de Pessoa, e com as suas formas de entender e até de duvidar.”

Assim, apesar de volumoso e consistente, o dicionário coordenado por Fernando Cabral Martins oferece algumas das mais importantes perspectivas dessa trajetória excepcional. Nada, porém, de conclusões definitivas – afinal, como dizia o próprio poeta, “todas as frases do livro da vida, se lidas até ao fim, terminam numa interrogação”.

TRECHO
“Como Fernando Pessoa, é citadino e celibatário. Mantém à distância a sua noiva Felice pelas mesmas razões pelas quais Pessoa se afasta de…

…Ofélia: para realizar o seu destino de escritor. Dedica ao mundo exterior um interesse quase nulo, e sente a mesma dificuldade de viver. Atingidos por uma profunda insegurança ontológica, Kafka (foto) e Pessoa sabem ambos o que é a perda da identidade e de referências, naquela sociedade do princípio do século posta em desassossego pela Modernidade e pelo declínio dos valores metafísicos. À crise da Modernidade sobrepõe-se a crise existencial de um escritor dividido por várias línguas – Kafka está, pelo nascimento, no ponto de encontro de duas línguas, o alemão e o checo, e, depois, familiariza-se com o iídiche e o hebraico – sempre obcecado pelo olhar do outro.”

pessoa

Fragmento do último romance de Wilson Bueno, a ser publicado postumamente em 2011

5 de junho de 2010 12:25 pm

Ungaretti em São Paulo

12:14 pm

Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Artigo publicado no “Suplemento Literário” de 20 de agosto de 1966

Por Antonio Candido

SÃO PAULO – Giuseppe Ungaretti regeu a cátedra de Língua e Literatura Italiana na Universidade de São Paulo de 1937 a 1942, mas a sua influência foi igualmente grande fora das aulas – nas conversas, nas reuniões, nas conferências. Quando partiu foi como se tivessem arrancado alguma coisa da cidade; alguma coisa que deixara um marco profundo embora quase silencioso.

Salvo um ou dois casos, os seus amigos, aqueles que mais sentiram a sua influência, não foram os seus alunos, no sentido escolar; mas todos foram seus discípulos, e todos são fidelíssimos à sua lembrança. Há mesmo uma espécie de maçonaria entre os que dele se aproximaram, feita de alusões, experiências comuns, evocação de fatos pitorescos e comoventes, cuja narração nos chega às vezes modificada pelo logo percurso que cumpriram; é como um ciclo de Ungaretti, na mitologia artística e intelectual da cidade. É o caso do conselho drástico dado a um jovem pintor a quem sugeria maior experiência de vida antes de dar-se à arte, ou das exclamações sufocadas diante de um quadro de Picasso, em casa de Oswald de Andrade, ou do divertido “qui pro quo”, sempre no mesmo lugar, a respeito de uma “gaffe” do anfitrião, ou ainda, de um juízo negativo sôbre um célebre escritor europeu que se encontrava então entre nós. E mais: as reflexões paradoxais a propósito de um famoso teólogo belga; a visão boccaccesca de um leprosário; as considerações sôbre os requisitos hormonais respectivos do escritor e do sociologo…

Tudo isso mantém uma presença afetuosa e viva, um culto familiar e reverente e indica a ação do grande poeta que nos ensinou tantas coisas: um dos poucos estrangeiros de alto nível, que tenha amado e sentido o Brasil em profundidade.

Quem não recorda a sua tristeza por deixar-nos sem ter podido ver as obras do Aleijadinho – êle que nos revelara a importancia e o significado do Barrôco literário, desde o papagaio verde-ouro do rei Dom Diniz, como constante portuguesa. As traduções de Mário de Andrade, que publicou na revista “L’Approdo” e leu em São Paulo por ocasião de uma breve visita, em 1951, revelam uma penetração, raramente alcançada, nos arcanos da nossa poesia. Em “Semantica” (“Un grido e paesaggi”) serpenteia uma veia amazonica e, como diria Oswald de Andrade, tendencialmente antropófaga, que revela a mais compreensiva identificação. Somos todos gratos a Ungaretti por essa atenção seletiva e concentrada ao nosso País, que permite o diálogo sobre os mares. Por outro lado, os versos de “Dolore” mostram como êle se vinculou à nossa terra por uma agudíssima experiência vivida aqui.

De europeu trouxe-nos muito – na sua experiencia densa, na dramatica vibração com que êle cria e interpreta. Mais de um, entre nós, ao conhecê-lo transcreveu “L’allegria” e o “Sentimento del tempo”, para sentir, naquela espécie de rito simpático, os pontos sutis de ossificação da sua poesia misteriosa e humana. E quando a máquina de escrever deixava no espaço branco os versos parsimoniosos, era como se o trabalho do nosso grande amigo se tornasse mais inteligível, com as palavras renascendo sob os dedos atentos, que na sua inexperiência procuravam explicá-las.

As suas aulas e as suas conversas serviram muitas vezes de guia a essa interrogação. Nelas sentíamos que o produto poético, depurado até tornar difícil o fôlego da compreensão, tinha por substrato uma erudição abundante, um atacar os problemas de todos os lados, uma dimensão vertical que sondava em profundidade. Sentíamos que o poema despojado tinha como base uma vitalidade mais forte e era realmente o aflorar mais puro da poesia, “pérola de espírito”, como no verso de Alfred de Vigay.

Nas suas aulas, revelou o que significa o diálogo entre o pensamento e a sensibilidade do texto. Mostrou como, nas mãos do leitor capaz, surgem mundos ignorados, que parecem brotar materialmente das próprias linhas, dos espaços das letras, deslizar das maiusculas às minusculas, como se uma fermentação incessante e contida esperasse o eleito para florecer em beleza. Quantas vezes, em lições sucessivas, recomeçou a leitura de certo poema, corrigindo-se, superando a anterior, embora tivesse sido tão límpida e insuperável, com outra, nova, mais genuína e completa.

As suas aulas! Havia nelas uma fase tranquila de aproximação metódica; havia uma fase de arrebatamento, cuja inspiração o atraía para o quadro negro, giz em riste e as costas voltadas para os ouvintes, seguindo com sons guturais da voz o curso da inspiração; havia fases de retórno ao momento em que, a voz de nôvo calma, recolhia as conclusões emersas de tumulto e as ordenava com a mais nítida coerência; havia, ainda, momentos de luta contra a pasta de livros, de couro negro, com duas longas correias e uma curiosa vareta de metal que servia para prendê-las, a que o poeta revirava de todos os modos, reordenando sem cessar a pilha de livros para depois abandoná-la e voltar em nôvo extase à quixotesca contenda com o negrume impassível da lousa. Teria êle consciência de tôdas essas manobras, pensávamos, ou vagaria com a mente fora de tudo, de nós, da sala, da bôlsa, deslizando para o mundo da poesia através da inquieta espiral traçada no ar pelo giz? Leopardi e o sentido do pecado, a atuação do Cristianismo na literatura, a glória do Renascimento, o sonho austero e humano de Manzoni, cristalizavam-se naquelas sessões de invocação crítica, mostrando, mais de uma vez, as sólidas bases de um mundo de emoções e de idéias. E do professor, do poeta, do amigo, compunha-se a cada instante o quadro completo e perfeito do homem exemplar.

Quando trovo

in questo mio silenzio

una perola

scavata è nella mia vita

come un abisso.

Além dos muros da escola

12:10 pm

Carol Bensimon

Carol Bensimon

Carol Bensimon, revelada em 2008 com as narrativas de Pó de Parede e autora do romance Sinuca Embaixo d’Água, discute associação entre escrita e formação universitária

Por Andrei Netto
O Estado de São Paulo

Em meio a clientes, atendentes e a uma decoração retrô anos 50, marcada pelas cores vivas e por um grande espelho surrado pelos sinais do tempo, Carol Bensimon estava absorvida pela leitura na tarde da última quarta-feira, quando encontrou o Estado. Sentada à uma das mesas de fórmica do café Le Pick Clops, no Marais, um dos distritos centrais de Paris, a jovem empunhava um grande volume, em cuja capa se lia: Alexandrie 1860-1960 – Un Modèle Éphémère de Convivialité: Communautés et Identité Cosmopolite, um conjunto de ensaios, explicou, sobre a metrópole egípcia situada às margens do Mediterrâneo. Estudo para a tese ou só leitura informal?

“Ambos” seria a melhor resposta. Carol estudava porque quer aprender sobre a Alexandria, terra de seus avós, e porque se interessa cada vez mais pelas “identidades confusas”, como a sua própria. Mas não o fazia para o doutorado em Literatura que cursa na Universidade Paris III, Sorbonne Nouvelle, e sim para seu próximo trabalho como escritora, uma graphic novel ainda sem data de publicação, e sobre a qual não entra em muitos detalhes. Na prática, a resposta dúbia à dúvida inicial reforçou a ideia de que a menina sorridente, de ar frágil e visual despojado, pontuado por um óculos démodé, tênis, calças jeans verde berrante, T-shirt básica, um relógio de plástico colorido e uma bandana bordô à Axl Rose amarrada ao pulso, seja fruto de um novo cenário literário brasileiro.

Mesmo de forma involuntária, Carol deixa claro pertencer a uma geração de escritores que mescla o talento inato pela escrita de ficção ao conhecimento acadêmico que vem adquirindo dia a dia. A jovem de 27 anos, filha de médicos e da classe média porto-alegrense, fã de Guns N” Roses, é hoje uma escritora na rota do reconhecimento, egressa de uma escola de novos autores em plena consolidação, cujo trabalho advém da inspiração, claro, mas também do domínio das técnicas literárias aprendido na universidade.

Carol é formada em publicidade, profissão que chegou a exercer em Porto Alegre, como redatora de uma agência de porte médio. Mas seu talento para a escrita hoje se expressa com mais força na ficção. Essa guinada começou a se materializar pelo ingresso em uma oficina de Escrita Criativa na capital gaúcha. Comandado há mais de 20 anos pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, o curso é um dos responsáveis por transformar a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) em uma espécie de ritual de passagem para jovens escritores da atual cena gaúcha.

Truques. A relação entre a produção literária e o conhecimento acadêmico na vida de Carol se estendeu quando o curso, então uma extensão universitária, foi transformado em mestrado, parte do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura, mais uma vez sob a responsabilidade de Assis Brasil. Com o suporte de uma bolsa de estudos, pôde se dedicar em tempo integral a seu maior interesse: escrever.

Do contato com a oficina e com o mestrado, surgiram seus primeiros dois livros: Pó de Parede, de 2008, um apanhado de três contos revelado pela Não Editora, em Porto Alegre, e Sinuca Embaixo d”Água, publicado pela Companhia das Letras em 2009. O romance foi também sua dissertação de mestrado, acompanhado por um ensaio acadêmico sobre o “narrador ausente”, aquele que não interfere nos acontecimentos da narrativa.

O trabalho resultou em uma espiral de novas perspectivas. Seu livro está à espera de uma adaptação para o cinema por Rodrigo Teixeira, produtor responsável pelo projeto Amores Expressos. Além disso, é um dos 10 finalistas da edição 2010 do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria Romance de estreia, vencida em 2009 por outro gaúcho, Altair Martins, professor do curso de formação de escritores de outra universidade gaúcha. Enquanto colhe sucesso de crítica no Brasil, a escritora estuda na França, onde faz doutorado em Literatura -aprofundando o tema desenvolvido no mestrado – sob orientação de Jean Bessière, professor de Literatura Comparada.

Apesar dos vínculos evidentes, Carol mantém uma relação ambígua entre sua carreira acadêmica e as raízes de sua escrita. Na maior parte do tempo, minimiza a relevância do conhecimento universitário. “Sou grata à oficina, mas tenho algumas restrições. Não sei se realmente faz diferença”, diz, descrevendo como “truques” o aprendizado no curso. Carol também não acredita ser influenciada por uma “escola literária”, muito menos “gaúcha”, que tenha origem na universidade. “A influência da academia na literatura é bem pouca”, alega. “Me parece um pouco frio que a literatura seja gerada da teoria acadêmica, quando para mim é um esforço descomunal estudar a teoria.”

De fato, sua escrita é até aqui alimentada por um caráter intimista, não tecnicista. Carol diz nem sequer ter autores como referências, mas sim obras esparsas, como Uma Casa no Fim do Mundo, de Michael Cunningham. Talvez por isso não haja remissões ou citações a escritores ou a obras célebres em seus textos. Há observações, experiências, ambiências cotidianas. Em Sinuca, conta, o ponto de partida foram reflexões sobre o desaparecimento de seu melhor amigo, Gabriel Pillar, jovem de 22 anos morto em um acidente de trânsito em 4 de dezembro de 2006, em Porto Alegre. Já a sinuca, em si, é uma referência às jornadas de jogo no Timbuca, um bar, hoje fechado, que se imortalizou na boemia porto-alegrense.

Inspiração. Nos seus personagens, estão refletidas a classe média, o ambiente urbano e provinciano típico do Rio Grande do Sul. Nas sequências que eles protagonizam, explica Carol, estão climas extraídos de atos rotineiros, como ouvir o rock dos anos 90. “Uso esses elementos no processo criativo. Gosto de dialogar com outras formas de arte para criar uma cena”, diz Carol. Assim como encontrou inspiração no mundinho porto-alegrense, a autora poderia capturar novos elementos para sua literatura em Paris, onde vive há dois anos, e de onde partirá de volta para casa em 20 de setembro. Mas o faz com parcimônia. A capital francesa, acredita, já foi retratada demais. “Paris é muito perfeita para ambientar uma história. É desolada, melancólica, desencantada”, enumera, como quem fala de um intocável clichê.

Mesmo que prime por uma escrita sensível e reduza a importância de seu conhecimento técnico, Carol reconhece usá-lo para fazer suas escolhas estilísticas. Metanarrativas, por exemplo, estão banidas. “Elas são muito restritivas. A literatura já é muito fechada em si mesma, muito escrita para escritores”, entende. Indagada sobre aonde pode chegar na mistura de suas duas frentes de interesse, a literatura e a academia, Carol não sabe responder com precisão. Pensa um pouco, olha para os lados e arrisca: “Gostaria de ser uma ponte entre a universidade e o mundo real.”
Postal. “Esta é uma cidade muito perfeita para ambientar uma história”, diz a gaúcha sobre a capital francesa, onde desenvolve o seu doutorado

Decrépitos, mofinos e invisíveis

12:03 pm

humilhacao

ROTH, Philip. A humilhação. Tradução de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras: 2010.

invisivel

AUSTER, Paul. Invisível. Tradução de Rubens Figueiredo, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Prosas de Sábado

Por Sergio Augusto
O Estado de São Paulo

Aqui lançados quase simultaneamente, A Humilhação, o último Philip Roth, e Invisível, o mais recente Paul Auster – ambos saíram pela Companhia das Letras – surpreendem de forma diversa. A Humilhação é um Roth menor; Invisível é um Auster tope de linha. São obras bem características do estilo e das obsessões temáticas de cada um dos autores, que se tangenciam geograficamente (parte das duas tramas se desenrola em Nova York) e compartilham personagens afins (um ator cuja chama se apagou, um poeta cuja chama não se acende), profundamente afetados pelos caprichos do coração (com direito a triângulo amoroso), os transvios do desejo (incesto no romance de Auster, pedofilia na novela de Roth) e os infortúnios da velhice.

Simon Axler, o humilhado de Roth, é um ator de teatro de 65 anos repentinamente fulminado por um bloqueio irreversível. Não chega a ficar mudo como a atriz encarnada por Liv Ullmann em Persona, de Bergman, mas não consegue mais abrir a boca no palco. Perdeu o talento, a magia, e, em seguida, a ex-bailarina com quem fora casado vinte anos. O tratamento psiquiátrico apenas o ajuda a evitar que se mate no primeiro capítulo.

Recluso no interior da Nova Inglaterra, Axler tenta substituir o teatro por uma paixão inesperada (e enganosamente rejuvenescedora) pela filha de um casal amigo, 25 anos mais nova. Outros idosos do autor já passaram por situação idêntica, mas Pegeen Mike, além de ter idade para ser filha de Axler, é (e acredita que deixou de ser) lésbica. Embora o ator, no início, se sinta culpado por envolver-se sexualmente com uma mulher que conheceu ainda mamando no peito da mãe, o caso de pedofilia envolve outros personagens da história.

Quase um conto esticado de 120 páginas, A Humilhação retoma as meditações sobre a degeneração física, a velhice e a finitude de Homem Comum e Fantasma Sai de Cena, com muito menos vigor, imaginação e, sobretudo, densidade. Mas um Roth de segunda é sempre melhor que um best seller de primeira, ressalva que eu não faria duas ou três décadas atrás, quando Roth já era um dos grandes escritores americanos (hoje é o primus inter pares) e os best sellers tinham outro nível de qualidade; quando, enfim, “as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar”, como Amy Bellette observou numa carta ao alter ego de Roth, Nathan Zuckerman, no romance que há três anos o tirou de cena.

As feministas, e não apenas estas, invocaram com a visão estereotipada, caricatural, que Roth oferece do lesbianismo – restrição secundária se o livro fosse tão bom quanto os anteriores. Estereotipada ou não, Pegeen, “uma combinação mágica de xamã, acrobata e animal”, é uma personagem miúda, ao contrário, por exemplo, de Sybill, a companheira de terapia de Axler, traumatizada pelo abuso sexual de sua filha de oito anos. O atributo mais notável de Pegeen é o nome, inspirado na principal figura feminina da peça O Prodígio do Mundo Ocidental, de J.M. Synge. Axler faz dela um arremedo transexual de Galateia (ou Elisa Doolittle, para ficarmos na dramaturgia irlandesa) e Judy Barton, a verdadeira face de Kim Novak em Um Corpo Que Cai.

A despeito das alusões a Synge, Shaw e Hitchcock, o supremo referencial da novela é a própria obra de Roth, farta em decrépitos e mofinos, a sua turma do fraldão, cheia de suicidas em potencial e manqués (Mickey Sabbath, Zuckerman), acrescida agora de um bem-sucedido avatar de Tréplev, o tchecoviano autor teatral de A Gaivota que se matou com um tiro antes de a cortina descer pela última vez.

Se também terminasse com um suicídio, Invisível seria um Bildungsroman, um romance de formação, na linha de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Adam Walker, o falso Werther de Auster, ainda é um jovem aspirante a poeta, estudante da Universidade de Columbia, na Nova York de 1967, quando o conhecemos nos primeiros parágrafos do livro, prestes a tomar a primeira das três lições de amor que o marcarão para o resto da vida. A primeira com um estranho casal de estrangeiros formado por um professor visitante suíço, perverso como Mefistófeles, e sua bela musa francesa; a segunda com a irmã Gwyn; a terceira com uma parisiense livresca chamada Cécile.

Dividido em quatro partes, usando três narradores e quatro diferentes perspectivas narrativas, Invisível tem uma estrutura sinfônica: um allegro primaveril, um scherzo estival, um andante outonal e um adágio invernal. Mistura gêneros, alternando intrigas sentimentais, criminais e biográficas com memórias e parênteses metaficcionais, quase como uma celebração (ou uma paródia) do estilo austeriano de contar histórias. Auster, não custa lembrar, também estudava na Universidade de Columbia em 1967, traduzia poesia provençal e morou uns tempos em Paris.

O tema da invisibilidade às vezes soa como um tributo a Enrique Vila-Matas, amigo e alma irmã de Auster e um dos autores que Cécile escolhe para ler numa viagem ao Caribe. Não sabemos qual livro do espanhol ela guardou na mala, mas minhas suspeitas recaem sobre Doutor Pasavento. Cheguei a imaginar um encontro fortuito de Walker com o “desaparecido” Pasavento, na rue Vaneau, casualidade perfeitamente normal num romance de Auster, no qual tampouco soaria absurda ou gratuita a revelação de que Margot, a taciturna e ninfômana musa que encalacra a vida de Walker, é filha de Margot Peters, a aspirante a atriz de Riso no Escuro, de Nabokov. A vida, para Auster, é um livro invisível dentro de outros livros igualmente invisíveis.

Ferreira Gullar ganha o Prêmio Camões

2 de junho de 2010 12:31 pm

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O poeta Ferreira Gullar almoçava em um sugestivo local, chamado Sítio do Pica Pau Amarelo, na cidade de Monteiro Lobato, quando foi comunicado ontem de que vencera o Prêmio Camões, o mais prestigioso da literatura em língua portuguesa. “Estava justamente comentando sobre a magia dessa região, onde Lobato nasceu, quando recebi um telefonema”, contou.

Do outro lado da linha, Antônio Carlos Secchin, escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, passou-lhe a boa notícia – Gullar vai ganhar a quantia de 100 mil euros. Em seguida, ele conversou com a ministra portuguesa de Cultura, Gabriela Canavilhas. “Jamais esperei ganhar algum prêmio, especialmente esse”, comentou o poeta, que completa 80 anos no dia 10 de setembro.

Em 2002, Secchin liderou a inscrição de Gullar para o Prêmio Nobel de Literatura daquele ano. A contragosto, o poeta aceitou o processo, que é conduzido por terceiros e não pelo indicado. “Será a segunda vez em minha vida que participo de um concurso: a primeira foi em 1950, quando ainda vivia em São Luís, e inscrevi um poema (O Galo) na disputa de um prêmio do Jornal de Letras, do Rio de Janeiro”, disse ele, na época.

Questionado pelo Estado se agora, com o Camões, ele considerava que o caminho para o Nobel estava facilitado, Gullar desconversou. “Sou como o periquito da Rua da Alegria, não ganho nada”, brincou ele, que se prepara para lançar um livro inédito de poemas, “Em Alguma Parte Alguma”.

“É a poesia que estava em alguma parte da vida”, disse ele no domingo, quando foi a estrela do 3.º Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, onde foi ovacionado, especialmente por frases como “a arte existe porque a vida, por si só, não basta”. Desde ontem, ele participa da Viagem Literária, programa da Secretaria Estadual de Cultura que leva escritores para diversas cidades do interior paulista.

Uma guerra de muitas facções

29 de maio de 2010 10:19 pm

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Romance de Evelio Rosero retrata o terror no cotidiano dos colombianos que moram longe dos grandes centros, num país tomado pelo confronto de décadas entre o Exército, paramilitares, guerrilheiros e narcotraficantes

Por Raquel Cozer
O Estado de São Paulo

A infinidade de cartazes pelas ruas de Bogotá poderia levar o incauto a crer que, nesta véspera de eleição presidencial na Colômbia, a disputa pelo poder se equilibra entre dois polos – a situação, personificada no candidato Juan Manuel Santos, e a oposição, no nome do Partido Verde, Antanas Mockus. Mas são, na realidade, quatro as forças que há décadas decompõem o país: o Exército militar, o paramilitar, os guerrilheiros e os narcotraficantes.

Nesse cenário em que não se distingue quem é de fato criminoso – há poucos dias, um relatório da ONU apontou que militares foram responsáveis pela morte de 3 mil civis, depois travestidos de guerrilheiros – se passa a narrativa de Os Exércitos, romance de 2006 que rendeu ao colombiano Evelio Rosero, autor de outros 12 títulos, reconhecimento internacional (ganhou, por exemplo, o Independent Foreign Fiction Prize). Uma história que poderia ser a de qualquer morador dos recônditos do país, e portanto situada no fictício vilarejo de San José: o drama do professor Ismael Passos, de sua vizinha brasileira Geraldina Almida e de tantos outros que se veem atingidos física ou emocionalmente pelos efeitos de uma guerra difusa. “Há uma espécie de indiferença nas grandes cidades da Colômbia, onde o fenômeno da violência não é tão direto como em outras regiões. Ouvem-se as notícias de massacres como se tivessem ocorrido na Lua, e não a poucos quilômetros de casa”, diz a o escritor em entrevista ao Estado.

Ismael e Geraldina também representam, nas páginas iniciais, outras facetas do país ofuscadas pelos conflitos no noticiário internacional. Ele, o narrador, é professor aposentado de 70 anos, casado há 40, e cujas ambições hoje se resumem a pouco mais que o direito de espiar a vizinha a tomar sol nua. Ela é a languidez e a sensualidade, preocupada tão-somente com uma vida tranquila ao lado do marido e do filho. Mas o terror não demora a se insinuar. “Que dor de mundo”, suspira Geraldina a caminho da casa de uma amiga cujo marido está desaparecido.

Quando se ouve o primeiro disparo em San José, “não parece a guerra, é outra guerra: alguém descobriu alguém roubando”, imagina o narrador. Então os tiros viram rajadas, “de modo que não era a outra guerra, é a guerra de verdade”. Pouco a pouco, os personagens apresentados nas primeiras 70 páginas começam a desaparecer, e aos que sobram resta a decisão de seguir em nomadismo involuntário para território mais seguro ou se fixar ao que ainda possuem. Ismael prefere ficar – “fugir é morrer, de certa maneira”. Em sua decisão, esbarra em cenas que fazem parte do cotidiano nos povoados – o escritor ressalta que há muito de realidade no texto fictício. O velho vê crianças brincando com uma granada, deslumbradas com a explosão quando ele consegue atirá-la longe. E se recusa a virar herói para a jornalista que busca apenas rostos para o conflito.

“O noticiário nacional se limita a enumerar mortes, não questiona suas causas. Notícias que em outro lugar do mundo causariam pavor, como a dos “falsos positivos” (a identificação dos 3 mil civis mortos como se fossem guerrilheiros), aqui são mencionadas como se se tratasse de mudanças climáticas. Há muita superficialidade e frivolidade na mídia, e quis mostrar isso”, diz Rosero.

Ele sabe dimensionar a complexidade de uma possível solução, mas entende que no confronto ela não está. “Alguém disse que a guerra é assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos de militares. Ademais, é uma guerra absurda: em 50 anos a guerrilha não conseguiu tomar o poder, e tampouco o governo pôde derrotá-la.” Sobre que resultado espera das urnas nos próximos dias, limita-se a dizer que não votará no melhor presidente, “mas no menos pior”. Prefere não revelar quem é. A bem da verdade, ainda não está certo de que valha a pena votar.

Reflexões sobre o Nazi-Stalinismo

10:06 pm

mente

MILOSZ, Czeslaw. Mente cativa. Tradução de Dante Nery, Osasco: Novo Século, 2010.

Czeslaw Milosz, Nobel de 1980, revela, em Mente Cativa, a apropriação das vanguardas pelos regimes totalitários

Por Régis Bonvicino*
O Estado de São Paulo

Mente Cativa, de Czeslaw Milosz acaba de ser lançado no Brasil. Milosz é um dos casos em que o Prêmio Nobel, recebido em 1980, coincide com a alta qualidade literária. Ele nasceu em 1911, na Lituânia, e morreu em 2004, em Cracóvia, Polônia. Publicou, nos anos 1930, seus primeiros livros, Três Invernos e Poema sobre o Tempo Congelado, que lhe valeram uma bolsa de estudos em Paris. De volta ao seu país, esse bacharel em direito trabalhou em algumas emissoras de rádio e, durante a 2ª Guerra Mundial, residiu em Varsóvia, trabalhando como bibliotecário, onde prestou apoio aos perseguidos pelo nazismo. Milosz (1911-2004), tornou-se diplomata na Polônia comunista de 1945 até 1951, servindo primeiro nos Estados Unidos e, depois, na França, quando então rompeu com o regime e, exilado, fixou a sua residência em Paris.

O livro é um relato das brutalidades nazistas e, depois, stalinistas na Polônia ? dos genocídios. Milosz, ao longo da 2ª Guerra, viveu no gueto de Varsóvia, local reservado aos judeus pelas tropas de Hitler. O livro faz parte de uma série de reflexões do pós-guerra sobre o totalitarismo nazi-stalinista. Entre elas, menciono 1984, de George Orwell, que o influenciou, e Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt. Trata-se de um trabalho inovador que funde prosa ensaística com prosa de ficção, sobretudo nos capítulos em que descreve as fragilidades de quatro poetas que se submetem às circunstâncias do Estado comunista: Alpha, Beta, Gama e Delta. A narrativa é toda encadeada, com fluência ímpar, clareza e achados poéticos. Inicia-se com a discussão da novela Insaciabilidade, de Stalinislaw Witkiewicz, no qual “o exército do Oriente ocupou o país e a nova vida, a Murti-Bingismo”. Os heróis do romance, outrora atormentados pela “insaciabilidade” filosófica, agora se colocaram a serviço de uma nova sociedade: “Em vez de escrever a música dissonante de antes, compõem agora marchas e odes. Contudo, tornaram-se esquizofrênicos.”

Aqui, Milosz antecipa, em resumo, sem revelar, seu livro: a esquizofrenia imposta pelo regime e pela necessidade de sobrevivência seria detidamente analisada na figura dos poetas acima nomeados (Alpha e os outros). No segundo capítulo, debate a naturalização dos comportamentos, como forma de dominação, como se não fossem construídos pelo homem, desmantelando os clichês do mundo ocidental e do comunista: “Alguns se familiarizaram com 1984, de Orwell, pois era difícil obtê-lo e também perigoso possuí-lo, sendo conhecido por alguns membros do círculo interno do partido. Tal forma de escrita é proibida pela nova fé, porque tal alegoria, que por natureza é multifacetada, iria transgredir as prescrições do realismo socialista.”

Escrito entre 1951 e 1953, Mente Cativa tornou-se conhecido pelas analogias incisivas, verossímeis, que faz das consequências de ideologias aparentemente antagônicas como o nazi-fascismo e o comunismo. Milosz discute a escravidão por meio da consciência e, ao cabo, mostra como o ser humano é manipulado, determinado pelas estruturas de poder. Neste sentido, o livro poderia parecer “datado”, como ? para usar o clichê ? um libelo antistalinista, ao que, entretanto, não se reduz de maneira alguma. Transcende a época.

Uma das discussões mais interessantes que trava, em minha leitura, é a apropriação dos movimentos de vanguarda europeus do início do século pelos regimes comunistas, ao proporem um movimento estatal denominado “realismo socialista”, que se atribuía, igualmente, um papel de “vanguarda”. Milosz é, digamos, um poeta objetivista, que defende uma prosa e uma poesia de invenção. Ele denuncia o mecanismo de dedução lógica e óbvia que se instala na literatura com o realismo socialista ? a alienação do escritor do próprio ato de escrever. Acaba por desconstruir também as vanguardas que se transformaram em escola (surrealismo, etc.) e faz uma defesa intransigente ? prestem atenção ? do literário enquanto inovação.

Embora pouco destacado diante da imensa importância política do volume, é aspecto que não pode ser mais ignorado. Milosz ataca, sem piedade, o materialismo dialético: “O materialismo dialético, ao estilo russo, nada mais é do que a ciência popularizada do século 19 elevada à segunda potência.” Em Mente Cativa, Pablo Neruda, traduzido por ele ao polonês, é discutido, na artificialidade de seus poemas “comunistas”, que “vendem” uma União Soviética “radiante”. Trata-se, igualmente, de um poderoso livro de crítica literária.

Findo esta nota com uma das cenas que mais me tocaram no volume, a de uma judia, de 20 anos, assassinada pela SS no gueto de Varsóvia: “Seu corpo era cheio, esplêndido, exultante. Ela gritava: “Não! Não! Não!” A necessidade de morrer estava além de sua compreensão ? vinha de fora. As balas da pistola automática a atingiram em pleno grito.” Mente Cativa é leitura obrigatória para todas as áreas das ciências humanas.

*POETA, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE PÁGINA ÓRFÃ, E DIRETOR DA REVISTA ELETRÔNICA SIBILA: http://sibila.com.br



Obra Literária

9:56 pm

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ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. O guardador de segredos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

A utopia de Jorge Amado

23 de maio de 2010 8:39 pm

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Em texto que será debatido no Seminário Internacional sobre o autor baiano, historiadora mostra como ele foi um intérprete do Brasil

Por Lilia Schwarcz*
O Estado de São Paulo

Jorge Amado nunca pretendeu ser intérprete do Brasil, mas sempre o foi. A Bahia que descreveu foi aquela dos costumes misturados, dos credos cruzados e gentes de muitas cores. Sua ficção é repleta de atores tão reais como imaginados: heróis saem das ruas de Salvador; personagens trazem referências a amigos, familiares ou intelectuais. Por isso, em se tratando da obra de Jorge Amado, é sempre difícil dizer onde começa a ficção e quando termina a realidade. O romancista tem também o dom de equilibrar opostos. O mundo de Amado é feito de trabalhadores, prostitutas, boêmios, mulatas fogosas, morenos espertos, professores ingênuos, mães de santo; mas ainda da elite, dos políticos e dos coronéis do cacau, com poder e hierarquia jamais questionados. Assim, sem desconhecer a desigualdade, Amado introduz em sua obra uma atmosfera que dialoga com o famoso modelo da “democracia racial”, criado por Gilberto Freyre nos anos 1930. Quem sabe nunca tenha existido tal democracia, mas sua utopia fez parte do “programa” amadiano.

Se Jorge Amado esteve sempre comprometido com questões sociais do seu tempo, da mesma maneira fez da mestiçagem nossa mais profunda singularidade. Nos seus livros, o cruzamento aparece sob muitas faces e com direito a várias versões. Em Gabriela, Cravo e Canela vemos surgir não só o romance entre o estrangeiro e a morena, como a mistura de sabores, cores e aromas: um dialeto mestiço. Em Compadre de Ogum, o próprio padre incorpora um orixá, mostrando de que maneira o sincretismo religioso significava uma forma de entender a Bahia, e o Brasil. Tereza Batista é uma heroína da cor do cobre; essa falta ou excesso de cor que faz que inventemos um arco-íris de tons e subtons. Morte e a Morte de Quincas Berro D”Água traz condensada toda a arquitetura de Amado: o compadrio da pobreza, a avareza dos grupos mais abonados e o mar profundo; o mar que distingue e socializa.

Mas é Tenda dos Milagres, com o casal central composto por um baiano e uma escandinava, que representa o exemplo mais acabado dessa interpretação autoral. O romance chega a ser didático na maneira como opõe o herói da obra, Pedro Archanjo (com sua visão positiva da miscigenação) ao professor Nilo Argolo, que acreditava nas teorias que viam na amálgama de raças nossa suprema degeneração. Fácil notar que Amado não só cria sua mestiçagem e a insere no corpo de seus personagens, como mistura ficção e realidade. Nilo Argolo tem inspiração direta em Nina Rodrigues, famoso professor na Escola de Medicina da Bahia, que no início do século 20 ainda defendia esse tipo de visão negativa do cruzamento. Para Nina, o País, assim misturado, não tinha futuro; já para Amado (e Pedro Archanjo) ocorria o oposto: era a mestiçagem que representava nosso “elixir”. No mesmo romance, Archanjo faz uma declaração dos princípios defendidos por seu autor: “Se o Brasil concorreu com alguma coisa válida para o enriquecimento da cultura universal foi com a miscigenação, ela é nossa contribuição para a humanidade.” Contra as teorias deterministas, em voga até os anos 30, Amado compactuava com o antídoto da época modernista que mudaria a imagem do País; do pessimismo à redenção. E o literato não escaparia à orquestração do contexto, que passava por cima das profundas estratificações econômico-sociais para destacar uma sociabilidade ímpar e sem fronteiras de cor. Nesse campo, ele era mesmo um otimista da mistura.

Grande pregador da ideia da mestiçagem, Jorge Amado fez de sua experiência pessoal um modo de “entender o Brasil”. Oriundo de famílias enriquecidas pelas fazendas de cacau, o escritor, que jamais abandonou seu universo social e cultural, foi ao encontro de outro. Influenciado pela geração da “Academia dos Rebeldes” (jovens que, do alto de seus 16 anos, experimentavam a realidade para entender a literatura), Amado acabou sendo porta-voz da reviravolta. Afinal, até os anos 30 boa parte de nossa elite intelectual andava influenciada por teorias raciais, que entendiam cruzamento como fator de degeneração da nação. Mas o momento era outro. Era hora de falar menos das desvantagens e mais das virtudes dessa brasilidade mestiça: um modelo de convivência harmoniosa. Além disso, com o término dos anos 40 e o fim da 2.ª Guerra, o Brasil seria alçado ao patamar de “exemplo de fraternidade”, em meio a um mundo marcado por ódios históricos, étnicos e religiosos. Amado transformou-se, então, em artista e divulgador. Rompe com o stalinismo e entra em sua fase tropical quando escreve, em 1958, Gabriela, Cravo e Canela. Desse contexto em diante, tudo passa a resultar da mistura: a história, as culturas, as festas, a culinária, as religiões.

Jorge Amado é, assim, o grande “campeão da mestiçagem”, como uma vez definiu o fotógrafo e amigo Pierre Verger. Em suas obras, ela é tão evidente que muitas vezes não precisa ser afirmada. Todos sabem que Tereza Batista e Tieta são mulatas “arretadas”, e que Dona Flor é “cabo-verde” (mistura de branco, negro e índio). Tais termos não aparecem, porém, como definições rígidas. Ao contrário, no universo de Jorge inexistem classificações precisas, ou cores como gradientes fixos. Quando o tema são cabelos e pelos, o autor faz festa: aí estão a “carapinha branca” de Jubiabá e os “cabelos vermelhos” de Lindinalva; os “cabelos finos” de Lívia, em Mar Morto; os “cabelos escorridos, negros e finos” de Otália, de Os Pastores da Noite; entre muitas outras cabeleiras crespas, lisas, brancas, volumosas. É possível encontrar uma “aquarela do Brasil” nos livros do romancista: “alva”, “brancarrona”, “bronzeado”, “cabocla”, “cafuzo”, “cor de bronze”, “cor de formiga”, “encardida”, “loiraça”, “mulato claro”, “mulato escuro”, “mulato quase branco”, “mulato pardo”, “negra azulada”, “pele trigueira”, “sarará”, “pálido”, “tição” e “vermelho”.

Raça. Amado parece preferir entender as cores como relações. A situação social, o capital de relações sociais, a circunstância, tudo permite mudar a percepção das cores que, no Brasil, seriam efeito de contraste. Em Tenda dos Milagres, dá-se um diálogo dos mais inspirados entre Lu (a noiva branquinha e aristocrática de Tadeu Canhoto) e sua mãe. Lu lamenta a dificuldade que sente em convencer os pais a aceitar o noivo negro. Mas a mãe, esperta, à medida que o noivo se aproxima do fim do curso de engenharia, logo o promove de “negro” a “moreno queimado”. Raça social é o nome que se dá a esse uso negociado da cor, nesse país em que se “branqueia” conforme se ascende na hierarquia social.

O que o Jorge etnógrafo encontrou na Bahia foi um mundo complicado, mais fácil de ser reconhecido na imaginação. Um modelo que ajuda a pensar na especificidade da nossa convivência social, mas também no tipo de preconceito por aqui praticado. Um modelo assimilacionista, talvez, mas nem por isso menos marcado pela discriminação. Convivência não quer dizer ausência de conflito; mistura não é sinônimo de falta de hierarquia, e inclusão e exclusão social são verdades igualmente válidas. E é desse universo complexo que Amado se nutre. Sua obra mostra não só a força do personalismo, como uma profunda circularidade entre cultura erudita e popular e, claro, a particularidade da questão racial no Brasil.

Não por coincidência, o jornal Libération o elegeu “embaixador simbólico do Brasil”. Afinal, Jorge Amado é no exterior um dos autores brasileiros mais traduzidos, e seu Brasil mestiço tem a cara desse “país para exportação”, marcado pela originalidade da mistura. Por outro lado, quem viaja ao exterior, se depara, mais recentemente, com outra imagem de Brasil, a conviver com a do paraíso tropical; aquela que sublinha o país das drogas, da violência e da discriminação. Nada mais paradoxal: duas imagens opostas de uma mesma realidade. A despeito disso tudo, o mito que Amado criou continua forte e produzindo novas versões, tal qual mito de nacionalidade. Quem embarcar nessa viagem terá dificuldade em dizer quando começa o mito e se apaga a realidade, ou quando a vida real é que vira metáfora. Na verdade, pouco importa. (Texto originalmente publicado no Caderno de Leituras do Professor, especial sobre a obra do Jorge Amado, feito pela Companhia das Letras)

*PROFESSORA DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA DE A LONGA VIAGEM DA BIBLIOTECA DOS REIS

Politicamente duvidoso

16 de maio de 2010 12:40 pm
Günter Grass

Günter Grass

Observado pela Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental, o Prêmio Nobel de Literatura Günter Grass comenta detalhes da vigilância a que foi submetido e os limites da espionagem em plena Guerra Fria
CRISTOF SIEMES

Em suas viagens à República Democrática Alemã (RDA), Günter Grass visitava colegas escritores que viviam sob censura cerrada do regime socialista.

Vigiado pela Stasi, o serviço secreto da Alemanha Oriental, toda vez que cruzava a fronteira, mas também por meio de informantes na República Federal da Alemanha (RFA), o autor de “O Tambor” relata, em entrevista ao jornal alemão “Die Zeit”, que não se sentia, de fato, ameaçado, diferentemente dos escritores da RDA.
Para ele, driblar a censura possibilitou a autores alemães orientais experimentarem “todas as possibilidades imagináveis”. Crítico em relação às duas Alemanhas, Grass foi descrito pela Stasi como “politicamente duvidoso”.

PERGUNTA – Quando o sr. ficou sabendo da sua ficha na Stasi?

GÜNTER GRASS – Fui informado pelo “Órgão Gauck” [apelido da agência encarregada dos arquivos da Stasi]. Mas, nos primeiros anos depois da queda do Muro [de Berlim], não quis saber de nada nem permitir que alguém tivesse acesso. Com um argumento, que vale hoje como no passado: diferentemente de colegas escritores da RDA, não fui prejudicado. Também não quis saber quem me espionou.

PERGUNTA – Por que não?

GRASS – Porque já perdi um número suficiente de amigos.

PERGUNTA – O sr. pensou antes de suas viagens à RDA sobre o que a Stasi provavelmente faria?

GRASS – No fundo, não. Nós, que quase sempre entrávamos em grupo de Berlim Ocidental, não tínhamos conhecimento da extensão da espionagem. Nas nossas visitas a colegas escritores da RDA, éramos acompanhados a partir da estação Friedrichstrasse de modo mais ou menos perceptível. Nossa suspeita de grampos nas residências não foi confirmada. Mas, às vezes, falávamos como se elas estivessem grampeadas e apresentávamos charadas literárias aos eventuais ouvintes da Stasi.

PERGUNTA – O intercâmbio entre os escritores da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental era livre?

GRASS – As conversas formavam um contraponto absoluto a esses cuidados ameaçadores, custosos e burocráticos do Estado alemão oriental. A razão dessas conversas era a necessidade de não perder o contato. A melhor maneira de organizar as conversas era o conhecido modelo do Grupo 47 [de escritores e críticos alemães ocidentais]: líamos textos para os colegas, em oficinas de literatura. Disso, com certeza, resultou um ou outro jogo de palavras com viés político. Mas tudo o que foi colocado de segundas intenções secretas nessas conversas -de que o meu interesse mais urgente era recrutar autores para o Ocidente, encorajá-los a ir à Alemanha Ocidental- é pura invenção.

PERGUNTA – Na sua ficha aparecem muitos nomes com erros de ortografia, títulos incorretos de obras, nexos não compreendidos. Ao que tudo indica, os espiões não estavam muito familiarizados com a literatura e o seu universo.

GRASS – E isso não valia apenas para os escritores da Alemanha Ocidental, mas para os da própria RDA. Eles nem estavam em condições de avaliar o que, no fundo, nos aproximava: o interesse pela literatura.

PERGUNTA – A onisciência da Stasi foi superestimada?

GRASS – Sim. Naturalmente ela era uma ameaça para a população. Mas não conseguiu atingir seu objetivo, que era conservar o Estado.

PERGUNTA – O sr. alguma vez se sentiu ameaçado em suas viagens à RDA?

GRASS – Não. Só uma vez, na minha entrada, eles examinaram minha pasta e encontraram vários exemplares da revista “L’80”, que eu editava juntamente com [os escritores] Heinrich Böll e Carola Stern e que defendia um socialismo democrático. Isso era para a RDA mais perigoso do que Franz Josef Strauss [político conservador ocidental] e tudo o que vinha da direita. Não cheguei a ser preso, mas fui instado com veemência a acompanhar um dos funcionários da fronteira até uma sala sem janelas. Quando eles fecharam a porta, armei um escândalo. Bati com os punhos na porta de metal e lembrei-me de uma frase do meu breve período de serviço militar: “Quero falar com o oficial de plantão”. Quando este chegou, perguntei-lhe: “O que o sr. tem contra as revistas? Elas defendem um socialismo democrático! Se isso lhe interessa, fique com os exemplares, tenho outros em casa”.

PERGUNTA – O sr., antes das viagens, pensava que alguns dos seus interlocutores pudessem ser informantes da Stasi?

GRASS – Não. Mesmo no caso de Hans Marquardt, que publicou minha obra na editora Reclam, não supus nada disso. Como editor, ele arriscou fazer coisas que outros não teriam ousado fazer. Nunca teria me ocorrido imaginar que ele fosse um informante regular da Stasi. Para mim, foi também inteiramente surpreendente que Hermann Kant já escrevera tão cedo os primeiros relatórios a meu respeito, já em 1961.

PERGUNTA – O sr. teve sentimentos de vingança contra os que o espionaram?

GRASS – Não, nunca. Fiquei desiludido com Marquardt, pois ele nos convidara para sua casa e informou depois com fanfarronice as nossas conversas, conforme mostra a documentação da Stasi. Já o irmão de Hans Joachim Schädlich, Karlheinz Schädlich, um dos informantes mais zelosos, teve um fim trágico. Suicidou-se.

PERGUNTA – Alguns autores, Frank-Wolf Matthies ou Lutz Rathenow, tiveram sérias dificuldades por terem se encontrado com o sr. Teria preferido não encontrá-los?

GRASS – A decisão foi deles. Nós não os importunamos, eles nos convidaram. Isso foi na fase final, quando tinham surgido grupos de protesto que não ligavam mais para a repressão. No caso dessa gente, na sua maioria jovens, a Stasi praticamente reagiu em pânico, muitos foram presos. As consequências eram conhecidas de antemão.

PERGUNTA – O sr. não tomou nenhum cuidado nas suas idas à RDA?

GRASS – Só quando alguém estava envolvido concretamente. No mais, não só não deixei de dar um nome aos bois, mas insisti em discussões. Os arquivos da Stasi mostram com clareza que determinadas pessoas, previamente instruídas para fazer perguntas, foram introduzidas nas conversas, mas não adiantou. Afinal de contas, algumas questões urgentes foram formuladas, assim, por exemplo: “Devemos ficar aqui ou requerer licença para sair do país?”

PERGUNTA – O que o sr. recomendava?

GRASS – Do ponto de vista de um alemão ocidental, sempre era difícil dar uma resposta a essa pergunta. Dizia que conseguia compreender qualquer pessoa que não mais pudesse suportar essa realidade opressora e limitadora. Mas, se todos os que têm um comportamento crítico saem, a realidade não muda.

PERGUNTA – O sr. se preocupava com a possibilidade de que os emigrados pudessem não se ambientar na Alemanha Ocidental?

GRASS – Há alguns exemplos disso. Hoje, em retrospectiva, eu diria: os escritores alemães orientais perderam o seu objeto, a superfície de atrito, seu tema, quando chegaram à Alemanha Ocidental. Poucos conseguiram superar a mudança sem baixar de nível na produção literária. Na RDA, eles experimentaram, sob a censura lá existente, todas as possibilidades imagináveis, que fatigavam o sistema e escreviam livros que chamavam a atenção não apenas no seu país, mas eram publicados também no Ocidente.

PERGUNTA – Em uma de suas inúmeras avaliações, a Stasi o caracteriza como “politicamente duvidoso”.

GRASS – Isso se deve ao fato de eu abordar em perspectiva crítica a realidade da RFA assim como a realidade da RDA. Tais coisas não existiam no pensamento e na ação dos colegas orientais. Eles precisavam tomar partido.

PERGUNTA – Sua ficha também contém registros minuciosos sobre suas últimas viagens à RDA em 1987 e 1988. Como foi o clima naqueles tempos?

GRASS – O Estado estava inseguro e reagia a esse sentimento de insegurança ora com suavidade e indecisão, ora com zelo exagerado. O esforço feito para controlar minha viagem semiparticular foi inacreditável. Eles cuidaram até para que eu não visitasse bairros deteriorados de Stralsund. Veja as preocupações dessa gente!

PERGUNTA – Como o sr. avalia o modo de lidar com os arquivos depois de 1990?

GRASS – A Stasi só produziu êxitos depois do desaparecimento da RDA, pois esse monstro colocou lenha na fogueira da suspeita generalizada do Ocidente de que cada cidadão da RDA poderia ser um informante da Stasi. Ao lado de todos os outros ônus, essa suspeição também contribuiu para a insegurança de toda a população. Diferentemente de nós, alemães ocidentais, os alemães orientais não puderam acumular experiências com a democracia. As pessoas da minha geração saíram de uma ditadura para entrar em outra. Tudo somado, o ônus maior da guerra perdida por todos os alemães foi suportado pelos 18 milhões de cidadãos da RDA. Deveriam ter pensado nisso quando finalmente surgiu a oportunidade da unificação. Em vez disso, tivemos a vitória dessa visão ocidental que pensa saber tudo melhor que os outros. Simplesmente acreditaram nos arquivos da Stasi, como se contivessem a verdade.

PERGUNTA – Qual teria sido a alternativa? Enterrar os arquivos sob uma montanha de concreto armado, como se fez com a usina nuclear de Tchernobil?

GRASS – Evidentemente não. Fui a favor de preservar os arquivos, de recompor o que fora destruído pela máquina de picar papel e de proteger esses documentos contra qualquer abuso. Mas houve uma época em que a mera suspeita de ter sido informante da Stasi levou várias pessoas ao suicídio. Mais tarde se verificou que as suspeitas não tinham fundamento.

PERGUNTA – O que deveríamos aprender com a publicação da documentação sobre a sua pessoa?

GRASS – É interessante constatar que na época, quando eu era considerado um dos principais inimigos da RDA, convidaram-me periodicamente na Alemanha Ocidental para que eu fosse “para o outro lado”, como se dizia naquela época. Fui tratado como um comunista camuflado não apenas pela imprensa do grupo Springer [império midiático conservador na RFA]. Depois de ter lido as mais de 2.000 páginas do arquivo da Stasi, desejaria agora conhecer a documentação que o Serviço Federal de Inteligência [da RFA] juntou sobre a minha pessoa.

PERGUNTA – O sr. acha que esse arquivo tem o mesmo tamanho?

GRASS – O número de páginas não importa. Mas a possibilidade de vista certamente seria ilustrativa para complementar uma visão em perspectiva alemã integrada. Ocorre que esse material, até agora, está bloqueado.


A íntegra desta entrevista foi publicada no jornal alemão “Die Zeit”
Tradução de Peter Naumann.

Quando jovem, autor foi recrutado pela SS

Escritor e escultor, Günter Grass recebeu, em 1999, o Prêmio Nobel de Literatura. Ao lançar a autobiografia “Nas Peles da Cebola” (ed. Record), em 2006, revelou que fora recrutado pela SS nazista aos 17 anos, no final da Segunda Guerra.

O autor nasceu em 1927, em Danzig (atual Gdansk, na Polônia). Estudou arte em Düsseldorf e Berlim, na Alemanha, e começou a publicar seus primeiros livros nos anos 1950.

Em 1959, lançou “O Tambor” (ed. Nova Fronteira), sua obra-prima. Romance alegórico, faz um panorama satírico da Alemanha durante a primeira metade do século 20 ao narrar a história de Oskar Matzerath, um anão que assiste ao dilaceramento do país após a Segunda Guerra. O livro foi adaptado para o cinema por Volker Schlöndorff -o filme recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

No livro “Meu Século” (ed. Record), Grass relata a história do século 20, ano a ano, de um ponto de vista pessoal.

O melhor romance da década?

12:33 pm

Javier Marias

Javier Marias

“Seu Rosto Amanhã”, do escritor espanhol Javier Marías, abriu novas possibilidades para a ficção ao enriquecer técnicas narrativas e dialogar com a filosofia e a história
PETER BURKE

FOLHA DE SÃO PAULO

Agora que já adentramos dez anos no novo século, pode ser um bom momento para rever as realizações culturais do período e procurar discernir novos rumos. Poderíamos perguntar, por exemplo, quais foram os melhores ou mais notáveis romances publicados desde o começo do milênio.

Muitos leitores terão suas listas próprias de “finalistas”; a minha inclui “O Xará” (2003, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), da escritora bengalesa-americana Jhumpa Lahiri; “A Hora Azul” (2005, Objetiva), do peruano Alonso Cueto; “Testimone Inconsapevole” (Testemunha Inconsciente, 2002), do magistrado italiano Gianrico Carofiglio, seguido por duas outras histórias policiais da mesma alta qualidade; “Chicago” (2007), do egípcio Alaa al Aswany, uma história de biografias entremeadas que tem minha preferência sobre “O Edifício Yacubian” (2002, Companhia das Letras), do mesmo autor.

Todas essas obras são comoventes e bem escritas. Mas minha primeira escolha não é nenhuma delas, e sim o ambicioso romance em três volumes do escritor espanhol Javier Marías, “Seu Rosto Amanhã” [tradução de Eduardo Brandão, cujos volumes 1º e 2º foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras, que prevê lançar o volume 3º no segundo semestre].

Suponho que eu possa ser acusado de viés nacional por essa escolha, já que Marías é um anglófilo que chegou a lecionar espanhol em Oxford, minha antiga universidade, e gosta de citar Shakespeare com ainda mais frequência do que cita Cervantes (o título do romance é uma citação de “Henrique 4º”, de Shakespeare).

O cenário de boa parte da história é Londres. Além disso, tive o prazer, em mais de uma ocasião, de encontrar dois personagens do livro, o professor de Oxford e ex-agente secreto sir Peter Russell (1913-2006), que aparece no livro transparentemente disfarçado como “Peter Wheeler”, e o professor espanhol Francisco Rico, que aparece brevemente no volume 3 sob seu próprio nome.

Mesmo assim, escolhi “Seu Rosto Amanhã” por uma razão diferente: por suas técnicas narrativas, que -como as de Cueto, mas de modo ainda mais notável- ampliaram as possibilidades do romance. Não estou pensando tanto no uso feito no livro de fotos de pessoas reais, à maneira de W.G. Sebald, para conferir uma ilusão mais forte de realidade, mas em outras técnicas.

Thriller subjetivo

O romance é uma espécie de thriller. Embora seja espanhol, o protagonista tem um emprego temporário trabalhando para o serviço secreto britânico, e lemos que Wheeler foi amigo de Ian Fleming [1908-64], o inventor de James Bond. Mesmo assim, o leitor não deve esperar uma narrativa movimentada.

No início de sua carreira, Marías traduziu para o espanhol um romance inglês do século 18, “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne, e aprendeu com Sterne, como já admitiu a um entrevistador, a escrever muitas páginas sobre um momento breve.

Boa parte do espaço em “Seu Rosto Amanhã” é dedicado a reflexões sobre a vida tecidas pelo protagonista, Jacques, Jaime ou Jack Deza, e a longas conversas entre Deza e seu amigo Wheeler ou entre Deza e seu pai -uma figura baseada no pai do autor, o filósofo Julián Marías (1914-2005). Algumas das conversas são “traduzidas” pelo autor do inglês ao espanhol, permitindo a ele refletir sobre as diferenças entre as duas línguas.

O leitor pode muito bem ter a impressão de que essas reflexões e conversas sejam digressões da história -devo admitir que, inicialmente, eu ficava um tanto quanto impaciente com elas-, mas essas sempre acabam revelando-se partes essenciais da história, como as aparentes digressões de Peter Wheeler.

Com a exceção de duas descrições vívidas e por momentos grotescos de violência física, minuto a minuto, como se estivessem acontecendo diante do leitor, a maior parte da ação de “Seu Rosto Amanhã” acontece nos bastidores, sob a forma de anedotas relatadas por Deza ou, mais frequentemente, histórias contadas a Deza por outros personagens no romance. Outro aspecto incomum do romance é seu tema autodestrutivo. As primeiras seis palavras do livro são “No debería uno contar nunca nada” [Ninguém deveria nunca contar nada] -seguidas, é claro, por uma história que dura cerca de 1.500 páginas.

O romance retorna repetidas vezes ao tema das consequências desastrosas que podem advir de falar, já que as palavras escapam do controle de quem as proferiu assim que são ditas, no caso de falas impensadas não menos que no de conversas traiçoeiras, incluindo as denúncias de antigos amigos que se seguiram à vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola [1936-39], tema que ocupa bastante espaço nessas páginas.

O sofrimento causado às vítimas desse tipo de conversa nunca poderá ser cancelado, mas pode, pelo menos, ser aliviado, quando se conversa sobre ele. Nesse sentido, pode-se dizer que o romance seja freudiano, apesar de o nome de Freud nunca ser mencionado.

Tema e variações

A repetição controlada é um dos segredos do estilo do autor, convertendo este longo romance em uma espécie de sinfonia na qual o leitor aprende a prestar atenção para captar o reaparecimento de um “leitmotiv” (como a traição ou o poder das histórias), de uma citação de Shakespeare ou de uma das palavras-chave do romance -febre, lança, baile, sonho, veneno e sombra.

Descrições de incidentes que, à primeira vista, pareciam ser triviais ou irrelevantes revelam, quando são repetidas, empurrar a história para a frente ou ajudar o protagonista -e, por meio dele, o leitor- a compreender seu significado.
Existem maneiras diferentes de descrever o que Javier Marías realizou neste romance impressionante, com certeza sua obra-prima, além de ser um dos trabalhos de ficção mais importantes escritas na década passada. Um crítico literário poderia dizer que “Seu Rosto Amanhã” enriqueceu o repertório de técnicas narrativas e prever que não demorará muito a ser imitado por outros romancistas. Um filósofo poderia afirmar que Marías encontrou uma maneira nova de fazer filosofia, especialmente ética.

Um historiador pode impressionar-se sobretudo com a maneira como o autor trouxe os anos 1930 e 1940 de volta à vida. Todos teriam razão, já que “Seu Rosto Amanhã” é um livro híbrido, espanhol e inglês, literário e filosófico, apropriado para nossa era de hibridez cultural, em que tantos escritores sentem-se atraídos a explorar o terreno fronteiriço entre ficção e história.


PETER BURKE é historiador inglês, autor de “A Tradução Cultural” (ed. Unesp) e “O Historiador como Colunista” (ed. Civilização Brasileira).
Tradução de Clara Allain.

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MARIAS, Javier. Seu rosto amanhã: febre e lança. Vol. 1, Tradução de Luiz Eduardo de Lima Brandão, São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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MARIAS, Javier. Seu rosto amanhã: dança e sonho. Vol. 2, Tradução de Luiz Eduardo de Lima Brandão, São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

O longo e decisivo caminho – da militância política à literatura

15 de maio de 2010 11:06 am
Tariq Ali

Tariq Ali

Por JAMES CAMPBELL
The Guardian

Em fotos de manifestações políticas dos anos 1960, Tariq Ali é inconfundível: o espesso cabelo preto e o bigode hirsuto; o punho cerrado e o característico avanço para o primeiro plano. Após sair de Oxford, em 1966, ele começou a agitar por um levante de trabalhadores – não só na Grã-Bretanha, mas em todo o mundo. Seu livro 1968 and After: Inside the Revolution (1978) ressalta “a importância-chave da classe trabalhadora como o único agente de mudança social”. Seu herói: Che Guevara.

Encontrando-se com Malcolm X num debate da Oxford Union em 1964, ele ficou feliz de saber que Malcolm era “um grande admirador de Cuba e do Vietnã”. Ali era o “outro” na Grã-Bretanha, um papel que assumiu com zelo e desempenhou com arrojo e estilo. Ele não conseguiu a sua revolução, mas ganhou um hino dos Rolling Stones em sua homenagem – Mick Jagger teria escrito Street Fighting Man para ele.

Ali teve uma forte presença pessoal naquela época, e ainda tem agora. Aos 66 anos, vive numa casa neogótica espaçosa em Highgate, norte de Londres – amigos foram ouvidos chamando-a de “Chateau Tariq” – com sua companheira de 35 anos, Susan Watkins. Ela edita a New Left Review, da qual Ali tem sido um constante colaborador. Eles têm dois filhos. Em 1974, ele concorreu ao Parlamento pela organização trotskista International Marxist Group, mas a persona pública panfletária é temperada por um homem doméstico erudito.

Ele não abandonou sua oposição às “políticas econômicas neoliberais” (capitalismo, em uma palavra), mas se resignou ao fato de que a prevista desintegração do sistema não ocorreu. “Esse é um problema que as pessoas tiveram de aceitar em diferentes momentos da história: o que se faz num período de derrota?” Em seu caso, o realinhamento assumiu uma forma inesperada: ele se dedicou a escrever ficção.

O segundo ato do drama de Tariq Ali começou após o colapso do Muro de Berlim em 1989. “Eu já havia começado a mudar minhas prioridades, que eram totalmente políticas até o início dos anos 1980, criando a Bandung Films. Jeremy Isaacs, que era então o chefe da estação de TV britânica Channel 4, me pediu para fazer alguns programas.” Mas escrever ficção, que envolve meses de esforço solitário, foi um novo tipo de compromisso.

O primeiro romance de Ali, Redemption (Redenção), um roman a clef sobre trotskistas sectários em Londres, foi publicado em 1990. No ano seguinte, ele trabalhou num tipo de história completamente diferente, Shadows of the Pomegranate Tree (Sombras da Romanzeira) que entrava num reino imaginativo não menos importante para ele, o mundo histórico do Islã. O livro descreve o conflito entre cristãos e muçulmanos no fim do século 15, durante a Inquisição espanhola, e era para ser o primeiro de uma série de cinco denominada de Islam Quintet (Quinteto do Islã), concluída com a publicação neste mês, na Inglaterra, de Night of the Golden Butterfly (A Noite da Borboleta Dourada).

“Foi uma coisa que nós começamos por acidente” – “nós” sendo a Verso, a editora radical independente da qual Ali é diretor editorial, que tem mantido todos os cinco romances em catálogo. “Escrevi Pomegranate Tree e ele foi muito bem, e aí Edward Said me disse: Você precisa contar a maldita história toda agora. Você simplesmente não pode parar no meio do caminho.” Os romances do quinteto não progridem em sequência, nem mesmo cronologicamente. O volume dois, The Book of Saladin (O Livro de Saladino) recua três séculos e ao Oriente Médio. O volume três, The Stone Woman (Mulher de Pedra) visita a Istambul do século 19. Com o quarto, A Sultan in Palermo (Um Sultão em Palermo), estamos na Sicília do século 12. Não há uma fieira de relações percorrendo as eras. A dinâmica comum é a colisão repetida de leste e oeste, e suas consequências assustadoras.

Viagem no tempo. Night of the Golden Butterfly é ambientado nos dias de hoje, com personagens voando de Londres para Paris, da Alemanha para a China. No centro da história está um pintor paquistanês, Plato (ao nomear seu herói por um fundador do pensamento ocidental, Ali afirma sua crença de que os dois mundos devem se encontrar). No fim do livro, as personagens se reúnem em Lahore para uma apreciação do último quadro de Plato. Trata-se de um tríptico, em cujo centro está Barack Obama, o “primeiro líder de pele escura da Grande Sociedade”, com as estrelas e listas, “num estado de degradação cancerosa”, tatuadas nas costas. “O mais recente líder imperial exibia um button: “Sim nós podemos … ainda destruir países.”” Da pintura brotam tumores e jihadistas barbudos são mostrados “desenvolvendo uma vida sua”.

Night of the Golden Buterfly é também a volta ao cenário da infância e juventude de Ali. Lahore, onde ele nasceu em 1943, ainda era parte da Índia britânica. Seus pais eram comunistas, mas ele os descreve como vindos de “uma família profundamente reacionária” – o avô materno de Ali foi primeiro-ministro do Punjab. Até completarem cerca de 7 ou 8 anos, ele e sua irmã falavam punjabi. O idioma da educação e das realizações era o inglês. Ele devorava os clássicos ingleses – “todos eles, provavelmente jovem demais” – depois os russos.

“Havia todos os escritores realistas socialistas da União Soviética em nossa casa. Mas eu odiava tudo aquilo. Meu pai implicava comigo, porque era um comunista ortodoxo. Mas eu o achava previsível demais.” Seus heróis literários incluem Hardy, Balzac – ele dá uma gargalhada à sugestão de que acaba de concluir a Comédia Humana islâmica – e, acima de todos, Stendhal, “porque o ritmo de sua prosa é rápido e furioso, como eram seus políticos jacobinos”.

Ele se tornou politicamente engajado na adolescência, em oposição à primeira ditadura militar no Paquistão, que se formou em 1958. “Um tio, que era uma figura importante na inteligência militar, disse a meus pais: “Ponham ele pra fora. Ele não pode ser protegido!”” Em seu caso, fora significava o Exeter College, em Oxford, onde ele estudou Direito entre 1963 e 1966. “Eu estava muito feliz. Fiz amigos rapidamente. Estava envolvido no clube Trabalhista, mas os Humanistas pareciam mais ousados. Eles diziam: Deus não existe. E eu pensava, como é animador: isso pode ser dito em público!”

Tributo e crítica. Ele acreditava que o desejo de escrever ficção só se desenvolvera no fim de sua quarta década de vida. “Mas eu estava remexendo nos papéis de minha mãe em Lahore, algum tempo atrás, e encontrei uma carta minha para ela. Estava escrita no caderno de minha faculdade em Oxford, de modo que devia datar de 1966 no mais tardar. E ela dizia: “Vou escrever ficção. Mas não sei quando. Há muito mais coisas a fazer neste momento.” Eu não tinha lembrança disso, mas a ideia devia estar em minha cabeça.”

Havia de fato muita coisa para fazer. Em janeiro de 1967, como empregado da revista Town, viajou a Praga para reportagem sobre teatro e cinema atrás da Cortina de Ferro. De lá, foi enviado ao Vietnã, onde reuniu um registro fotográfico de baixas civis. Mais tarde, no mesmo ano, foi à Bolívia para assistir ao julgamento do revolucionário francês Régis Debray, que era pressionado a revelar o paradeiro de Che Guevara.

Notavelmente ausente em sua ficção é uma história ambientada na Grã-Bretanha moderna (tirante os socialistas rabugentos de Redemption). “Imagino que acho a ficção inglesa provinciana. Prefiro a americana, sempre preferi.” Ele se proclama “feliz” de não ser considerado parte da cena literária inglesa. “É um mundo muito autorreferenciado e incestuoso. E eu não gosto do fato de que muitos deles não gostam de ser criticados.” Além de seu novo romance, Ali publicou recentemente uma coletânea de ensaios, Protocols of the Elders of Sodom (Protoclos dos Sábios de Sodoma). Ele contém tributos a Anthony Powell e Proust, e critica velhos camaradas, como Christopher Hitchens e Salman Rushdie.

Ali detecta um “acentuado declínio” na ficção de Rushdie – “é triste escrever isso” -, mas o evento que realmente o irrita foi ele “aceitar um título de nobreza de Blair”. Hitchens, que uma vez louvou Ali por ter “passado boa parte de sua vida denunciando a América como o arsenal da contrarrevolução”, é agrupado às “figuras ligeiramente frívolas”, e agora soaria “mais como um chato e não como a mente crítica que explodiu os halos que rodeavam Kissinger e Clinton”.

O tema predominante da ficção de Ali é o exílio. Pessoas são alijadas do que era mais importante para elas – sua fé, seus amantes, seus livros, sua pátria. “Eu sempre senti, desde que cheguei à Grã-Bretanha, que ela era bastante familiar. Nós havíamos sido criados num mundo pós-colonial, mas em muito uma parte do que havia sido antes de se tornar independente.” Mas ele reconhece que passou os últimos 20 anos escrevendo sobre rupturas. “É verdade. As pessoas foram separadas em níveis diferentes. No nível das amizades por exemplo, porque todos seus amigos foram deixados para trás. E esse romance fala disso. E uma ruptura de amantes. E política.”

Uma das características mais impressionantes do Quinteto do Islã é a atenção aos detalhes: costumes, leis, vestimentas, nomes de lugar arcaicos, tudo isso além de um domínio dos acontecimentos históricos. “No primeiro ano, eu apenas leio tudo que cai em minhas mãos. E depois vou visitar aqueles lugares sobre os quais estou escrevendo – Sicília, Granada e Istambul – só para cheirá-los.” Depois de começar, porém, ele avança a passos largos, sem revisão – sem nem sequer reler o que escreveu. “Sou um mau sujeito assim. Eu simplesmente escrevo num grande jorro. E só consigo reler depois de algum tempo. Sou um grande crente nos editores. Eles me devolvem 10 páginas de anotações. Aí eu releio, e faço o que eles pedem.” / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

tariq-ali-romazeira

ALI, Tariq. Sonhos da romãzeira. Rio de Janeiro: Record, 2006.

tariq-ali-saladino

ALI, Tariq. O livro de saladino. Rio de Janeiro: Record, 1999.

tariq-ali-mulher

ALI, Tariq. A mulher de pedra. Rio de Janeiro: Record, 2002.

tariq-ali-sultao

ALI, Tariq. Um sultão em palermo. Rio de Janeiro: Record, 2006.

tariq-ali-barricadas

ALI, Tariq. O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60. Tradução de Beatriz Medina, São Paulo: Boitempo, 2008.

tariq-ali-imperio

ALI, Tariq. A nova face do império. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.