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São as águas de março fechando o verão

14 de março de 2010 9:11 pm

Para fechar o verão fui passar este final de semana em Florianópolis, onde me hospedei no charmoso Hotel Sete Ilhas, em Jurerê, que é composto de sete sobrados em um terreno cujo “portão dos fundos” dá direto para a praia, o que faz dele um excelente lugar para descansar com tranquilidade.

Ali pertinho está o ótimo restaurante Toca de Jurerê, onde se pode ir a pé para boas refeições, coisa que fiz na última sexta-feira a noite.

No sábado o dia amanheceu lindo e isso me levou à praia para ler um bom livro e apreciar a beleza da paisagem, inclusive daquelas que são semoventes. Em seguida, quando o sol principiou a esquentar muito, fui até o centro da cidade e, no Mercado Público, fartar-me com as iguarias servidas no Box 32, dentre as quais ostras, bolinhos de camarão com catupiri, jamón ibérico de bellota (pata negra), camarões e chopes da Brahma muito bem tirados.

Depois disso, ali no Mercado Público mesmo, parei para ouvir um pouco de pagode no pátio e, em seguida, retornei ao hotel para pegar uma praia de final de tarde.

Ao anoitecer veio uma boa soneca e preparação para um inesquecível jantar no Café Riso, que sem dúvida nenhuma é atualmente um dos melhores restaurantes de Florianópolis. Lá me encontrei com meu amigo - e sócio na empresa Kerygma - Claudio Marlus Skora.

Finalmente, após a corrida de Fórmula 1 deste domingo, chegou a hora do retorno a Curitiba.

Enfim, foi um ótimo final de semana para fechar o verão, estação que encontrarei de volta em julho, quando viajarei para a Espanha para lecionar, participar de congressos e tirar uns dias de folga, porque ninguém é de ferro!

Para aqueles que pensam em desfrutar de Florianópolis, além das dicas que dei acima, farei abaixo uma lista de outros lugares que valem o passeio.

Considero o Hotel Sete Ilhas o melhor hotel de praia de lá, mas se você precisa estar mais próximo ao centro, a Quinta da Bica d’Água (próxima a UFSC) é muito charmosa. O Sofitel é bastante agradável e bem localizado, tanto quanto o Blue Tree. O Majestic é imponente, mas tal qual o Costão do Santinho, também famoso, não fazem muito o meu estilo, mas são opções que podem agradar a muitos.

Se você aprecia a gastronomia e não gosta muito de sair do hotel de praia em que se hospeda, em vez de ir a Florianópolis, vá, ali pertinho, ao hotel da Ilha do Papagaio, que faz parte da rede dos Roteiros de Charme. A comida de lá é espetacular; e as acomodações são aconchegantes.

Florianópolis possui diversas opções de restaurantes incríveis, sendo que vou descrever algumas delas além do Café Riso e da Toca de Jurerê, já citados acima.

No sul da ilha está o imperdível Ostradamus, que fica no pitorecsco Ribeirão da Ilha. Os preços são paulistanos, porém as opções de cardápio, com destaque às ostras, são maravilhosas.

Também no sul da ilha está o Bar do Arante, restaurante que fica no Pântano do Sul e que vale a viagem.

Os bairros de Sambaqui e de Santo Antônio de Lisboa, sendo um extensão do outro, são ótimos lugares para passeios e estão repletos de bons restaurantes.

Em Santo Antônio o Bate Ponto é uma ótima opção, mas o restaurante de lá que recomendo fortemente, tanto pelo local beira-mar (em “quintal” na Baía Norte) quanto pela comida, é o Pôr-do-Sol Açoriano.

Em Sambaqui há um restaurante português que é uma delícia, “O Lusitano“. Autêntica comida portuguesa, adega completíssima e sobremesas de perder o fôlego.

A grande referência de Sambaqui é o restaurante Gugu, imperdível, especialmente seu bolinho de siri.

No final de Sambaqui está o Bera d’Água, uma espécie de palafita comandada pelo Sêo Antônio. Um restaurante bem simples cuja localização não consegui encontrar na internet, a não ser em postagem deste mesmo blogue (ver aqui). Para chegar lá se deve ir até o final de Sambaqui e, assim que a via pavimentada se acaba e se inicia a estrada de terra poderá ser avistada a palafita bem a esquerda, sobre a baía.

No Cacupé há duas opções: o Zé do Cacupé e o João de Barro. Ambos estão diante da Baía Norte e a vista a partir do João de Barro é incrível. No João de Barro se deve ir para o jantar, onde, a meia-noite, há uma homenagem à Florianópolis com direito a canção de seu hino e a fogos de artifício. O Zé do Cacupé tem uma cozinha de frutos do mar encantadora.

No mesmo estilo do acima citado Café Riso se pode encontrar, na Lagoa da Conceição, o restaurante Um Lugar, que é agradável e bom.

Um ótimo lugar para lanchar na Lagoa é a Creperia Degrau, que é super aconchegante e fica no morro que leva à Igrejinha de Nossa Senhora da Conceição.

Um passeio muito agradável que leva a ótimos restaurantes de “sequência de camarão” é o que vai à Costa da Lagoa, que só é acessível de barco. Para isso há um “barco de linha” que se pega em um ponto que está sob a ponte entre a avenida das Rendeiras e o centrinho da Lagoa, ao preço da passagem de ônibus. Esse barco, após passar por alguns pontos no caminho, chega ao lugar em que estão os restaurantes, sendo que uma boa opção é o Restaurante Lagoa Azul.

Se você não estiver com paciência de pegar barquinho e, ainda assim, pretender entrar na orgia gastronômica que são as sequências de camarão, então, na Lagoa, o restaurante Casa do Chico é a opção; esqueça todos os demais restaurantes de sequência, ali está o melhor deles.

No centro da cidade se pode comer maravilhosamente bem na Toca da Garoupa, impecável no tratamento.

O Armazém Vieira é uma boa opção para comer excelentes petiscos e ouvir música ao vivo.

Bons petiscos também se têm no Emporium Bocaiúva, um ótimo lugar para happy hours para quem está hospedado no centro.

Por fim, como bar de praia, sugiro o El Divino Beach, em Jurerê Internacional. Serviço no interior do bar e na areia da praia, lounge music por todo o dia e um DJ que, no verão, anima a todos no final da tarde, local em que se tem a presença de mulheres maravilhosas.

O Kioske do Pirata, na Praia Brava, é famoso, mas aquilo lá é um lugar inviável, uma homenagem à irracionalidade, a não ser que você seja um masoquista apaixonado por congestionamentos.

Por enquanto é isso. Pode-se ver um pouco mais de minhas idas e vindas a Florianópolis, com outras dicas, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

No Hotel Sete Ilhas

No Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Hotel Sete Ilhas

Refestelado

Refestelado

Refestelado

Refestelado

Refestelado

Refestelado

Toca de Jurerê

Toca de Jurerê

Toca de Jurerê

Toca de Jurerê

Box 32

Box 32

Box 32

Box 32

Box 32

Box 32

Mercado Público

Mercado Público

Mercado Público

Mercado Público

Claudio Marlus Skora no Café Riso

Claudio Marlus Skora no Café Riso

Café Riso

Café Riso

Memória Roda Viva

4:08 pm

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A Fapesp apresenta a Memória Roda Viva, que permite acesso à transcrição de 575 entrevistas concedidas ao Programa Roda Viva, da TV Cultura. As transcrições podem ser obtidas aqui.

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Download para uso exclusivo não é crime

4:01 pm

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Do blogue Cultcoolfreak

Não é raro policiais invadirem empresas ou a incolumidade de pequenos empresários informais para extorquirem o comerciante, alegando a venda de produtos “piratas”. Bolsas, perfumes, calçados…

Alguém sempre me liga desesperado, dizendo que policiais estão querendo R$ 4.000,00.. R$ 6.000,00 para não realizarem a apreensão dos objetos que vendem em barracas de praça (ou mesmo de porta em porta). Sempre digo: pergunte ao doutor se o dono da marca apresentou queixa. É bom que você, amigo camelô, quando estiver em situação parecida, também saiba disso.

Há crimes contra os direitos autorais, estabelecidos no art. 184 do código penal, e os crimes contra marca, próprios da Lei 9.279/96

Crimes autorais atentam contra pessoa certa. O autor de livro, o músico… Para o processamento dessa ação, a polícia não precisa da autorização do artista. Basta apreender os produtos e dar seguimento ao seu ofício. Mas veja: mesmo nessa situação, o próprio código penal, no §4º do artigo acima diz que nunca, jamais, em nenhuma hipótese será crime quando você tem esses produtos, mesmos falsos, em único exemplar e sem intuito de lucro:

§ (…) [a pena do crime contra direito autoral] não se aplica quando se tratar de exceção ou limitação ao direito de autor ou os que lhe são conexos, em conformidade com o previsto na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, nem a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar, para uso privado do copista, sem intuito de lucro direto ou indireto

Portanto, as músicas/filmes que você baixa para gozá-los no íntimo de sua solidão são casos de atipicidade, não se configurando como ato ilícito. (Então, esqueça as propagandas dizendo que o download de música é equiparado ao roubo).

Agora, marcas são criações registradas no INPI, de propriedade exclusiva de empresas (e não artistas) cujo o autor é difícil de se identificar, ficando sua definição a cargo de outra lei, a Lei 9.279/96. Nisso se enquadram os slogans, logotipo, roupas, calçados, etc.

Para a polícia começar qualquer tipo de investigação nesse tipo de crime é imprescindível a manifestação da vontade da empresa lesada. A tal da queixa. A pessoa jurídica deve ir até o poder público e apresentar, formalmente, sua autorização para que qualquer ato de persecução criminal seja inciado. É na penumbra dessa confusão processual que os órgãos policiais atuam.

Caso prático desse assunto foi o tratado pelo STF, no HC 145.131/PR. Os homi abriram inquérito contra duas comerciantes que vendiam em sua loja camisetas com a estampa da Bela Adormecida. A Disney não havia pedido investigação alguma. Precisou o Excelsio Pretório intervir, depois de 9 anos, e dizer o óbvio:

A impetração afirma que o delito supostamente praticado pelas pacientes não é de violação de direito autoral, conforme exposto na exordial acusatória, mas de crime contra registro de marca. Dessa forma, como para a apuração deste último é indispensável a queixa, estaria configurada a decadência, pois passados mais de 9 anos da prática dos fatos, sem que a detentora do registro da marca tomasse qualquer providência. Requer, alternativamente, o impetrante, o reconhecimento da prescrição antecipada ou da atipicidade da conduta pela aplicação do princípio da insignificância.

Já pensou se a polícia resolve aparecer na galeria Pagé? Ainda bem que mantemos o endereço dela em segredo, né gentem?

Ferrovia Norte-Sul chega ao seu primeiro destino

3:46 pm

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Numa longa trilha de terra batida, que rasga o coração do Cerrado rumo à capital de Tocantins (Palmas), um exército de 2 mil trabalhadores corre contra o tempo para recuperar 24 anos de atraso na construção da Ferrovia Norte-Sul.

Nos próximos 4 meses, eles terão de superar chuvas fortes e um calor sufocante para instalar 139 quilômetros de trilhos, entre Fortaleza do Tabocão e Palmas. Até lá, muitas frentes de trabalho terão de dobrar o turno para evitar que, mais uma vez, o cronograma não vire peça de ficção.

Quando os trilhos chegarem a Palmas, o governo federal fechará a primeira fase da ferrovia, que um dia já foi chamada de “Transamazônica sobre trilhos”, uma alusão à rodovia que corta a Amazônia e até hoje não foi pavimentada.

O trecho de 720 km, entre Açailândia (MA) e Palmas, foi concedido à mineradora Vale, em leilão realizado em 2007. A empresa pagou R$ 1,48 bilhão para usar e administrar a malha por 30 anos. De acordo com o contrato, a estatal Valec, responsável pela construção, teria de concluir o trecho em dezembro de 2009.

A data poderia ser, legalmente, prorrogada até abril deste ano. Entretanto, mais uma vez o prazo não será cumprido. A nova data foi marcada para 30 de julho, como mostra o último balanço do PAC.

Uma das explicações está nas denúncias de irregularidades e retenção dos recursos pelo Tribunal de Contas da União (TCU), em 2008. Por isso, algumas construtoras decidiram paralisar a obra ou reduzir o ritmo de construção.

Resultado: a Valec rescindiu o contrato com algumas delas e declarou vencedor o segundo colocado. Foi o que ocorreu no último lote em construção até Palmas. Nesse trecho, alguns quilômetros já estão com trilhos instalados. Mas a grande maioria está em fase de terraplenagem e construção de pontes e viadutos. O presidente da Valec, José Francisco das Neves (o Juquinha), acredita que, se as chuvas contribuírem, o prazo será cumprido sem problemas.

Vistoria. Enquanto a reportagem do Estado percorria alguns trechos da ferrovia, no Tocantins, o executivo fez uma vistoria nas obras. De Guaraí a Miracema do Tocantins, viu de tudo. Trilhos prontos para receber o trem, áreas apenas abertas no meio do cerrado, pilhas de dormentes à espera de instalação e um intenso vaivém de trabalhadores em pátios de carga. Até Palmas são sete pátios, com a presença de várias multinacionais, como Bunge e Cargill.

A cada parada, Juquinha, um apaixonado por ferrovia, suspirava e dizia: “Esse Brasil é bonito demais. Olha só como está isso”, referindo-se ao pátio de Porto Nacional, que terá 8 passagens para trens e abrigará quase 20 empresas. Ele comemora o esforço que vem sendo feito para concluir a Norte-Sul, que em 24 anos construiu 24 km por ano.

A ferrovia foi lançada em 1986, pelo presidente da República José Sarney. No governo, não faltava explicação para justificar a importância da obra bilionária (de US$ 2,4 bilhões, sem as desapropriações) num momento em que o Brasil tinha dificuldades para honrar sua dívida externa. A promessa era não só integrar os povos do Norte, Nordeste ao Sul do País, como levar progresso ao cerrado brasileiro, considerado uma terra sem atrativos econômicos.

Crime nacional. Também não faltavam adjetivos para criticar o projeto entre os oposicionistas. Na época, a Norte-Sul foi classificada como um crime nacional, uma obra faraônica, a ferrovia dos marajás. Para dar mais munição aos adversários, o projeto entrou num lamaçal profundo, com acusação de fraudes na licitação das obras.

O resultado da concorrência foi publicado em uma reportagem na Folha de S. Paulo no dia da divulgação oficial. O processo foi anulado, mas o presidente Sarney não abriu mão do que era chamado de um capricho pessoal, e uma nova licitação foi feita.

Desde então, porém, muita coisa mudou, a começar pelo desenho da ferrovia. Além dessa primeira fase, que vai até Palmas, a Norte-Sul se estenderá até Estrela do Oeste (SP), passando por Anápolis e Rio Verde, em Goiás. Há planos também de levar a ferrovia até Belém (PA), no que somaria quase 3 mil km. O traçado original previa ligação entre Açailândia (MA) e Brasília (DF), num total de 1.600 km.

A alteração no traçado também significou elevação dos custos, para algo em torno de R$ 6,5 bilhões, sendo R$ 4,89 bilhões na segunda fase do projeto, que vai de Palmas a Estrela do Oeste.

De acordo com dados do Ministério dos Transportes, entre 1987 e 2009 o governo já colocou R$ 3,5 bilhões (em valores atuais) na Norte-Sul.

Agronegócio. Outra mudança ocorrida nos últimos 24 anos foi a importância que a ferrovia ganhou com o boom do agronegócio. De obra que transportaria nada para o nada, ela se transformou num estratégico corredor de exportação para os produtores de soja, milho, açúcar e etanol, entre outros.

Até 2013, a Vale projeta carregar 8,8 milhões de toneladas por ano. Hoje, transporta apenas 1,7 milhão de toneladas nos 215 km em operação.

A segunda fase da Norte-Sul terá um modelo de concessão diferente daquele adotado entre Açailândia e Palmas.

Baseado no modelo espanhol, a Valec será a concessionária que vai administrar a malha. Ela fará leilões para licitar o direito de passagem para várias empresas. Na verdade, concederá uma capacidade de transporte naquele trecho. “Com o dinheiro arrecadado continuaremos a expandir a ferrovia pelo Brasil”, diz Juquinha.

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Ação de Lula foi hipócrita, diz Fariñas sobre críticas

3:39 pm
Guillhermo Fariñas

Guillhermo Fariñas

Dissidente cubano lembrou que presidente também já foi preso político e já fez greve de fome

O dissidente cubano Guillhermo Fariñas, que faz greve de fome há quase 20 dias, criticou o presidente Lula e classificou suas declarações como hipócritas.

Lula comparou presos políticos a criminosos e foi criticado por não tocar no assunto dos direitos humanos durante sua visita a Cuba, no fim de fevereiro. Fariñas lembrou que o presidente já foi preso político e, assim como os detidos em Cuba, já fez greve de fome.

Na noite do sábado, 13, no hospital em que está desde quinta-feira, em Santa Clara, Fariñas falou por telefone ao Estadão.

ESTADO: Qual seu estado de saúde?

Estou internado com pressão em 9 por 6. Muito cansado e com sono. A cabeça dói muito quando sento. Ontem, consegui dormir bem, mas não sei como vou acordar. Cheguei a estar 36 horas sem urinar. O principal problema é a alimentação intravenosa. Já recebi sete picadas nos braços e minhas veias colapsaram. Agora, os médicos tentam pelo pescoço.

ESTADO: O sr. já fez 22 greves de fome. Esta é a última?

Como falo com um brasileiro, posso dizer que a bola está com o governo cubano. Há alguns dias o Granma escreveu meu epitáfio, lavou as mãos para a minha morte e me chamou de chantagista. Quero a libertação dos 26 presos políticos doentes prestes a morrer. A ação de Lula (o presidente brasileiro visitou a ilha no fim de fevereiro) foi hipócrita, pois ele já foi preso político em greve de fome.

ESTADO: Guarda rancor de Lula, que comparou presos políticos a criminosos comuns e criticou o recurso da greve de fome?

Lula é um oportunista de memória curta. Está dando apoio a gente que está há 52 anos no poder, Logo ele, que foi um perseguido político durante a ditadura brasileira, Se tivesse chegado ao poder nos anos 60, talvez tivesse feito como os Castros. Ele deveria saber que depois da Guerra Fria já não há espaço para o poder longe do povo. A minha morte é a maneira de mostrar que não sou mercenário.

ESTADO: O governo brasileiro diz que sem o embargo dos EUA não haveria preso político. É verdade?

É uma grande mentira. Aqui se compra na área livre do Panamá todo tipo de mercadoria americana. As remessas de Estados Unidos não são bloqueadas. Os Estados Unidos nos vendem comida.

ESTADO: Esperava a repercussão mundial que teve sua greve de fome?

Quem me diz é você. Aqui na ilha não temos a noção exata. Fico contente que o Parlamento brasileiro tenha aprovado uma moção contra a posição cubana. Agradeço ao povo do Brasil.

Leis “para inglês ver”

3:26 pm

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Por José Paulo Kupfer

O debate sobre cotas raciais nas universidades no STF, em muito boa hora promovido pelo ministro Ricardo Lewandowski, para instruir um futuro julgamento de sua constitucionalidade, tem propiciado excelentes subsídios para que os cidadãos possam se posicionar sobre o tema polêmico. Mas, tem também dado passagem a outras reflexões.

Pena que a reprodução dos argumentos expostos nas audiências públicas em Brasília não seja tão disseminada quanto seria desejável.

A apresentação do historiador Luiz Felipe de Alencastro, por exemplo, ficou até aqui restrita à transmissão da TV Justiça e à blogsfera. Professor titular de História do Brasil na Universidade Paris I – Sorbonne, Alencastro é um especialista no tema da escravidão no Brasil. É dele “O Trato dos Viventes” (525 pág., Companhia das Letras, 2000, R$ 69,50), uma obra de referência para os estudos mais modernos do tema.

Chama a atenção, na apresentação de Alencastro, o registro de que, no Brasil, entre 1831 e 1888, 760 mil negros e seus descendentes foram mantidos em regime de escravidão, ainda que, legalmente, fossem livres. Promulgada sob pressão da Inglaterra, a lei de 7 de novembro de 1831 determinava que fossem livres todos os escravos que entrassem no Brasil vindos de fora, inviabilizando, em teoria e na letra legal, o tráfico negreiro.

Mas foi, literalmente, uma lei “para inglês ver”. Desembarcados em portos clandestinos, os africanos que aqui chegaram depois de 1831 continuaram escravizados. Os que se rebelavam eram considerados fugitivos e, como tal, punidos, por lei, com açoite e tortura. Uma combinação perversa de violência e impunidade, sob as vistas grossas da sociedade, em resumo, tornaram possível a perpetuação, por mais de meio século, de uma flagrante ilegalidade.

Alencastro remete para aquele período histórico parte da responsabilidade pela a situação de faroeste que hoje nos empurra para guetos fortificados, pretensamente protegidos da violência do espaço público urbano, e a regra da impunidade que orienta um amplo leque de decisões, inclusive a do cotidiano pessoal, tanto no âmbito público quanto no âmbito privado. Dos inúmeros pequenos delitos do dia-a-dia ao cinismo da prática aberta de ilegalidades na vida política, passando pela corrupção disseminada nas relações público-privadas, tudo transcorrendo sob as vistas grossas da sociedade, nada, nos dias de hoje, difere muito da norma moral em vigor no Segundo Reinado.

Quando, por exemplo, assistimos o presidente Lula, sua candidata, ministra Dilma Rousseff, e o principal opositor, governador José Serra, de mangas arregaçadas em campanha eleitoral aberta, muito antes do início do prazo estipulado em lei, não é difícil compreender que estamos diante de um fenômeno entranhado em nossa personalidade social. Idem quando, sem tirar nem pôr, no caso de um outro exemplo emblemático, circulamos com nossos carros protegidos por películas plásticas de segurança com porcentual de transparência fora dos limites legais, mas garantidos por “selos oficiais” falsos, que simulam conformidade com a lei.

Leis “para inglês ver” é o que não faltam na nossa estrutura institucional. Vistas grossas em relação a ilegalidades consentidas, que garantem nosso pé no atraso social, infelizmente, também não.

Sobre o tema, ver mais informações aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O pecado original de nascer mulher

3:21 pm
Xinran Xue

Xinran Xue

A mais influente escritora chinesa conta novas histórias de abandono e solidão numa China ainda obcecada pela política do filho único

Se dos livros frágeis não se conta o final, dos marcantes, muito menos. Por isso não daremos a história de Little Snow, a filha que a jornalista Xinran Xue foi impedida de adotar quando ainda morava na China. Little Snow fecha a mais recente obra de Xinran Xue, Message from an Unkown Chinese Mother, que será publicada pela Companhia das Letras neste semestre como As Filhas sem Nome. Também por respeito à escritora mais crítica da política chinesa do filho único, Little Snow permanece em segredo aqui. Durante esta entrevista, dada por celular de Santa Fé (EUA), Xinran se emocionou quando mencionamos a criança. Tanto se emocionou que se calou.

Ela não é disso. Aos 52 anos, Xinran está em turnê para divulgar dez histórias de mulheres chinesas que penaram sob a lei que valoriza quem tem um filho homem e inferniza quem insiste em criar uma menina. Devido à restrição, milhões de garotas ainda são abortadas, outras são afogadas em penicos, outras nem chegam a se desenvolver no útero depois de um ultrassom certeiro e cerca de 120 mil são adotadas anualmente mundo afora, enquanto mães biológicas tentam o suicídio para sufocar o remorso. Às que resistem, resta pedir a Xinran que oriente as mães de nariz grande (as mulheres ocidentais) para que carreguem seus bebês apoiados no braço esquerdo, “assim a menina ficará mais perto do coração”. Xinran, ela própria, mal conviveu com os pais, que a deixaram aos cuidados dos avós. Mudou-se para Londres, onde mora com o filho, de 21 anos, e o marido inglês, também seu editor. O acordo entre os dois é mudar a História. De que forma? Dando voz às vítimas e aos perdedores. E também às mulheres.

Em seu último livro, ‘Message from an Unkown Chinese Mother’, a senhora conta dez histórias de mulheres, entre elas chinesas que abandonaram suas filhas por causa da política do filho único, outras que foram abandonadas também devido a essa lei. Qual dessas histórias mais a tocou?

Em 20 anos de pesquisa, conheci muitas mulheres, mas escolhi entrevistar as que vivem no campo para entender o que aconteceu na China desde a predominância da população no meio rural até sua migração para as cidades. É muito difícil dizer qual delas me tocou mais porque todas foram uma grande lição pra mim. Cresci na cidade grande, era muito ingênua, mesmo aos 30 anos. Achava que todos na China viviam como eu vivia. Depois que conheci essas histórias, elas ainda me causam pesadelos. Na noite passada, acordei às 2 da manhã com a imagem da garotinha que vi sendo abandonada pela família na estação de trem. Ela devia ter 1 ano e meio, era quase meia-noite, não podia acreditar naquilo. Acordei pensando: “Será que sobreviveu?”

A senhora também teve uma infância longe dos seus pais. As mulheres presentes no seu livro são uma forma de tentar entender o comportamento da sua mãe em relação ao seu abandono?

Minha mãe não me abandonou. Ela era muito culta, falava quatro línguas, mas foi doutrinada para colocar o partido em primeiro lugar, o país em segundo e, então, as pessoas. Qualquer um que valorizasse primeiramente os próprios filhos era considerado capitalista. Minha mãe acreditava nisso. Três meses atrás tentei falar com ela. Eu queria saber se realmente se importava com o que tinha acontecido comigo. Ela ficou brava com a minha primeira pergunta, então achei melhor não insistir. Mas a verdade é que sinto falta dessa resposta, todas sentem. Quando viajo, é comum encontrar chinesas adotadas que querem ter notícias de suas mães. Não importa a idade ou a língua que falem, sempre perguntam a mesma coisa: “Por que minha mãe não me quis?”

Quanto um casal estrangeiro costuma pagar por uma menina chinesa?

A menina custa de US$ 200 a US$ 2 mil. O preço dos meninos fica entre US$ 20 mil e US$ 50 mil. A taxa internacional e de registro cobradas desses pais estrangeiros varia entre US$ 3 mil e US$ 5 mil.

Há comércio de meninos também?

Todo ano, cerca de 20 mil meninos desaparecem para compor a árvore genealógica de famílias que não conseguem conceber um varão.

O tráfico de noivas e a violência sexual aumentaram na China?

Depende de onde você está, se no campo ou nas cidades. Nas cidades existe hoje um controle maior das autoridades, a população tem mais conhecimento e a Justiça é mais eficaz. Mas, se você for para o campo, esse tipo de violência ainda é costume da população e a morte de meninas é vista como parte da administração da casa. Quando me perguntaram: “Como você ‘lida’ com as meninas?”, eu não entendi. Não sabia o que responder. Disseram, com surpresa: “Você é uma mulher e não sabe ‘lidar’ com as meninas?”

A senhora quer dizer matar as meninas?

Sim. Existe um livro de imagens antigas da China, de Ren Ming , O Sonho das Mulheres. Ele ensina os homens a abusar das mulheres e domá-las durante o sexo, assim como explica como elas podem engravidar de meninos. Também ensina a lavar bebês. Os meninos são lavados na primeira água. Na água já utilizada, as meninas são mergulhadas e mortas. Ainda hoje, em certas regiões da China, a morte de meninas é parte da cultura de diferentes formas.

O índice de suicídios de mulheres na China é um dos mais altos do mundo, especialmente no campo. Por que isso acontece?

De acordo com um relatório das Nações Unidas de 2002, cinco países tinham índices muito altos de suicídio, entre eles a China, onde é mais frequente entre as mulheres. Pelas minhas pesquisas isso não surpreende, porque nos anos 80 a maioria das chinesas não sabia a diferença entre a vida na cidade e a vida no campo. Quando migravam para o perímetro urbano nos anos 90, acordavam e passavam a sentir o choque cultural. Em uma das histórias do meu livro, uma mulher trabalhava em um pequeno restaurante. Sempre que o restaurante fazia uma festa de aniversário para uma menina, ela tentava se matar. Quando a entrevistei, essa mulher me perguntou: “Por que as meninas da cidade podem ter uma vida bonita, como os meninos? Por que minha filha não teve vida para viver?” Ela a tinha matado e isso se tornou insuportável.

A senhora acha que a situação das mulheres está melhorando, na China e no mundo?

Isso está acontecendo na China. Desde 1949, o Partido Comunista fez uma série de coisas estúpidas, mas entre as boas que realizou para a China está a ajuda às mulheres para se libertarem dos maridos e dos homens em geral. Elas puderam ascender na sociedade. Falo daquelas que vivem nas cidades, não das que moram no campo. O problema é que, como acontece na maioria dos países, sempre acreditamos que a libertação feminina pede uma atitude das mulheres e nunca pensamos que os homens precisam de educação. Eles precisam entender que as mulheres necessitam ser libertadas por eles. Nesse sentido, fizemos bastante na China, mas não existe uma única China. Há mais de 500 Chinas diferentes, da mais moderna à mais rudimentar. É por isso que sempre acreditei que a China deveria ser contada por diferentes vozes, em diferentes cores. Pelo que vi em minha viagem ao Brasil (em 2009, para participar da Festa Literária Internacional de Paraty, Flip), senti que as mulheres talvez tenham uma vida melhor aí. Mas, no interior profundo, talvez haja em relação a elas a mesma falta de conhecimento, a mesma crença no tradicional.

No Brasil, as mulheres estão entre os mais letrados. Ainda assim, ganham 30% menos que os homens fazendo o mesmo serviço e ocupam só 56 dos 594 lugares no Congresso. Como resolver isso?

Acho que o governo deveria importar-se com a qualidade de vida da população, com a qualidade de vida do País. Ele deveria tratar seriamente as mulheres, os modelos de família, e dar a elas não apenas educação, mas suporte familiar.

Ser um país abastado ajuda? Ou seja, é automático que, à medida que um país se torna mais rico, maior a possibilidade de uma relação igual entre homens e mulheres?

Nos países desenvolvidos, onde as mulheres têm mais chance de se educar e dividir conhecimento com outras, elas se tornam mais autoconfiantes. Nos países em desenvolvimento, em que precisam lutar para sobreviver, não sobra tempo nem energia nem meios para aprender mais nada. Estão exaustas para lidar com a vida diária. Em Cingapura, o governo implantou nos anos 60 uma política muito forte para levar adiante o planejamento familiar. Se a cingapuriana quiser ter mais filhos, precisa ter mais condição para tanto. Caso contrário, pode ter no máximo duas crianças. Portanto, depois de algumas gerações, a qualidade de vida em Cingapura melhorou enormemente. Mas isso não é democracia.

A política do filho único continuará indefinidamente?

Não tenho certeza. Alguns meses atrás, as autoridades de Xangai desafiaram o governo central. A cidade mais desenvolvida da China se vê no direito de ter mais filhos. Em janeiro, a maior província chinesa, Hunan, também desafiou Pequim dizendo que a política do filho único prejudicou a noção básica de família: muitos jovens não têm ideia do que é ter um irmão, um tio, uma tia. Mas a política do filho único ainda continua vigente, em parte por causa da corrupção, em parte porque os camponeses sabem burlar essa política. E, em alguma medida, a política do filho único também pode ser boa para o mundo, considerando-se o aquecimento global, o crescimento da população, o esgotamento dos recursos naturais. Na Índia, 30% da população tem menos de 30 anos. Isso significa que, nos últimos 30 anos, a população da Índia dobrou. Se todos os países dobrarem sua população nessa velocidade, muito rapidamente acabaremos com a espécie humana.

A senhora busca ajudar crianças chinesas com problemas por meio de uma fundação, a Mother Bridge of Love Foundation. Quais os desafios que enfrenta?

Começamos com esse trabalho em 2004 porque, desde então, 120 mil garotas chinesas foram adotadas em 27 países. Na questão da adoção internacional - e não importa de qual país se fala -, estamos muito atrasados. Não há muito a fazer depois de a adoção concluída. A família que adota não recebe apoio social. O que fazemos é tentar ajudar esses casais a conhecer as cidades de origem das filhas, fazer com que as crianças criem amizades na China. Também ajudamos crianças deficientes que foram deixadas para trás. Tentamos dar a elas assistência médica, computadores, aulas de inglês. Montamos uma biblioteca com livros ilustrados sobre história, paisagens, vida diária, para garotas que nunca tiveram chance de frequentar escola, já que a população local não as matricula, mesmo em escolas públicas. Querem as meninas para cuidar da casa. Os garotos vão para as cidades, enquanto elas são deixadas para trás para que casem. Suas famílias precisam das garotas trabalhando desde cedo. Se você vai para o campo, vê muitas delas flanando, enquanto os meninos estão na escola.

Como os acadêmicos chineses veem seus livros?

Quando publiquei meu primeiro livro, em 2002, muitos chineses foram contra ele. Não acreditam que a China tenha um lado pobre, nunca viram nada como aquilo que retratei. Mas agora mais e mais chineses acreditam em mim, porque viajam para o campo. Alguns estudaram no Ocidente e lá ouviram coisas que nunca tinham ouvido. Mais de 200 universidades usam meus livros como referência e fonte de pesquisa e mais de 100 países os incluíram no segundo grau para estudos sobre raça.

A senhora acha que parte dessa crítica se deve ao fato de os chineses terem problemas para enfrentar seu passado?

Eu achava que somente a China tinha esses problemas, mas agora vejo que isso acontece com muitos países. Na Alemanha, muitas mulheres silenciaram sobre a 2ª Guerra até dez anos atrás. Sentiam-se como assassinas, perdedoras, sem poder expressar seus sentimentos. As chinesas que aparecem nos meus livros são todas muito simples, nunca tiveram a chance de serem ouvidas, nunca tiveram o direito de ter a roupa ou a comida que preferiam. Não são nada. Muitos chineses me disseram: ‘Elas são gente do povo, por que escrever sobre elas?” Só muito recentemente perceberam que a História não deve ser escrita apenas pelos ganhadores. Ela deve dar voz às vítimas e aos perdedores. Deve dar voz às mulheres.

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Jorge Amado volta aos cinemas em três filmes

9:55 am

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“Quincas Berro d’Água” estreia em maio e “Capitães da Areia”, em setembro

No próximo semestre, o diretor e roteirista Marcos Jorge começa a rodar “Os Velhos Marinheiros”, que só deve estrear em 2011

Por FERNANDA EZABELLA

Em 1976, três filmes baseados na obra de Jorge Amado foram feitos pelas ruas de Salvador, “Tenda dos Milagres”, “Os Pastores da Noite” e “Dona Flor e seus Dois Maridos”, até hoje recordista de público do cinema nacional. O final dos anos 2000 também ficará marcado por outras três produções: “Quincas Berro d’Água” e “Capitães da Areia”, filmados na mesma cidade em 2009, e “Os Velhos Marinheiros”, a ser rodado no segundo semestre, com direção e roteiro de Marcos Jorge (”Estômago”).
“Quincas”, que estreia em maio, é o segundo filme de ficção dirigido por Sérgio Machado (”Cidade Baixa”), que diz dever a Jorge Amado “o privilégio de trabalhar com cinema”. Foi ele quem o apresentou a Walter Salles, seu parceiro de muitos anos no cinema. Já “Capitães” é o longa de estreia de Cecília Amado, cujo avô Jorge apoiou sua carreira e revelou seu desejo de ter sido cineasta.
“Assim como em 1976, justamente o ano em que nasci, duas equipes estavam em Salvador produzindo filmes baseados em Jorge Amado, mas não se encontraram”, conta Cecília.
Machado, 41, escolheu o ator Paulo José para fazer Quincas, o ex-funcionário público que vira o rei dos vagabundos. Ao morrer, seus amigos boêmios decidem levar o cadáver para uma última farra, que acaba em alto-mar, num saveiro, no meio de uma tempestade.
“Boa parte desta cena foi feita com computação gráfica”, conta Sérgio, baiano como Jorge Amado (1912-2001). Os dois se conheceram em 1993, quando o escritor pediu para ver seu primeiro curta, “Troca de Cabeças”, que mandou a Salles. Em homenagem, Sérgio deu o nome de Jorge ao seu filho.
Para adaptar “Quincas”, o diretor e roteirista diz que foram necessárias “várias concessões”, já que a história original é muito curta. Novos personagens foram adicionados, como a “espanhola fajuta” interpretada por Marieta Severo, interesse amoroso de Quincas.
Há também perseguições cômicas da família atrás do corpo e cenas dos bebuns escalando um prédio com o amigo morto. “É uma coisa de comédia física, tipo Buster Keaton, Chaplin. São coisas que não estão no livro, mas que poderiam estar”, diz Sérgio. “É possível ser fiel a uma obra sem ser reverente, mas entendendo o livro e dialogando com o autor.”

Capitães e marinheiros
Cecília Amado, carioca de 33 anos, concorda com Sérgio e fez uma adaptação bastante pessoal de “Capitães da Areia”, sobre um grupo de meninos que vivem nas ruas de Salvador. É o livro mais vendido de Jorge Amado, escrito nos anos 30.
“Tentei ser fiel à poesia do Jorge Amado. O Jorge que eu conheci era diferente do Jorge de 24 anos”, diz Cecília. “Ele mudou de uma ideologia radical e comunista para uma outra mais social e humanista.”
No livro, o protagonista Pedro Bala vira um líder operário no final. No filme, a diretora se concentra em apenas um ano na vida do grupo, quando eles deixam de ser crianças. Pedro Bala também não é loiro, como no livro, e a trama foi dos anos 30 para os 50. “Capitães” tem estreia marcada para setembro.
Também no segundo semestre iniciam as filmagens de “Os Velhos Marinheiros”, produzido pela Total Filmes e Warner Bros. A escolha das locações será no próximo mês e deverá envolver mais de um Estado para dar conta das histórias fantásticas do capitão protagonista.

Aposentadoria compulsória: punição ou prêmio?

9:48 am

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Por Ophir Cavalcante*

AS RECENTES e pedagógicas decisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de afastar magistrados que deixaram de observar os mais elementares deveres funcionais e incorreram em práticas de corrupção e malversação de dinheiro demonstram a maturidade alcançada por esse importante órgão de controle externo. Ao mesmo tempo, nos levam a refletir acerca da aposentadoria compulsória concedida a magistrados e membros dos tribunais de contas envolvidos com essas situações. No mínimo, despertando certo grau de perplexidade.
Como está expresso no título deste artigo, é castigo ser aposentado e continuar a receber em casa proventos pagos com recursos públicos após cometer esses crimes? Ou terá sido uma bênção? Em busca de uma resposta digerível, não é à toa que o tema tenha se inserido no Parlamento, a partir de projeto de emenda constitucional apresentado pela senadora Ideli Salvatti (PEC 83/09) e que está prestes a ser analisado no Senado Federal.
Ao decidir dessa forma, o CNJ nada mais fez do que seguir a “penalidade” prevista no inciso VI do artigo 42 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional e lei complementar nº 35/79. Editada em um momento singular das instituições, a chamada Loman procurou preservar a independência e a autonomia dos integrantes do Poder Judiciário contra atos arbitrários do passado. A realidade hoje é outra.
O magistrado age com total liberdade e tem a seu favor o preceito constitucional que lhe confere o direito à vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos (artigo 95 da Constituição Federal), justamente os obstáculos à punição daqueles que incorrem em faltas graves no exercício de suas atividades.
Esses obstáculos se apoiam em dois pilares: 1) a vitaliciedade só pode ser afastada por sentença transitada em julgado; e 2) a previsão da aposentadoria compulsória, ou seja, direito à percepção dos subsídios integrais ou proporcionais (dependendo do tempo de serviço), autorizado pelo disposto no artigo 93, VIII, da Constituição, em conjunto com o contido no inciso VI, do artigo 42, da Loman.
De fato, a previsão em causa não encontra base racional lógica. É, antes, uma construção que foge ao razoável e agride o bom senso, configurando violação aos mais elementares preceitos de moralidade pública e administrativa que a Constituição de 1988 expressamente impõe. Sua derrisória e final mensagem é que brasileiros, sobretudo os que integram uma casta privilegiada, após banquetear-se em práticas criminosas, serão “punidos” com régia aposentadoria, mesmo que não preencham os requisitos legais para tanto.
Se o exemplo é bizarro, o que dizer daquele magistrado honesto que tenta, voluntariamente, se aposentar com proventos proporcionais ou integrais? Não, esse não pode. O benefício só alcança aquele que praticou ato ilícito a juízo do próprio tribunal ou do CNJ, depois de submetido ao amplo direito de defesa em processo legal administrativo disciplinar. Vá explicar…
Por outro lado, ao fazer uma comparação entre os magistrados e os demais agentes públicos, não se vislumbra idêntico tratamento ao presidente da República em caso de crime de responsabilidade (Poder Executivo) nem aos deputados e senadores em caso de processo político-parlamentar (não judicial, portanto), muito menos aos servidores em geral, que podem ser demitidos a bem do serviço público sem direito nenhum.
A “punição” também agride o próprio sistema contributivo de aposentadoria a que estão submetidos todos os servidores públicos, incluindo os magistrados e membros dos tribunais de contas. Nele estão previstas a aposentadoria por invalidez permanente, a aposentadoria compulsória (70 anos) e a aposentadoria voluntária, desde que cumpridos ao menos dez anos no serviço público e cinco anos no cargo efetivo de final de carreira.
Nunca, porém, a da aposentadoria compulsória com proventos proporcionais em decorrência de penalidade aplicada em processo administrativo-disciplinar. Como se vê, manter a aposentadoria compulsória nesses casos é afirmar, em alto e bom som, que nem todos são iguais perante a lei. É indigno, injusto, imoral. Agride a isonomia contida na norma constitucional.
Configura privilégio, descolado do conceito de cidadania. Reformado e revigorado nos últimos anos, é chegada a hora de o Judiciário brasileiro provar sua maturidade e enfrentar essa questão com coragem e determinação, nos fazendo crer que a velha e reconfortante máxima “a lei é para todos” ainda não nos abandonou. A sociedade agradece.

*OPHIR CAVALCANTE, 49, é presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)

Bill Clinton en zapatillas

9:21 am

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El periodista Taylor Branch grabó durante ocho años a su amigo el presidente de EE UU Bill Clinton sus comentarios más personales sobre el ejercicio del poder. Un libro, editado por RBA, recoge esas conversaciones con jugosos detalles. Ofrecemos un adelanto en exclusiva.

Por JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

Una medianoche de septiembre de 1993, Bill Clinton dio instrucciones a su consejero de seguridad, Anthony Lake, para que llamara al embajador de Israel en Washington: “Quiero que esperes por lo menos una hora. Que sea lo suficientemente tarde para estar seguro de que le despiertas, porque entonces se dará cuenta de que es importante. Dile a Rabinovich que el presidente está preocupado por las informaciones sobre que el primer ministro cree que no va a ser bienvenido. Dile de la forma más enérgica posible que por supuesto que será bienvenido, y que creo que es una buena idea que venga”.

Clinton había ganado las elecciones presidenciales el 3 de noviembre de 1992 y menos de un año después preparaba la Casa Blanca para la firma del tratado entre israelíes y palestinos macerado durante las conversaciones de paz de Oslo. De ellas había salido una declaración de principios en la que las dos partes reconocían mutuamente su existencia por primera vez, la OLP se comprometía a ocuparse de la seguridad en los territorios ocupados e Israel les concedía cierta autonomía. La ceremonia estaba fijada para el 13 de septiembre, pero corría el riesgo de quedar descafeinada por las exigencias de ambas partes. Hicieron falta ensayos y horas de diplomacia de pasillo para orquestar el espectáculo que culminó con el apretón de manos entre Isaac Rabin y Yasir Arafat con Clinton guardándoles las espaldas en el jardín.

Los miembros de su gabinete habían aconsejado al presidente que, ante el incierto futuro de los acuerdos, mantuviera un perfil bajo y limitara la ceremonia a la categoría de los ministros de Exteriores que iban a firmar el documento. Así, el compromiso quedaría por escrito, pero sin el simbolismo de los dos líderes máximos. Clinton, sin embargo, insistió en que ese simbolismo era fundamental y lanzó su cebo por el camino de en medio diciendo que cada parte podía enviar al representante que quisiera. “Eso dio a Arafat un espacio lo suficientemente grande como para meter por él un camión”, recordó más tarde Clinton.

El camión era él mismo: el líder de la OLP dijo rápidamente que acudiría, pero Rabin se hizo de rogar, dividido entre la presión que le imponía el gesto del dirigente palestino, que reclamaba un contrapeso de su nivel, y el temor de que una foto con Arafat le pasara factura: las leyes israelíes prohibían entonces cualquier contacto con representantes de la OLP por considerarlos terroristas. La última excusa de Rabin era el temor de no ser bien recibido en Washington, pero Clinton la desactivó con aquella calculada y teatral llamada nocturna de su consejero. “Al fin y al cabo, no tenemos que firmar una paz con nuestros amigos”, terminaría diciendo el primer ministro hebreo.

Una vez en la Casa Blanca, y antes de salir al jardín el 13 de septiembre, se instruyó diplomáticamente a los participantes para que pusieran la mano izquierda en el hombro derecho de su interlocutor en un gesto de amistad que, sin ofender a nadie, tuviera un efecto claro: impedir el acostumbrado beso y abrazo de los árabes. Ya antes, las dos partes habían amenazado con irse. Los israelíes, si Arafat llevaba pistola o alguna insignia militar. Los palestinos, si en el acuerdo no se cambiaba “equipo palestino” por Organización para la Liberación de Palestina. Con todo, el penúltimo momento de incomodidad se produjo minutos antes de la ceremonia pública. Ambas delegaciones se encontraron en el Salón Azul, pero sin dirigirse la palabra. Clinton pidió al fotógrafo de la Casa Blanca que dejara la habitación para facilitar un saludo informal y envió al vicepresidente, Al Gore, a romper el hielo. Gore volvió diciendo que Rabin no le había hecho “ni caso”. Cuando el propio Clinton trató de presentar a los dos líderes, Rabin se llevó las manos a la espalda y dijo escuetamente: “En la ceremonia”.

Clinton recordaría luego que, paradójicamente, los dos líderes transmitieron en sus alocuciones algo distinto a lo que los preliminares parecían presagiar. Mientras Rabin habló en tono de profeta existencialista -”basta de sangre y lágrimas, basta”-, Arafat dejó a un lado su buen inglés para pronunciar un discurso en árabe agarrotado por la impresión que podía causar entre los suyos. Según el presidente estadounidense, al líder palestino le gustaba aparecer en televisión, pero no tenía muy claro para qué. Al israelí le ocurría justo lo contrario.

presidente entre 1993 y 2001, William Jefferson Clinton entró en la Casa Blanca con 47 años y salió de ella con 54. Había derrotado a Bush padre y vio cómo su delfín, Gore, era derrotado por Bush hijo. Desde el primer día de su mandato tuvo un ojo en la historia, o, mejor, en el modo en que la historia pondría sus ojos sobre él. Por eso, antes incluso de tomar posesión, encargó al historiador y periodista Taylor Branch la grabación de una serie de conversaciones en las que él se encargaría de comentar periódicamente los principales acontecimientos de su presidencia. Clinton y Branch no eran dos desconocidos. Ambos habían convivido a principios de los setenta, en los años de lucha por los derechos civiles y de oposición a la guerra de Vietnam. “Alguien que había sido compañero mío de piso y a quien había perdido la pista era presidente de Estados Unidos”, dice Branch, experto en el legado de Martin Luther King y consciente de que su gran ventaja era a la vez su gran limitación: “Nuestra amistad truncada hacía que Bill Clinton fuera para mí un misterio mayor que si nunca lo hubiera conocido”.

cuando el presidente tenía un hueco en su agenda, Branch recibía una llamada y conducía desde Baltimore hasta la capital armado con dos grabadoras. Terminada cada sesión, el periodista entregaba las cintas a su interlocutor, que las ponía a buen recaudo. “Las grabaciones en la Casa Blanca”, admite, “han sido un tema tabú desde que su veracidad sin tapujos expulsó a Richard Nixon del cargo en 1974″. Watergate aparte, las muchas cintas que grabaron los presidentes durante la guerra fría siguen “sin conocerse o abandonadas”. De vuelta en su coche, a veces de madrugada, Taylor Branch grababa sus propias impresiones de la jornada. De estas últimas ha salido Las grabaciones de Clinton. Lidiando con la historia en compañía del presidente, un libro que RBA publica la próxima semana en España.

Cuenta Branch que su intención ha sido retratar la forma “de presionar, de intentar seducir, de ser presidente” de Bill Clinton, un hombre que en su libro aparece con los grandes de la Tierra, pero también en chándal, ironizando con el hecho de que por primera vez ganaba más que Hillary, corrigiendo los deberes de matemáticas con su hija Chelsea, combatiendo la alergia que le producían los adornos navideños, enfermo de la espalda, devoto del saxofón, los naipes, el baloncesto y el golf -un deporte que aborrece su esposa, que asiste en bata a alguna de las sesiones- y empeñado en sortear su reputación de inculto reflexionando sobre el sida en la película Philadelphia o el Holocausto en La lista de Schindler.

la madre de clinton estaba embarazada de él cuando su padre, alcohólico, murió en un accidente de coche. Por eso siempre ha dicho que los hombres de su familia duran poco. El mes pasado, el ex presidente fue operado con urgencia del corazón y al salir del hospital recomendó hacer deporte y comer sano: “Yo me equivoqué, tomé muchos fritos”. Las arterias (y los fritos) le habían jugado una mala pasada justo cuando había sido nombrado enviado especial de la ONU para Haití tras el terremoto de enero pasado. Ese nombramiento sólo sorprendió a los que no conocían el empeño que, contra viento y marea, había puesto en diciembre de 1993 para enviar tropas a la isla destinadas a devolver el poder al presidente haitiano Jean Bertrand Aristide después de que lo derrocara un golpe de Estado.

Clinton se enfrentó entonces a la opinión de buena parte de su propio partido y a la del responsable de la Junta de Jefes de Estado Mayor, el general Colin Powell, quien, “como muchos descendientes de las colonias británicas en el Caribe”, opinaba que Aristide era “un visionario aficionado al vudú”, y Haití, “un país turbulento de cultura francesa que debía gobernarse con mano dura”. Teniendo en cuenta que la última expedición estadounidense, la de 1915, había permanecido en la isla 20 años, el presidente tendría, según Powell, que escoger entre dos males: “Ocupar un caldero en ebullición por tiempo indefinido -quedar atrapados- o salir de allí y ver cómo el país volvía a su pasado autoritario”. Haití era, a unas millas de la costa de Florida, “el perdedor por excelencia”, pero el presidente Clinton, que había llegado a la Casa Blanca desde el palacio de gobernador de Arkansas, en Little Rock, recordó -con la ayuda de Branch, amigo de Aristide, y de su mala conciencia de sureño- la cuarentena a la que Estados Unidos había sometido a Haití para proteger la esclavitud en los Estados del Sur después de que, en tiempos de Napoleón, la revuelta de los esclavos pusiera patas arriba la que entonces era la colonia más rica de Francia, que en aquel tiempo producía el 40% del azúcar mundial.

Clinton, que dejó el poder con un superávit histórico y con la aprobación más alta en las encuestas de un presidente desde la Segunda Guerra Mundial, conocía sus dotes de seducción y no estaba acostumbrado a perder. Por eso le dolió embarrancar, igual que Obama, en una reforma sanitaria en la que se había volcado la propia Hillary. Por eso también le desconcertó chocar con un gigante que empezaba a despertar de su letargo: China. En un encuentro privado con Jiang Zemin, el líder chino le leyó un discurso sobre la gloriosa historia de su país y sobre la locura de tratar de influir en sus asuntos internos. El monólogo duraba tanto que Clinton interrumpió a su interlocutor para, usando frases directas y “todo el encanto” del que fue capaz, invitarle a hablar de algo tan concreto como prohibir la exportación de artículos fabricados por mano de obra cautiva.

Cuando el estadounidense terminó, el chino reanudó su discurso como si nada. Los funcionarios de protocolo habían además advertido a Clinton que nunca sonriera en presencia de Jiang para no dar la impresión de que insultaba a China con una familiaridad excesiva. El presidente vio neutralizado así lo que él mismo llamaba su “instinto” para tratar con sus homólogos, para superar las trincheras de la retórica y buscar algún vínculo personal que le permitiera crear un ambiente favorable.

En una ocasión, tras cenar con Borís Yeltsin y comprobar que el alcohol era “algo más que un problema pasajero” para el dirigente ruso, éste declaró a la prensa que le había gustado reunirse con el presidente de Estados Unidos, pero que “para pasárselo verdaderamente bien uno debe estar en presencia de una mujer hermosa”. Yeltsin es una pieza estelar en una colección en la que también tiene su sitio de honor Silvio Berlusconi, al que Clinton trató durante la primera etapa de éste como primer ministro italiano y del que le sorprendía la “ingenuidad” que le llevaba a preguntarse por qué la política no era tan sencilla como los negocios. “Pensaba que hasta Perot era más sofisticado que Berlusconi”, apunta Taylor Branch comparando a Il Cavaliere con el multimillonario tejano con fama de patán machista que ejerció de tercero en discordia entre Bush padre y Clinton cuando éste resultó elegido.

Para Clinton, el problema central del siglo XX se resumía en una pregunta: “¿Cómo sobrevivirá la libertad ante la presión que recibe en lugares en los que nunca se ha probado?”. Para él, Rusia era un problema para Rusia. De China le preocupaba la proyección de su poder hacia fuera. Según él, Jiang Zemin era muy consciente de que su dimensión gigantesca y su rápido crecimiento iban a convertir su economía en la mayor del mundo. Tan claro lo tenía que Clinton le reconoció la posibilidad de tener una cumbre muy diferente 50 años después en la que algún líder chino intentase convencer a un presidente estadounidense de que “reformara” su Constitución con arreglo a la de China.

El tercer presidente más joven en la historia de la vencedora de la guerra fría salió de la entrevista con su homólogo asiático con la idea de que para éste la democracia norteamericana no era más que un “accidente dudoso” en el calendario chino, no un hito en la historia mundial: “Mire”, le dijo Jiang, “está muy bien que ustedes tengan toda esa libertad y todo ese dinero, pero ¿qué hacen con ello? Tienen 33.000 homicidios por armas de fuego. Sus ciudades son inhabitables. Sus escuelas no funcionan. Consumen drogas desenfrenadamente y no pueden controlar a su población. ¿Quién puede decir que su libertad merece la pena a cambio de todo eso?”.

hasta aquella ducha fría china, Clinton consideraba que uno de los grandes fracasos de su presidencia había sido su incapacidad para levantar el embargo de armas a Bosnia durante la guerra de los Balcanes. De hecho, en la grabación de sus charlas con Taylor Branch critica con dureza el doble rasero de los países europeos, con Francia y el Reino Unido a la cabeza. En público justificaban su oposición a levantar ese embargo por motivos humanitarios, es decir, sosteniendo que aumentar el número de armas sólo serviría para aumentar el baño de sangre. En privado alegaban que una Bosnia independiente sería algo “antinatural”, el único país musulmán en Europa. Su único aliado era el canciller alemán Helmut Kohl, su mejor amigo entre los mandatarios extranjeros -”el viejo tío holandés” de Clinton, se llamaba a sí mismo- hasta que lo desbancó en el puesto el rey Hussein de Jordania. El problema era que Alemania no tenía asiento en el Consejo de Seguridad de la ONU, cuyo secretario general de entonces, Butros-Ghali, compartía la “sangre fría” de los dirigentes europeos, que, además, en las reuniones de la OTAN veían con recelo el apoyo sin reservas de Clinton a Javier Solana.

Pese a todo, en el exterior, su don de gentes le había sido de gran utilidad en sus visitas a los países del antiguo bloque soviético para no levantar demasiadas suspicacias en el Gobierno ruso (transformó el G-7 en G-8 para evitarle a Rusia la incomodidad de verse como una antigua potencia postergada), en su mediación entre israelíes y palestinos o entre católicos y protestantes en Irlanda del Norte. Durante su mandato, de hecho, se firmaron los acuerdos de Viernes Santo, que empezaron a desenredar la madeja norirlandesa. La comparación entre ese éxito y el fracaso en Oriente Próximo después del avance de Oslo llevaron a Clinton a elaborar una particular teoría sobre los procesos de paz. En su opinión, éstos se dividen en costras y abscesos. Una costra, decía, era una herida con una postilla protectora que podía sanar con el tiempo y unos cuidados sencillos. De hecho, si se tocaba demasiado se podía reabrir la herida y causar una infección. Un absceso, en cambio, empeoraba de forma inevitable si no se hacía una intervención dolorosa pero sanadora: “Oriente Próximo es un absceso. Irlanda del Norte es una costra”.

El servicio secreto llamaba a Clinton POTUS (President Of The United States) y así lo llamaba irónicamente también su esposa a veces. En enero de 1998, una bomba estalló entre ambos y puso a Clinton al borde de la destitución: la bomba se llamaba Monica Lewinsky, la becaria de 24 años que refutó la declaración en la que el presidente de Estados Unidos negaba haber mantenido relaciones sexuales con ella. El caso Lewinsky formaba parte de una lista de affaires en la que había otros nombres como los de Gennifer Flowers o Paula Jones. La diferencia es que ahora él vivía en la Casa Blanca. Después de negarlo todo durante meses, el 17 de agosto, Bill Clinton prestó declaración durante cuatro horas por videoconferencia ante el gran jurado: “He engañado a varias personas, incluida mi esposa. Me arrepiento profundamente”. Hillary estaba furiosa y le dijo a su marido que era él el que tenía que contárselo a su hija Chelsea.

Taylor Branch apunta que Clinton se quejó de que en el informe del fiscal se usaba la palabra sexo 500 veces: “El informe de Starr selló su humillación con voluminosos detalles de sus intercambios sexuales: los manoseos furtivos en el Despacho Oval, el vestido azul manchado de semen, el cigarro apagado dentro de la vagina”. El caso Lewinsky es tal vez el momento más delicado de la relación entre el historiador y su protagonista. “Con cautela le pregunté si quería hablar de Lewinski con las grabadoras en marcha”, recuerda Branch. “Dijo que sí. Las pruebas desplegadas ante el gran jurado eran especialmente parciales, porque no le habían permitido poner en tela de juicio ninguna de las acusaciones. Mencionó una afirmación de Lewinsky de que había comido con Hillary. No era verdad. Y otra de que en una ocasión había correteado desnuda por el Despacho Oval. No era verdad. También señaló que Starr había estado todo el año amenazando a Lewinsky con la cárcel por haber negado bajo juramento la relación. Si Clinton hubiera dicho cualquier cosa sobre la relación, Starr podría haberle convertido en testigo contra Lewinsky, con lo que habría traicionado el discreto silencio de ella. Estas sutilezas me parecieron originales, pero también tendenciosas. El presidente no alegó en ningún momento la caballerosidad como motivo real de sus constantes negativas, ni refutó que en lo esencial el relato de Lewinsky fuera cierto”.

Un mes después de su declaración, las confesiones de Clinton ante el gran jurado se hicieron públicas y fueron retransmitidas por todos los informativos y pantallas del mundo, incluido el monumental Jumbo Tron de Times Square, en Nueva York. En esa misma ciudad y a la misma hora, el presidente estadounidense era recibido con una ovación de la ONU puesta en pie. Semanas antes, dos atentados suicidas contra las embajadas norteamericanas de Kenia y Tanzania habían matado a 220 personas y herido a más de 4.000. Para Clinton, que había sido advertido por lo servicios de inteligencia de los posibles atentados, el responsable de aquellos ataques, Osaba Bin Laden, guardaba un inquietante parecido con los malos de las películas de James Bond. Así, “era una presencia internacional sin lealtad a ningún Gobierno, con una enorme fortuna personal y una red de agentes en numerosos países, incluido el nuestro”. Faltaban tres años para el 11-S y la apostilla de Taylor Branch también parece de película: “Todo esto me resultó completamente nuevo”. Poco después apagó la grabadora.

El libro ?as grabaciones de Clinton. Lidiando con la historia en compañía del presidente? (RBA) sale a la venta el próximo jueves, 18 de marzo.

A voz do anônimo

13 de março de 2010 9:01 pm

anonimo-e-um-babaca

Por Marcelo Rubens Paiva

Num espaço público, o anônimo vira estrela, se excede, confessa seu racismo, sexismo e todos os ismos empastelados pela modernidade: leitores que postam comentários em blogs e, através de emails falsos, não querem ser identificados.

É a praga que perturba a paz de muitos blogueiros.

Fui alertado sobre eles, quando comecei o blog há um ano. Já que eu não os deletava, pouco a pouco contaminaram o ambiente, jogaram a sua ira contra mim, o veículo, os temas postados.

Blogueiros mais experientes me aconselhavam a eliminá-los na simples operação deletar. Mas, filho de quem sou, um democrata radical, que seguia os princípios de Voltaire (“posso não concordar com o que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer”), aprovava os insultos, alimentava polêmicas, respondia à altura.

Quando comentei o fechamento da festa Gambiarra por um fiscal frequentador, a ira foi contra os boêmios, arruaceiros que desgraçam o sono do trabalhador comum. Um leitor me perguntou: “Já fumou a sua macoínha hoje?” Foi o primeiro a ser deletado.

Críticas sobre meus livros e ideias nunca me incomodaram. Mas descobri o direitista radical, que não pode se expor publicamente- pois no Brasil somos todos moderninhos e sem preconceitos- e despejava a sua raiva contra aqueles que combateram a ditadura.

Fruto das aposentadorias incabíveis, ou das opções políticas de ex-combatentes, como Zé Dirceu, Genoino e a gangue do mensalão, que causou um estrago incalculável para a história do País, manchando a imagem de milhares de vítimas.

Até um comentário me convencer a expurgar de vez para a lixeira o ódio e a intolerância. “A ditadura fez um trabalho pela metade, matou apenas o seu pai”, escreveu um anônimo.

Falar do regime militar divide opiniões. Descobrem-se pelos blogs os muitos desinformados e uma nova geração que confunde fatos, personagens e períodos.

Ao narrar histórias sobre o desaparecimento político do meu pai, li aberrações como: “Meu pai nunca fez nada, ficou tranquilo em casa e está vivo. O seu deve ter aprontado.”

Os debates sobre a Lei da Anistia geraram posturas radicais. Muitos disseram que militares não poderiam ser punidos por combater terroristas assassinos e ladrões de bancos. Até um amigo italiano, Luigi Ghermandi, revoltado, dar um ponto final à confusão: “Ninguém que se opõe a uma ditadura é terrorista, que fique claro”.

A ignorância encontrou a sua voz através do anonimato de comentários em blogs. Revela a triste constatação de como nossa história está mal contada.

Primera sentencia civil que declara legales las redes P2P de descargas

6:26 pm

p2p

Un juzgado mercantil de Barcelona desestima una demanda de la SGAE contra la web Elrincondejsus

Por RAMÓN MUÑOZ - Madrid

Las redes P2P (par a par) de intercambio de archivos que permiten descargas de música, películas y videojuegos son más legales que nunca. Esa es al menos la doctrina que se deriva de una sentencia del juzgado mercantil número 7 de Barcelona desestimando la demanda de la Sociedad General de Autores y Editores (SGAE) contra Jesús Guerra, al que acusaba de infringir a través de su página web Elrincondejesus la propiedad intelectual de obras musicales de su repertorio.

La sentencia no se limita a desestimar la demanda de la SGAE, a quien ha condenado a las costas, sino que entra en el fondo del asunto al afirmar que las webs de enlaces como la desarrollada por el demandado se limita a ofrecer la posibilidad de descarga a través de una red P2P pero “no supone ni distribución, ni reproducción, ni comunicación pública de las obras sujetas a propiedad intelectual, ya que es un mero índice que facilita la búsqueda en redes de intercambio de archivos P2P mediante el sistema de menús, carteles o portadas con títulos de películas u obras musicales”.

El fallo del juez Raúl N. García Orejudo es aún más rotundo e indica que “el sistema de enlaces constituye la base misma de Internet y multitud de páginas y buscadores (como Google) permiten técnicamente hacer aquello que precisamente se pretende prohibir en este procedimiento, que es enlazar a las redes P2P”.

La sentencia, calificada de “histórica” por el abogado del demandado, Carlos Sánchez Almeida, rebate así los argumentos de la SGAE que acusaba a Jesús Guerra, de infringir la Ley de Propiedad Intelectual por explotar obras sin tener los derechos para hacerlo, reproducirlas y hacer comunicación pública de ellas.

El juez advierte que en un proceso civil, para la tutela de los derechos de autor es imposible con el actual marco legislativo identificar a los particulares o usuarios de estas redes p2p a través de las operadoras de acceso a Internet y de su dirección IP (la matrícula de cada ordenador cuando accede a la Red), “para poder luego averiguar que obra o archivos son descargados, cuál es su procedencia y cómo se realiza la descarga por cada usuario en concreto”.

El fallo puede cambiar completamente la estrategia judicial contra las páginas de enlaces. Y es que se trata de la primera vez que por la vía civil, que sólo persigue una indemnización, se desestima completamente una demanda contra la vulneración de la LPI. De hecho, los dos únicos condenados hasta ahora en España por páginas de descargas -los responsables de las páginas Infopsp y SimonFilmsTV- lo fueron por la vía penal, y de conformidad entre las partes, es decir, que los demandados aceptaron una condena menor de prisión y una multa para evitar el juicio civil que les hubiera podido enfrentar a petición de indemnizaciones mayores.

Gran parte de los argumentos empleados por el juez de lo mercantil de Barcelona son los mismos que utilizó la Audiencia Provincial de Madrid para sobreseer el caso Sharemula, en la primera sentencia penal en firme que indicaba que enlazar a redes P2P no es delito. A diferencia de ese fallo, la sentencia del juzgado de Barcelona es recurrible.

El demandado Jesús Guerra es dueño de un bar en el polígono industrial de Caldas de Monbui (Barcelona) y creó la página web Elrincondejesus como hobby, para colgar enlaces de los programas P2P BitTorrent y eMule para descarga de películas y música. El juez reconoce en la sentencia que no había ningún ánimo de lucro, ni directo ni indirecto, porque el titular “no percibe cantidad alguna directa o indirectamente relacionada con el servicio que ofrece”, y no tenía publicidad.

No obstante, el panorama puede cambiar radicalmente en los próximos meses. El Gobierno prepara una completa modificación de la legislación, a través de la Ley de Economía Sostenible, por el que se podrán cerrar páginas web que alojen o faciliten sin permiso enlaces de archivos sujetos a derechos como películas, canciones y videojuegos. La Audiencia Nacional tendrá la última palabra para el cierre cautelar de las páginas.

“Una sentencia histórica”

La Asociación de Internautas (AI) ha calificado de “histórica” esta sentencia que reconoce no sólo la legalidad de las páginas de enlaces, sino que reafirma la legalidad de las propias redes de intercambio P2P. Para la asociación, esta sentencia “ha establecido un punto de partida para el futuro de Internet en España”. Es, en resumen, “una excelente noticia”, que “deja en solfa las pretensiones de criminalización de la ministra de Cultura y las entidades de gestión como la SGAE”.

El presidente de AI, Víctor Domingo, ha subrayado que el fallo supone “un nueva victoria de la libertad de expresión en Internet”, y el Gobierno “debería tomar buena nota”. “El Gobierno se gasta dos millones de euros en una campaña para criminalizar el P2P y crea la comisión antipiratería a través de la Ley de Economía Sostenible. Y mientras, los jueces declaran ilegal el cierre de las webs que persiguen las sociedades de gestión”, ha agregado Domingo.

Los internautas europeos se movilizan para salvar el P2P

La asociaciones de internautas esperan que el Parlamento Europeo se pronuncie contra las “enmiendas torpedo”

La Asociación de Internautas ha informado hoy de que varias organizaciones europeas de usuarios se están movilizando para que el Parlamento Europeo se pronuncie sobre las denominadas enmiendas torpedo, que contemplan medidas como la eliminación o reducción de la velocidad del P2P y la instalación y ejecución forzosa de software en los ordenadores para detectar supuestas infracciones de propiedad intelectual.

La aprobación de estas enmiendas también admitiría la cooperación entre los proveedores de Internet y los productores de contenidos para juzgar qué contenidos son legales y cuáles no, y la obligación de los proveedores de servicio, de controlar y, advertir por e-mail a los usuarios cuando se descarguen contenido ilícito.

Según explicó la asociación, a través de un comunicado, el Parlamento Europeo votará en la última semana de septiembre el paquete Telecom, y con él las enmiendas torpedo. La aprobación de éstas supone “el recorte de libertades civiles, la vigilancia y censura de los internautas “al estilo chino” y la suplantación de la Autoridad Judicial por parte de los intereses de empresas privadas”.

Los internautas aseguraron que lo ideal es reclamar a la Unión Europea el rechazo a dichas enmiendas y, al mismo tiempo, exigir un pronunciamiento claro a favor de la neutralidad de la Red, de que sólo los jueces puedan decidir sobre la legalidad de los contenidos y a favor de que sólo los jueces puedan decidir sobre la clausura de una web.

GRAFICO

Conoce cómo funcionan los sistemas de redes de transferencias de archivos en Internet:

Redes P2P

Lehman Brothers ocultou US$ 50 bi em crédito ruim

11:58 am

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Por Michael J. de la Merced e Andrew Ross Sorkin*

The New York Times

É o equivalente a um relatório de médico-legista - um documento de 2.200 páginas que mostra, com novos e chocantes detalhes, como o Lehman Brothers usou a prestidigitação contábil para ocultar os maus investimentos que o levariam à ruína.

O relatório, compilado por um examinador do banco falido, atingiu Wall Street como um soco, na quinta-feira. A companhia de 158 anos, ele concluiu, morreu de causas múltiplas. Entre elas estavam ativos hipotecários ruins e, menos diretamente, cobranças de dois rivais, o JP Morgan Chase e o Citigroup, para que o banco periclitante desse garantias para os empréstimos de que desesperadamente precisava.

Mas o examinador, Anton R. Valukas, também expôs, pela primeira vez, o que o relatório caracterizou de malabarismos contábeis “materialmente enganosos” que o Lehman usou para mascarar a condição perigosa de suas finanças.

A falência do banco, a maior da história americana, abalou o mundo financeiro. Os temores de que outros bancos pudessem desmoronar numa quebradeira geral levaram Washington a arranjar um salvamento abrangente do sistema financeiro.

Segundo o relatório, o Lehman usou o que não passou de uma engenharia financeira para tirar temporariamente US$ 50 bilhões de seus livros nos meses que antecederam o seu colapso, em setembro de 2008, para ocultar sua dependência de dinheiro emprestado. Executivos seniores do Lehman, além da auditora do banco, a Ernst & Young, sabiam das medidas, segundo Valukas, um sócio do escritório de advocacia Jenner & Block, que depositou o relatório em conexão com o caso da quebra do Lehman.

Richard S. Fuld Jr., o ex-presidente do Lehman, certificou as contas falsificadas, escreveu Valukas. “Sem o conhecimento do investidor, de agências de classificação de crédito, de reguladores do governo e do conselho diretor, o Lehman fez a engenharia inversa da relação de alavancagem líquida da empresa para consumo público”, escreveu Valukas. Fuld foi “pelo menos grosseiramente negligente”, declara o relatório.

Henry Paulson, o então secretário do Tesouro, advertiu Fuld de que o Lehman poderia falir se não estabilizasse suas finanças ou encontrasse um comprador. Executivos do Lehman se envolveram no que o relatório caracterizou de “manipulação de balanço acionável”, além de “erros não inculpáveis de julgamento econômico”.

O relatório não tira conclusões sobre se os executivos do Lehman violaram leis do mercado, mas sugere que existem evidências suficientes para potenciais ações civis. Executivos do Lehman já são réus em ações civis, mas não foram acusados de delitos criminosos.

O relatório surge mais de um ano e meio depois que a maior parte do Lehman foi vendida ao Barclays, que ocupa os antigos escritórios do Lehman em Manhattan. Grande parte do relatório de nove volumes está centrada nas manobras contábeis, conhecidas dentro do Lehman como “Repo 105″.

Usado pela primeira vez em 2001, muitos antes da crise, o Repo 105 envolveu transações que retiraram secretamente bilhões de dólares dos livros do Lehman, numa época em que o banco estava sob pesado escrutínio. Segundo Valukas, Fuld ordenou que executivos do Lehman reduzissem o endividamento do banco, e funcionários de alto escalão buscaram repetidamente aplicar o Repo 105 para melhorar o aspecto dos resultados. Outros executivos nomeados no relatório, em conexão com o uso da ferramenta contábil, incluíram três ex-diretores financeiros do Lehman: Christopher O”Meara, Erin Callan e Ian Lowitt.

Patricia Hynes, uma advogada de Fuld, disse, numa declaração por e-mail, que Fuld “não sabia o que eram essas transações - ele não as estruturou ou negociou nem estava ciente de seu tratamento contábil”.

Charles Perkins, um porta-voz da Ernst & Young, disse, numa declaração por e-mail: “Nossa última auditoria da companhia foi para o ano fiscal terminado em 30 de novembro de 2007. Nossa opinião indicou que as declarações financeiras do Lehman para aquele ano foram corretamente apresentadas, de acordo como os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos (Gaap, em inglês), e continuamos com essa opinião”.

Bryan Marsal, atual presidente executivo do Lehman, disse: “Acabamos de receber esse relatório volumoso e o apreciaremos cuidadosamente nas próximas semanas para avaliar como ele poderá nos ajudar em nossos esforços atuais para promover os interesses do credor”.

“Repos”, abreviação para acordos de recompra, são uma prática comum em Wall Street, representando empréstimos de curto prazo que por vezes propiciam financiamentos cruciais. Mas o Lehman usou uma contabilidade agressiva em suas transações Repo 105, que lhe permitiu tirar ativos problemáticos de seus livros para ajudá-lo a atingir metas de fim de trimestre.

Numa série de e-mails citados pelo examinador, um executivo do Lehman escreve sobre o Repo 105: “É basicamente camuflagem”. Outro responde: “Percebo… Então, é legalmente factível, mas não parece bom quando o fazemos? Será que o resto da Street o faz? Também é por isso que temos tanto BS (balanço) para Rates Europe.” O primeiro executivo retruca: “Sim, não e sim.”

Valukas escreve no relatório que “demandas plausíveis” poderiam ser feitas contra ex-executivos do Lehman e da Ernst & Young, significando que haviam evidências suficientes que poderiam levar à concessão de indenizações num julgamento. Ele acrescentou que diretores do Lehman não estavam cientes da engenharia contábil.

Com sua prestação de contas, o Lehman conseguiu “descartar” cerca de US$ 39 bilhões de seu balanço no fim do quarto trimestre de 2007, US$ 49 bilhões no primeiro trimestre de 2008 e US$ 50 bilhões no segundo trimestre. Na época, o Lehman tentava tranquilizar o público de que suas finanças estava bem… Apesar da pressão de vendedores a descoberto.

Executivos, entre os quais Herbert McDade, conhecido internamente como “o czar dos balanços”, parecia ter conhecimento de que o uso repetido do Repo 105 estava ocultando a saúde real do banco. “Estou ciente…É outra droga em que estamos metidos”, ele escreveu, num e-mail de abril de 2008 citado no relatório.

Em maio e junho de 2008, o vice-presidente sênior do Lehman, Matthew Lee, escreveu à administração sênior e à Ernst & Young indicando “impropriedades contábeis”. Nem executivos do Lehman nem a Ernst & Young alertaram o conselho de administração sobre as alegações de Lee, diz o relatório.

Fuld é descrito no relatório como tendo negado conhecimento das Repos 105, embora tenha lembrado de emitir várias diretrizes para reduzir o endividamento. McDade é reportado como dizendo a Fuld sobre o uso do Repo 105 para alcançar esse objetivo.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

*Os autores são jornalistas

“Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos”, diz Umberto Eco

11:50 am
Umberto Eco

Umberto Eco

Ensaísta e escritor italiano fala em entrevista exclusiva de seu novo trabalho, ‘Não Contem com o Fim do Livro’

Por Ubiratan Brasil

MILÃO - O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” - é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (”muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento - naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada - encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros - que, no momento, lideram sua preferência - como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos - caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco - que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) - exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco - envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) - conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar - muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa - é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias - de Paris a Nova York, por exemplo - sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória - que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos - até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto - o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil - o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas - por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você - afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances - até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Veja também:

video Veja fotos e ouça trecho da entrevista concedida por Umberto Eco

Bom final de semana!

1:11 am

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Glauco é homenageado pelo Polaco da Barreirinha

12 de março de 2010 8:06 pm

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Quando morre um cartunista
pra onde será que ele vai?
Existe um céu-dentista
que repõe o dente no sorriso que cai?

E quando o abatem a tiros
como a tigres, leões e elefantes?
Seriam troféus os motivos,
a pele, a juba, as presas elegantes?

Quando o coração fica suspenso
entre o medo e a impunidade,
perguntas e dúvidas perdidas no tempo
silenciam toda a humanidade.

Marta morta viverá do passado?
Geraldão é um caso encerrado?
O mundo virou casa de mãe joana
ou é só uma piada de gente insana?

Eu gostaria de rir e não posso;
respirar aliviado e não consigo.
No ar, há uma sarna e nem coçar eu coço.
Glauco levou todas as respostas consigo.

Antonio Thadeu Wojciechowski


Ver mais do Polaco da Barreirnha aqui, aqui e aqui.

Leitura para o final de semana

10:28 am

filosofia-01

ALVES, Alaôr Caffé, LAFER, Celso, GRAU, Eros Roberto, COMPARATO, Fábio Konder, TELLES JUNIOR, Goffredo da Silva Telles, FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. O que é a filosofia do direito? São Paulo: Manole, 2004.

“O que é a Filosofia do Direito?” é um texto didático e inovador, na medida em que enfrenta um dos grandes temas da Filosofia do Direito, com base na reunião de debates entre os mais significativos nomes da jusfilosofia nacional, e em, especial do Largo de São Francisco. Trazendo lições didaticamente expostas, o texto convida o leitor ao mergulho filosófico, iniciando e, ao mesmo tempo, aprofundando-o na dimensão do pensar especulativo.

Os grandes desafios temáticos da área da Filosofia do Direito são abordados em textos sucintos, polêmicos, e que apresentam visões distintas, às vezes complementares, às vezes antagônicas, que permitem ao leitor fixar-se nas diversas possíveis compreensões do fenômeno jurídico pensando de modo reflexivo. Não havendo similar editorial no mercado brasileiro, a obra vem dar alento à literatura brasileira, uma vez que se permite servir como um duplo ferramental: como iniciação jusfilosófica, para estudantes, esclarecendo acerca das metas e dos papéis da Filosofia do Direito, e como aprofundamento reflexivo, para interessados, debatendo visões acerca das metas e dos sentidos possíveis do Direito.

OS AUTORES:

Alaôr Caffé Alves
Professor associado do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Celso Lafer
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Eros Roberto Grau
Professor Titular do Departamento de Direito Econômico da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Fábio Konder Comparato
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Goffredo da Silva Telles Junior (in memoriam)
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Tercio Sampaio Ferraz Junior
Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da universidade de São Paulo.

Tristes trópicos

10:06 am

mirancartumbrasila

A decepção internacional com Lula

9:51 am

lula-bebum

Por Carlos Alberto Montaner*

Para Luiz Inácio Lula da Silva, os presos políticos cubanos são delinquentes como os piores criminosos encarcerados nas prisões do Brasil. Lula adotou, cruelmente, o ponto de vista de seu amigo Fidel Castro. Para ele, pedir eleições democráticas, emprestar livros proibidos e escrever em jornais estrangeiros - os “delitos” cometidos pelos 75 dissidentes presos em 2003, condenados a até 28 anos - equivale a matar, roubar ou sequestrar. Para Lula, Oscar Elías Biscet, um médico negro sentenciado a 25 anos por defender os direitos humanos e se opor ao aborto, é apenas um criminoso empedernido. Dentro de seu curioso código moral, é compreensível a morte do preso político Orlando Zapata ou a possível morte de Guillermo Fariñas, em greve de fome para pedir a libertação de 26 presos políticos doentes.

Os democratas cubanos não são os únicos decepcionados com o brasileiro. Na última etapa de seu governo, Lula está demolindo a boa imagem que desfrutou no começo. Recordo, há cerca de três anos, uma conversa que tive no Panamá com Jeb Bush, ex-governador da Flórida. Ele me disse que seu irmão George, então presidente dos EUA, tinha uma relação magnífica com Lula e estava convencido de que ele era um aliado leal. Isso me pareceu uma ingenuidade, mas não comentei a questão.

Alguns dias atrás, um ex-embaixador americano, que prefere o anonimato, me disse exatamente o contrário: “Todos nos equivocamos com Lula. Ele é um inimigo contumaz do Ocidente e, muito especialmente, dos EUA, embora trate de dissimulá-lo”. E, em seguida, com certa indignação, criticou a cumplicidade do Brasil com o Irã no tema das sanções pelo desenvolvimento de armas nucleares, o apoio permanente a Hugo Chávez e a irresponsabilidade com que manejou a crise de Honduras ao conceder asilo a Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa, violando as regras da diplomacia internacional.

Na realidade, o comportamento de Lula não é surpreendente. Em 1990, quando o Muro de Berlim foi derrubado, o líder do Partido dos Trabalhadores apressou-se em criar o Fórum de São Paulo com Fidel Castro para coordenar a colaboração entre as forças violentas e antidemocráticas da América Latina. Ali estavam as guerrilhas das Farc e do ELN na Colômbia, partidos comunistas de outros tantos países, a FSLN da Nicarágua e o FMLN de El Salvador. Enquanto o mundo livre celebrava o desaparecimento da União Soviética e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, Lula e Fidel recolhiam os escombros do marxismo violento para tratar de manter vigente o discurso político que conduziu a esse pesadelo, e estabeleciam uma cooperação internacional que substituísse a desvanecida liderança soviética na região.

No Brasil, sujeito a uma realidade política que não pôde modificar, Lula comporta-se como um democrata moderno e não se afastou substancialmente das diretrizes econômicas traçadas por Fernando Henrique Cardoso, mas no terreno internacional, onde afloram suas verdadeiras inclinações, sua conduta é a de um revolucionário terceiro-mundista dos anos 60.

De onde vem essa militância radical? A hipótese de um presidente latino-americano que o conhece bem, também decepcionado, aponta para sua ignorância: “Esse homem é de uma penosa fragilidade intelectual. Continua sendo um sindicalista preso à superstição da luta de classes. Não entende nenhum assunto complexo, carece de capacidade de fixar a atenção, tem lacunas culturais terríveis e por isso aceita a análise dos marxistas radicais que lhe explicaram a realidade como um combate entre bons e maus.” Sua frase final, dita com tristeza, foi lapidar: “Parecia que Lula, com sua simpatia e pelo bom momento que seu país atravessa, converteria o Brasil na grande potência latino-americana. Falso. Ele destruiu essa possibilidade ao se alinhar com os Castro, Chávez e Ahmadinejad. Nenhum país sério confia mais no Brasil“. Muito lamentável.

*Carlos Alberto Montaner é escritor cubano

“Os dirigentes da OAB se sentem mandatários da Nação”

9:19 am
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Desiludido com advocacia, Mariz critica proliferação de faculdades, excessiva preocupação com êxito pessoal e falta de porta-voz

Entrevista
Antonio Claudio Mariz de Oliveira: advogado criminalista

“A advocacia está desvalorizada e desrespeitada”, afirma Antonio Claudio Mariz de Oliveira, criminalista, advogado há 40 anos, ex-secretário de Justiça e da Segurança Pública. Ele está desencantado com os rumos da categoria. Avalia que a classe atravessa momento crítico, ameaçada até pelo descrédito junto à sociedade e a juízes, procuradores e delegados de polícia que, afirma, têm tratado com desprezo muitos de seus pares.

Mariz revela-se decepcionado com a atuação das entidades de sua classe. Aponta para a Ordem dos Advogados do Brasil, de tantas tradições e bandeiras. “Você ouve presidentes e ex-presidentes falando sobre a conjuntura mundial, sobre o Haiti, sobre a Venezuela, sobre o Rio São Francisco, sobre o MST e o FMI”, reprova. Ao Estado, o advogado fez longo desabafo.

Qual a causa da crise?

Desde a década de 70 houve proliferação indiscriminada de faculdades de Direito. As escolas se transformaram em instrumento do lucro fácil através da banalização do ensino que se tornou um mal, um fator decisivo de descrença, desvalorização, desrespeito da advocacia. O bacharel em direito passou a ser substituído pelo tecnocrata. Entramos na era do ter substituindo o ser. Não se valoriza mais o ser alguém, o ser culto, o ser honrado, o ser solidário. O advogado criminal é confundido com seu cliente. Então, seu papel é de duvidosa legitimidade.

O que mudou?

A advocacia está vivendo da glória e dos advogados do passado, embora tenhamos excelentes profissionais em atividade. Há hoje uma busca por causas que rendam facilmente ou rapidamente. Advogados, preocupados com o seu êxito pessoal, estão descurando um pouco do coletivo.

Como avalia o trabalho da OAB?

Há uma dificuldade enorme em assumir papel de porta voz dos interesses da advocacia. Parece que os dirigentes da Ordem, de um modo geral, se sentem meio que mandatários da Nação e passam até a discutir, a opinar a respeito de assuntos os mais variados, deixando de lado as questões mais singelas que para nós têm importância fundamental. Você ouve presidentes e ex-presidentes falando sobre a conjuntura mundial, sobre o Haiti, a Venezuela, o Rio São Francisco, o MST e o FMI. Todos se manifestam como se fossem estadistas. Mas eles não são estadistas, eles são presidentes da Ordem. Quero que se preocupem com a revalorização da advocacia.

Qual a solução?

Defendo uma cadeira de ética e prerrogativas nas faculdades. A indefinição e o desrespeito que marcam a composição das listas do quinto constitucional reservado à advocacia nos tribunais é um indicador dessa desmoralização. As listas são elaboradas por critérios exclusivamente políticos, deixando de lado as qualidades pessoais. O amigo do rei tem uma tendência maior a ser aquinhoado com seu nome na lista. Há uma gama enorme de estudantes e recém-formados que não têm ideia do nosso papel. Não sabem o que é exercer a missão sagrada de defender alguém, de carregar nos ombros a responsabilidade pelo patrimônio que é a liberdade.

A OAB virou um instrumento político?

Não vejo mais a Ordem empunhando bandeiras. Eu não vejo reação, isso me angustia. Não quero culpar A ou B, o recado não é dirigido a ninguém. Mas eu acho, e isso eu não perdoo, que aqueles que pretendem, e não são poucos, ingressar nos órgãos de classe para dar vazão a interesses e desejos outros, diversos daqueles ligados à advocacia, acho que esses devem receber o nosso repúdio. A OAB não é trampolim, instrumento de promoção pessoal. Ela precisa ser vista e tida como instrumento em prol da advocacia, da cidadania e da sociedade. Não para proveitos próprios.