BLOG CELLA

Em Cuba, basta a suspeita

10 de março de 2010 4:21 pm
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Pela lei de ‘periculosidade’, as autoridades prendem pessoas que não cometeram nenhum crime

Por Nik Steinberg*

THE WASHINGTON POST

Clique. E depois, silêncio. Era o som que eu temia em minhas ligações para Cuba. Quando eu reunia testemunhos de parentes de presos políticos, nunca sabia o significado da interrupção abrupta de um telefonema. Teriam os serviços de inteligência cubanos cortado a linha, ou era apenas a precariedade do sistema telefônico? Eu tornava a ligar imediatamente, com frequência recebendo um sinal de ocupado ou uma mensagem gravada dizendo que o número estava fora de serviço. Se descobria o que havia acontecido, era, em geral, dias ou semanas depois.

“Um vizinho apareceu para me vigiar, alguém suspeito.” “Não sei, meu telefone parou de funcionar.” Durante meses eu fiz - e perdi - essas ligações. Como Cuba não permite visitas de grupos de direitos humanos, somos obrigados a reunir informações por entrevistas telefônicas, relatórios de grupos locais e as raras cópias de sentenças de prisão contrabandeadas para fora por parentes visitantes.

Durante quase cinco décadas, Fidel Castro silenciou virtualmente todas as formas de dissidência em Cuba, trancafiando quem ousasse criticar seu governo. Depois que a saúde debilitada o obrigou a entregar o controle a seu irmão em 2006, muitos esperavam que a repressão abrandasse. Mas Raúl Castro permitiu que as levas de dissidentes detidos no tempo de Fidel permanecessem presas. Um deles, Orlando Zapata, morreu na semana retrasada após 85 dias de uma greve de fome que havia empreendido para protestar contra as condições em que era mantido.

Raúl Castro também encarcerou outras levas de presos políticos, como Ramón Velásquez, que terminou de cumprir uma pena de 3 anos em janeiro, mas foi detido novamente após a morte de Zapata. Falei pela primeira vez com a mulher de Ramón, Barbara, por telefone há um ano. Ela me contou como, em 10 de dezembro de 2006, eles haviam participado com sua filha de 18 anos, Rufina, de uma “marcha da dignidade” em Cuba para pedir respeito aos direitos humanos e liberdade para presos políticos.

Eles marcharam em silêncio, de leste para oeste, dormindo nas estradas ou nas casas de pessoas que as abrigavam. Ao longo do caminho, a polícia os deteve, eles foram atacados e carros chegaram a expulsá-los da estrada. Eles continuaram marchando. Em janeiro de 2007, a 300 quilômetros do ponto de partida, Ramón foi preso. Foi acusado de “periculosidade” e sentenciado a 3 anos de prisão.

Pela lei de “periculosidade” de Cuba, as autoridades podem prender pessoas que não cometeram nenhum crime sob a suspeita de que poderiam cometê-lo no futuro. Atividades “perigosas” incluem distribuir cópias da Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrever artigos críticos ao governo e tentar formar um sindicato independente. Bárbara e eu nos falamos várias vezes nos meses seguintes sobre suas visitas a Ramón na prisão; sobre seu filho René, que cuidava dela; e sobre como Rufina fugiu para os EUA após a prisão do pai.

Minha organização pediu permissão para visitar Cuba, mas nunca recebeu uma resposta. Por fim, resolvemos ir de qualquer jeito. Para reduzir ao mínimo os riscos, não contamos a ninguém que estávamos indo. No meio do ano passado, um colega e eu alugamos um carro em Havana e guiamos para leste, realizando entrevistas ao longo do caminho.

Quando chegamos à casa de Velásquez, nos arredores de Las Tunas, somente René estava lá. Ele contou que Bárbara estava voltando de uma visita a Ramón na prisão. Nos sentamos numa pequena cozinha com chão de terra. René nos contou que não estivera na marcha e não se considerava um político. Mas depois da prisão do pai ele voltou para casa e descobriu a frase “Morte aos vermes da casa 58″, o endereço de sua família, pichado no ponto de ônibus próximo. Uma semana depois, foi demitido de seu emprego no hospital. Membros do “comitê de defesa revolucionária” local - a associação de bairro conectada ao Partido Comunista - o insultaram na rua e tentaram provocá-lo para uma briga.

Um homem foi designado para vigiar Velásquez e à sua mãe. A namorada de René e os amigos pararam de falar com ele. “É como ter alguém com uma bota plantada bem no meio do meu peito e aplicando tanta pressão que eu mal consigo respirar”, nos disse René.

Não demorou para Bárbara chegar de sua viagem de cinco horas. Exausta, ela falou durante alguns minutos e foi se deitar. Quando partimos, René insistiu para nos acompanhar até nosso carro. Seguimos pela rua, passando por vizinhos, que olhavam fixamente, e pelo homem na esquina, que saiu em nosso encalço alguns passos atrás. Quando chegamos ao carro, René pediu para passar uma mensagem a sua irmã, com quem ele não falava havia meses: “Digam-lhe que estamos bem - para não se preocupar.” Olhei pelo retrovisor. René caminhava para casa, passando pelo olhar vigilante de seus vizinhos.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

*Nik Steinberg é pesquisador da divisão para as Américas da Human Rights Watch

Audrey Hepburn

9 de março de 2010 10:42 pm

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Sébastien Tellier - Look

2:31 pm

Après Philippe Katerine et le groupe Air, voici la nouvelle réalisation du duo de dessinateurs Mrzyk & Moriceau pour ce vidéo-clip de Sébastien Tellier. Sur le titre Look, les illustrations et les tracés s’animent au fur et à mesure des pas de la jeune fille. Produit par Record Makers.

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Vila dos Computador: piada virtual ganha rede social no Brasil

2:02 pm

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Do blogue Lifestyle

Imagine uma rede social diferente de todas as outras, superior ao Facebook e ao Orkut, feita para “baxa um monte de negoço bota sua foto adiciona pessoa vai ser manero”. Não, leitores, o Virgula não está maluco. Essa é a proposta da novata Vila dos Computador.

Criada há pouco mais de duas semanas pelo designer Rafael Madeira, de 27 anos, o site nasceu após uma mensagem publicada dentro do blog Tolices do Orkut, dedicado a reunir as maiores asneiras da rede social do Google. No caso, um ingênuo garoto perguntava como poderia baixar em seu computador o serviço de blogs Blogspot. Pois é. Em seguida, ele jurava que um dia criaria uma  rede social revolucionária, a Vila dos Computador. Ela teria a descrição da aspas do primeiro parágrafo desse texto  e, segundo ele, serviria para lhe dar  “conceito” entre a mulherada, pois estava na seca há três meses.

“Criei a rede no dia  em que li a mensagem”, ri o maldoso Madeira; Para quem não sabe, ele é o autor das tirinhas Cersibon.

Vila dos Computador nasceu dentro do Ning uma plataforma online que permite criar redes sociais personalizadas. Com mais de mil usuários cadastrados desde então, a página virou um espaço livre para o besteirol, uma espécie de 4Chan tupiniquim.

Os internautas montaram ali um clubinho fechado para publicarem inverdades, montagens, fotos e vídeos divertidos. O conteúdo é tão nonsense que as pessoas se presenteiam com fitas vermelhas para se protegerem da Aids! Na hora de escrever no chat ou no fórum, é regra não usar acentuações, assassinar o português e deixar o texto o mais surreal possível -  clara referência ao muso inspirador da brincadeira.  Resumindo? Vila dos Computador ganhou vida própria.

Vale ressaltar que a página não cresce em um ritmo alucinado. Em seus primeiros dias, Vila registrava 100 novos participantes por dia - sendo que todos sabiam do que ela se tratava. Agora o ritmo já é menor, mas existe nesses novos membros uma curiosidade inacreditável…

“O mais legal é que muita gente que tem entrado ultimamente não sabe da piada e realmente acha que é uma rede social nova”, ri Madeira. “Já tem pessoal subindo foto, mostrando os músculos, fazendo caras e bocas pra câmera…  É a  ‘orkutização’ da Vila dos Computador”, diverte-se.

Opinião de Demétrio Magnole sobre leis “raciais” afirmativas

12:57 pm

Sobre o tema, ver mais informações aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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Por Demétrio Magnoli*

Etnia ou cidadania

A história imprimiu uma cruz sobre os Bálcãs. Seu eixo vertical é uma linha de fratura cultural traçada a partir da divisão do Império Romano, pelo Cisma do Oriente, que separou os católicos, no ocidente, dos cristãos ortodoxos, no oriente. Seu eixo horizontal é uma fratura cultural mais recente, derivada da expansão turco-otomana, que separou populações muçulmanas, no sul, dos cristãos, no norte. Uma camada de linhas mais tênues se superpõe a essa estrutura em cruz e define grupos étnicos: sérvios, croatas, eslovenos, macedônios, albaneses, húngaros e gregos. Kosovo é um fragmento dessa coleção balcânica, ele mesmo dividido internamente pelo eixo horizontal que separa a maioria albanesa muçulmana da minoria sérvia ortodoxa.

A primeira Iugoslávia emergiu em 1918, como Grande Sérvia, das ruínas dos impérios Austro-Húngaro e Turco-Otomano. A segunda Iugoslávia emergiu em 1946, da catástrofe étnica que se combinou com a 2ª Guerra Mundial e tragou o experimento nacionalista da Grande Sérvia. Na hora da sua implosão, em 1991, o Estado criado por Josip Broz Tito ganhou um diagnóstico sintético, cunhado pelo jornalista Norman Stone: ””A Iugoslávia tinha seis repúblicas, cinco povos, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido - o comunista.”” A independência de Kosovo evidencia tanto a presciência quanto os limites desse diagnóstico.

O pilar constitucional da Iugoslávia de Tito era a distinção entre cidadania e nacionalidade. Os iugoslavos eram cidadãos tanto da Iugoslávia quanto da república federal na qual habitavam, mas podiam escolher, por decisão individual, a sua nacionalidade. O sistema nunca funcionou genuinamente, pois a cidadania é um contrato amparado na vigência da democracia - e a Iugoslávia era uma ditadura de partido único. No fim das contas, a solda da unidade era o monopólio da política pelo partido comunista. Quando essa solda se dissolveu, o Estado começou a se estilhaçar em fragmentos cada vez menores.

Mas a reação em cadeia, sem um fim previsível, não é um destino inscrito na história profunda e nos insondáveis mistérios da cultura. A balcanização dos Bálcãs, hoje, é um fruto direto da existência da União Européia e das estratégias políticas dos governos dos EUA e das potências da Europa.

O ””princípio das nacionalidades””, proclamado por Woodrow Wilson na Conferência de Paris de 1919, ressurgiu nos Acordos de Dayton, de 1995, quando nasceu a Bósnia independente, sob o patrocínio americano. Mas Bill Clinton e seu negociador, Richard Holbrooke, rejeitaram a partição completa da Bósnia segundo linhas étnicas e articularam o compromisso que originou uma confederação multinacional composta pelas repúblicas muçulmano-croata e sérvia. A preservação de uma entidade Bósnia decorreu das lições de sangue oferecidas pela História e do complexo mapa bósnio, no qual as fronteiras étnicas e religiosas passam no meio dos quartos dos casais.

Agora, a ambivalência desapareceu, dando lugar à aplicação impiedosa de um ””princípio das nacionalidades”” que é, na prática, um ””princípio das etnias””. Montenegro, que declarou sua independência da Sérvia há dois anos, começou a inventar-se como nação étnica em 1993, fabricando às pressas um passado autônomo e uma língua nacional. A sua soberania não passa de uma casca vazia, preenchida pelo conteúdo emprestado das instituições e da moeda da União Européia. Kosovo nasce agora como mais um protetorado da União Européia, defendido por tropas européias, estabilizado por policiais europeus e dotado de um corpo de leis escrito por um exército de juristas enviado por Bruxelas. Os habitantes desses protetorados balcânicos serão governados, de fato, por uma burocracia supranacional sobre a qual não têm nem sequer o controle indireto de que dispõem os cidadãos da União Européia. Nos tempos da Iugoslávia de Tito, eles tinham uma cidadania oca e identidades étnicas circunscritas à esfera privada. Nas novas entidades balcânicas, devem sacrificar a esperança de direitos efetivos de cidadania no altar de uma etnicidade pública feita com a matéria do orgulho e da amargura.

A província de Kosovo foi ocupada por forças da OTAN para evitar a reprodução de uma guerra de ””limpeza étnica”” similar à que devastou a Bósnia. Depois disso, uma revolução popular derrubou o regime ultra nacionalista de Slobodan Milosevic, responsável principal pelas atrocidades na Bósnia, e a Sérvia iniciou a construção de uma democracia. Hoje, o argumento da punição da Sérvia pelos crimes do regime de Milosevic, formulado pelos EUA e pelas potências européias para justificar a secessão de Kosovo, não passa de um álibi sob o qual se oculta uma operação geopolítica mais ampla. O alvo dessa operação é suprimir o pouco que resta da influência russa nos Bálcãs, mas suas vítimas são as populações balcânicas.

As elites políticas adventícias nos fragmentos dos Bálcãs aprenderam com as experiências recentes que têm o poder de erguer Estados como crianças esculpem castelos de areia, com a condição de se associarem aos poderes da Europa e à burocracia de Bruxelas. A mensagem emitida pelas suas aventuras ecoa na Sérvia, onde os ultra nacionalistas retomam a narrativa sangrenta das origens míticas da nação, na batalha medieval de Kosovo-Polje, e incitam as minorias sérvias de Kosovo e da Bósnia a reivindicar as suas próprias secessões. Na Macedônia, essa mensagem reacende as fogueiras separatistas entre albaneses do oeste e gregos do sul. Muito além dos Bálcãs, o precedente de Kosovo estimula a Rússia a invocar o ””princípio das etnias”” e jogar a carta do separatismo em regiões habitadas por ossétios na Geórgia e por russos na Ucrânia. O triunfo da política do sangue, da ancestralidade e das tradições culturais representa a derrota do conceito de cidadania e a promessa de guerras sem-fim.

Visita à ”terra dos negros”

Milton Gonçalves encarna um personagem protagonista na novela do horário nobre da Rede Globo. É uma boa notícia para todos os que apreciam a arte do grande ator. Devia ser motivo de celebração pelos grupos do movimento negro que apontam, com razão, a persistência de uma regra racial oculta na seleção de elencos no Brasil. Mas eles não gostaram, pois o personagem de Milton Gonçalves é um político corrupto. O deputado estadual José Candido (PT-SP) acusou o ator de prestar um “desserviço” ao movimento negro, passando “uma má impressão do negro à população”. Se entendi direito, o corpo negro é imune à corrupção.

Numa entrevista a este jornal, o ator não se limitou a responder a Candido, mas ofereceu uma aula singela. Disse ele: “Algumas coisas mudaram na minha cabeça” depois de visitar a África: “Descobri que não sou um negro brasileiro, mas um brasileiro negro. Descobri que não sou africano, sou brasileiro.” São descobertas incompreensíveis para os que nos governam.

Uma lei de 2003 tornou obrigatório o ensino de “história e cultura afro-brasileira e africana” nas escolas brasileiras. A determinação não se circunscreve a indicar uma temática, mas pretende orientar uma abordagem. Num parecer de março de 2004, destinado a esclarecer o espírito da lei, o Conselho Nacional de Educação afirma que o “fortalecimento de identidades e de direitos deve conduzir para o esclarecimento a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal”. Segundo a palavra impressa do Estado brasileiro, a humanidade se divide em raças e as crianças devem aprender que uma ponte racial liga os negros do Brasil a uma pátria ancestral africana.

“Não sou um negro brasileiro, mas um brasileiro negro.” O ator está dizendo que a sua identidade principal emana da esfera política e tem como referência o conceito de cidadania, não o de raça. Os brasileiros, de todos os tons de pele, formam uma nação única, alicerçada sobre o contrato da igualdade perante a lei. A identidade brasileira constitui nossa identidade pública. No espaço privado, segundo opções pessoais, podemo-nos definir como negros, brancos, mestiços, gays ou corintianos.

“Não sou africano, sou brasileiro”. A segunda descoberta esclarece a primeira - e esclarece muito mais. A África está no Brasil, de mil maneiras, e há inúmeros bons motivos para se falar mais da África na escola. O melhor foi explicado pela antropóloga Yvonne Maggie, no seu O Medo do Feitiço: Relações entre Magia e Poder no Brasil (RJ, Arquivo Nacional, 1992). Analisando a perseguição judicial contra as religiões mediúnicas, Maggie comprova a hipótese de que a crença na magia afeta pessoas de todas as cores e classes sociais no Brasil. Isso forma uma ponte essencial entre nós e a África. Mas essa ponte também conecta todos os brasileiros e faz de nossa mestiçagem algo mais profundo que o intercâmbio de genes. Mesmo assim, não somos africanos.

O Brasil é o Novo Mundo, a África é o Velho Mundo. No Brasil, o que vale não é a ancestralidade, mas a posição e a renda. Na esperança de inventar uma Europa tropical, o Império do Brasil distribuiu títulos nobiliárquicos, mas tais signos da diferença circulavam como mercadorias especiais no bazar dos privilégios simbólicos. Na África, como em tantos lugares da Europa, a linhagem de sangue define posições e regula relações. Atrás de uma fachada política de Repúblicas, as sociedades africanas continuam a girar à volta de constelações de reis tradicionais e líderes ancestrais. Sob certos sentidos, não é o brasileiro, mas o europeu que está mais em casa na África.

“Não sou africano.” Ninguém é africano. África, no singular, é uma declaração de ignorância. As crianças dizem que algum lugar está na África, como se o continente fosse um país. Os europeus inventaram uma África singular para designar a “terra dos selvagens” e, mais tarde, a “terra dos negros”. Os intelectuais negros dos EUA e do Caribe que formularam a doutrina do pan-africanismo beberam no conceito racial europeu para desenhar no céu dos seus sonhos a África singular. No início do século 21, o Brasil oficial ainda não aprendeu que existem Áfricas incontáveis e pretende usar o nome do continente como metáfora para ensinar uma fábula racial às crianças.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, prometeu apresentar em agosto um plano nacional para a implementação da lei de 2003. Leonor Franco de Araújo, coordenadora-geral de Diversidade do MEC, identificou dificuldades na aplicação da lei e as atribuiu ao fato de que os professores “não recebem essa formação durante a graduação”. Deixem-me contribuir com o esforço de Haddad e Leonor na formação dos professores, oferecendo-lhes duas pequenas citações. A primeira: “As raças, como as famílias, são organismos e ordenações de Deus; e o sentimento racial, tal como o sentimento familiar, é de origem divina. A extinção do sentimento racial é tão possível quanto a extinção do sentimento familiar. Na verdade, a raça é uma família.” A segunda: “A história do mundo é a história não de indivíduos, mas de grupos, não de nações, mas de raças.” Os autores, pela ordem, são Alexander Crummell (1819-1898) e W. E. B. Du Bois (1868-1963), americanos, negros, pais fundadores do pan-africanismo.

O diagnóstico de Leonor está correto, mas de um modo que ela não suspeita. Há muito a fazer no campo da formação de professores. Contudo, no caso, as dificuldades de aplicação da lei de ensino racial não derivam da ignorância teórica dos mestres, mas do seu saber prático, vivido e experimentado. Como Milton Gonçalves, os professores sentem-se brasileiros e aprenderam, bem antes da graduação, que existe “uma identidade humana universal”. Eles têm dificuldades em narrar a história segundo o paradigma racial. Eles resistem à diretiva de dividir a humanidade e seus alunos em raças. O MEC terá de se esforçar mais.

Carta aberta ao Grande Chefe Branco

Prezado deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP):

No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Câmara passou a lei de cotas nas universidades e instituições federais de ensino médio, que é a primeira lei racial na história da República. A aprovação se deu sem o voto dos deputados, por conluio entre lideranças. Você participou destacadamente daquele conluio, renunciando à posição contrária à inclusão da raça na lei que dizia sustentar.

Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente da Câmara, celebrou o desenlace e ofereceu um diagnóstico: “Os que têm opiniões divergentes cederam, o que resultou em um grande avanço.” Traduzo a frase do seguinte modo: nada é impossível, nem mesmo derrubar o princípio da igualdade perante a lei, quando a oposição abdica de seus deveres básicos. Estou errado?

Serei franco. Surpreendeu-me a sua colaboração, sem a qual o projeto teria de aguardar uma sessão com quórum e ser votado nominalmente pelos deputados. Li num jornal a sua justificativa. De acordo com ela, o projeto não é ruim, pois estabelece cotas raciais proporcionais à composição “racial” da população de cada unidade federativa, de modo que, nas suas palavras, nos Estados com predomínio demográfico de brancos, eles terão chances maiores de ingressar nas universidades. Se entendi, você negociou e aprovou o projeto pois não viu nele desvantagens para a “raça branca”. Posso, então, intitulá-lo Grande Chefe Branco?

Não há ironia nisso, acredite. Os patrocinadores de projetos de cotas no ensino e no mercado de trabalho almejam a condição de líderes negros. Eles usam o fruto envenenado da raça para impulsionar carreiras políticas ou conquistar posições de prestígio em ONGs muito bem financiadas. Mas é claro que a construção de identidades raciais oficiais no Brasil abre possibilidades inusitadas. Se há líderes negros, por que não líderes brancos? (Veja que para isso nem se precisa de algo tão aparente quanto a cor da pele: em Ruanda a vida política girava em torno de líderes tutsis e líderes hutus, ao menos até o genocídio).

Não nos enganemos. Políticos oportunistas em busca da condição de líderes negros (ou brancos) são elos instrumentais na passagem de leis de raça, mas a concepção de tais leis se deve aos doutrinários racialistas, que são pessoas dotadas de princípios - e o xis do problema reside no conteúdo desses princípios. Racialismo é a doutrina baseada numa dupla crença: 1) raças existem, se não na natureza, ao menos na história; 2) “a história do mundo não é a história de indivíduos, mas de grupos, não a de nações, mas a de raças”. Empreguei, para expor a segunda crença racialista, uma citação de William Du Bois (1868-1963), o pai fundador da doutrina. Toda a lógica das políticas de cotas raciais se encontra delineada na obra desse americano. Seria inoportuno sugerir que a lesse?

Du Bois era um racialista, não um racista, pois não acreditava em noções de superioridade racial. Ele visitou a Alemanha nazista e gostou do orgulho de raça promovido pelo regime, mas confessou sua repulsa com a perseguição aos judeus. Bem antes, em 1903, escreveu Os talentosos dez por cento, em que expunha a tese de que, por meio de uma criteriosa seleção educacional, um negro em cada dez poderia converter-se em líder mundial da raça negra. O artigo começa assim: “A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens excepcionais. O problema da educação entre negros, então, deve antes de tudo concentrar-se nos 10% talentosos…” Entendeu, agora, a proposta de cotas? Percebeu que ela nada tem que ver com um programa de redução de desigualdades sociais?

Nos EUA, as leis de segregação racial definiram quem era branco e quem era negro. Du Bois falava para uma raça oficializada pela discriminação. Por aqui, os racialistas lamentam a ausência de leis desse tipo no nosso passado, pois recaiu sobre os ombros deles a missão de fabricar, na mente das pessoas, a consciência racial e o orgulho de raça. Fico um tanto triste ao perceber que se procura realizar essa obra a partir da escola. Tarso Genro, na sua passagem pelo Ministério da Educação, ordenou que todas as escolas associem nominalmente cada aluno a uma raça. Você, um ex-ministro da Educação, e Paulo Haddad, o atual titular da pasta, articularam juntos o projeto de cotas raciais aprovado na Câmara. Vocês não são três, mas uma tríade. Juntos, por cima de diferenças partidárias, invadem as aulas de História e Biologia para apagar a lousa onde está escrito que raças humanas não existem, a não ser como invenção do racismo. Mas você liga para o que está escrito na lousa?

Já notou que os brasileiros sentem uma certa repugnância diante da idéia de serem divididos oficialmente em raças? Por coincidência, no mesmo dia em que vocês aprovavam uma lei que faz exatamente isso, divulgou-se uma pesquisa de opinião pública sobre atitudes diante do tema racial. Encomendada pelo Cidan, uma ONG racialista, a pesquisa fez perguntas viciadas, tendenciosas, a uma amostra da população carioca. Mesmo assim, 63% declaram-se contra as cotas raciais. Mais interessante é que as posturas diante das cotas raciais não variam em função da cor autodeclarada das pessoas. Entre os “brancos”, 63,7% rejeitam essa política; entre os “pardos”, 64%; entre os “pretos”, 62,2%. Eu interpreto isso como uma opção identitária: as pessoas, independentemente da cor da pele, querem ser cidadãos iguais perante a lei. Estou errado?

Não há motivo para imaginar que os demais brasileiros pensem diferente dos cariocas. Apesar da maciça propaganda racialista veiculada pelo Estado, os cidadãos percebem o mal que a pedagogia das raças faz aos jovens estudantes. A coincidência entre a divulgação da pesquisa e a aprovação por conchavo da lei de cotas coloca uma pergunta constrangedora: onde está a representação parlamentar da maioria que rejeita as leis raciais?

”Coisa de preto”

O Senado logo retomará o debate do projeto de lei de cotas raciais nas universidades e escolas técnicas federais, que pode tornar-se a primeira lei racial da nossa história. Diferentes pesquisas evidenciam que ampla maioria dos brasileiros, de todas as cores, rejeita a introdução da raça na lei. Mas o projeto, que passou na Câmara dos Deputados sem voto em plenário, por acordo de lideranças, tem grandes possibilidades de ser aprovado no Senado. Como explicar o paradoxo que faz a maioria parlamentar deliberar contra a vontade da maioria dos eleitores?

Há, antes de tudo, um desvio que não é exclusivo de nosso sistema político. Os parlamentares temem contrariar os grupos de pressão organizados mais do que temem frustrar as expectativas da maioria desorganizada. Corporações, movimentos sociais e ONGs atuam como máquinas eleitorais, impulsionando ou destruindo candidaturas. Os interesses da maioria, por sua natureza difusa, podem ser contrariados com menor risco. Se o Estado brasileiro criar, oficialmente, castas de cidadãos separadas pela cor da pele, isso será um triunfo das ONGs racialistas e uma derrota da vontade popular.

Não existe no Brasil um “movimento negro” em nenhum sentido legítimo da palavra. As ONGs racialistas quase nada representam, além dos interesses e ideologias de seus próprios ativistas. Mas elas recebem, todos os anos, milhões de dólares da Fundação Ford e se incrustaram no interior do Estado, dispondo do aparelho de uma secretaria especial da Presidência e do controle de postos-chave nos Ministérios da Educação e da Saúde. Os dirigentes de tais grupos formam uma elite adventícia, estruturada em redes nas universidades e instituições internacionais, que se reclamam porta-vozes de uma “raça”. Eles usarão o termo “racista” como insulto destinado a marcar a ferro todos os que insistem em defender o princípio da igualdade perante a lei. Eis o que temem deputados e senadores.

A ciência a serviço da expansão imperial europeia inventou a raça no século 19. A ciência do pós-Guerra a desinventou, provando que a cor da pele é uma adaptação evolutiva superficial a níveis diferentes de exposição à luz solar. Mas a questão de saber se a raça existe não pode ser solucionada em definitivo pelos cientistas, pois o Estado tem o poder de fabricar raças na esfera política. Nos EUA e na África do Sul, leis raciais incutiram na sociedade a noção de que uma fronteira natural divide as pessoas em grupos fechados.

Leis raciais supostamente voltadas para o “bem” não são, sob esse aspecto crucial, diferentes de leis raciais voltadas para o “mal”. Umas e outras ensinam às pessoas que seus direitos estão ligados à sua cor da pele - e que seus interesses objetivos solicitam a “solidariedade de raça”. A lei que tramita no Senado pouco afetará os mais ricos, mas dividirá os alunos de escolas públicas em dois conjuntos “raciais” com interesses opostos. Na hora em que os filhos dos trabalhadores não puderem mais olhar uns aos outros como irmãos e colegas, terá emergido um Brasil diferente daquele que conhecemos. Mas a nossa elite política não vislumbra esse risco, pois interpreta a Nação pelas lentes do preconceito de classe.

A maioria dos parlamentares não nutre entusiasmo pelo projeto de cotas raciais, mas está disposta a contribuir com a indiferença para sua aprovação. Eles enxergam as leis raciais como esmolas concedidas aos pedintes, moedinhas inúteis entregues a meninos na rua, um preço quase simbólico que se paga para comprar gratidão. “Coisa de preto” - é assim que, silenciosamente, avaliam os projetos apresentados sob a cínica justificativa de fazer justiça social por intermédio da oficialização da raça. Mas não se trata, a rigor, de preconceito racial: o “preto”, no caso, funciona como sinônimo de pobre, na mais pura tradição senhorial brasileira. Juntamente com o temor dos grupos de interesse, as leis de raça beneficiam-se dessa aversão benevolente ao princípio da igualdade.

Há mais de um ano foi aprovado em comissão um projeto de lei, de autoria do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que determina a implantação de tempo integral nas escolas públicas de ensino fundamental. Mas a maioria governista não permite que o projeto siga para votação, alegando que custaria cerca de R$ 20 bilhões anuais, pouco menos que o dobro do Bolsa-Família. Parece muito, mas representaria apenas 1,6% do Orçamento da União - algo como um aumento inferior a 15% nos repasses federais para Estados e municípios. É um valor relevante, porém perfeitamente viável se a deflagração de uma revolução qualitativa no ensino público figurasse, de fato, como prioridade nacional. Entretanto, nossa elite política parece preferir enfeitar com cotas raciais a ordem iníqua que relega a maioria dos jovens, de todas as cores, a escolas arruinadas.

O antropólogo Kabengele Munanga, um arauto das políticas de raça, justificou do seguinte modo a necessidade das cotas raciais: “Muitos acham que o caminho para corrigir as desigualdades sociais seria uma política universalista, baseada na melhoria da escola pública, o que tornaria todos os cidadãos brasileiros capazes de competir. Mas isso é um discurso para manter o status quo, porque enquanto se diz isso nada é feito.” A afirmação é uma esfinge que pede para ser decifrada. Munanga sugere ser favorável à política universalista de “melhoria da escola pública”, mas, simultaneamente, qualifica tal demanda como “um discurso para manter o status quo”, pois na prática “nada é feito”. Então, utilizando-se de uma perversão lógica, não reivindica que se faça a “política universalista”, mas a sua substituição por uma política diferencialista destinada a distribuir direitos segundo a cor da pele. É que no Congresso, enquanto ele diz isso, os parlamentares que compartilham sua ideologia racialista ajudam a bloquear o projeto universalista do tempo integral.

”Brasileiro tem maior aceitação de sua origem miscigenada”

ENTREVISTA - Demétrio Magnoli: doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Por Andrea Vialli

O maior número de brasileiros que se autodeclaram pardos - de 42,5% da população em 2007 para 43,8% em 2008 - sugere maior aceitação das origens mestiças. Essa é avaliação do sociólogo Demétrio Magnoli, que afirma que esse processo de autoaceitação já influencia estatísticas desde a década de 1940. Eis alguns trechos de sua entrevista ao Estado.

O que explica o aumento no número de pardos?

Isso vem acontecendo desde 1940, quando foram consolidadas as cinco categorias de raça, e é um duplo fenômeno: aumenta o número de pessoas que se declaram pardas, e diminui tanto o número de brancos quanto o de pretos. Isso ocorre pela continuidade do processo de miscigenação da sociedade. A diminuição dos pretos e dos brancos não é marginal, é um fenômeno muito grande. O segundo motivo, uma hipótese que eu levanto, é maior consciência e aceitação da miscigenação.

Então, o brasileiro hoje se aceita?

No pensamento racista, isso é explicado como sendo uma rejeição de ser negro e uma tentativa de branqueamento da cor da pele. Mas essa explicação só poderia ser aceita se se reduzisse o número de pretos, mas não o de brancos. Mas não é o que acontece. Cada vez mais pretos e brancos mudam para a coluna de pardos. Os pardos não estão insatisfeitos. Mas na cabeça das pessoas que fazem a declaração, a pessoa pensa: “não sou nem branco nem preto, não tenho raça, sou uma mistura”, então se declara como pardo. Se houvesse a categoria mestiço, teria até mais pessoas se declarando como tal. Pardo é uma palavra com certo estigma. Temos uma sociedade no Brasil que cada vez menos se amolda aos dois polos raciais tradicionais. Que se vê como misturada e a Pnad revela a continuidade disso. Em décadas, teremos 70% de gente se dizendo parda. É uma maior aceitação da miscigenação. E uma das características mais importantes do racismo é ser antimistura. Os textos racistas do século 19 tratam miscigenação como degeneração. Quando os brasileiros se misturam e se declaram como mestiços, eles declaram não acreditar nesse racismo, o que é positivo.

Existe algum reflexo das políticas de cotas nas estatísticas?

Creio que é muito cedo para se fazer uma afirmação direta desse tipo, mas possivelmente tem algum efeito e isso contribui para um processo de “pardização” dessas pessoas que se diziam brancas. O que não é oportunismo.

*Demétrio Magnole é doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Sobre o tema, ver mais informações aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

The Social Media Landscape

11:09 am

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Alice na toca do Chalaça

10:51 am

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Por NICOLAU SEVCENKO*

ESPECIAL PARA A FOLHA

Dentro do enigma da “Alice no País das Maravilhas” há uma outra charada chamada Lewis Carroll, pseudônimo literário do reverendo Charles Lutwidge Dodgson, diácono da Igreja da Inglaterra e professor de matemática da egrégia Universidade de Oxford.
Não parece incrível que alguém com créditos tão conservadores e ademais austero, refinado, reservado, gago, tímido e introvertido tenha sido o criador da mais famosa e irreverente heroína da cultura inglesa? Não há algo incrível no fato desse pastor e professor de lógica e ciências matemáticas ter se tornado num precursor da literatura moderna, fecundando talentos como Oscar Wilde, Virgínia Wolf, T.S.Eliot, James Joyce e Samuel Beckett?
Charles Dodgson negou a vida inteira, de pés juntos, que fosse Lewis Carroll. Parece um clássico caso esquizofrênico de identidade partida ou, para ficar na literatura, uma espécie de Dr. Jekill e Mr. Hide, o médico e o monstro, numa versão de o reverendo e o chalaça.
Nesse sentido, a solução do enigma parece simples: Dodgson encarnaria a dimensão vitoriana e vetusta, enquanto Carroll personificava o lado sarcástico e iconoclasta. Qual deles, então, seria o hipócrita? O buraco é mais embaixo, como diria o Coelho. Carroll sintetizava os múltiplos dotes intelectuais e artísticos de Dodgson. A identidade fictícia porém lhe dava liberdade para exercer uma crítica ética que atingia os próprios valores e a cultura que ele representava.
Dodgson era um crítico arguto da civilização vitoriana, mas investia contra ela por dentro. Travestido de Carroll, ele a atacava por inteiro, mudando o ângulo como o Chapeleiro e a Lebre mudavam de cadeira sem parar no Chá Maluco.
Como Dodgson, usou seus conhecimentos matemáticos para, por exemplo, construir um sofisticado sistema de representação proporcional de minorias em quaisquer foros políticos, que só viria a ser assimilado e adotado no século 20.
Ele igualmente mudou o sentido agressivo e competitivo da ética esportiva, propondo modelos estatísticos que, ao contrário de classificar vencedores, avaliavam o conjunto da performance, premiando a graça, a destreza e a cooperação. Esse método aproximava o esporte da dança, como na ciranda eufórica dos bichos na Corrida de Convenção.
Mas era na persona de Carroll que ele virava a cultura vitoriana de ponta-cabeça. Dois fundamentos organizavam todo o edifício da civilização britânica. Um era o conceito de progresso, contínuo e cumulativo. O outro era uma dicotomia moral que distinguia com nítida clareza o bem e o mal, o certo e o errado. As aventuras de Alice implodem ambos.
O País das Maravilhas é um caos fragmentado, anárquico e amoral, onde o tempo é cíclico, a linguagem é ambígua e a ação é ineficaz. Todos mandam, mas ninguém obedece. Todos falam, mas ninguém ouve. Todos agitam, mas nada acontece.
Dodgson queria reformar o império, Carroll quer reconfigurar a cultura. Mas Alice só quer sair do buraco.

*NICOLAU SEVCENKO é professor de história da cultura na USP e na Universidade Harvard (EUA), e foi o tradutor de “Alice no País das Maravilhas” (editora Cosac Naify).

Burton no país das maravilhas

Em entrevista à Folha, diretor com fama de esquisito comenta “Alice”, seu primeiro filme 3D, baseado em Lewis Carroll, que estreia no Brasil em abril

FERNANDA MENA
ENVIADA ESPECIAL A LONDRES

O excêntrico diretor de filmes sombrios e visionários acha que esquisito mesmo é o mundo fora das telas. “Tudo está cada vez mais estranho, e não mais normal”, disse Tim Burton, 51, à Folha, às vésperas do lançamento de seu novo filme, “Alice no País das Maravilhas”.
Burton criou uma versão 3D da obra de Lewis Carroll repleta de distorções bizarras e personagens fantásticos. “A história é esdrúxula o suficiente! Não precisei fazer nada.” O filme custou à Disney cerca de US$ 240 milhões (R$ 420 milhões). Estreou nos EUA e Europa na sexta-feira e bateu o recorde de “Avatar” em arrecadação nas salas 3D. “Alice” chega ao Brasil no dia 23 de abril.
Em uma mesa-redonda de que a Folha participou, Burton falou sobre Carroll, 3D e o terreno que explora: o lusco-fusco entre sonho e realidade.

PERGUNTA - O que lhe interessou na obra de Lewis Carroll?
BURTON
- Os personagens. Eles estão tão arraigados na nossa cultura, tão poderosos, que não precisei ler Carroll na infância para conhecê-los ou para saber que aquilo era fascinante.

PERGUNTA - Por que esses personagens têm tanto impacto até hoje?
BURTON
- Essa é a beleza da obra de Carroll. Por mais que tenham sido feitas mil análises, “Alice no País das Maravilhas” permanece um enigma. Entrar em contato com a história é como quebrar o “Código Da Vinci”! Carroll fez algo que você não consegue penetrar via raciocínio lógico, mas que dialoga com algo profundo e subconsciente. Para mim, esse é o tipo de criação mais puro que há.

PERGUNTA - A fronteira entre sonho e realidade, muito forte em “Alice”, é o território preferencial de seus filmes. Por que?
BURTON
- Porque o mundo está ficando mais estranho, e não mais normal! E as pessoas continuam tentando separar realidade de fantasia, quando essa divisão está cada vez mais embaralhada por conta da internet e da TV. Para mim, fantasia sempre foi uma forma de explorar a realidade. Por isso gostei tanto de “Alice”, uma história em que imagens bizarras criadas pela mente são, no fim das contas, reais e servem para lidar com questões concretas.

PERGUNTA - O quanto pôde mudar a história original?
BURTON
- Existem mais de 20 versões de “Alice” que, a meu ver, sofrem do mesmo problema: são muito literais. Nunca me conectei com elas. Queria ser fiel ao legado e ao espírito dos personagens, e não à história em si. Segui meus instintos sem medo. Além do que, o material já é esquisito o suficiente! É algo tão subversivo que, se fosse feito hoje em dia, provavelmente seria banido!

PERGUNTA - Seu primeiro emprego foi na Disney. Como foi essa volta?
BURTON
- É uma relação de amor e ódio. Uma hora a Disney me adora e me convida para projetos, depois me odeia e me chuta para fora [risos]. Isso já aconteceu e deve continuar.

PERGUNTA - Como foi trabalhar em 3D? É este o futuro do cinema?
BURTON
- É uma ferramenta com o potencial de adicionar uma camada extra de sensações. Existe a música, a cor, o movimento… e o 3D! Mas não vai salvar o cinema. Pode acreditar que nos próximos meses será lançada uma porção de filmes 3D porcarias porque tem gente achando que basta ser 3D para ser bom. É a nova onda.

A jornalista FERNANDA MENA viajou a convite da Disney

Personagem ganha recorte feminista

Quantidade de efeitos dificultou trabalho dos atores e fez com que o “Alice” ficasse pronto só há duas semanas da estreia

Aliar um clássico da literatura a um diretor cultuado e ao apelo do 3D foi receita da Disney para obter explosão de bilheteria

DA ENVIADA A LONDRES

Pegue um clássico da literatura mundial de 150 anos. Empreste-o a um dos diretores mais cultuados e esquisitos de Hollywood. Empacote tudo com o que há de mais novo em tecnologia no cinema, o 3D.
A receita da Disney para recriar “Alice no País das Maravilhas” só não é tão previsível porque o diretor em questão é Tim Burton. Sua lente transcendeu a obra de Lewis Carroll como numa viagem lisérgica, fundindo dois livros num só filme: “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” (1865) e “Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá” (1872).
A obra de Carroll -codinome adotado pelo reverendo e professor de matemática Charles Lutwidge Dodgson- é uma das mais famosas, citadas e traduzidas do mundo. A história foi criada para uma garotinha de 11 anos, Alice Liddell, por quem Carroll nutria carinho tão especial que chegou a levantar suspeitas de pedofilia.
Repleta de símbolos, a obra moldou o imaginário cultural, do surrealismo à psicodelia.
Para dar conta desse cânone sem comprometer sua fama de ousado, Burton optou por transportar Alice para seus 19 anos. Com isso, deu à personagem recorte feminista: uma jovem sonhadora de espírito livre enredada pela rigidez dos costumes da Inglaterra vitoriana.
O filme começa quando Alice é pedida em casamento. Desconcertada, ela foge da resposta correndo atrás do Coelho Branco, que viu no jardim. Na perseguição, cai no buraco que a leva ao Mundo Subterrâneo (”Underland”), o mesmo que visitou ainda criança, quando achou que seu nome era País das Maravilhas (”Wonderland”).
Ali, suas aventuras são uma alegoria da busca por coragem e identidade, que culminam numa batalha em que Alice encarna uma espécie de Joana D’Arc.
Burton investiu o papel principal na novata Mia Wasikowska, australiana que abandonou o balé para se tornar atriz em 2006. Também se cercou de sua patota: Johnny Depp, como o Chapeleiro Maluco, e sua mulher, Helena Bonhan Carter, com quem vive em Londres em duas casas conjugadas (cada um em uma delas, diga-se) e tem dois filhos pequenos.
O grande desafio do elenco de “Alice” foi um constante exercício de imaginação no set. Isso porque, para criar cenários alucinantes e personagens animados em pós-produção, os atores tinham de contracenar com objetos inanimados, como uma bola de tênis ou um naco de fita adesiva, imersos em um ambiente 100% verde, preenchido depois em computador.
“Não foi fácil. Aquele verde o tempo todo começou a deixar a equipe deprimida”, confessou Carter. “Tim passou a usar óculos de lentes azuis para aturar um mundo monocromático.”
A profusão de efeitos especiais fez com que o filme ficasse pronto apenas duas semanas antes de sua estreia. Tamanho espetáculo para os olhos implica, no entanto, um risco crucial: o de não falar tanto aos corações de quem os vê. (FERNANDA MENA)

Leia a íntegra da entrevista com Burton em

www.folha.com.br/ilustradanocinema

Frase

“A Alice do filme não se encaixa no mundo nem na idade que tem. Ela está naquela fase esquisita em que não se sente confortável na sua própria pele. Há uma certa tristeza em Alice, e eu me identifico muito com ela nesse sentido.”
TIM BURTON
diretor

Ver mais sobre o filme aqui e aqui.

O jornalismo delinquente

10:28 am

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Por DEMÉTRIO MAGNOLI*

AS PESSOAS, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (”DEM corresponsabiliza negros pela escravidão“, Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (”África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: “Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor”. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: “Negros corresponsabilizam negros pela escravidão”.
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. “Não discutimos a escravidão”, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.

*DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo, é autor de “Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial” (SP, Contexto, 2009)

Um espelho irlandês

10:15 am

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Paul Krugman*

THE NEW YORK TIMES

Todo mundo tem uma teoria sobre a crise financeira. Teorias que vão das absurdas às plausíveis - alegação que os democratas liberais de alguma maneira forçaram os bancos a emprestar para pessoas sem condições (mesmo com os republicanos no controle do Congresso) até a crença de que instrumentos financeiros exóticos é que fomentaram a confusão e a fraude. Mas o que sabemos de fato? Bem, de certa maneira, só a dimensão da crise foi útil, no mínimo, para a pesquisa. Podemos analisar aqueles países que evitaram o pior, como o Canadá, indagando o que eles fizeram certo - como limitar o endividamento, proteger os consumidores e, sobretudo, não se deixar levar por uma ideologia que nega qualquer necessidade de regulamentação. Podemos também estudar aqueles países cujas políticas e instituições financeiras pareciam muito diferentes das dos Estados Unidos, mas também foram atingidos, e tentar encontrar as causas comuns. Então, vamos falar da Irlanda.

Como destacaram os economistas irlandeses Gregory Connor, Thomas Flavin e Brian O” Kelly , num estudo por eles elaborado, “quase todos os aparentes fatores que provocaram a crise nos EUA estão ausentes no caso da Irlanda”, e vice-versa. Mesmo assim, a maneira como a crise se formou na Irlanda foi muito semelhante: uma enorme bolha imobiliária - os preços subiram mais em Dublin do que em Los Angeles ou Miami - seguida de uma grande quebra de bancos, só contida por meio de um enorme pacote de socorro financeiro.

Então, o que temos em comum? Os autores do estudo sugerem quatro “causas profundas”. Em primeiro lugar, houve uma exuberância irracional: em ambos os países os que compraram e os que financiaram estavam convencidos que os preços dos imóveis, embora nas alturas pelos padrões históricos, continuariam a subir.

Em segundo lugar, houve uma enorme entrada de dinheiro barato. No caso dos EUA, grande parte desse dinheiro barato veio da China; no caso da Irlanda, veio principalmente da zona do euro.

Em terceiro, os principais envolvidos tinham um incentivo para assumir riscos enormes porque, se fosse “cara” eles ganhariam, “coroa” seriam os outros que perderiam. Na Irlanda, o risco moral foi muito pessoal: “diretores de bancos sem caráter se aposentaram com suas grandes fortunas intactas”. O que ocorreu também nos EUA.

Mas a semelhança mais surpreendente entre Irlanda e EUA foi a “imprudência regulatória”: as pessoas encarregadas de manter os bancos seguros não fizeram seu trabalho. Na Irlanda, os órgãos reguladores fizeram vista grossa

Aqui isso também ocorreu, mas o maior problema foi a ideologia. Na verdade, os autores do estudo interpretaram esse aspecto erroneamente, dando ênfase à maneira como os políticos dos EUA celebravam o ideal da casa própria; de fato, eles fizeram muitos discursos nesse sentido, mas isso não surtiu muito efeito sobre os incentivos oferecidos pelas instituições de empréstimo.

O que realmente teve importância foi o fundamentalismo do livre mercado. Foi o que levou Ronald Reagan a declarar que a desregulamentação do mercado resolveria os problemas das instituições de poupança e Alan Greenspan a insistir que a proliferação dos derivativos tinham, sim, fortalecido o sistema financeiro. Foi graças a essa ideologia que os órgãos reguladores ignoraram os riscos que iam se avolumando.

Assim, o que podemos aprender com a maneira como a Irlanda, com instituições tão diferentes, foi afetada por uma crise financeira similar à dos EUA? Sobretudo, que temos de nos concentrar tanto nos reguladores como nos regulamentos. Por todos os meios, precisamos limitar não só o endividamento como o uso da securitização. Mas essas medidas não valerão nada se não forem aplicadas e supervisionadas por pessoas que sabem que é seu dever dizer não a banqueiros poderosos. É por isso que precisamos de uma agência independente de proteção dos consumidores de serviços financeiros.

E, além disso, precisamos mudar totalmente nossa atitude, reconhecendo que permitir que os banqueiros façam o que quiserem é receita para o desastre. Se isso não ocorrer, significa que não conseguimos aprender com a história recente - e estaremos condenados a repeti-la.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
*O autor é Nobel de Economia

El convencido senador “antigay” que salió del armario

9:23 am

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El republicano Roy Ashburn, de 55 años y que se opuso durante toda su carrera política a los derechos de los homosexuales, ha confesado que es gay

El senador conservador Roy Ashburn, de 55 años y padre de cuatro hijos, se ha opuesto durante sus 14 años de mandato en el Estado de California a cualquier medida que amplíe los derechos de los homosexuales. Pero todo cambió el pasado 3 de marzo, cuando fue detenido en una carretera de la capital, Sacramento, informa la BBC. Se le acusó de conducir ebrio y se rumoreó que acababa de salir de un club nocturno gay. Entonces Ashburn no pudo más. Acudió a una entrevista en la radio y confesó: “soy gay”.

El senador republicano se ha justificado diciendo que sus votos reflejan lo que sus constituyentes querían que votara, no su propio “conflicto interno”. “Soy gay… esas son las palabras que me han resultado tan difíciles durante tanto tiempo”, ha señalado a la emisora KERN. El senador ha añadido que sintió la necesidad de afrontar los rumores que sugerían que había visitado un club nocturno gay.

Ashburn cuenta con un amplio historial contra los derechos de los homosexuales. Se opuso el año pasado a una norma para establecer un día de reconocimiento para honrar al activista por los derechos de los gays Harvey Milk. También votó en contra de los esfuerzos para ampliar las leyes contra la discriminación y el reconocimiento de las bodas homosexuales celebradas fuera del Estado.

El senador, que representa al distrito 18 de California, ya ha asegurado que no piensa presentarse a ningún cargo cuando acabe su mandato a finales de año.

A história das coisas

8 de março de 2010 11:28 pm

Libido - Komplex mit dem Sex

5:35 pm

Mercado de Trabalho x Gerações

5:34 pm

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Por Wagner Campos

Os jovens (geração Y) possuem várias características interessantes para o mercado. São cheios de vontade, querem iniciar sua vida profissional, não possuem vícios e normalmente aceitam propostas nem sempre tão atrativas devido a não terem experiência e desejarem ter um bom emprego. A desvantagem é que justamente por não terem experiência anterior, estes mesmos jovens possuem algumas limitações relacionadas a comunicação, dificuldade em relacionamento interpessoal em alguns casos e a falta de visão profissional, o que, no final das contas, se torna um fator impeditivo para iniciação profissional.

Os profissionais na faixa dos 30-40 anos (geração X) possuem boa experiência profissional de em média 7 anos, graduação adequada e especializações nas áreas que desejam atuar, sabem se comunicar e utilizam com perfeição sua visão estratégica. A desvantagem é o fato de serem profissionais que tem seus salários expressivos, buscam grandes desafios e são abordados constantemente por outras empresas que oferecem planos de carreira atrativos o que causa uma redução no tempo de permanência na empresa atual. As empresas procuram oferecer um bom pacote envolvendo salário, benefícios e plano de carreira de forma a se tornarem atrativas para estes profissionais e conseguir mantê-los pelo maior tempo possível.

Obviamente os “cinquentões” (baby boomers) ainda estão na ativa. São responsáveis pela existência do mercado atual pois foram os precursores das grandes mudanças do mercado nas últimas décadas. Estes profissionais possuem boa titulação, grande experiência no mercado e são muito centrados. No entanto algumas empresas generalizam tais profissionais acreditando que devido a idade, muitos não estão tão atualizados nem possuem o mesmo ritmo que os profissionais mais jovens. Provavelmente esta interpretação se deve ao fato de que os profissionais mais maduros são menos impulsivos que os mais jovens e o mercado as vezes pode confundir ponderação com estagnação.

A receita ideal seria múltipla através de “doses” de 18 anos tendo suas “porções” da seguinte forma: 18×36x54. Ausência de vícios, fôlego e vontade de crescer dos 18; estratégia, determinação, busca por desafios e superação dos resultados dos 36 e ponderação e análise dos 54.

Cariocas e sua arguta capacidade de rirem de si mesmos

12:57 pm

Em novo livro, filósofo analisa o viés inconformista do sentimento amoroso

12:47 pm

badiou

BADIOU, Alain, NICOLAS, Truong. Eloge de l’amour. Paris: Flammarion, 2009.

Por VLADIMIR SAFATLE*

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Alain Badiou é conhecido atualmente por suas intervenções políticas de larga escala na reconstrução do pensamento intelectual de esquerda, assim como por uma obra filosófica fundamental para a compreensão do pensamento francês contemporâneo pós maio de 1968. Diante de tal obra e da virulência de suas intervenções políticas, um pequeno livro como este, que saiu há alguns meses na França com o título de “Eloge de L’Amour” (elogio do amor), pode parecer estranho.
Resultado de uma entrevista com Nicolas Truong, o livro aparentemente visa recuperar este topos clássico da filosofia, ao menos desde Platão, referente ao elogio do amor como modo de relação à alteridade e modelo reconstrutivo de relação social. Algo já presente em seu “São Paulo: A Fundação do Universalismo“, lançado no Brasil em 2009 (ed. Boitempo).
No entanto, esse pequeno livro é surpreendente em mais de um aspecto. Sensível às mutações sociais das relações intersubjetivas em uma era marcada pela elevação do medo a afeto social central e da demanda de segurança a motor de justificação das ações políticas, Badiou lembra como a sociabilidade contemporânea parece fascinada pelo “amor seguro contra todos os riscos”.
Dos sites de relacionamento que prometem encontros sob medida à implementação terapêutica da lógica mercantil que mede relações a partir de custos e benefícios, encontraríamos sempre o mesmo “amor securitário” cada vez mais hegemônico em nossas sociedades liberais. Algo como “um arranjo prévio que evita todo acaso, todo encontro e finalmente toda poesia existencial, isto em nome da ausência de risco”.
Pois um sujeito que age politicamente a partir do medo e do desejo de segurança tende a reconfigurar até suas relações sociais mais privadas a partir dos mesmos afetos. Ele tende a ver, nas relações amorosas, uma forma de contrato que visa “otimizar” os sistemas de interesses de duas pessoas privadas.
Pode parecer, com isto, que estaríamos a um passo da defesa do entusiasmo liberador da ruptura, ou seja, daquilo que o próprio Badiou chama de “concepção romântica e fusional” caracterizada pelo “êxtase do encontro”. Mas poderíamos dizer que essas duas posições são complementares em uma recusa fundamental. A recusa em compreender o amor como uma “construção de verdade”.
Tal expressão é feliz por inicialmente afirmar que há um regime de verdade que se revela no interior de relações amorosas: “verdade a respeito de um ponto bastante peculiar, a saber, o que é o mundo quando ele é experimentado a partir do dois, e não do um? O que é o mundo examinado, praticado e vivido a partir da diferença, e não a partir da identidade?”.
Nessa recuperação filosófica do amor, ele retorna como modelo de uma vivência da diferença capaz de construir mundos a partir de pontos de vista descentrados.
Tal descentramento significa que, nas relações amorosas, os sujeitos não procuram apenas a conformação do outro a um conjunto de expectativas e imagens fantasmáticas prévias. Eles procuram, mesmo sem saber, esse ponto onde o outro resiste a sua submissão pelo pensamento identitário do Eu.
Ponto no qual o outro é capaz de dizer: “Você não vai me dobrar”, não como alguém que impõe uma recusa, mas como alguém que instaura um amor capaz de nos levar a uma região rara onde encontramos coisas desprovidas de gramática, onde precisamos apreender a amar coisas desprovidas de gramática.
Saber construir e durar diante de coisas que parecem desestruturar a gramática de nossos desejos: eis uma idéia de Badiou que, como tudo o que ele escreve, não deixa de ter claras consequências políticas em uma era de culto às fronteiras.

*Vladimir Saflate é professor do departamento de Filosofia da USP.

Le philosophe français discute sur l’amour avec Nicolas Truong

Quatro em cada cinco pessoas dizem que internet é direito fundamental

11:54 am

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Sondagem da BBC entrevistou 27 mil adultos em 26 países, inclusive o Brasil.

- Quatro entre cinco adultos no mundo consideram o acesso à internet um direito fundamental do ser humano, segundo uma pesquisa realizada em 26 países para o Serviço Mundial da BBC.

Das mais de 27 mil pessoas entrevistadas, 87% das que usam a rede mundial de computadores defenderam o direito de ter acesso a ela. Entre os não-usuários, 71% disseram que deveriam ter o mesmo direito.

O Brasil foi um dos países que mais defendeu esse ponto de vista, com 91% dos entrevistados concordando com o direito ao acesso à internet. A Coreia do Sul (com 96%), o México (com 94%) e a China (com 87%) também estão entre esses países.

A pesquisa foi realizada pelo instituto internacional GlobeScan para a série SuperPotência da BBC, que durante o mês de março vai trazer reportagens e análises explorando o poder da internet. Foram entrevistados 27.973 adultos de 26 países, em novembro de 2009 e fevereiro de 2010. Dos que responderam às perguntas, 14.306 são usuários da internet.

A pesquisa mostrou ainda que a maioria dos usuários entrevistados veem como positivas as mudanças que a internet trouxe às suas vidas, principalmente o volume e a variedade de informações que ela oferece.

Para 90% dos entrevistados, a rede mundial de computadores é um “bom lugar para se aprender”. E 78% sentem que a internet deu a eles mais liberdade.

Pouco mais da metade (51%) disse gostar de navegar em sites de relacionamentos sociais, como o Facebook e o MySpace, mas apenas 30% afirmou que a rede é um bom lugar para se encontrar um namorado ou namorada.

O papel da internet como fonte de entretenimento, ferramenta para pesquisas e compra de produtos e serviços, e espaço para um debate criativo foi menos mencionado entre os aspectos mais valorizados da rede.

Cautela

Apesar do entusiasmo geral com a ferramenta, a maioria (55%) disse que poderia viver sem a internet.

Muitos dos entrevistados também se mostraram cautelosos com a rede mundial de computadores. Cerca de um terço deles (32%) dizem que as fraudes são o aspecto mais preocupante da internet. Outros 27% acreditam que o pior problema é o conteúdo violento e explícito presente em muitos sites.

Praticamente metade das pessoas que responderam à pesquisa (49%) acreditam que a internet não é um lugar seguro para elas expressarem suas opiniões. Na Alemanha, este número sobe para 72% dos entrevistados, acompanhado de 71% na França e 70% na Coreia do Sul.

A sondagem também mostrou que 53% dos entrevistados creem que a internet não deveria ser regulada pelos governos. BBC Brasil

Leviatã revigorado

11:49 am

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Por Marcelo de Paiva Abreu*

Quem diria? O embate eleitoral relativo à Presidência da República encaminha-se para ser travado tendo como foco principal o papel do Estado na economia. A má notícia é que os discursos do governo e da oposição são singularmente distorcidos ou omissos quanto ao tema.

Na melhor tradição brasileira, a eleição caminha para ser de fato decidida com base na saturação de propagandas eleitorais baseadas em prestidigitações de especialistas em embromação de eleitorado. O embate que interessaria, em torno de programas de governo alternativos, como indicação de amadurecimento dos partidos políticos, fica adiado sine die. Talvez para quando mensalões deixarem de ser regra e passarem a ser exceções.

Lula e sua candidata são explícitos em relação ao papel do Estado: denunciam a postura “privatizante” do governo FHC, demonstram ter memória seletiva quanto a experiências anteriores e enfatizam o papel crucial que a ação do Estado deverá ter para assegurar o futuro bom desempenho da economia. A vitória de Dilma Rousseff implicará economia movida a ação direta do Estado, com o uso de instrumentos “legítimos”, tais como subsídios maciços ao setor privado, indevidamente postos de lado em meio a excessos neoliberais.

Dilma Rousseff, ironicamente, dado o seu passado de opositora radical da ditadura militar, sempre se distinguiu por adotar posições extremadamente estatizantes, ao feitio do Brasil Grande dos anos 70. Já Lula até recentemente foi comedido, e sua volte-face pode ser classificada, com simpatia, como manifestação de faceta camaleônica hiperdesenvolvida e, sem tanta simpatia, como abertamente oportunista e eleitoreira.

Durante os anos iniciais do governo Lula, quando não parecia conveniente a defesa explícita de subsídios, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) defendeu a tese de que seus financiamentos não envolviam subsídios, pois a taxa cobrada dos mutuários, baseada na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), era superior à taxa que remunerava a sua principal fonte de recursos, o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

A argumentação do BNDES já era incorreta. Seus financiamentos envolviam subsídios que correspondiam, no mínimo, à diferença entre a TJLP e a taxa Selic. Agora, quando o governo elegeu os subsídios como motor do crescimento e fez maciços aportes diretos do Tesouro ao BNDES, as coisas são ainda mais transparentes.

Para transferir recursos ao BNDES, o Tesouro capta recursos à taxa Selic; o BNDES cobra de seus mutuários a TJLP; a taxa Selic é superior à TJLP. Não há dúvida de que há subsídio.

O que interessa avaliar é se o subsídio faz sentido em cada caso específico. Subsídios generalizados são desperdício de recursos que certamente teriam melhor aplicação alternativa. Pior, criam voraz clientela que lutará com unhas e dentes por sua perpetuação. Não adianta berrar em palanque: a defesa sem qualificações do subsídio como instrumento de política econômica é um retrocesso descomunal. É tão primitiva quanto a ideia de que nenhum subsídio faz sentido.

Subsídios fazem sentido quando os mercados funcionam mal. Seja deixando de estimular a oferta de determinados bens e serviços que geram benefícios sociais, como, por exemplo, avanços tecnológicos de difícil apropriação privada, seja deixando de penalizar a demanda de bens que acarretam custos sociais, como por exemplo poluindo o meio ambiente. Não é por acaso que as disciplinas multilaterais reconhecem o uso legítimo de subsídios quando relativos à inovação tecnológica, poluição e desigualdades regionais.

O pano de fundo que poderia justificar a renovada crença quanto à eficácia do Estado tem que ver com a crise econômica mundial e as respostas de vários governos de economias desenvolvidas, aumentando o peso do Estado tanto no setor financeiro quanto no industrial.

Há confusão entre o diagnóstico de crise da economia mundial que ocorreu na esteira de má regulação, especialmente no setor financeiro, e crise do capitalismo, que requereria rebalanceamento nos papéis do Estado e do setor privado na provisão de bens e serviços. O mais provável é que haja reforma de aparatos regulatórios, seguida de gradual privatização das empresas estatizadas na crise. Lula e Dilma estão trabalhando com o segundo cenário e optaram pela estratégia baseada no Estado produtor de bens e serviços.

Nos anos 70 e, em menor medida, nos 80, a estratégia econômica brasileira foi calcada no uso indiscriminado de subsídios e na ênfase no papel condutor do Estado. A julgar pelo entusiasmo de Lula e Dilma quanto à eficácia da ação do Estado, o fracasso dessa estratégia foi apagado da memória. Já não se lembram do congelamento da correção monetária nos empréstimos do BNDES, da Lei da Informática, da ineficiência de muitas estatais. E, no entanto, não há evidência de que a eficácia governamental agora possa ser maior do que a demonstrada no passado.

O pior é que a oposição, na defensiva, mal se atreve a romper o silêncio ditado por sua estratégia eleitoral e se limita a tartamudear que durante o governo FHC nunca se pretendeu privatizar o Banco do Brasil e a Petrobrás. Não há defesa coerente da privatização de empresas estatais antes e durante o governo FHC. Nem de denúncia do enfraquecimento sistemático das agências reguladoras promovido desde 2003. É como se endossasse a posição extrema da candidata oficial e de seu criador em relação ao papel do Estado na economia.

Será que, de fato, há contraste relevante entre os principais candidatos presidenciais em relação a esses temas?

*Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

Militares perdem força na Turquia

11:46 am
turquia
Para analistas, prisão de oficiais do Exército por conspirar contra governo islâmico encerra era dos golpes no país

Por Gustavo Chacra

NOVA YORK
A era dos golpes militares na Turquia parece ter ficado no passado depois do desmantelamento de uma suposta conspiração envolvendo oficiais do Exército que foram presos nas últimas semanas. A ação acontece um ano depois de as Forças Armadas terem fracassado na tentativa de banir da política o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco). Ao mesmo tempo, alguns questionam se o enfraquecimento dos generais não significa, na verdade, o fim da república laica instalada em 1923 por Mustafá Kemal Ataturk, depois do colapso do Império Otomano, no fim da 1ª. Guerra.

Analistas afirmam não haver mais espaço para os militares derrubarem governos quando se considerarem insatisfeitos, como ocorreu uma série de vezes no passado, sendo a última em 1997. “Ainda é cedo para dizer se as prisões solidificarão as atitudes dos oficiais mais radicais ou se a era dos golpes acabou”, afirmou em análise Henri Barkey, do Carnegie Institute for International Peace, em Washington. “Todos os sinais apontam para a segunda opção.”

Para Mumtazer Turkone, analista do diário Today’’s Zaman, de Istambul, os militares perderam a sua força decisiva na política. “Mas os militares não terão a capacidade de derrubar um governo no futuro? Sim, eles ainda têm a capacidade”, diz, mas seriam necessários “oficiais loucos”. “Ainda que existam alguns, os normais não permitirão uma aventura dessa.”

A sociedade turca se divide atualmente em dois grupos. O primeiro, que apoia o governo, é composto por uma classe média emergente de muçulmanos mais conservadores, que inclui o premiê Recep Tayyip Erdogan e o presidente Abdullag Gul. Ambos são do AKP e religiosos, com suas mulheres cobrindo a cabeça com o hijab. Também integram essa coalizão intelectuais liberais e as camadas mais baixas da população, do interior, que foram favorecidas com o crescimento econômico dos últimos anos, interrompido depois da crise financeira internacional.

Do outro lado, estão as Forças Armadas e a burocracia do Estado que eram a base de sustentação tradicional dos seguidores de Ataturk, que secularizou o país, adotando inclusive o alfabeto latino para substituir o árabe e proibindo o uso de hijab em universidades e instituições públicas.

ELITE

Entre os dois lados, está a elite ocidentalizada de Istambul. Eles admiram os avanços econômicos de Erdogan e as suas iniciativas para integrar a União Europeia. Tampouco concordam com os métodos não-democráticos do Exército. Ao mesmo tempo, os sofisticados moradores de bairros como Nisantasi têm arrepios quando veem mulheres cobertas circulando pelas lojas e restaurantes desta espécie de Jardins de Istambul.

Mustafá Akyol, do diário turco Hurryet, disse em artigo que “o Exército, como em muitas outras instituições, possui uma ala mais radical, mas a maioria de seus membros é moderada”. Para Akyol, nenhum deles é fã da irtica (palavra usada para explicar o atraso dos religiosos muçulmanos na avaliação deles, como cobrir a cabeça). “Mas os moderados farão o possível para salvar o país e afastar os radicais”, acrescenta.

Desta forma, hoje, as próprias Forças Armadas demonstram vontade de se reformar, eliminando o passado golpista, em uma forma similar como o que ocorreu em países da América Latina, como o Chile. O pensamento destes oficiais, aos poucos, se aproxima do da elite ocidental de Istambul, tendo como problema apenas o caráter religioso do AKP, que tenta exibir uma imagem mais próxima do Partido Democrata Cristão, da Alemanha do que do Hamas palestino ou da argelina Frente Islâmica de Salvação.

O partido de Erdogan se assemelha em alguns pontos ao PT, adotando uma política econômica conservadora, mas buscando uma política externa independente dos EUA.

Como o Brasil, pretende votar contra uma resolução com novas sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. O único ponto de concordância total do AKP com a ala mais radical dos militares se refere ao genocídio armênio, todos negam que tenha ocorrido e dizem que as mortes foram consequência da guerra.

Militares turcos são desafio a poder islâmico

Por Gilles Lapouge*

O Palácio da Justiça de Besiktas, em Istambul, Turquia, abriga acusados estranhos: ele está cheio de militares, a maioria de altas patentes, almirantes, generais e coronéis. Quantos são? Eram cerca de 80 há uma semana. Hoje, restam 35. A maioria está sob detenção provisória, aguardando processo.

Trata-se de toda a hierarquia militar atingida pelo poder civil do islâmico moderado Recep Tayyip Erdogan. Por que Erdogan deu esse passo perigoso, atacando generais considerados intocáveis, quase acima da lei?

As causas dessa prisão em massa de militares estão relacionadas às denúncias do jornal Taraf segundo as quais, em 2003, o Exército preparou um complô, sob o nome de código sugestivo de “Balyoz” (martelo da forja) para derrubar o governo legal islâmico.

Uma série de provocações devia criar o caos: um avião turco seria abatido e a Grécia seria acusada. Ou então, bombas seriam detonadas em mesquitas. Pânico, terror, e o Exército tomaria o poder.

Por que um plano desses? A questão é que o Exército turco continua ferozmente ligado a um ideal de Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna, em 1923. Esse ideal é o laicismo: “O Islã, essa teologia absurda de um beduíno imoral, é um cadáver putrefato”, dizia Ataturk.

Ele havia expurgado a Turquia da religião, com a supressão dos tribunais religiosos e da poligamia, a adoção da escrita latina e das roupas ocidentais. Há um século, o Exército é o guardião desse dogma laico.

Instituição respeitada e temida, o Exército turco jamais hesita em intervir se ocorre alguma ameaça religiosa. Por três vezes, ele assumiu o poder (1960, 1971, 1980). Em 1997, obrigou o primeiro-ministro islâmico, Necmettin Erbakan, a se demitir. Em 2002, teve de aceitar um presidente islâmico, Abdullah Gul, e, com isso, um premiê islâmico, Erdogan.

Mas o Exército nunca relaxou a vigilância. Sua hostilidade ao religioso continua intacta. Desde 2002 os generais não comparecem a recepções oficiais para não ver mulheres cobertas com o lenço islâmico.

No ano passado, o Tribunal de Cassação - outra instituição próxima dos militares e hostil ao islamismo - tentou tirar do poder o partido islâmico, chamado de Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco) por atividades “antilaicas”. Quase deu certo.

Essa foi a razão pela qual Erdogan aproveitou a revelação sobre os complôs militares de 2003 para desafiar o Exército, tentar colocá-lo sob “controle”, e reforçar as “reformas democráticas” para acelerar a “europeização” do país e abrir as portas da União Europeia à Turquia.

Aí temos um paradoxo: o Exército, ao sonhar com um golpe de Estado e um regime de força, agiu contra a entrada da Turquia na União Europeia e isso em memória de Kemal Ataturk que, há um século, arrancou a Turquia do obscurantismo religioso e fez dela um país moderno, civil e laico, ao molde das nações europeias.

Inversamente, esse islâmico Erdogan quer controlar o Exército e empreender reformas democráticas para, justamente, fazer a Turquia muçulmana ser aceita pela União Europeia - essa UE composta por nações cristãs.

Para complicar, se alguns países europeus desejam acolher a Turquia para arrimá-la à Europa democrática, outros se recusam a aceitá-la sob o pretexto de que quatro quintos de seu território ficam na Ásia e ela é muçulmana. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, dá “urros de furor” ante a perspectiva de ver a cristã Europa invadida, graças à UE, por multidões vindas da Ásia - e muçulmanas.

Uma coisa é certa: do combate entre islâmicos moderados e generais laicos, uma das principais questões em jogo é justamente essa entrada - ou não - da poderosa Turquia e seus 70 milhões de habitantes na UE. TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

*Correspondente em Paris

Logorama

12:31 am

Curta de animação que levou o Oscar. Excelente!!!

Viva o Dia Internacional da Mulher!!! Viva todas as mulheres!!!

12:01 am

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Receita de Mulher (Vinicius de Moraes)

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.